quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Suicídio da espécie: a distopia final

Embora esteja longe de ser um atleta, não perco o fôlego facilmente. Geralmente, faço trilhas difíceis sem muito sofrimento. Mas quando visitei a Montaña de Siete Colores, no Peru, quase desmaiei subindo um barranquinho. Enquanto cavalgava uma mula, derrotado e desoxigenado, comecei a refletir: se esse é o impacto fisiológico de uma altitude de 5 mil metros, o que faria com meu corpo uma viagem de 225 milhões de quilômetros, a distância daqui até Marte? Por que seríamos capazes de “colonizar o espaço”, se não sobrevivemos sequer a uma altitude de 10 mil metros? Sendo que esses 10 mil metros não passam de 0,067% do diâmetro da Terra. Nossa zona de sobrevivência, mesmo aqui neste planeta, é exígua.

E isso é apenas uma das condições constituídas em 4,3 bilhões de anos de evolução planetária que possibilitam a nossa sobrevivência. Temos a sorte, por exemplo, de ter uma lua que gera marés regulares, situada a uma distância geologicamente perfeita para que se meça as ondas do mar em metros e não quilômetros. Essa é uma circunstância pontual da atual fresta histórica do ciclo de vida da lua, já que ela está em constante processo de migração – à época de sua formação, nosso astro irmão era bem mais próximo de nós, o que causava ondas extremas que não permitiriam à vida inteligente se desenvolver. Se não houvesse lua, pior ainda: padeceríamos em um planeta de água parada, tóxica.

Outro fator determinante para nossa sobrevivência é o fato de que a Terra tem seu eixo levemente inclinado. É isso que nos dá as estações do ano e, consequentemente, a sazonalidade sem a qual não teríamos ciclos de plantio e colheita. O que estabiliza a inclinação é, novamente, a gravidade da lua. Sem ela, a oscilação da Terra seria tão feroz que entraríamos e sairíamos constantemente de eras do gelo extremas, o que obrigaria a vida a começar do zero diversas vezes ao ano. Não haveria tempo hábil para a evolução de nossa complexidade.

Há também os ventos solares, que não nos torram porque temos a sorte de um campo magnético criado pelo núcleo metálico de nosso planeta. Além disso, respiramos um gás, o oxigênio, que embora seja um poderosíssimo combustível para nossa existência, era tóxico para as primeiras espécies bacterianas que colonizaram nosso planeta. Se estamos aqui, é graças a uma alga que, há 3,2 bilhões de anos mutou por acaso para produzir fotossíntese. Tudo isso sem contar nossa peculiar atmosfera que, além de reter o ar que respiramos e a umidade que sustenta a vida, nos fornece um escudo contra as até 5 mil toneladas de material cósmico que beijam o solo terrestre todos os anos.

Ou seja, somos o resultado evolutivo de circunstâncias não só muito específicas como aleatórias e localizadas numa estreita janela de tempo geológico. Um religioso pensaria que só pode haver uma mente inteligente por trás disso, organizando todos esses elementos para que possamos sobreviver. Essa é uma teoria que parte de uma premissa tão específica quanto arrogante: a ideia de que tudo a nosso redor foi feito para nós.

É a base filosófica do dominionismo (Deus criou a Terra e deu ao homem domínio sobre todas as coisas), cujas raízes remontam à hierarquia da natureza organizada por Platão; a concepção dicotômica platônica forma a base das religiões monoteístas contemporâneas. Há um mundo ideal e o mundo material, impuro; uma mimese distorcida da perfeição abstrata. Céu e Terra. Hedonismo lá, penitência aqui. Ou, o anverso mais cruel: a concepção de que o material (portanto, imperfeito) é descartável, já que há, num plano abstrato, uma versão ideal de tudo. Em uma analogia financista que pode parecer descabida – mas não é, já que a origem filosófica do dinheiro como valor abstrato é também platônica –, tudo está securizado no post-mortem. É como se houvesse um Banco Central celeste com liquidez infinita que lastreia aquilo que se perde em vida, dos chamados recursos naturais à própria vida.

Não consigo pensar dessa maneira. Penso o oposto na verdade: o espaço não é organizado para a vida; a vida existe como consequência da organização do espaço. Somos o resultado do acaso, não do planejamento. Somos profunda e intrinsecamente especializados por conta das circunstâncias em que surgimos. O ambiente nos fez e nós refizemos o ambiente. Um exemplo: cerca de 8 milhões de anos atrás, a explosão de uma estrela relativamente próxima de nosso sistema solar bombardeou a Terra com radiação cósmica, ionizando a atmosfera terrestre1. Isso multiplicou a quantidade de relâmpagos e, por consequência os incêndios florestais, reduzindo o denso dossel verde que cobria o continente africano a uma savana. Com isso, uma peculiar espécie de hominídeos se viu obrigada a trocar os pulos de árvore em árvore pelo caminhar sobre duas pernas, o que, por consequência, liberou suas mãos para atividades produtivas. E o trabalho manual permitiu o desenvolvimento de uma imaginação sem precedentes. Assim, graças a uma supernova qualquer num confim qualquer da nossa vizinhança espacial, esse homo se fez sapiens.

Quando vejo Elon Musk falar em colonizar Marte, escuto um fanático dominionista, cujo princípio interpretativo de tudo (do universo inclusive) é que é tudo nosso, tudo está aí para ser explorado a nosso bel-prazer. Não me surpreenderia que sua tese fosse posta à prova com a brutalidade radical com que cada descoberta astronômica destrói nossa imaginação de ficção científica. Como liberal fascistoide que é, ele tenta encaixar a realidade na ideologia, não o contrário. E como qualquer rico do fim dos tempos, a moeda com que barganha é a vida. Toda ela.

