Marcelo
Zero: Eleições brasileiras em 2026 — Lula x Trump
As
eleições presidenciais de 2026 no Brasil serão disputadas basicamente por dois
candidatos: Lula e Trump.
Trump?
Sim,
Trump.
Ou,
melhor dizendo, o candidato brasileiro que representará os interesses de Donald
Trump, das Big Techs estadunidenses e da extrema direita dos EUA.
Tudo
indica que esse candidato será Flávio Bolsonaro. Mas isso é irrelevante.
Poderia ser outro da direita brasileira. A natureza da candidatura não mudaria.
Não é
exagero.
Como
todos sabem, a diretriz principal da nova Estratégia de Segurança Nacional de
Trump preconiza, como essencial para a segurança dos EUA, a aplicação estrita
do “direito” inconteste estadunidense de controlar diretamente, pela força e
por quaisquer meios necessários, a América Latina, o Caribe, além do próprio
Canadá e da Groenlândia.
Trata-se
de um aggiornamento geopolítico da antiga Doutrina Monroe, de 1823, e, mais
precisamente, do seu corolário, tal como expressado originalmente pelo
presidente Theodore Roosevelt, em 1904, e, agora, de novo, por Donald Trump.
O nosso
“Hemisfério” voltou a ser encarado como zona de influência exclusiva dos EUA.
Um “quintal” que tem de estar inteiramente à disposição dos interesses de
Washington e da extrema-direita estadunidense.
Nessa
visão neocolonial, não há espaço para autonomia geopolítica dos países, ainda
que relativa.
É
imprescindível que os governos da região sejam submissos e inteiramente
alinhados às necessidades e interesses do Império trumpista, com sua nova e
implacável hegemonia predatória, ou mafiosa, como prefiro definir.
Para
atingir essa finalidade, além da pressão política, comercial e econômica
direta, as Big Techs estadunidenses, com seu amplo domínio da internet e das
redes sociais desreguladas ou mal reguladas, desempenham papel muito relevante.
Especialmente
em períodos eleitorais, elas são muito úteis e eficazes, com seu uso abusivo e
extenso da inteligência artificial, para desgastar governos “não cooperativos”
e promover as candidaturas de prepostos do Império. O Brasil, nesse ponto, está
muito desprotegido e tem grandes lacunas jurídicas que podem ser agilmente
exploradas.
Tal
estratégia imperial já obteve êxito em El Salvador, no Equador, no Peru, no
Paraguai, no Panamá, na Argentina, no Chile e na própria Venezuela, que sofreu
uma breve, mas brutal intervenção militar.
Não
obstante, para que a estratégia da hegemonia absoluta dos EUA sobre o
“Hemisfério” funcione a contento, é imprescindível que o Brasil, o grande país
da América Latina, também tenha um governo submisso a Trump e ao MAGA.
Um
governo como o de Jair Bolsonaro, que foi eleito com grande apoio da
extrema-direita estadunidense, e que fazia questão de bater continência à
bandeira dos EUA e de manifestar patéticas e vergonhosas declarações de amor a
Trump.
O
bolsonarismo, lembre-se, é parte da extrema-direita liderada por Trump. Todos
se recordam, notadamente na época do chanceler pré-iluminista, Ernesto Araújo,
que praticávamos uma política externa que ensaiava uma perigosa ruptura com a
ordem mundial multilateralista e suas instituições. Algo que, inclusive,
retardou a compra de vacinas durante a pandemia e dificultou uma franca
cooperação com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Chegou-se
mesmo a se afirmar que a condição de “pária internacional” do Brasil da época
era algo desejável, condição da qual deveríamos nos orgulhar.
Pois
bem, um governo de Flávio Bolsonaro seria uma repetição piorada daquele
governo. Piorada porque hoje as demandas e exigências de submissão do Império
são mais rígidas e amplas, como todos podem observar mundo afora. Trump, em seu
terceiro governo, exige submissão; não simples cooperação. Quer bajuladores
caninos. Não se contenta com meros aliados. Exige vassalos servis.
Quer
acesso irrestrito e exclusivo aos recursos naturais de outros países. Quer até
mesmo se apropriar de territórios de nações aliadas. Ou incorporar países
inteiros, como o Canadá. Exige tarifas de proteção altíssimas para proteger o
mercado interno dos EUA, ao mesmo tempo que impõe abertura dos mercados dos
outros países para produtos Made in USA.
