Bets
causam prejuízo ao PIB cinco vezes maior do que tarifaço de Trump, aponta
estudo
Além
dos riscos de vício, impactos sobre a saúde e sobre o endividamento e a
situação financeira de milhares de brasileiros, as apostas têm um efeito maior,
que ultrapassa suas consequências sobre o orçamento doméstico das famílias.
Para mensurar esse efeito, o economista Guilherme Klein, professor da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de
Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo
(Made-USP), calculou o impacto das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB,
soma de bens e serviços produzidos pelo país), a arrecadação do governo e a
desigualdade.
Segundo
o estudo inédito, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da
atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1%
do PIB daquele ano. "Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada
corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025
[que foi de 2,3%] e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do
tarifaço americano sobre o PIB brasileiro", compara Klein, no estudo.
Em
setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da
Fazenda estimou o potencial impacto da tarifa de importação de 50% imposta
pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros em 0,2 ponto percentual do PIB
entre agosto daquele ano o final de 2026. Em julho, esse tarifaço foi
prorrogado por mais um ano e os EUA anunciaram tarifas adicionais de 25% e
12,5% neste ano. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto
Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidades representativas do setor de
bets, reconhecem "a importância de aprofundar o debate sobre os impactos
econômicos e sociais das apostas", mas afirmam que os resultados
"devem ser interpretados com cautela".
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O custo econômico das bets
Para
calcular o efeito das bets sobre o PIB, Klein parte de uma estimativa de
transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas de apostas.
"Estamos falando basicamente da diferença entre o que é gasto pelas
famílias em apostas e o que elas recebem de volta", diz o economista.
"Porque, pela própria natureza do jogo, obviamente o que as pessoas vão
receber, em média, é menor do que o que elas pagam."
Um
estudo recente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita
ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em
estatísticas de pagamentos do Banco Central, estima essa transferência líquida
de recursos em R$ 62,5 bilhões em 2025. Esse valor importa, explica Klein,
porque cada R$ 1 "perdido" para apostas representa menos dinheiro
disponível para o consumo. A partir desse dado, o pesquisador busca estimar
como essa transferência de recursos está distribuída entre as diferentes faixas
de renda. "As pessoas de renda menor gastam proporcionalmente mais da
renda delas com consumo", observa Klein. "Porque a pessoa que ganha
pouco acaba tendo que gastar tudo com aluguel, alimentação, vestuário e assim
por diante. Então, levamos isso em conta para entender esse efeito
agregado."
Com
base em outras pesquisas já publicadas, o economista constrói então dois
cenários: um em que a maior parte do gasto com apostas vem da faixa de menor
renda (até 2 salários mínimos, ou R$ 3.036 em 2025), e outro em que o gasto é
mais concentrado nas faixas de renda mais alta. De posse desses dois cenários,
o economista aplica um multiplicador — uma estimativa de quanto R$ 1 a mais ou
a menos no bolso das famílias se converte em mais ou menos consumo na economia.
"Fazendo esse cruzamento, chegamos a um efeito entre R$ 120 bilhões e R$
141 bilhões — um valor bem importante, porque é quase 1% do PIB", observa.
"O contrafactual, que é o que teria acontecido [sem as apostas], é sempre
difícil de fazer em economia, mas esse montante é basicamente metade de todo o
crescimento que a gente teve em 2025." Klein observa que, mesmo levando em
conta a estimativa de empregos diretos e indiretos gerados pelas plataformas de
apostas — cerca de 15,5 mil, segundo um estudo da LCA Consultores para a ANJL e
IBJR, cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda total na
economia — esse impacto negativo pouco muda.
Um
outro estudo, realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens,
Serviços e Turismo (CNC) e publicado em abril deste ano, estimou que o avanço
da inadimplência severa, parcialmente atribuída aos gastos com bets, retirou R$
144 bilhões nas vendas do comércio entre 2024 e 2025. Segundo a CNC, o impacto
somente no comércio é equivalente às vendas de "dois Natais",
principal data do varejo brasileiro, cujas vendas anuais giram em torno dos R$
70 bilhões. "As bets não representam apenas entretenimento; configuram-se
como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos
que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo",
destaca a confederação.
