quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Flávio Bolsonaro joga sujo com o povo evangélico e com o Brasil

O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) faltou ao primeiro debate presidencial de 2026, realizado pela Band neste domingo (23), mas encontrou uma maneira de ocupar o espaço político e, sobretudo, religioso da disputa. Em vídeo publicado nas redes sociais durante a realização do debate, o filho de Jair Bolsonaro afirmou que, caso seja eleito, um de seus primeiros atos será “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A declaração veio acompanhada da justificativa de que seus verdadeiros adversários seriam aqueles que, segundo ele, “não acreditam em Deus”.

Não se trata apenas de uma frase de efeito. A promessa é juridicamente incompatível com o Estado brasileiro tal como definido pela Constituição de 1988. O artigo 19 estabelece que é vedado à União estabelecer cultos religiosos ou igrejas, manter com eles relações de dependência ou aliança e criar distinções entre brasileiros. O artigo 5º, por sua vez, garante a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. O Supremo Tribunal Federal é igualmente explícito ao reconhecer que o Brasil é uma República laica e que o Estado deve permanecer neutro diante das religiões.

Portanto, um presidente da República não poderia simplesmente “decretar” que o Brasil pertence a Jesus Cristo. Um decreto presidencial não tem poder para transformar a natureza constitucional do Estado. Uma eventual mudança para um Estado confessional exigiria uma alteração constitucional de enorme alcance, confrontando o princípio da laicidade, a liberdade religiosa e a igualdade entre cidadãos de diferentes crenças — ou que não professam nenhuma.

É justamente aí que reside a gravidade política da fala de Flávio Bolsonaro. O candidato sabe, ou deveria saber, que não pode transformar uma convicção religiosa particular em fundamento jurídico do Estado. Ainda assim, apresenta a promessa como se fosse uma medida administrativa simples, capaz de ser tomada nos primeiros dias de governo. Não é.

O problema se torna ainda mais evidente quando se observa o histórico da própria família Bolsonaro. Em outubro de 2022, Jair Bolsonaro publicou uma oração na qual, na condição de chefe da Nação, afirmou renovar um pedido atribuído à Princesa Isabel para que Nossa Senhora fosse a “Suprema Governante” do Brasil. No mesmo ato simbólico, declarou entregar a Maria a faixa presidencial. A oração também falava em consagrar o país e em fazer do Brasil uma nação cujo Deus seria o Senhor.

A diferença é que, naquele episódio, a linguagem estava dirigida ao universo católico. Agora, Flávio Bolsonaro recorre diretamente à linguagem evangélica e pentecostal, falando em Jesus Cristo como fundamento da própria nação. A mensagem é clara: a família Bolsonaro parece disposta a enganar eleitoralmente os diferentes segmentos do cristianismo, mobilizando símbolos e crenças religiosas conforme o público que pretende alcançar.

Não há problema algum em um candidato declarar sua fé. Um cristão pode defender publicamente suas convicções, assim como qualquer cidadão pode professar sua religião. O problema começa quando a fé pessoal é apresentada como projeto de Estado e quando uma determinada compreensão religiosa é transformada em identidade oficial da República.

É também um desrespeito ao próprio eleitor evangélico. Muitos cristãos acreditam sinceramente em orações de consagração, em declarações de fé sobre a nação e na ideia de que o Brasil deve estar “nas mãos de Deus”. Flávio Bolsonaro sabe disso. Ao apresentar uma promessa constitucionalmente inviável como se fosse um ato de governo, ele pode estar explorando justamente essa dimensão da fé para produzir identificação eleitoral. É uma forma de jogar com a crença das pessoas.

A laicidade é uma das garantias que permitem ao cristão professar sua fé livremente sem que o Estado imponha outra religião — e também sem que uma determinada vertente cristã seja transformada em religião oficial. O mesmo princípio protege católicos, evangélicos, espíritas, religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, pessoas de outras tradições religiosas e também quem não acredita em Deus. O Brasil não pertence a uma igreja, a um pastor, a um padre ou a um presidente. O Brasil pertence aos brasileiros.

Mais do que uma promessa impossível, portanto, a declaração revela uma estratégia eleitoral. Ao transformar uma questão constitucional em slogan religioso, Flávio Bolsonaro aposta na emoção de parte do eleitorado evangélico e tenta fazer parecer que quem rejeita sua proposta estaria rejeitando o próprio Jesus. Essa é uma armadilha perigosa. Fé não é sinônimo de projeto de poder. E usar o nome de Jesus para vender ao eleitor uma promessa inconstitucional não é defender o cristianismo. É instrumentalizar a fé.

O MEP – Movimento Evangélico Progressista lançou uma nota de repúdio em relação à declaração de Flávio, que afronta tanto o princípio do estado laico quanto a liberdade de consciência de cada cristã ou cristão que exerce livremente sua cidadania, defendendo a plena liberdade religiosa para todas as pessoas.