Jogou
fora todas as regras que os próprios EUA criaram para controlar o planeta e pôs
no lugar uma distópica anomia hobbesiana, baseada no uso exclusivo da força.
Corroeu o multilateralismo e todas as suas instituições e “bilateralizou” as
relações internacionais, impondo “negociações” fortemente assimétricas com
outras nações, especialmente com as mais fracas e desprotegidas.
Vê as
relações entre os países como um jogo de soma zero. Para que os EUA ganhem, é
preciso que os outros, inclusive os antigos aliados, percam. Simples assim. A
lógica tosca e primitiva de um representante das máfias imobiliárias de Nova
Iorque se estendeu ao planeta.
Por
isso, quer um “Hemisfério” sem a presença de “rivais”, como China e Rússia.
O
bolsonarismo e a família Bolsonaro estão em inteira sintonia com essa proposta
distópica, que agride fortemente nossa democracia e nossa soberania.
Eduardo
Bolsonaro se esforçou para que Trump impusesse sanções comerciais contra o
Brasil, sua economia, seus empregos.
Agora,
Flávio Bolsonaro, em demonstração explícita e pública de servilismo, foi aos
EUA pedir “pressão diplomática” para que as eleições brasileiras se façam
dentro dos “valores americanos”, isto é, deixando as Big Techs atuarem
livremente, sem limites jurídicos ou éticos, de modo a favorecê-lo. Também
prometeu acesso irrestrito às nossas reservas de minerais críticos.
Ao que
parece, já colocou o Brasil à venda. E não são apenas os recursos naturais.
Colocou no leilão geopolítico também nossa democracia, nossa soberania, nossos
valores.
Fará,
evidentemente, o que Trump exigir.
Trump
exigirá, sem dúvida, que o Brasil se afaste da China, da Rússia e de outros
parceiros não alinhados com os EUA. Provavelmente, demandará que o Brasil
abandone o BRICS. Deverá exigir que o Brasil e o Mercosul concedam aos EUA a
mesma abertura de mercado que foi concedida à União Europeia. Só que sem
contrapartidas efetivas dos EUA. Demandará também o desinvestimento na
integração regional.
Não
sabemos ao certo o que mais poderia vir. Porém, é seguro que a conta
geopolítica e geoeconômica será muito alta. Alta o bastante para nos
inviabilizar como país soberano e democrático. Elevada o suficiente para nos
converter, na prática, em uma espécie de protetorado. Um grande Porto Rico.
E o
pior é que a grande imprensa e boa parte das nossas oligarquias estão
embarcando nessa aposta.
Uma
aposta que as destruirá. Que nos destruirá.
• Afinal, a candidatura de Flávio
Bolsonaro é a candidatura do “America First, Brazil Last”.
Não tem
estratégia alguma para o Brasil. Sua estratégia é simplesmente “seguir o
líder”.
É um
simples preposto de Trump e do MAGA. Um vácuo de patriotismo e de ideias
próprias e viáveis.
O
verdadeiro candidato desse campo obsoleto, arcaico, inviável e distópico é o
próprio Trump. Candidato a Imperador do Brasil e do “Hemisfério”.
O único
candidato a presidente do Brasil, do Brasil soberano e democrático, do Brasil
em primeiro lugar, é outro.
Chama-se
Lula. E só bate continência para a bandeira do Brasil.
• Não cobre democracia de quem se formou
na ditadura. Por Luís Nassif
RIF, ou
Relatório de Inteligência Financeira. É um documento produzido pelo COAF que
reúne movimentações financeiras suspeitas de pessoas físicas ou jurídicas.
Nos
últimos episódios, a Polícia Federal, do delegado Andrei Rodrigues, em
cumplicidade com o Ministro André Mendonça, usou os RIFs de maneira imprópria,
atropelando direitos individuais.
O
primeiro caso foi a quebra do sigilo bancário e fiscal de Fábio Luiz Lula da
Silva. Além de uma quebra indevida, por não haver nenhuma evidência de ligação
dele com os crimes do Master, vazou-se imediatamente uma informação manipulada:
o valor da movimentação da conta por 4 anos. Movimentação mede depósitos,
saques, mudança de contas, remuneração diária. Mas a PF do delegado Andrei
preferiu divulgar a movimentação, por
ser um número mais tonitruante.
