quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Dirceu minimiza impacto de crises e prega renovação do PT

De volta às urnas mais de 20 anos após ter o mandato cassado, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu reconhece que há insatisfação com o governo mesmo entre eleitores petistas, mas minimiza o impacto eleitoral de derrotas no Congresso ou de casos como a investigação contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente.

Aos 81 anos, o advogado afirma ter recebido "uma missão" de Luiz Inácio Lula da Silva para voltar à direção do partido e disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Em entrevista à DW, ele defendeu a renovação do Partido dos Trabalhadores (PT).

"Tenho defendido que o PT precisa ser reconstruído, até porque a nova geração é outra, o mundo é outro e o Brasil também mudou. O partido já começou, por assim dizer, um aggiornamento de seu programa e de sua visão sobre o país", afirma.

Segundo ele, há desgastes junto a parte da base eleitoral, especialmente entre jovens e mulheres. "Nós sabemos que há problemas culturais, religiosos, há insatisfação. O governo tem um ônus muito grande, porque já governamos cinco vezes, e o Lula está na terceira vez", pontua.

"É bom que haja. Nós estamos vivendo um outro momento. É um governo com muitas limitações, muitas restrições orçamentárias e muitas limitações políticas. Então é preciso compreender isso e assumir que nós temos propostas para mudar essa situação e estamos fazendo isso", diz, ao comentar que o PT precisa também ampliar sua campanha nas redes sociais.

Figura central na chegada de Lula ao Planalto em 2002 e na construção de uma política de alianças que rompeu o isolamento do PT no começo do século, Dirceu reconhece derrotas importantes do campo governista também no Congresso, mas vê espaço para negociação.

"Crises políticas ocorridas nos últimos meses também criam a consciência de que é preciso repactuar a relação entre Executivo e Legislativo", afirma Dirceu, que faz campanha virtual enquanto trata um linfoma.

Dirceu foi o principal articulador político do governo Lula entre 2003 e 2005, quando perdeu o mandato em meio ao escândalo do mensalão. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), chegou a cumprir pena, mas teve a punibilidade extinta por indulto concedido pela então presidente Dilma Rousseff, em 2016. Agora, destacarta qualquer cargo executivo em um eventual novo governo ou a intenção de liderar uma bancada na Câmara.

"Vamos fazer campanha como se estivéssemos perdendo", diz, ainda que veja pouca possibilidade de crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas. "Nós vamos trabalhar assim, não vamos subestimar, por mais debilitada que esteja a candidatura do Flávio."

<><> Corrupção e segurança na campanha

A corrupção e a segurança pública aparecem nas pesquisas entre os temas mais caros aos eleitores neste ano. Dirceu, porém, rejeita a avaliação que temas explorados pela oposição tenham potencial para alterar significativamente o cenário eleitoral, incluindo investigação por suposto tráfico de influência de Lulinha.

"Nós temos de responder a todas as questões da campanha. Existem problemas de corrupção? Existem, e o governo está combatendo, com a Polícia Federal, a CGU, a Receita Federal e o Coaf. Cada um responde pelos seus atos, como o presidente tem dito. [...] O filho dele tem de responder, como eu ou qualquer cidadão também têm de responder", afirma.

Ele defende, entretanto, que o país não deve repetir o interesse da direita em transformar segurança e corrupção na pauta principal e sobrepor esses temas a debates como o desenvolvimento econômico e a austeridade fiscal. "Não vamos cometer o erro histórico de transformar a corrupção no principal problema do país. Já fizemos isso durante a ditadura, que se apresentava como combate à corrupção e à subversão."

Ao comentar a campanha de Flávio Bolsonaro, afirma que o senador não conta com a mesma rede de apoio político que sustentou o bolsonarismo em 2018 e 2022. "Ele ainda não encontrou o discurso. [...] Está muito enfraquecido nos estados. Não acredito que ele consiga. Ou ele retoma o programa do pai, e aí retorna ao passado e perde a eleição, ou cria um programa."

O dirigente petista vê a escalada das tensões entre Washington e Brasília, do aumento de tarifas promovido por Donald Trump às sanções contra autoridades brasileiras, como uma tentativa explícita de interferência política em prol da candidatura de Flávio.

"É uma agressão política, porque ele quer intervir nos assuntos internos brasileiros, ele quer eleger a família Bolsonaro abertamente", afirma. "Há uma intervenção quando se cria uma agenda de conflito envolvendo o país e temas como big techs, terras raras e o Pix. [...] Essa crise internacional que o Donald Trump está criando gera consciência no país da necessidade de união e de buscar soluções para as nossas deficiências."

