Carlos
Ocké: O desafio estratégico do PT
Convém
iniciar distinguindo dois planos os quais frequentemente se misturam no debate
público: o plano institucional e o plano da luta de classes.
Não que
o primeiro seja irrelevante – longe disto – mas ele não se esgota em si mesmo:
o institucional não é a totalidade, mas apenas uma de suas expressões – e, como
tal, comporta determinações que o ultrapassam.
Diante
de um dramático “equilíbrio catastrófico”, a disputa que aparece na eleição
presidencial representa essencialmente a luta entre duas visões de mundo
antagônicas – o projeto democrático e popular versus o projeto fascista e
neoliberal – com consequências significativas sobre o futuro do país.
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As eleições presidenciais de 2026
Desde
1989, a crise internacional nunca jogou papel tão determinante nas eleições
presidenciais como agora. Além de suas consequências econômicas, no contexto da
guerra de longa duração contra a China, Donald Trump e as big techs querem
subordinar a todo custo a América Latina aos seus interesses geopolíticos por
meio de instrumentos militares, financeiros, comerciais e políticos.
No
Brasil, ele conta com o apoio do campo bolsonarista, que responderá à crise do
neoliberalismo com seu aprofundamento: subordinação ao imperialismo
norte-americano, ataque às instituições democráticas, centralidade do capital
financeiro e da austeridade fiscal, supressão dos direitos sociais e
esmagamento da luta das classes trabalhadoras.
Do
outro lado, resiste a possibilidade histórica de afirmação do projeto
democrático e popular. Dirigido hoje pelo PT no Estado, mais como aspiração do
que como vontade consciente, dada uma correlação de forças desafiadora, não
conseguiu ainda ampliar as bases sociais, políticas e ideológicas, que
sustentariam sua própria legitimidade.
Fica
claro assim que uma nova vitória de Lula exigirá a construção de uma base
social organizada e mobilizada, bem como uma estratégia de longo prazo, que
tensione os limites estabelecidos, superando ao menos o cerco construído pelos
fascistas e neoliberais, desde o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma
Rousseff.
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O horizonte das reformas estruturais
A
experiência recente do país é, nesse sentido, ilustrativa. Ela evidencia as
fragilidades de um “reformismo fraco”, que atua tão somente nos contornos
estabelecidos pelo neoliberalismo, sem tensionar seus fundamentos. Em vez de
estabilizar conflitos, tais processos podem abrir espaço para retrocessos.
Uma
lição importante a ser tirada é a seguinte: sem horizonte estratégico, certas
mediações operadas dentro dos marcos existentes podem agir de forma mais
adaptativa do que transformadora (“hegemonia às avessas”).
A
superação dessa práxis não implica recusar o reformismo. O que se coloca é a
necessidade de redefinir seu caráter, de pensar – dialeticamente – um
reformismo que não se limite à adaptação, mas que, mediado pela correlação de
forças, viabilize a cada instante o processo de construção da hegemonia
democrática e popular em sentido socialista.
É
verdade que reformas de maior alcance dificilmente emergem de consensos sem
conflito: tendem a depender da ascensão do movimento de massas, da unidade do
campo democrático e popular e da contestação permanente dos privilégios das
classes dominantes.
Sem
isso, o risco é que a própria ideia de reforma se reduza à gestão do possível –
isto é, à administração das restrições estruturais persistentes, herança de um
passado colonial escravista e de um capitalismo subdesenvolvido, dependente e
autocrático.
Dado o
quadro eleitoral brasileiro, Lula teria melhores condições de disputa na
campanha apresentando um programa mínimo?
Considerando
o cenário de polarização contra os fascistas e os neoliberais é um erro
estratégico não atrair setores do centrismo. Além do mais, para avançar em
direção às reformas estruturais defendidas pelo PT, é decisivo acumular forças,
em um cenário de tensões e contradições crescentes na sociedade brasileira.
Não se
trata de fazer uma concessão ao pragmatismo, mas é fundamental ganhar as
eleições para consolidar a hegemonia democrático e popular dentro do Estado,
criando meios e elos para viabilizar mudanças sociais mais profundas.
Daí a
justeza de defender pela esquerda um programa mínimo que seja, ao mesmo tempo,
mediado, viável e ousado para vencer o bolsonarismo e bloquear o condomínio
golpista: (i) mediado, dada a correlação de forças atual e dada a ampla
coalizão que gira em torno de Lula e do PT; (ii) viável, dada a urgência de
melhorar as condições concretas de vida das classes populares e médias, como a
proposta pelo fim da jornada 6×1, especialmente da juventude das periferias;
(iii) ousado, dada sua natureza democrática e popular, pressupondo o reformismo
petista.
A
defesa da paz, da integração latino-americana, da soberania nacional, do
desenvolvimento econômico sustentável, do fortalecimento do Estado e do mercado
interno, da reindustrialização e da inovação tecnológica, da redução das
desigualdades – tudo isso deve compor o programa.
Em
tempos de incertezas radicais não há garantias quanto ao êxito da aplicação
deste programa, mas as contradições da crise abrem igualmente possibilidades,
que podem mesmo permitir ao campo democrático e popular acelerar o passo ou dar
“saltos” na sua implementação.
