Braskem
em Maceió: como ficam os bairros afetados por afundamento do solo após quebra
da empresa
Ao ler
sobre o recente pedido de recuperação extrajudicial da Braskem,
Jackson Douglas Ferreira de Souza, 45, pensa nos moradores que ainda tentam
reconstruir a vida depois de perder suas casas, seus negócios e a vizinhança em
Maceió.
Os
bairros Pinheiro, Farol, Mutange, Bebedouro e Bom Parto foram afetados pelo
afundamento do solo causado pela mineração da petroquímica.
Desde
2018, cerca de 60 mil pessoas tiveram de deixar suas casas. Segundo a Defesa
Civil, mais de 14 mil imóveis estão na região afetada pelo afundamento, dos
quais 78% já foram demolidos.
"Quem
faliu, quem quebrou e quem sente as consequências são os moradores dos bairros
afetados, não a Braskem", afirma Jackson.
Agora,
essas pessoas relatam temer que o pedido de recuperação extrajudicial da
Braskem acabe deixando em segundo plano a responsabilização da empresa pelo
ocorrido em Maceió.
O
Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB), do qual Jackson de Souza faz
parte, questiona quem garantirá que a empresa terá condições de cumprir
integralmente os compromissos assumidos com as vítimas — sejam acordos
extrajudiciais em discussão, sejam eventuais condenações em processos judiciais
em curso.
"A
recuperação extrajudicial não pode se transformar em instrumento para proteger
a empresa enquanto milhares de famílias continuam esperando reparação integral,
indenizações justas e, em algumas comunidades, uma solução definitiva para suas
vidas", afirma o movimento.
Segundo
Ricardo Melro, defensor público que acompanha os processos de várias vítimas, a
recuperação extrajudicial traz inseguranças.
"A
preocupação é com o futuro, principalmente com a capacidade da empresa de
suportar novas condenações e, depois, de pagar os créditos das vítimas",
explica o defensor.
A
Braskem entrou na segunda-feira (24/08) com pedido de recuperação extrajudicial
na Justiça de São Paulo. A empresa pretende reestruturar cerca de US$ 10,9
bilhões (cerca de R$ 56 bilhões) em dívidas financeiras.
À BBC,
a empresa afirmou que a medida tem escopo "estritamente financeiro" e
não inclui as obrigações assumidas em Maceió. Em nota, disse que a recuperação
"não afeta o pagamento das indenizações e os compromissos assumidos em
Maceió".
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Feridas abertas
O
afundamento do solo começou a ser identificado em 2018, quando tremores e
rachaduras apareceram no Pinheiro. O problema se espalhou para os outros
bairros.
A
extração de sal-gema feita pela Braskem na região, iniciada em 1976 e
interrompida em 2019, foi apontada como causa do fenômeno após relatório do
Serviço Geológico do Brasil (CPRM), em maio daquele ano.
A
empresa decidiu fechar os poços de extração de sal-gema em novembro de 2019.
A
previsão era que as atividades fossem encerradas em 2026. Questionada
pela reportagem, a Braskem não respondeu sobre o andamento das obras para
fechamento dos poços.
Também
em 2019, foi iniciado o Programa de Compensação Financeira para indenizar
proprietários de imóveis que tiveram de ser desocupados. Desde então, houve
questionamentos sobre os valores oferecidos pela petroquímica, considerados
baixos por muitos moradores afetados.
Em
dezembro de 2023, uma mina da empresa localizada no bairro do Mutange entrou em
colapso parcial. O episódio levou a uma
nova retirada de moradores, inclusive daqueles que haviam permanecido nas áreas
afetadas apesar de alertas anteriores.
Segundo
dados divulgados pela Braskem em agosto, o Programa de Compensação Financeira e
Apoio à Realocação havia apresentado 19.205 propostas de indenização até o fim
de junho, o equivalente a 100% das solicitações recebidas.
Desse
total, 19.144 haviam sido aceitas e 19.132 pagamentos já tinham sido
realizados. Dezoito propostas foram recusadas.
Somados
os pagamentos de indenizações e aluguéis sociais, a companhia afirma ter pago
R$ 4,25 bilhões desde a criação do programa, em 2019.
A
Braskem também informou que 14.550 imóveis foram identificados como tendo
necessidade de realocação. Segundo a empresa, a área classificada pela Defesa
Civil como tendo o maior nível de preocupação já foi completamente desocupada.
Em
outra frente de acusação, a Justiça Federal em Alagoas aceitou parcialmente em
junho uma denúncia do Ministério Público Federal contra a Braskem e 13 pessoas
ligadas à mineração de sal-gema. A empresa é acusada de crimes ambientais e de
apresentar estudos e relatórios ambientais falsos ou enganosos. Parte das
acusações foi considerada prescrita, mas o processo seguirá em relação às
demais.
Já nas
14 ações civis públicas conduzidas pela Defensoria Pública, as pretensões
econômicas solicitadas em favor das vítimas chegam a aproximadamente R$ 17
bilhões, segundo o defensor público Ricardo Melro.