<><> Eduardo Bolsonaro confirmou que Cerimedo ajudou tentativa de golpe de Jair e sinalizou ação com Flávio

o ato de premiação da Hispanic Prosperity Gala, evento de gala que premiou latino-americanos que ajudam os EUA, ocorrido em fevereiro em Mar-a-Lago, clube privado de Donald Trump na Flórida, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) confirmou que o argentino Fernando Cerimedo ajudou o pai, Jair Bolsonaro, na tentativa de golpe de 2022, e sinalizou que o marqueteiro, que atuou na campanha de Javier Milei, estaria com Flávio Bolsonaro na disputa atual.

“É uma honra estar aqui e abrir espaço para um argentino. E veja bem, quem fala é um brasileiro. Mas [falo de] um homem que quase fez com que eu fosse preso. E isso não é brincadeira. Fernando Cerimedo teve a coragem de ajudar o Brasil a partir da Argentina”, disse Eduardo, que explicou o motivo em seguida.

“Ao expor a possível fraude eleitoral ocorrida em 2022 — a eleição que tornou o socialista Lula da Silva o presidente eleito do Brasil. Fernando Cerimedo usou dados — dados do Tribunal Superior Eleitoral. Até hoje, seus vídeos no YouTube permanecem censurados no Brasil”, emendou, sobre a tentativa de Cerimedo, condenado juntamente com Jair Bolsonaro na ação sobre o golpe, de incendiar o Brasil após a vitória de Lula.

O vídeo foi gravado em Mar-a-Lago no evento que aconteceu no final de fevereiro na Flórida, mas passou a circular nas redes após a prisão de Cerimedo na Bolívia pela tentativa de assassinato da ex, a advogada Nádia Beller.

“É um grande prazer e uma grande honra convidar Fernando Cerimedo ao palco — um argentino corajoso que teve a ousadia de expor as injustiças que ocorrem no mundo. Estamos aqui juntos hoje para dizer a Alexandre de Moraes: “Não temos medo de você”. Você prendeu meu pai; nós vamos vencer as eleições de outubro com meu irmão Flávio e tirar você da Suprema Corte brasileira”, disse Eduardo em espanhol, ao anunciar o amigo no palco.

Cerimedo mantém até está segunda-feira (24) uma foto fixada em destaque ao lado de Eduardo Bolsonaro no dia da premiação em seu perfil no Instagram.

“Paguei meu preço, ganhei as manchetes, mudei perspectivas — tudo isso no espaço de um único dia. Treinei tropas — jovens corajosos — e os levei à fama, mantendo-me sempre fiel à causa”, disse Cerimedo ao receber a honraria, ao detalhar seu plano de impulsionar publicações e perfis da ultradireita, ajudando a eleger candidatos da base bolsonarista no Brasil.

<><> Sócio lobista

Amigo íntimo de Eduardo, Cerimedo tem como sócio Damián Merlo, um dos principais articuladores do lobby de políticos da ultradireita latina americana junto ao governo Donald Trump e intermediador de agentes da Casa Branca em campanhas presidenciais na região, como a de Nayib Bukele em El Salvador, de Javier Milei na Argentina e, ao que tudo indica, a que pretende colocar Flávio Bolsonaro (PL) na Presidência da República no Brasil.

Merlo aparece em documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos como responsável pela Latin America Advisory Group (LAAG), empresa registrada sob o Foreign Agents Registration Act (FARA), uma lei dos EUA criada em 1938 que exige o registro público de pessoas e empresas que fazem lobby ou propaganda no país a mando de governos ou entidades de fora. Ou seja, o sócio de Milei é lobista de governos latino-americanos junto à Casa Branca e ao Congresso dos EUA.

Amigo do clã Bolsonaro e pivô do vídeo contestando as urnas eletrônicas no Brasil em dezembro de 2022, em meio à tentativa de golpe de Jair Bolsonaro (PL), Cerimedo registrou, em maio de 2024, a sua empresa Numen Advisors LLC em Biscayne Boulevard, em Miami.

Segundo informações divulgadas pelo jornal mexicano La Jornada nestas segunda-feira (24), um documento submetido ao Departamento de Justiça dos EUA datado de 4 de setembro de 2023, é endereçado a “Fernando Cerimedo, CEO da Numen” e assinado por Damián Merlo, sócio da LAAG, documenta a assinatura de um contrato de colaboração com a campanha de Javier Milei até 10 de dezembro daquele ano.

O documento previa atuação sobre a imprensa americana, preparação de artigos de opinião, contatos com integrantes da Câmara e do Senado dos EUA, aproximação com comissões de relações exteriores do Congresso e articulação com importantes think tanks de Washington, entre eles Heritage Foundation, CSIS, Council on Foreign Relations e Atlantic Council. Também previa auxílio na organização de uma visita de Milei a Washington.

