Qual
é o melhor horário para jantar e por que comer a mesma coisa tem efeitos
diferentes dependendo da hora do dia?
"Tenha
o café da manhã de um rei, almoce como um príncipe e jante como um
mendigo", disse meu amigo e colega espanhol Javier Hirschfeld, quando
perguntei sobre os hábitos de alimentação típicos da Espanha.
Ele
conta que ouve este ditado desde que era muito jovem.
Na
Espanha, como no Brasil, é comum que o almoço seja a maior refeição do dia e o
jantar consista em uma refeição leve. "Algumas pessoas simplesmente não
jantam ou comem uma fruta e um iogurte", ele conta.
Já no
Reino Unido e nos EUA, é mais comum ter um almoço leve, seguido por uma
refeição maior à noite. Mas é possível que estes países tenham invertido tudo,
segundo uma disciplina científica emergente chamada crononutrição.
Ela
sugere que a alimentação saudável não envolve apenas o que comemos, mas também
o horário em que nos alimentamos.
Além de
reduzir a obesidade e evitar doenças cardiovasculares, diversos estudos
demonstram que o nosso relógio corporal interno (o ritmo circadiano) desempenha
um forte papel na forma como processamos os alimentos e na nossa saúde em
geral.
E aqui
estão os motivos — e como podemos programar nossas refeições para capitalizar
este processo.
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Acerte o seu relógio pelo 'horário' certo
Marta
Garaulet, da Universidade de Murcia, na Espanha, começou a se interessar pelo
impacto do horário das refeições observando algo que aconteceu na sua clínica
de perda de peso.
Mais de
uma década atrás, ela atendeu duas pacientes que moravam juntas e seguiam
exatamente a mesma dieta. Mas elas apresentaram diferentes resultados de perda
de peso.
Uma
delas almoçava perto das 13 horas e a outra só conseguia comer mais tarde,
devido ao seu horário de aulas. "Esta era a única diferença", segundo
Garaulet.
Em seis
semanas, a estudante que almoçava mais cedo perdeu muito mais peso. Este
resultado a levou a investigar a intrigante possibilidade de que o horário das
refeições pudesse ter enorme influência sobre a perda de peso.
Em
conjunto com colegas da Universidade de Murcia, Garaulet acompanhou 420 adultos
na Espanha que participaram do mesmo programa de perda de peso por 20 semanas.
Ela concluiu que os participantes que almoçavam mais cedo perdiam mais peso e
com mais rapidez, em comparação com os que preferiam almoçar mais tarde.
De
forma similar, em um pequeno estudo randomizado controlado, 32 mulheres
saudáveis comeram as mesmas refeições por duas semanas. Aquelas que almoçaram
mais tarde apresentaram falhas no controle do açúcar no sangue e queimaram
menos carboidratos.
Desde
então, numerosos estudos concluíram que o ritmo circadiano influencia a nossa
fome, a digestão e o metabolismo.
Mas por
que comer exatamente a mesma comida, em horários diferentes, pode trazer
efeitos tão poderosos?
Apresentei
esta questão ao professor de medicina e neurocientista Frank Scheer, do
Hospital Brigham da Mulher em Boston, no Estado americano de Massachusetts.
Ele
respondeu que isso acontece porque "não somos a mesma pessoa de manhã e à
noite, do ponto de vista biológico". Ou seja, o nosso relógio corporal
interno regula quase todos os aspectos da nossa fisiologia, segundo Scheer.
Comer
em um horário em que o nosso relógio corporal sugere que é hora de dormir
poderá criar um desajuste biológico conhecido como "desalinhamento
circadiano". Um exemplo pode ser observado na forma em que regulamos o
açúcar do sangue.
Em um
estudo de 2022, com mais de 800 adultos, pesquisadores ofereceram a cada
participante uma bebida com glicose, destinada a imitar o teor de carboidratos
de um jantar típico.
Eles
concluíram que os participantes processaram a bebida com menos eficiência
quando a consumiam uma hora antes de dormir, em vez de quatro horas antes.
As
pessoas que tomaram a bebida mais perto da hora de dormir apresentaram níveis
mais altos de açúcar no sangue e produziram menos insulina, o hormônio que
ajuda a regular o açúcar na corrente sanguínea.
Os
pesquisadores acreditam que a melatonina, cujo nível aumenta quando o corpo se
prepara para dormir, desempenha papel importante neste processo.
"Se
você comer quando a melatonina estiver elevada à noite, o seu controle da
glicose será prejudicado", explica Scheer. Ele também participou deste
estudo.
O
efeito foi ainda maior entre as pessoas portadoras de uma variante comum do
gene MTNR1B, que foi associada ao aumento do risco de diabetes tipo 2.
Por
isso, ao longo do tempo, comer mais tarde poderá aumentar o risco de
desenvolver esta condição, cuja incidência vem aumentando progressivamente em
todo o mundo.
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Comer mais cedo para ter menos fome
Os
efeitos causados por comer mais tarde podem se estender além do controle do
nível de açúcar no sangue.
