Maria
Inês Nassif: Kassab vence se Caiado ganhar, mas também se ele perder
O
presidente do PSD faz uma aposta na formação de uma base parlamentar que
permita a ele se tornar a peça mais importante do xadrez político.
O
presidente do PSD, Gilberto Kassab, não cometeu nenhum erro ao escolher como
candidato a presidente da República pelo seu partido o direitista Ronaldo
Caiado (GO), em vez do ex-governador Eduardo Leite. Apenas fez cálculos.
O
cenário político que definiu as eleições de Jair Bolsonaro, então do PSL, em
2018, e a volta de Lula à Presidência, em 2022, foi de guerra entre extremos:
de um lado, uma esquerda liderada pelo PT, vendido aos adversários como um
partido radical de esquerda sem nunca ter sido; do outro, a extrema-direita.
Não
existe espaço para cores menos fortes do que estas em outubro deste ano. Optar
por Leite, que se ofereceu como um tertius, uma vacina contra extremos, é pura
perda de tempo.
Quando
a polarização é grande, o meio não existe: o eleitorado de centro democrático
se alinha à esquerda; os conservadores tomam o rumo do extremismo de direita –
aliás, uma opção ideológica em moda mundo afora, e investimento e aposta dos
militares brasileiros que conspiraram para levar Bolsonaro ao poder em 2018 e
depois tentaram um golpe para lá permanecerem todos eles (o presidente-capitão
e os militares).
Leite
não tem carisma, luz própria ou companhia – é o bloco do eu sozinho. Não
somaria apoios nem subtrairia votos nem de Flávio Bolsonaro, nem de Lula.
Caiado é um quadro tradicional da extrema-direita, soma apoios nesse espectro
político e rouba votos bolsonaristas.
Quando
o capitão Bolsonaro foi preso por indisciplina pelo Exército, em 1986, o goiano
já fazia tratoraços (“carreatas” de tratores) na Esplanada dos Ministérios e
discursos que assustavam a incipiente democracia brasileira.
Elegeu-se
constituinte para defender o agronegócio, a fração da classe dominante mais
retrógrada da República. Caiado pode ter moderado o tom, mas ainda é um
representante dessa fatia social que apoiou Jair Bolsonaro e tem cacife para
financiar campanhas eleitorais, ganhar eleições e pressionar governos em seu
favor.
Um
candidato a presidente com chances de ganhar visibilidade disputará o mesmo
eleitorado que se entende como voto certo ao senador Flávio Bolsonaro (RJ), um
político tão fraco quanto o pai mas que agora não dispõe (como Jair dispôs) de
estrategistas militares nos bastidores, nem da atenção dos magos estadunidenses
que financiaram a guerra híbrida tupiniquim e contaminaram as eleições de 2018
pelas redes sociais.
Corre
riscos eleitorais e legais ao atentar contra a soberania do País, quando
oferece antecipadamente facilidades ao governo americano para a exploração das
riquezas naturais brasileiras; e, embora poupado pela Justiça do Rio de
Janeiro, tem um histórico considerável de denúncias de enriquecimento ilícito
que, em algum momento, principalmente em clima eleitoral, pode prosperar.
Com
Caiado, o PSD de Kassab, mesmo se não tomar o lugar do príncipe herdeiro do
ex-presidente que tentou um golpe, ganha capacidade para alavancar sua bancada
parlamentar – e o poder que disso decorre é onde se situa a verdadeira vocação
de ambos, de Kassab e do PSD.
O
projeto Kassab é ter um partido suficientemente forte para se constituir em
tertius da política nacional, a partir do Congresso. Ser grande para ter poder
mesmo que não eleja um presidente da República.
A sua
fonte de inspiração é o antigo PSD, que se constituía num ponto de equilíbrio
entre o PTB de Getúlio Vargas e João Goulart, de um lado, e a direita civil e
militar abrigada na UDN de Carlos Lacerda.
Na
falta de um centro eleitoral, que foi engolido pela ascensão da extrema-direita
a partir da eleição de Bolsonaro, em 2018, somente a direita pode dar poder ao
novo PSD para se fazer à imagem e semelhança do PSD de Tancredo Neves.
A
partir da eleição de uma grande bancada, a mediação dos votos de parlamentares
do partido nas negociações com o governo ou com setores sociais interessados em
aprovação ou rejeição de leis ficaria por conta do líder, que hoje já trafega
com desenvoltura no Congresso, no governo e junto à elite econômica.