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Menos arrecadação, mais desigualdade
A
partir da estimativa da queda do PIB, Klein calcula o impacto para a
arrecadação do governo. "Isso ocorre basicamente via tributos indiretos,
porque cada real gasto com consumo paga imposto", explica Klein. Ele cita
como exemplos o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o
Imposto Sobre Serviços (ISS) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI),
que serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela
Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com a reforma tributária, que começou
a ser implementada este ano.
No
estudo, Klein estima que uma queda de 1% no PIB provoca uma perda de 0,8% a
1,2% na arrecadação. Como a carga tributária bruta foi de cerca de 32,4% do PIB
em 2025, a redução da atividade econômica causada pelas bets implicaria uma
perda líquida de R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões da arrecadação, descontados os
R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com os impostos cobrados das plataformas
de apostas.
O
economista observa que esse dado é importante, porque as apostas muitas vezes
são colocadas como algo que está gerando arrecadação para o governo. Mas,
devido à perda de consumo, esse efeito pode ser, na verdade, negativo, quando
as duas coisas são colocadas "na ponta do lápis". "E isso sem
nem entrar na questão dos gastos gerados, como as despesas com saúde devido ao
vício", destaca o professor da UFRJ. Por fim, para estimar o potencial
impacto das apostas sobre a desigualdade, Klein também elabora dois cenários:
um que considera que a perda de R$ 62,5 bilhões com bets se concentra nos 99%
da população fora do 1% mais rico, e outro que considera que não só isso
acontece, como que esse valor é transferido ao 1% mais rico (um cenário
extremo, pois é sabido que parte das empresas de apostas são estrangeiras,
então uma parte desses recursos vai, na verdade, para fora do país).
Nesses
dois cenários, o aumento da concentração da renda no topo (esse 1% mais rico)
varia de 0,5% a 2,1%, algo relevante num país que é ainda hoje um dos mais
desiguais do mundo.
Para
Klein, o que os resultados sugerem é que o Brasil deveria, no mínimo, aumentar
a tributação das bets. "A taxação tem que ser ampliada, para que, pelo
menos, tenhamos um aumento da arrecadação líquida", defende o economista.
"Não faz sentido nenhum permitir uma atividade que reduz a arrecadação,
que aumenta a desigualdade num país já tão desigual, e causa uma série de
outros problemas sociais e de saúde, que são o que a gente em economia chama de
externalidades", observa.
O
pesquisador cita o exemplo dos cigarros, que causam doenças que oneram o
sistema público de saúde, e por isso são altamente taxados. "Faz todo o
sentido ter uma tributação alta o suficiente para, no mínimo, cobrir esses
custos a mais que essa atividade gera."
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O que dizem as associações representativas das bets
Questionada
sobre os resultados do estudo, a ANJL afirmou em nota à BBC News Brasil que
"tais estimativas devem ser analisadas com cautela antes de serem
divulgadas como verdadeiras e robustas". Segundo a entidade, o exercício é
"fortemente dependente das hipóteses adotadas, e não uma estimativa causal
do efeito das bets sobre o PIB". A ANJL considera que o multiplicador
adotado por Klein no estudo é desproporcional, que o valor de R$ 62,5 bilhões
em perdas estaria superestimado, e que a análise ignora que apostas são bem de
lazer e substituem outros gastos de entretenimento, como cinema, teatro,
streaming e futebol. A associação refuta ainda a comparação com o crescimento
de 2025, observando que as bets já existiam em 2024. "Para avaliar quanto
sua expansão teria reduzido o crescimento do PIB em 2025, seria necessário
estimar principalmente o efeito incremental entre 2024 e 2025, e não comparar
todo o suposto efeito de nível existente em 2025 com a variação do PIB naquele
ano", pondera.