Uma
pesquisa concluiu que se alimentar mais tarde fez com que os participantes
sentissem mais fome no dia seguinte, por prejudicar os hormônios que regulam o
apetite e a saciedade. Já os que fizeram suas refeições mais cedo produziram
menos leptina, um hormônio que informa ao nosso cérebro quando estamos
satisfeitos.
Paralelamente,
o horário das refeições influencia como o nosso corpo armazena a gordura.
Em vez
de decompor a gordura, comer mais tarde pode levar as nossas células a
armazená-la. E, com o passar do tempo, isso poderá levar o nosso corpo a ter
dificuldade para manter o peso saudável.
O
horário das refeições pode, portanto, ser especialmente importante para as
pessoas portadoras de variantes genéticas que as tornam mais propensas a
aumentar de peso.
Em um
estudo com cerca de 1,2 mil adultos, uma equipe internacional de pesquisadores
(incluindo Scheer) concluiu que indivíduos com maior risco de obesidade que se
alimentavam mais tarde apresentaram índice de massa corporal mais alto. E fazer
as refeições mais cedo reduziu este risco.
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Aumentar o café da manhã melhora a saúde do coração
Comer
mais cedo também pode trazer benefícios à saúde cardíaca.
Um
estudo com mais de 100 mil pessoas realizado na França concluiu que as pessoas
que tomaram café da manhã mais tarde apresentaram maior risco de doenças
cardiovasculares.
Os
pesquisadores também associaram o jejum noturno mais longo, que ocorre quando
as pessoas se alimentam mais cedo à noite sem atrasar o café da manhã, à melhor
saúde cardíaca.
Esta
conclusão pode ser particularmente relevante para as pessoas que trabalham em
turnos, entre outros grupos vulneráveis ao "desalinhamento
circadiano", segundo os pesquisadores.
Para as
pessoas que trabalham à noite, o conselho é limitar a ingestão de alimentos,
quando possível, ao período diurno. Mas esta medida pode não ser segura para
todos. Os profissionais de saúde, por exemplo, podem precisar se alimentar para
manter altos seus níveis de energia.
Se você
tiver fome, faça lanches menores, ricos em proteínas, e tente postergar o
desjejum para o período da manhã, se os seus horários permitirem.
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Verifique se você é uma 'coruja' ou uma 'cotovia'
É claro
que os horários da nossa alimentação não estão totalmente sob o nosso controle
consciente. Eles também são influenciados pelo nosso cronotipo, que é o
conceito de que alguns de nós são mais ativos pela manhã e outros, à noite.
As
pessoas ativas de manhã são mais propensas a seguir uma dieta mediterrânea. Já
os tipos noturnos provavelmente atrasam as refeições e comem alimentos com
maior teor de energia mais tarde, segundo a professora Giovanna Muscogiuri, da
Universidade Federico 2° de Nápoles, na Itália.
Basicamente,
o nosso cronotipo também influencia como os nossos corpos reagem aos alimentos.
Os
tipos matutinos costumam ter picos de sensibilidade à insulina e liberação de
melatonina mais cedo, em relação aos tipos noturnos. Estes, por se alimentarem
mais tarde, são mais vulneráveis a ganhos de peso e ao controle mais fraco da
glicose.
Por
isso, ela afirma que devemos ter mais consciência sobre nossa predisposição
noturna ou matutina. E as pessoas que se alimentam mais tarde se beneficiariam
se passassem gradualmente a fazer suas refeições mais cedo.
Outro
ponto a considerar é que a duração e a qualidade do nosso sono afetam a nossa
fome e os nossos desejos. Se dormirmos pouco, é mais provável que passemos a
comer mais e escolher alimentos com alto teor de energia. Isso poderá trazer
ganho de peso ao longo do tempo, segundo Muscogiuri.
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Como comer de forma inteligente
O
conselho prático é relativamente simples.
Tente
se alimentar em horários regulares e comer carboidratos ricos em fibras, como
cereais integrais, legumes (feijão, ervilhas e lentilhas) e frutas no início do
dia, quando o corpo tem mais capacidade de processá-los. E, à noite, opte por
uma refeição mais leve, idealmente rica em proteínas.
Em um
estudo recente, Muscogiuri também recomenda que, à noite, pode ser benéfico
incluir alimentos que ajudem a promover o sono, como nozes e sementes, além de
fontes de proteína ricas em triptofano, como frango, salmão e atum. Já se
demonstrou que o triptofano melhora a qualidade do sono.
Certamente,
irei prestar mais atenção ao meu relógio corporal interno no futuro.
O
hábito do meu amigo espanhol, de fazer do almoço a maior refeição do dia, é
particularmente tentador. Eu poderia tentar cozinhar de manhã, antes de começar
meu dia de trabalho. Talvez eu possa até comer uma paella.
Mas
qual é o melhor horário para jantar? Bem, na verdade, não existe um horário
ideal.
Mas
deveríamos preferencialmente fazer nossa refeição maior mais cedo, durante o
dia, e jantar pelo menos três horas antes de irmos para a cama.
Fonte:
BBC Future

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