quinta-feira, 2 de abril de 2026

Marcelo Zero: Eleições brasileiras em 2026 — Lula x Trump

As eleições presidenciais de 2026 no Brasil serão disputadas basicamente por dois candidatos: Lula e Trump.

Trump?

Sim, Trump.

Ou, melhor dizendo, o candidato brasileiro que representará os interesses de Donald Trump, das Big Techs estadunidenses e da extrema direita dos EUA.

Tudo indica que esse candidato será Flávio Bolsonaro. Mas isso é irrelevante. Poderia ser outro da direita brasileira. A natureza da candidatura não mudaria.

Não é exagero.

Como todos sabem, a diretriz principal da nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump preconiza, como essencial para a segurança dos EUA, a aplicação estrita do “direito” inconteste estadunidense de controlar diretamente, pela força e por quaisquer meios necessários, a América Latina, o Caribe, além do próprio Canadá e da Groenlândia.

Trata-se de um aggiornamento geopolítico da antiga Doutrina Monroe, de 1823, e, mais precisamente, do seu corolário, tal como expressado originalmente pelo presidente Theodore Roosevelt, em 1904, e, agora, de novo, por Donald Trump.

O nosso “Hemisfério” voltou a ser encarado como zona de influência exclusiva dos EUA. Um “quintal” que tem de estar inteiramente à disposição dos interesses de Washington e da extrema-direita estadunidense.

Nessa visão neocolonial, não há espaço para autonomia geopolítica dos países, ainda que relativa.

É imprescindível que os governos da região sejam submissos e inteiramente alinhados às necessidades e interesses do Império trumpista, com sua nova e implacável hegemonia predatória, ou mafiosa, como prefiro definir.

Para atingir essa finalidade, além da pressão política, comercial e econômica direta, as Big Techs estadunidenses, com seu amplo domínio da internet e das redes sociais desreguladas ou mal reguladas, desempenham papel muito relevante.

Especialmente em períodos eleitorais, elas são muito úteis e eficazes, com seu uso abusivo e extenso da inteligência artificial, para desgastar governos “não cooperativos” e promover as candidaturas de prepostos do Império. O Brasil, nesse ponto, está muito desprotegido e tem grandes lacunas jurídicas que podem ser agilmente exploradas.

Tal estratégia imperial já obteve êxito em El Salvador, no Equador, no Peru, no Paraguai, no Panamá, na Argentina, no Chile e na própria Venezuela, que sofreu uma breve, mas brutal intervenção militar.

Não obstante, para que a estratégia da hegemonia absoluta dos EUA sobre o “Hemisfério” funcione a contento, é imprescindível que o Brasil, o grande país da América Latina, também tenha um governo submisso a Trump e ao MAGA.

Um governo como o de Jair Bolsonaro, que foi eleito com grande apoio da extrema-direita estadunidense, e que fazia questão de bater continência à bandeira dos EUA e de manifestar patéticas e vergonhosas declarações de amor a Trump.

O bolsonarismo, lembre-se, é parte da extrema-direita liderada por Trump. Todos se recordam, notadamente na época do chanceler pré-iluminista, Ernesto Araújo, que praticávamos uma política externa que ensaiava uma perigosa ruptura com a ordem mundial multilateralista e suas instituições. Algo que, inclusive, retardou a compra de vacinas durante a pandemia e dificultou uma franca cooperação com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Chegou-se mesmo a se afirmar que a condição de “pária internacional” do Brasil da época era algo desejável, condição da qual deveríamos nos orgulhar.

Pois bem, um governo de Flávio Bolsonaro seria uma repetição piorada daquele governo. Piorada porque hoje as demandas e exigências de submissão do Império são mais rígidas e amplas, como todos podem observar mundo afora. Trump, em seu terceiro governo, exige submissão; não simples cooperação. Quer bajuladores caninos. Não se contenta com meros aliados. Exige vassalos servis.

Quer acesso irrestrito e exclusivo aos recursos naturais de outros países. Quer até mesmo se apropriar de territórios de nações aliadas. Ou incorporar países inteiros, como o Canadá. Exige tarifas de proteção altíssimas para proteger o mercado interno dos EUA, ao mesmo tempo que impõe abertura dos mercados dos outros países para produtos Made in USA.