Uma
leitura do perfil do Congresso eleito em 2022, feito pelo Departamento
Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) logo após as últimas eleições,
ajuda a entender o caminho traçado por Kassab.
Segundo
a Radiografia do Novo Congresso – 2023/2027, a eleição de 2022 não foi apenas
marcada por uma forte polarização, mas sobretudo por um “voto de rejeição”.
Esses
dois elementos deram ao segundo colocado na eleição presidencial, o PL de Jair
Bolsonaro, a maior bancada na Câmara, além de senadores e governadores de
estados importantes.
Conforme
o levantamento do DIAP, não apenas o PL se elegeu como maior partido: com
outros do mesmo naipe, constituiu uma bancada de direita de 259 deputados,
praticamente a metade da Câmara (50,4%), e 36 senadores, mais de 40% do Senado.
A
eleição que levou Bolsonaro à Presidência em 2018 fez uma bancada de direita
menor, de 210 deputados (41% da Câmara) e 22 senadores (24% do Senado).
O
curioso é o que ocorre com as bancadas de centro e centro-direita entre uma
eleição e outra.
Na
eleição de Bolsonaro, a bancada de centro-direita da Câmara representava 18,3%
dos votos na Casa; a bancada de centro, 14,8%.
Quatro
anos depois, quando Lula era o candidato que polarizava com Bolsonaro, a
bancada de direita aumentou sugando votos da centro-direita, que caiu de 94
para 73 deputados (14,2%). Entre as duas disputas, o apoio do centro ideológico
caiu de 14,8% para 11% dos votos para a Câmara.
No
Senado, o PSD de Kassab tinha, em 2019, 15 dos 39 senadores (de um total de 81)
na bancada dos “independentes”, ou de “apoio não consistente” ao governo Lula,
segundo classificação do DIAP. É uma bancada significativa. O PT só tem oito; o
PL, 11.
Se, nas
eleições, o PSD aumentar suas bancadas nas duas casas, vai reduzir a oposição
formal ao governo Lula, se for ele o candidato vitorioso, mas vai inflacionar o
preço das negociações de matérias importantes em tramitação no Legislativo. E
Kassab se cacifa como o principal negociador do cenário político.
A moral
da história é que Kassab ganha se Caiado vencer, e ganha se Caiado perder.
• A anistia prometida por Caiado e o
futuro da accountability democrática
Em um
movimento que ecoa as tensões políticas que precedem o ciclo eleitoral de 2026,
o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, declarou publicamente que seu primeiro
ato como eventual presidente da República seria conceder anistia a Jair
Bolsonaro. A afirmação, divulgada inicialmente pelo jornal Estado de Minas, não
é apenas um aceno à base mais radicalizada do eleitorado de direita, mas uma
perigosa sinalização sobre o arcabouço da justiça e da responsabilidade
política em um país que ainda tenta se reerguer dos abalos institucionais
recentes.
A
proposta de anistia para Bolsonaro desconsidera o complexo emaranhado de
investigações e processos que pesam contra o ex-presidente, abrangendo desde a
gestão da pandemia até os ataques diretos às instituições democráticas,
culminando nos lamentáveis eventos de 8 de janeiro. Ao prometer tal medida,
Caiado não apenas tenta capitalizar sobre o sentimento de perseguição que parte
da direita nutre por Bolsonaro, mas subverte a lógica da accountability,
princípio fundamental para qualquer democracia saudável. A institucionalidade
democrática exige que todos os cidadãos, independentemente de sua posição,
respondam por seus atos perante a lei, e relativizar essa premissa é abrir um
precedente nefasto para a impunidade.
Do
ponto de vista progressista, que advoga pela reconstrução do pacto
civilizatório e pelo fortalecimento das instituições fragilizadas durante o
período bolsonarista, a anistia surge como um antípoda da justiça. O governo
Lula tem se empenhado em restaurar a credibilidade das políticas públicas, o
respeito às normas democráticas e a estabilidade das relações entre os poderes,
um trabalho minucioso que visa reparar os danos de uma gestão que
sistematicamente deslegitimou a ciência, a imprensa e o próprio sistema
eleitoral. Propostas como a de Caiado, contudo, ameaçam desestabilizar essa
recuperação, realçando uma clivagem ideológica que instrumentaliza a justiça
para fins políticos.