Ao comentar o avanço da direita também em diversos países latino-americanos, como Argentina,  Bolívia,  Chile, Colômbia, Peru e Equador, Dirceu relativiza a ideia de uma onda regional homogênea.

"O Brasil tem características diferentes das de outros países da região, porque nós temos um histórico que o Petro [ex-presidente da Colômbia] não tinha, nem muito menos o Castillo [ex-presidente do Peru] e o candidato dele." Ele defende uma agenda de integração regional voltada para infraestrutura, energia, combate ao narcotráfico e imigração, mas ressalta divergências com Washington em temas de segurança internacional.

<><> São Paulo como campo decisivo

Além da corrida presidencial, o ex-ministro considera a disputa estadual decisiva para a formação de maiorias políticas e vê São Paulo como peça-chave na disputa.

O estado elege a maior bancada da Câmara, com 70 deputados, e tem histórico recente favorável à direita. É também onde ele tenta retornar ao Congresso e onde o ex-ministro Fernando Haddad (PT) busca derrotar o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Há risco, segundo as pesquisas, de vitória do incumbente no primeiro turno, o que eliminaria um palanque para Lula no estado durante outubro.

"Evidentemente, o governador Tarcísio tem liderança, tem a sua coalizão partidária, tem apoio do prefeito da capital, que foi reeleito. Então nós não estamos enfrentando uma eleição como favoritos. Agora, dizer que é impossível vencer em São Paulo, eu não concordo desde o começo", pontua, ao destacar o consolidado eleitorado conservador no estado.

<><> Reforma política e relação entre os Poderes

Em seu retorno à vida política, Dirceu também tem impulsionado pedidos de uma reforma política, eleitoral e também no Judiciário. Ele concentra críticas nas emendas parlamentares impositivas, cujo volume se aproxima dos investimentos discricionários da União.

"O Congresso, empoderado com emendas impositivas, evidentemente muda o presidencialismo, muda o papel do Congresso, que inclusive invade atribuições do Executivo."

Como alternativa, propõe obrigações de transparência e vinculação dos recursos a programas prioritários do governo para distribuição dos recursos, cuja imposição diminui a margem de negociação do governo. Embora critique o sistema de emendas, relativiza a narrativa de isolamento do governo no Congresso.

A rejeição do nome de Jorge Messias ao STF pelo Senado, segundo ele, representou uma derrota política relevante, mas pontual. Como contraponto, cita o apoio de partidos de centro e de direita na Esplanada. "O Lula abriu um diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a segurança pública, a questão das terras raras, das blusinhas e o fim da escala 6 por 1. O pacto político é possível porque os problemas do país exigirão esse entendimento", argumenta.

Além da renovação partidária, Dirceu defende mudanças no sistema eleitoral, incluindo o debate sobre o voto em lista. Também considera necessário reavaliar o modelo de financiamento de campanhas após a proibição das doações empresariais.

"Naquele momento, a decisão de proibir o financiamento empresarial foi correta. Mas hoje há bilhões de reais concentrados nas mãos dos parlamentares, o que também produz poder econômico e influência política."

•        PT mira jovens e idosos em campanha contra abstenção nas eleições

O PT prepara uma campanha nacional para incentivar a participação de jovens e idosos nas eleições deste ano, com foco em dois grupos nos quais o voto é facultativo: brasileiros de 16 e 17 anos e eleitores com mais de 70 anos.

Segundo informações da CNN Brasil, a estratégia em discussão no partido prevê estimular que filhos e netos acompanhem seus avós até as seções eleitorais no primeiro turno. A iniciativa busca, ao mesmo tempo, garantir a presença dos mais velhos nas urnas e engajar os mais novos no processo eleitoral.

A preocupação central da sigla é reduzir a abstenção em um cenário de disputa presidencial. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (24) apontou que 6% dos eleitores afirmam que provavelmente não votarão.

O levantamento também mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem desempenho expressivo justamente nos segmentos que o partido pretende mobilizar. Entre eleitores com mais de 60 anos, Lula aparece com 41% das intenções de voto no primeiro turno. Na faixa de 16 a 24 anos, o petista registra 49%.

A avaliação interna é que uma campanha voltada a esses públicos pode ajudar a evitar perda de votos em grupos favoráveis ao presidente. Como o voto não é obrigatório para menores de 18 anos e maiores de 70, o comparecimento desses eleitores depende mais diretamente de mobilização política e familiar.