Jogou fora todas as regras que os próprios EUA criaram para controlar o planeta e pôs no lugar uma distópica anomia hobbesiana, baseada no uso exclusivo da força. Corroeu o multilateralismo e todas as suas instituições e “bilateralizou” as relações internacionais, impondo “negociações” fortemente assimétricas com outras nações, especialmente com as mais fracas e desprotegidas.

Vê as relações entre os países como um jogo de soma zero. Para que os EUA ganhem, é preciso que os outros, inclusive os antigos aliados, percam. Simples assim. A lógica tosca e primitiva de um representante das máfias imobiliárias de Nova Iorque se estendeu ao planeta.

Por isso, quer um “Hemisfério” sem a presença de “rivais”, como China e Rússia.

O bolsonarismo e a família Bolsonaro estão em inteira sintonia com essa proposta distópica, que agride fortemente nossa democracia e nossa soberania.

Eduardo Bolsonaro se esforçou para que Trump impusesse sanções comerciais contra o Brasil, sua economia, seus empregos.

Agora, Flávio Bolsonaro, em demonstração explícita e pública de servilismo, foi aos EUA pedir “pressão diplomática” para que as eleições brasileiras se façam dentro dos “valores americanos”, isto é, deixando as Big Techs atuarem livremente, sem limites jurídicos ou éticos, de modo a favorecê-lo. Também prometeu acesso irrestrito às nossas reservas de minerais críticos.

Ao que parece, já colocou o Brasil à venda. E não são apenas os recursos naturais. Colocou no leilão geopolítico também nossa democracia, nossa soberania, nossos valores.

Fará, evidentemente, o que Trump exigir.

Trump exigirá, sem dúvida, que o Brasil se afaste da China, da Rússia e de outros parceiros não alinhados com os EUA. Provavelmente, demandará que o Brasil abandone o BRICS. Deverá exigir que o Brasil e o Mercosul concedam aos EUA a mesma abertura de mercado que foi concedida à União Europeia. Só que sem contrapartidas efetivas dos EUA. Demandará também o desinvestimento na integração regional.

Não sabemos ao certo o que mais poderia vir. Porém, é seguro que a conta geopolítica e geoeconômica será muito alta. Alta o bastante para nos inviabilizar como país soberano e democrático. Elevada o suficiente para nos converter, na prática, em uma espécie de protetorado. Um grande Porto Rico.

E o pior é que a grande imprensa e boa parte das nossas oligarquias estão embarcando nessa aposta.

Uma aposta que as destruirá. Que nos destruirá.

•        Afinal, a candidatura de Flávio Bolsonaro é a candidatura do “America First, Brazil Last”.

Não tem estratégia alguma para o Brasil. Sua estratégia é simplesmente “seguir o líder”.

É um simples preposto de Trump e do MAGA. Um vácuo de patriotismo e de ideias próprias e viáveis.

O verdadeiro candidato desse campo obsoleto, arcaico, inviável e distópico é o próprio Trump. Candidato a Imperador do Brasil e do “Hemisfério”.

O único candidato a presidente do Brasil, do Brasil soberano e democrático, do Brasil em primeiro lugar, é outro.

Chama-se Lula. E só bate continência para a bandeira do Brasil.

•        Não cobre democracia de quem se formou na ditadura. Por Luís Nassif

RIF, ou Relatório de Inteligência Financeira. É um documento produzido pelo COAF que reúne movimentações financeiras suspeitas de pessoas físicas ou jurídicas.

Nos últimos episódios, a Polícia Federal, do delegado Andrei Rodrigues, em cumplicidade com o Ministro André Mendonça, usou os RIFs de maneira imprópria, atropelando direitos individuais.

O primeiro caso foi a quebra do sigilo bancário e fiscal de Fábio Luiz Lula da Silva. Além de uma quebra indevida, por não haver nenhuma evidência de ligação dele com os crimes do Master, vazou-se imediatamente uma informação manipulada: o valor da movimentação da conta por 4 anos. Movimentação mede depósitos, saques, mudança de contas, remuneração diária. Mas a PF do delegado Andrei preferiu divulgar a movimentação,  por ser um número mais tonitruante.