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O desafio estratégico do PT
O
desafio do PT não é escolher entre ruptura ou imobilismo, mas, caso ganhemos as
eleições, o caminho é construir um projeto de desenvolvimento nacional para
transformar o país, constituindo uma base social de apoio para alterar a
correlação de forças. Sem isso, o partido tende a repetir ciclos de avanços
restritos seguidos de bloqueios estruturais.
Superar
esse impasse por meio de um projeto desenvolvimentista exige uma estratégia de
longo prazo baseada em três eixos: articulação entre mobilização social e
disputa institucional; afirmação de um projeto reformista pela esquerda; e a
constituição de uma ampla força política e ideológica duradoura. Sem essas
precondições serão menores as possibilidades de encaminhar as reformas
estruturais.
Trazendo
esse quadro a “valor presente”, é problemático manter hoje uma postura
defensiva diante da oposição bolsonarista, especialmente em um contexto
internacional de grandes transformações – marcado por guerras, disputas
geopolíticas, mudanças produtivas e tecnológicas, crise ambiental – que
anunciam a morte da globalização neoliberal.
O
advento de um mundo multipolar, assim como a consolidação dos BRICS e a
diversificação das alianças internacionais, abre, sem dúvida, a possibilidade
de retomada desse projeto desenvolvimentista. Mas essa perspectiva permanece
apenas como tal se for posta em movimento por um programa democrático-popular
que recoloque em termos efetivos, a questão nacional e da soberania – não como
enunciado abstrato, mas como capacidade real de decisão e dissuasão.
Pois é
precisamente essa capacidade que o imperialismo norte-americano tende a negar,
seja influenciando as eleições presidenciais para nos derrotar, seja, no
limite, aplicando a força militar como vimos na Venezuela e no Irã, ameaçando
com o poder das armas a soberania da nação e do povo brasileiro.
• É hora de Lula começar a desenhar o
futuro. Por Luís Nassif
Há um
quadro complexo pela frente. A permanência da Selic em níveis elevados criou
uma situação insustentável de endividamento de famílias e de empresas. No caso
das famílias, o problema foi agravado pela epidemia de bets e pelas armadilhas
do crédito fácil.
A
guerra do Irã vai piorar a situação. De um lado, provocando aumento nos preços
dos combustíveis e dos alimentos. De outro, pressionando o Copom a manter a
Selic nos patamares atuais.
Ou
seja, o segundo semestre, em pleno processo eleitoral, será difícil. Ainda mais
com a mídia difundindo a imagem do “Flávio” amor e paz, e não acordando para os
riscos flagrantes para a democracia brasileira, embutidos em sua candidatura.
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É tão
irracional esse exercício prematuro de antilulismo, que abre espaço para
conjecturas. O que a mídia pretende? Viabilizar uma terceira via, como o
governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite? E quando Lula e
Flávio-Paz-e-Amor forem para o 2º turno, como ficará a posição da mídia?
A
polarização não é mais entre esquerda-direita, entre lulistas-bolsonaristas. É
entre democracia e anarquia, civilização e barbárie. Ou alguém minimamente
racional tem alguma dúvida sobre o que será o Brasil, em caso de vitória de
Flávio Bolsonaro?
Ontem,
nos Estados Unidos, Flávio desenvolveu um discurso plenamente alinhado com o
Maga, o mais ostensivo discurso entreguista da história. Houve um pedido
explícito de atenção internacional ao Brasil, menções a monitoramento externo e
pressão diplomática e de entrega de terras raras, sem nenhuma contrapartida.
Aliás, o mesmo fez Ronaldo Caiado, o inacreditável governador de Goiás,
oferecendo as terras raras do Estado — atribuição que não cabe a nenhum
governador estadual.
O
discurso foi totalmente ajustado ao ambiente da CPAC, com aproximação com o
trumpismo, defesa de valores da “civilização ocidental” e retórica
anti-esquerda global. Um ponto indicativo do seu discurso de campanha foi
apresentar o Brasil como parceiro estratégico dos EUA e potencial fornecedor de
recursos e oportunidades. Em versões do discurso, chegou a dizer que o Brasil
pode ser “solução” para a América. Assim como a última campanha de Milei, este
será um mote de campanha: se Lula for eleito, EUA serão uma ameaça; com Flávio,
serão uma oportunidade.
Seja
qual for a retórica, o fato insofismável é que, antes do Maga, Flávio é um
representante autêntico das milícias cariocas. Mantinha relações diretas com
Adriano da Nóbrega, o chefe do escritório do crime. O Supremo Tribunal Federal
já o livrou do crime das rachadinhas. Mas há uma montanha de indícios de
lavagem de dinheiro que jamais mereceram a atenção da Procuradoria Geral da
República.
É esse
o nível de presidente que a Globo quer, que o Estadão aceita, que a Folha
promove? O antilulismo tornou-se uma epidemia mortal, que ainda vai promover a
destruição do país.
Por sua
vez, para enfrentar essa frente complexa, cuja formação atual é de
igrejas-Faria Lima-mídia-organizações criminosas que pululam em torno do
bolsonarismo, Lula não pode se valer apenas do anti-bolsonarismo.
Tem que
apresentar uma marca, não para o terceiro governo, que está no fim, mas para um
eventual quarto governo. Uma promessa de futuro melhor, um plano de metas, um
projeto de país. Precisa devolver o otimismo que marcou o país no final do seu
segundo governo, quase similar ao de JK.
É hora
de começar a desenhar o futuro, para não soçobrarmos como civilização e como
nação.
Fonte: A Terra é Redonda/Jornal GGN

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