O valor
inclui cerca de R$ 5 bilhões em pedidos de danos morais, R$ 4 bilhões pela
desvalorização de imóveis no entorno das áreas afetadas, R$ 1,7 bilhão
relacionado à comunidade dos Flexais (leia mais abaixo) e
aproximadamente R$ 2 bilhões em uma ação que busca revisar o mapa de risco para
incluir outras vítimas, além de outras demandas.
Melro
afirma que poderá solicitar medidas judiciais, principalmente de caráter
cautelar, caso identifique risco concreto para o cumprimento de indenizações e
futuras condenações.
"Tenho
cerca de 30 anos de carreira jurídica e considero incomum o que temos visto em
determinados processos do caso Braskem", afirma.
Segundo
o defensor, o encerramento antecipado impede a análise de fatos novos e de
estudos técnicos que surgiram durante o andamento das ações.
"No
caso Braskem, surgiram novas evidências, novos estudos, inclusive
internacionais, que demonstram erros de metodologia local, provas de captura de
órgãos técnicos e novas situações que precisam ser enfrentadas. O que a
Defensoria pede é simples: primeiro conheça toda a realidade, permita a
produção das provas e, só depois, decida", diz.
A
Defesa Civil de Maceió continua monitorando a região.
Os
dados mais recentes apontam redução na velocidade do processo de afundamento do
solo.
O órgão
avalia a possibilidade de reduzir a área de monitoramento, mas afirma que
precisa de mais estudos para confirmar a possível redução na velocidade do
afundamento.
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O caso dos Flexais
Os
Flexais estão localizados em Bebedouro, mas não estão incluídos na área
diretamente afetada pelo afundamento.
Os
moradores ali permaneceram, mas bairros próximos foram esvaziados. Por isso, o
movimento das ruas e o comércio local foram afetados.
Há
placas espalhadas pela região lembrando que ainda existem moradores ali.
Por
meio de acordos firmados com a Prefeitura de Maceió, a Braskem realiza obras
estruturantes nos Flexais. Para Valdemir Alves dos Santos, 55, que vive na
região e mantém um comércio, as intervenções não recuperaram a vida que existia
antes do esvaziamento do entorno.
"Não
teve uma melhoria que trouxesse a alegria que sentíamos antes de tudo isso. A
Braskem tenta com paliativos e maquiagem esconder o que fez com as nossas
vidas", diz.
Valdemir
afirma que o comércio está falido. Para ele, o pedido de recuperação
extrajudicial é mais uma forma de a empresa se afastar das consequências do
desastre.
Ele
também participa da mobilização por indenizações para moradores que foram
afetados indiretamente pelo desastre, por suas consequências econômicas, como é
o caso dos Flexais.
Segundo
Valdemir, uma ação civil pública movida pela Defensoria Pública de Alagoas é
uma das frentes em que os moradores aguardam uma resposta.
"Sem
realocação com a indenização justa, a gente não consegue dar seguimento às
nossas vidas. [...] Eu preciso de viver minha vida", afirma.
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A recuperação extrajudicial
O plano
de recuperação extrajudicial solicitado na segunda-feira envolve a Braskem e
cinco empresas do grupo no exterior.
O
pedido trata exclusivamente de dívidas financeiras, deixando de fora obrigações
operacionais com fornecedores, clientes e prestadores de serviços.
O
pedido foi apresentado com o apoio de credores que representam 39,6% dos
créditos sujeitos à reestruturação. O percentual supera o mínimo de um terço
exigido para o protocolo.
A
partir do pedido feito na segunda-feira, a Braskem entrou em um período de 90
dias de proteção, durante o qual os credores incluídos no plano não podem
cobrar judicialmente as dívidas abrangidas nem adotar determinadas medidas
contra os ativos das empresas.
Nesse
período, a companhia terá de negociar com os demais credores para obter apoio
suficiente à aprovação do plano definitivo. Até 31 de agosto, deve apresentar
uma versão atualizada do plano de negócios e uma proposta comercial detalhada.
As
negociações sobre as principais condições comerciais têm prazo até 9 de
outubro.
O plano
prevê ainda a possibilidade de converter parte dos créditos em ações da
companhia, fazendo com que alguns credores se tornem acionistas.
Enquanto
isso, em relação ao desastre em Maceió, a Braskem já tem compromissos com
indenizações a proprietários de imóveis, além de acordos com a Prefeitura de
Maceió e o Governo de Alagoas.
O
acordo com a Prefeitura de Maceió foi fechado em julho de 2023 e estabeleceu R$
1,7 bilhão em indenização global.
Em
novembro de 2025, a Braskem também assinou um termo com o Governo de Alagoas,
no valor de R$ 1,2 bilhão, dividido em dez parcelas anuais.
A
reportagem questionou a Justiça Federal e o Ministério Público Federal em
Alagoas a respeito da recuperação extrajudicial, mas os órgãos informaram que
não vão se posicionar neste momento. A Agência Nacional de Mineração (ANM) não
respondeu às perguntas enviadas.
Fonte:
BBC News Brasil

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