A proposta de incentivar jovens a levar idosos às urnas também tenta produzir um efeito duplo: ampliar a participação dos mais velhos e transformar a ida ao local de votação em uma ação de engajamento dos mais novos. A aposta é que a mobilização familiar ajude a reforçar a importância do voto e a reduzir a possibilidade de ausência no dia da eleição.

Em 2022, o PT já havia investido em uma campanha voltada ao eleitorado jovem, com o objetivo de estimular adolescentes de 16 e 17 anos a tirarem o título de eleitor. Dentro do partido, a avaliação é que aquela mobilização contribuiu para o desempenho de Lula contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Agora, a sigla busca reeditar parte dessa estratégia, mas com um componente adicional: associar a participação da juventude à presença dos idosos nas seções eleitorais. A ofensiva deve reforçar a ideia de que o comparecimento às urnas pode ser decisivo em uma eleição marcada pela disputa voto a voto.

•        Lula tende a ganhar, até no primeiro turno. Por Emir Sader

Qualquer análise minimamente imparcial aceitaria o favoritismo do Lula para ser reeleito presidente do Brasil. Todas as pesquisas o colocam em primeiro lugar, preveem sua vitória no primeiro e no segundo turno. Nenhum analista se arrisca a dizer que Flávio Bolsonaro vai ser o próximo presidente do Brasil.

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Não poderiam se apoiar em nenhuma pesquisa, mesmo se estas também são prisioneiras da situação de perderem interesse se afirmarem, claramente, o favoritismo do Lula. Algumas chegam a apontar o resultado absurdo de quase empate entre os dois candidatos no segundo turno. Quem acredita, sinceramente, nessa possibilidade?

Mas então por que a mídia não aceita essa realidade e segue especulando sobre o tema?

Em primeiro lugar, porque o tema perderia importância se se rendessem à maior probabilidade. Os leitores perderiam interesse, porque a eleição está praticamente definida. As próprias pesquisas perderiam importância e teriam menor destaque na mídia e na opinião pública.

Em segundo lugar, a Faria Lima prefere, claramente, Flávio Bolsonaro, que prega uma política neoliberal, a favor dos interesses do mercado e das grandes empresas. Ela se opõe às políticas do governo Lula e, ainda mais, às que ele provavelmente pode colocar em prática em um quarto mandato, caso consiga ter maioria no novo Congresso.

Opõe-se ao fortalecimento e à democratização do Estado, à prioridade das políticas sociais, à diminuição do desemprego. Estado forte significa mercado mais fraco. Diminuição do desemprego significa mão de obra com maior poder de negociação com os patrões, maiores salários e maior poder aquisitivo dos trabalhadores.

Um Lula forte não é do agrado da Faria Lima, porque significa um governo em condições de contrariar os interesses do grande capital.

A direita, por sua vez, está derrotada, comete um erro atrás do outro, se contradiz, não consegue sequer alianças para fortalecer seu candidato. Outros candidatos da direita se propõem até a substituir Flávio Bolsonaro como candidato dessa corrente. Vários o criticam abertamente. Até mesmo entre os que o apoiam, expressam-se críticas sobre as suas posições, em particular à dificuldade de chegar ao voto das mulheres, maioria no eleitorado.

Entre o próprio empresariado há os que apoiam abertamente o Lula, pela perspectiva favorável para a economia e para o país. Entre o chamado Centrão, por sua vez, há uma tendência abertamente favorável ao Lula, com a consciência de que ele é favorito para se reeleger e essa corrente vive da proximidade com o governo e com os cargos que consiga obter, conforme a força parlamentar que consiga manter.

A própria direita, de alguma forma, está resignada à possibilidade de uma nova derrota eleitoral e trata de concentrar suas forças no Congresso, onde acredita que poderia colocar dificuldades a um novo governo Lula e negociar com ele em condições favoráveis.

Dessa forma, o cenário político é favorável à reeleição do Lula. Conforme se iniciem os debates nos programas eleitorais, a força da presença e do discurso do Lula e a debilidade de Flávio, tanto porque a herança do governo do seu pai é pífia como porque, quando aconteceu aquele debate com a Jandira Feghali, ele revelou fraqueza até mesmo psicológica para enfrentar o Lula.

Também por estas condições, acredito que não apenas o Lula é favorito para ganhar, como sua vitória no primeiro turno é bastante provável. Até porque há um setor de eleitores que, na reta final, tende a votar pelo favorito.

 

Fonte: DW Brasil/Brasil 247

 

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