A
proximidade das eleições de 2026 torna essa declaração ainda mais estratégica e
preocupante. Caiado busca se posicionar como um sucessor natural de uma
corrente política que ainda exerce forte influência, mesmo com seu líder
inelegível e juridicamente pressionado. Essa movimentação, no entanto, coloca
em xeque a seriedade do debate público. Em vez de discutir soluções para os
desafios reais do país – como o combate à fome, a retomada do crescimento
econômico inclusivo e o avanço em pautas sociais e ambientais –, somos levados
a um cenário onde a proteção de figuras envolvidas em graves controvérsias
jurídicas se torna um item central da plataforma eleitoral. É um claro desdém
para com a necessidade de um Brasil que olhe para frente, com respeito à lei e à
memória dos ataques sofridos.
É
imperativo que a opinião pública nacional compreenda as implicações profundas
de um gesto como a anistia. Ele não representa um ato de pacificação, mas sim
de validação da irresponsabilidade e da relativização do Estado de Direito. A
reconstrução do Brasil sob uma ótica progressista passa inevitavelmente pela
afirmação da justiça, pela punição dos desmandos e pela garantia de que nenhum
líder, por mais popular que seja, esteja acima da lei. O futuro do país nas
urnas de 2026 se desenha também a partir da capacidade da sociedade de
discernir entre a retórica da impunidade e o compromisso inegociável com a
democracia plena.
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O prenúncio de um 2026 sombrio
A
declaração do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, de que seu primeiro ato como
presidente seria anistiar Jair Bolsonaro, ecoa como um alarme potente no
cenário político brasileiro, projetando sombras inquietantes sobre a disputa
eleitoral de 2026 e o futuro da democracia. Esta não é uma promessa vazia, mas
um claro posicionamento ideológico que revela a profunda desfaçatez de setores
da direita em relação à responsabilidade e à aplicação da lei. É imperativo que
a opinião pública brasileira compreenda a gravidade de tal proposição, que, em
sua essência, busca legitimar e perdoar atos que atentaram contra as
instituições democráticas e a Constituição Federal.
A
anistia a Bolsonaro significaria, na prática, um cheque em branco para a
impunidade, um endosso institucionalizado a um projeto de desmonte democrático
que culminou nos atos golpistas de 8 de janeiro. A sociedade não pode ignorar
que figuras como Bolsonaro e seus apoiadores estão sendo investigadas por
crimes graves, que vão desde a disseminação de desinformação até a incitação à
ruptura institucional. Prometer a anistia antes mesmo do devido processo legal
e do julgamento final dos fatos constitui um escárnio à justiça e uma afronta
aos princípios republicanos que o governo Lula tem se esforçado para
restabelecer após um período de intensa corrosão moral e política.
Esta
manobra discursiva de Caiado deve ser lida como um teste de força e um
prenúncio da estratégia bolsonarista para 2026, visando capitalizar o
ressentimento e a negação da realidade entre seus eleitores mais radicais. Em
vez de apresentar soluções concretas para os desafios do país, a agenda da
extrema-direita parece obcecada em reescrever o passado, distorcer a verdade e
proteger os responsáveis por tentar subverter a ordem democrática. Tal postura
contrasta frontalmente com a agenda de reconstrução nacional, de inclusão
social e de fortalecimento das políticas públicas que o atual governo tem
empreendido, buscando cicatrizar as feridas de um período de retrocesso e
polarização.
A
defesa intransigente da legalidade e da responsabilização dos culpados é um
pilar fundamental para a consolidação de uma democracia robusta e para a
garantia de que os ataques às instituições não se repitam. É por isso que a
promessa de anistia não pode ser vista apenas como uma declaração de campanha,
mas como um projeto político que, se vitorioso, sepultará a esperança de um
Brasil mais justo e equitativo. A eleição de 2026, portanto, se desenha não
apenas como uma escolha de governantes, mas como um referendo sobre o
compromisso do país com a democracia e com a justiça, frente à persistente
ameaça do autoritarismo travestido de liberdade.
A
reconstrução do Brasil sob uma ótica progressista exige um Estado de Direito
forte, onde ninguém esteja acima da lei. A anistia a Bolsonaro seria a antítese
desse ideal, representando a aceitação da impunidade como moeda política. Os
próximos anos serão cruciais para reafirmar o caminho da democracia, da
soberania popular e da justiça social, resistindo à tentação de perdoar aqueles
que conspiraram contra a própria base da nossa República. A vigilância da
sociedade e a defesa incansável dos valores democráticos serão essenciais para
evitar que o país caia novamente na armadilha da desfaçatez e da
irresponsabilidade política.
Fonte:
Carta Capital/O Cafezinho

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