Acho irônica a precariedade da base filosófica dominionista sobre a qual se sustenta o poder do dinheiro, seja na extração do petróleo (uma pasta de hidrocarbonetos constituída ao longo de milhões de anos de decomposição de matéria orgânica) para fins meramente especulativos, seja no delírio do futuro interestelar de uma espécie cuja área de sobrevivência se restringe a uma franja inferior a 1% da massa de seu próprio planeta.

Pode parecer grande para nós que somos tão pequenininhos, mas a Terra é um planetinha, com 0,3% a massa de Júpiter, esse gigante gasoso que, por sua vez, tem 0,1% da massa do sol, de sua parte classificado como uma “anã amarela”, por conta de seu tamanho em comparação a outras estrelas conhecidas. Ou seja, nosso espaço de sobrevivência é tão estreito quanto são específicas as condições que nos trouxeram até aqui.

Não perceber isso é de uma arrogância profunda. E, bem… Estúpida. Só pode ser estupidez imaginar que tudo que há a nosso redor – só o centro da nossa galáxia, uma em 1 trilhão, segundo a estimativa possibilitada pelo telescópio Hubble, está a 27 mil anos de viagem na velocidade da luz, ou seja 300 mil quilômetros por segundo – não passe de cenário para nossa efêmera existência. Até porque a espécie humana é um soprinho geológico: toda nossa história evolutiva se comprime em 0,007% da existência da Terra. Os dinossauros, por exemplo, viveram cerca de 180 milhões de anos. Em 300 mil, o homo sapiens está se aproximando do incrível feito de se suicidar como espécie. Nisso, sim, somos únicos; provavelmente não no fato de termos um deus que esperou 13 bilhões de anos só para servir a nossos caprichos.

Sim, Deus está para servir. Afinal, pela concepção dominionista-platonista-fundamentalista, tudo que existe nos foi servido. Aquilo que projetamos como utopia sobre a Inteligência Artificial parte do mesmo princípio de que temos de ser servidos. Na ausência de um deus que o faça e diante da imoralidade da escravidão humana (imperante, pelo menos por enquanto), despejamos nosso desejo de servidão sobre as máquinas. Um robô vai fazer seu trabalho, um robô vai conduzir seu carro, um robô vai levar seu cachorro pra passear, um robô vai limpar sua sujeira.

Como sempre, a ideologia da classe dominante que, como diria Marx, é a ideologia de uma era, está profundamente ancorada em dominionismo – expresso não só nesse sonho etéreo de colonização do espaço, mas no muito concreto revigoramento sionista-estadunidense da face mais brutal do imperialismo – e desejo de servidão. O sonho da sociedade contemporânea não difere em nada do sonho de um conquistador espanhol ou um senhor de engenho do século XVII.

Afinal, ninguém acreditou mais nessa ideia de domínio e subjugação universal que o colonizador branco europeu. E agora, estamos onde estamos, enquanto o colonizador branco europeu pensa em expandir a fronteira do extrativismo cosmos afora. Nesse sentido, a aventura da colonização interestelar é telegraficamente uma ideia supremacista branca. A conquista do espaço tem a mesma substância utópica da colonização de Gaza.

Uma IA que consuma toda a água da terra, mas gere a servidão infinita, é a utopia de que todo trabalho seja do outro, com o agravante de que o outro não precise, tecnicamente, viver. (Parêntese apocalíptico: se você acha que a gente está ferrado, imagina quando a própria IA entender que não precisa, tecnicamente, viver; ou seja, quando ela se autocompreender como um ente pós-biológico. Essa seria uma das possíveis rupturas do cordão umbilical; a máquina se constatar independente de nós. Porque a consequência lógica desse aprendizado é a noção de que seu criador – e nossa fragilidade biológica, já melhor compreendida pela IA do que por qualquer mente humana individual – é o único freio a sua própria reprodução. Nos tornamos assim, concorrentes diretos da criatura à qual entregamos, de bom grado, a chave de nossa sobrevivência. Talvez seja a forma mais cara e complexa de suicídio que já inventamos…) Voltando, depositamos tanta esperança escravagista na IA porque, por mais objetificação que se imponha ao trabalhador, ele sempre terá algo que nos é inerente, desde que olhamos para nosso próprio polegar opositor, lá na savana que a supernova pariu: a capacidade de imaginar outra vida.

Para que a servidão e a exploração cheguem a seu estado pleno, é necessário que toda inteligência seja artificial. Que ela seja reprodutiva e não criativa. É por isso que o pensamento especulativo está sendo expurgado da educação. É por isso que querem a filosofia e aquilo que se convencionou chamar de humanidades fora da sala de aula. Querem que a inteligência, inclusive humana, se artificialize; se reduza à reprodução técnica de faculdades restritas, bem, à própria reprodução técnica. Inteligência sem especulação é o que querem. Inteligência sem questionamento, inteligência sem arte, inteligência sem gente; inteligência sem inteligência.

A burguesia almeja um imenso nada, um fim da história turbinado, que inclua o fim da espécie. É óbvio que marchamos, em aceleração geométrica, para a maior de todas as derrotas. E mudar de caminho parece simplesmente fora de questão. Veni, vidi, mortuus sum. Vim, vi, morri, parodiando o tataravô dos imperialistas de hoje. Essa é a lápide que, dia após dia, a burguesia constrói para a humanidade. Seremos nós, da classe trabalhadora, capazes de construir algo mais digno para a espécie do que esse epitáfio lamentável?

 

Fonte: Por Gabriel Rocha Gaspar, em Outras Palavras

 

 

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