Depois, ocorreu o mesmo com o RIF de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e que a mídia insiste em tratar como herdeira de banqueiros do Credit Suisse.

Ou seja, atropelou-se de maneira indecente o devido processo legal. E, por ser contra o que consideram adversários políticos, os jornalões usaram as informações e não denunciaram os abusos.

Aí vem uma decisão do Ministro Alexandre de Moraes, totalmente em linha com direitos individuais.

– os RIFs do Coaf só podem ser solicitados e produzidos quando houver procedimento formalmente instaurado (inquérito, procedimento investigatório criminal, processo administrativo ou sancionatório);

– o pedido de RIF deve identificar claramente o investigado ou sujeito potencialmente sancionável e a pertinência temática estrita entre o relatório e o objeto da apuração;

– ficam vedados pedidos genéricos, “fishing expedition” ou devassas patrimoniais; o uso de RIFs com fins de “pressão, constrangimento ou extorsão” é considerado desvirtuamento grave e violação da intimidade financeira e da autodeterminação informacional;

– a decisão tem efeito geral e retroage, ou seja, exige que os mesmos critérios sejam observados em investigações já em curso, inclusive CPIs e processos em demais instâncias.

“Fishing expedition” é a busca genérica por provas, sem pertinência direta com o objeto da apuração.

É o carimbo exposto para todo tipo de chantagem ou jogada política.

Como a mídia trata essas medidas:

Estadão – a visão autoritária típica menosprezar à democracia, com Carlos Andreazza afirmando que “STF colocou em curso uma cruzada para limitar o direito do Parlamento a investigar”

Globo: uma reportagem técnica e bem elaborada de PatrikCamporez: “Moraes afirmou que o uso irregular dos relatórios compromete direitos fundamentais e pode levar à nulidade das provas obtidas, inclusive em casos já em andamento, caso não sejam observadas as exigências estabelecidas.

“A ausência da estrita observância dos requisitos previstos na presente decisão afasta a legitimidade constitucional do uso das informações e dos relatórios de inteligência financeira (RIFs), inclusive em relação àqueles já fornecidos e juntados às investigações e processos, e constitui ilicitude da prova produzida, bem como de todas dela diretamente derivadas, nos termos do artigo 5º, inciso LVI da Constituição Federal; sendo, portanto, inadmissível”, diz o ministro.

Ao justificar a medida, Moraes apontou a existência de “grave desvirtuamento” no uso dos RIFs, com relatos de utilização dos dados para investigações informais, sem controle adequado, e até para constrangimento de alvos”.

Vamos a uma questão atual.

Sicário, o responsável pelas operações de comprar jornalistas, morreu em instalações da Polícia Federal, em circunstâncias até agora não esclarecidas.

Suponha que um deputado ouve que o Poder 360 recebeu R$ 3 milhões do Master. Alguma prova? Nenhuma. Apenas rumores.

Pelo padrão Andreazza, bastaria para que ele solicitasse ao COAF a quebra do sigilo fiscal e bancário do jornal e seus controladores.

E se algum deputado quisesse saber o que ocorreu com o inquérito do Ministério Público Federal que escondeu a operação de suborno na compra de direitos esportivos pela Globo? O inquérito parou em um lugar qualquer do Rio de Janeiro. Mas, de acordo com Andreazza, nada impediria um parlamentar qualquer solicitar a quebra do sigilo fiscal e bancário da Globo.

Sem contar as pessoas físicas. O trabalho de colunistas de O Globo despertou críticas de vários setores de esquerda. Pela lógica de Andreazza, qualquer deputado poderia pedir a quebra do sigilo bancário e fiscal e fazer a mesma manipulação que a PF fez com as contas de Fabio Luiz.

O problema dessas análises enviesadas, é que provêm de cabeças endurecidas como pão amanhecido, por anos de convivência e defesa da ditadura.

 

Fonte: Viomundo/Jornal GGN

 

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