Depois,
ocorreu o mesmo com o RIF de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e que a mídia
insiste em tratar como herdeira de banqueiros do Credit Suisse.
Ou
seja, atropelou-se de maneira indecente o devido processo legal. E, por ser
contra o que consideram adversários políticos, os jornalões usaram as
informações e não denunciaram os abusos.
Aí vem
uma decisão do Ministro Alexandre de Moraes, totalmente em linha com direitos
individuais.
– os
RIFs do Coaf só podem ser solicitados e produzidos quando houver procedimento
formalmente instaurado (inquérito, procedimento investigatório criminal,
processo administrativo ou sancionatório);
– o
pedido de RIF deve identificar claramente o investigado ou sujeito
potencialmente sancionável e a pertinência temática estrita entre o relatório e
o objeto da apuração;
– ficam
vedados pedidos genéricos, “fishing expedition” ou devassas patrimoniais; o uso
de RIFs com fins de “pressão, constrangimento ou extorsão” é considerado
desvirtuamento grave e violação da intimidade financeira e da autodeterminação
informacional;
– a
decisão tem efeito geral e retroage, ou seja, exige que os mesmos critérios
sejam observados em investigações já em curso, inclusive CPIs e processos em
demais instâncias.
“Fishing
expedition” é a busca genérica por provas, sem pertinência direta com o objeto
da apuração.
É o
carimbo exposto para todo tipo de chantagem ou jogada política.
Como a
mídia trata essas medidas:
Estadão
– a visão autoritária típica menosprezar à democracia, com Carlos Andreazza
afirmando que “STF colocou em curso uma cruzada para limitar o direito do
Parlamento a investigar”
Globo:
uma reportagem técnica e bem elaborada de PatrikCamporez: “Moraes afirmou que o
uso irregular dos relatórios compromete direitos fundamentais e pode levar à
nulidade das provas obtidas, inclusive em casos já em andamento, caso não sejam
observadas as exigências estabelecidas.
“A
ausência da estrita observância dos requisitos previstos na presente decisão
afasta a legitimidade constitucional do uso das informações e dos relatórios de
inteligência financeira (RIFs), inclusive em relação àqueles já fornecidos e
juntados às investigações e processos, e constitui ilicitude da prova
produzida, bem como de todas dela diretamente derivadas, nos termos do artigo
5º, inciso LVI da Constituição Federal; sendo, portanto, inadmissível”, diz o
ministro.
Ao
justificar a medida, Moraes apontou a existência de “grave desvirtuamento” no
uso dos RIFs, com relatos de utilização dos dados para investigações informais,
sem controle adequado, e até para constrangimento de alvos”.
Vamos a
uma questão atual.
Sicário,
o responsável pelas operações de comprar jornalistas, morreu em instalações da
Polícia Federal, em circunstâncias até agora não esclarecidas.
Suponha
que um deputado ouve que o Poder 360 recebeu R$ 3 milhões do Master. Alguma
prova? Nenhuma. Apenas rumores.
Pelo
padrão Andreazza, bastaria para que ele solicitasse ao COAF a quebra do sigilo
fiscal e bancário do jornal e seus controladores.
E se
algum deputado quisesse saber o que ocorreu com o inquérito do Ministério
Público Federal que escondeu a operação de suborno na compra de direitos
esportivos pela Globo? O inquérito parou em um lugar qualquer do Rio de
Janeiro. Mas, de acordo com Andreazza, nada impediria um parlamentar qualquer
solicitar a quebra do sigilo fiscal e bancário da Globo.
Sem
contar as pessoas físicas. O trabalho de colunistas de O Globo despertou
críticas de vários setores de esquerda. Pela lógica de Andreazza, qualquer
deputado poderia pedir a quebra do sigilo bancário e fiscal e fazer a mesma
manipulação que a PF fez com as contas de Fabio Luiz.
O
problema dessas análises enviesadas, é que provêm de cabeças endurecidas como
pão amanhecido, por anos de convivência e defesa da ditadura.
Fonte:
Viomundo/Jornal GGN

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