Ainda de acordo com o jornal mexicana, foi Merlo quem transmitiu a Cerimedo o pedido de entrevista do programa de Tucker Carlson a Milei. Cerimedo teria respondido imediatamente que cuidaria da operação. A entrevista acabou dando enorme projeção internacional ao então candidato argentino.

Expoente da ultradireita dos EUA, Carlson esteve no Brasil em junho de 2022, às vésperas do início da campanha presidencial para uma entrevista exclusiva com Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada. À época, ventilou-se que a intermediação havia sido feita pelo filho Eduardo Bolsonaro.

•        Sócio de empresa ligada à produtora de filme de Bolsonaro é integrante do PCC, diz MP

ark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, voltou ao centro da apuração sobre a rede de empresas ligada à sua produtora após o Ministério Público de São Paulo apontar Alex Leandro Bispo dos Santos, sócio da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., como integrante do PCC. A empresa foi subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora do longa bolsonarista.

Alex Leandro Bispo dos Santos está preso por feminicídio em São Paulo. A nova revelação amplia a pressão sobre o entorno de Dark Horse, que já aparece em apurações envolvendo contratos públicos, movimentação de recursos, suspeitas de lavagem de dinheiro e a produtora responsável pela cinebiografia de Bolsonaro.

O Instituto Conhecer Brasil firmou parceria com a Prefeitura de São Paulo no programa WiFi Livre SP, voltado à implantação de pontos de internet pública em comunidades da capital. A página oficial de convênios da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia registra termo de colaboração com o Instituto Conhecer Brasil no âmbito do programa.

<><> Dark Horse, PCC e a subcontratada no WiFi Livre SP

A Favela Conectada, empresa de Alex Leandro Bispo dos Santos, foi subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil para atuar no projeto de wi-fi em favelas de São Paulo. O acordo previa até R$ 12 milhões para a implantação de 2.000 pontos de internet nas zonas oeste e sul da capital paulista.

Um extrato contratual aponta pagamento de R$ 2 milhões à Favela Conectada em 7 de julho de 2025. A Prefeitura de São Paulo afirma que não teve vínculo contratual direto com a empresa nem com Alex Leandro Bispo dos Santos, e que a relação jurídica do município ocorreu exclusivamente com o Instituto Conhecer Brasil.

A gestão municipal também afirma que a Favela Conectada não atua como parceira do Instituto Conhecer Brasil no Programa WiFi Livre SP desde dezembro de 2025. O instituto sustenta que a contratação da empresa foi feita diretamente pela entidade, sem indicação da Prefeitura de São Paulo ou da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.

<><> Alex Leandro Bispo dos Santos é citado pelo Ministério Público de SP

Alex Leandro Bispo dos Santos está preso pelo feminicídio de Maria Katiane Gomes da Silva, que morreu após cair do 10º andar de um prédio na zona sul de São Paulo. Para o Ministério Público de São Paulo, a morte foi homicídio, e não suicídio.

Santos aparece em mais de 60 registros processuais no Conselho Nacional de Justiça. A presença do nome nos processos não significa que ele seja réu em todos, mas parte dos procedimentos envolve acusações criminais, como roubo, extorsão mediante sequestro e feminicídio.

A defesa de Santos nega a acusação de ligação com o PCC e também nega o feminicídio. O advogado Eugênio Malavasi afirmou que “evidência não é prova” e declarou que o empresário nega “peremptoriamente” integrar facção criminosa. Sobre a morte de Maria Katiane, a defesa sustenta que Santos não jogou a companheira do prédio.

<><> Produtora de Dark Horse já era alvo de apurações

A nova frente reforça a centralidade de Dark Horse nas apurações sobre a produtora ligada ao projeto bolsonarista. A Fórum já mostrou o suposto elo entre o filme de Bolsonaro e o PCC a partir de investigações sobre a rede financeira ligada ao longa.

Em outro desdobramento, a Polícia Federal pediu a quebra de sigilo da produtora responsável por Dark Horse. A apuração mira a movimentação de recursos ligados à produção do filme e seus possíveis vínculos com outros investigados.

Karina Ferreira da Gama também aparece vinculada a contratos públicos por meio de empresas e entidades relacionadas ao ecossistema da Go Up Entertainment. A Fórum revelou que a produtora de Dark Horse aparece em contratos com 51 governos, em uma rede que passou a ser escrutinada depois de o filme entrar no centro das apurações.

Até aqui, os elementos disponíveis indicam que a Favela Conectada foi subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil no projeto WiFi Livre SP. Não há, no material analisado, registro de contrato direto entre a Prefeitura de São Paulo e a empresa de Alex Leandro Bispo dos Santos.

O ponto central da nova revelação é que a subcontratada da entidade ligada à produtora de Dark Horse tem como sócio um empresário que, segundo o Ministério Público de São Paulo, integra o PCC e está preso por feminicídio.

 

Fonte: Por Zé Barbosa Junior, na Fórum

 

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