A
insegurança estrutural da juventude brasileira
A
crescente incidência de sofrimento psíquico entre jovens brasileiros,
registrada pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo
IBGE com apoio dos ministérios da Saúde e da Educação, já não pode ser tratada
como um problema isolado ou passageiro. Ela expressa uma mudança mais profunda
na sociedade brasileira que resulta da perda de dinamismo econômico,
enfraquecimento das promessas de mobilidade social e a transformação das formas
de poder e de socialização.
Nesse
sentido, a ansiedade revelada em setor crescente da parcela juvenil da nova
sociedade de serviços, hiperconectada na era digital, deixa de ser vista apenas
como um problema individual ou psicológico. Ela passa a ser compreendida como
expressão social de um tempo histórico marcado pela incerteza. Desde os anos
1990, com a adoção de políticas neoliberais, o Brasil perdeu dinamismo
econômico, sofreu a desindustrialização, aprisionou-se na financeirização e
fragilizou os mecanismos de ascensão social. O resultado tem sido a formação de
nova geração cuja subjetividade é atravessada pela instabilidade.
Em um
país historicamente desigual, esse processo agravou a sensação de bloqueio
social. Embora mais escolarizada do que as gerações anteriores, grande parte da
juventude passou a encontrar um mundo do trabalho mais precário, instável e
fragmentado. A educação continuou sendo apresentada como caminho de ascensão,
mas a correspondência entre esforço e recompensa se enfraqueceu.
Durante
o período de industrialização de elevada expansão econômica ocorrida entre as
décadas de 1930 e 1980, predominou, apesar das desigualdades, a percepção de
que o tempo trabalhava a favor da melhora de vida. Escola, emprego e
urbanização apontavam, ainda que de modo desigual, para alguma perspectiva de
avanço socieconômico. A partir dos anos 1990, contudo, essa narrativa foi sendo
corroída. Em seu lugar, consolidou-se uma sociedade de serviços hiperconectada,
porém incapaz de garantir inclusão ampla, segurança e horizonte estável.
É nesse
contexto que os dados recentes da PeNSE ganham maior significado. O aumento da
tristeza, solidão, ansiedade, exposição à violência e experiências de abuso não
deve ser lido apenas como questão sanitária ou psicológica. Esses indicadores
expressam uma época em que o futuro perdeu força como promessa coletiva. O
horizonte de expectativas superiores se estreitou.
O
mal-estar que emerge desse processo não aparece, ao menos por enquanto, como
revolta organizada. Ele surge de forma mais difusa, íntima e silenciosa. A
juventude brasileira não está apenas ansiosa. Ela percebe, muitas vezes de
forma sensível e imediata, que o modelo social que antes prometia alguma
melhora deixou de funcionar. A insegurança não decorre apenas do excesso de
estímulos digitais, mas também da falta de perspectivas concretas.
A
hiperconectividade faz parte desse problema, mas não o explica sozinha. Ao sair
das telas de celulares e redes sociais, muitos jovens encontram um mundo que
pouco os acolhe. A ansiedade não nasce apenas da conexão permanente, mas da
experiência cotidiana de escassez de oportunidades, de fragilidade dos vínculos
e de bloqueio do futuro.
Nesse
quadro, o neoliberalismo produz mais do que políticas econômicas, pois gera uma
forma de experiência social. Ele dissemina a sensação de que não há
alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são
coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem
que poucas portas realmente se abrem. O resultado é uma geração marcada pela
incerteza estrutural.
Mais do
que uma “geração ansiosa”, trata-se de uma geração formada sob o signo da
insegurança. A ansiedade, nesse caso, não é uma anomalia isolada, mas um
sintoma de um modelo de desenvolvimento que perdeu a sua maior capacidade de
inclusão. Ainda assim, esse sofrimento costuma ser interpretado como falha
individual. Ao jovem que não consegue “dar certo”, resta a exigência de se
reinventar continuamente como empreendedor de si mesmo.
Com
isso, a pressão não desaparece. Ela apenas se internaliza. O peso de uma
estrutura social instável é carregado no próprio corpo e na própria mente. A
frustração deixa de ser episódica e se torna estrutural. Muitos jovens fizeram
o que lhes foi pedido, estudaram, buscaram qualificação e adaptaram-se às novas
exigências. Ainda assim, encontram-se à margem de um projeto real de futuro.
É nesse
ponto que a questão ganha dimensão política. O que está em formação não é
apenas uma geração frustrada, mas um novo sujeito social, ainda fragmentado,
instável e sem linguagem política clara. Trata-se de uma experiência comum de
insegurança, bloqueio e perda de sentido, que ainda não se traduziu plenamente
em organização coletiva.
Esse
sujeito, por enquanto, sente antes de formular. A ansiedade pode ser entendida,
nesse sentido, como uma de suas primeiras formas de expressão. Ela ainda não
aparece como programa político ou ação organizada, mas revela algo importante
como a percepção difusa de que o jogo social mudou profundamente.
O risco
é evidente. Esse mal-estar pode ser capturado por soluções individualizantes,
por discursos de autoajuda ou por promessas de simples adaptação a uma
realidade injusta. Também pode ser absorvido por formas regressivas de
pertencimento, que oferecem identidade sem projeto coletivo. Mas existe outra
possibilidade, ainda aberta: a de que essa ansiedade contenha o início de uma
nova consciência histórica.
Não se
trata, necessariamente, de uma consciência de classe nos moldes tradicionais.
Trata-se, antes, de uma sensibilidade compartilhada diante de um mundo que
deixou de oferecer sentido e direção. Algo que ainda não se organiza claramente
em partidos, sindicatos ou movimentos duradouros, mas que circula em afetos,
frustrações e percepções comuns de injustiça.
Se for
assim, os dados da PeNSE deixam de ser apenas um alerta de saúde pública. Eles
passam a registrar estatisticamente uma mutação social em curso. O Brasil pode
estar diante de uma geração que já não acredita no futuro como promessa
garantida, mas que, justamente por isso, talvez venha a recolocá-lo como
problema político. Nesse caso, a ansiedade não seria o fim da história. Poderia
ser justamente o começo de outra.
Fonte:
Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras

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