Já o
IBJR destaca que os resultados "partem de uma estimativa contrafactual de
R$ 62,5 bilhões, e não de perdas efetivamente observadas nas operadoras";
questiona algumas das pesquisas escolhidas por Klein como base para o estudo; e
a premissa de que os recursos destinados às apostas seriam integralmente
redirecionados ao consumo. "O estudo também não mensura, com metodologia
equivalente, o valor adicionado pelo setor regulado, incluindo aspectos como
geração de empregos, cadeia de fornecedores, tecnologia, publicidade,
patrocínios, investimentos e arrecadação tributária", observa o IBJR.
"Ressaltar essas limitações não significa desqualificar o estudo, mas
contribuir para uma avaliação mais ampla e consistente dos seus
resultados", diz o instituto. "Em uma questão de tamanha relevância
econômica e social, é necessário que a análise dos impactos considere a
qualidade das bases utilizadas, os critérios metodológicos adotados e o
conjunto das evidências disponíveis."
• Apostadores de bet em periferias buscam
ajuda após vida virar pesadelo
As
lembranças misturam-se como em um pesadelo. Kaio*, de 42 anos, lembra-se de uma
madrugada silenciosa em julho em que o celular tocou com anúncios de chances de
apostas. Primeiro, ficou eufórico. Aos poucos, engoliu em seco. Perdeu R$ 1
mil. Depois, R$ 2 mil. Em minutos, R$ 5 mil. Era justamente o dinheiro que um
amigo o emprestou para que ele pagasse dívidas com agiotas por causa de outras
apostas em bets. Ninguém estava acordado em casa. Nem a esposa nem os dois
filhos (um de 10 e outro de 4 anos). Eles estavam em sono profundo na casa
simples em uma área periférica do Distrito Federal. Kaio anda pela casa. Não
era um pesadelo. Mas ele sentiu o chão se abrir. Não ouviu as vozes das pessoas
que ele ama ao clarear do dia. Só pensou nas dívidas. Mas pensou em apostar
mais para diminuir o prejuízo.
Quando
o filho mais velho pediu que o levasse até a casa da avó, que acompanharia o
garoto até a escola, Kaio concordou com a cabeça. Ele continuou no celular.
“Pareceu que se passaram poucos minutos. Quando olhei para trás, meu filho não
estava mais”. Isso porque havia se passado mais de três horas. “Eu perdi a
noção de tudo. Inclusive do tempo”. Perder a noção de tempo é um dos
indicativos da ludopatia, doença que consiste em um transtorno de controle dos
impulsos para jogos. Desse tempo que Kaio viu voar, lembrou de quando tudo
começou: dos momentos de descanso como motorista de uma prefeitura em uma
cidade de Goiás em que foi apresentado às bets. De como se envolveu mais do que
poderia e deveria. Entende que o vício começou principalmente depois de apresentar
sintomas de depressão com a perda do pai para o câncer.
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Chão frio
Por
causa das dívidas de jogo, teve que vender o carro financiado para pagar as
dívidas. Depois, móveis. Depois, a casa da família. Avisou a esposa dois dias
antes de terem que desocupar o imóvel. Perdeu a casa e o casamento acabou. “A
dignidade também”, diz. Hoje, lamenta dormir sobre o chão frio, em pedaços de
papelão, em um dormitório alugado. Nem o dinheiro do carro ou o da venda da
casa foram suficientes para pagar os mais de R$ 200 mil em dívidas. Foi
necessário também pedir demissão do emprego e utilizar a rescisão para pagar
novas dívidas. Kaio compreendeu que precisaria de ajuda profissional e passou a
frequentar um centro de apoio psicossocial (Caps) no Distrito Federal, onde se
reúne em grupos para dividir as experiências. “Eu passei a tomar três remédios
por dia. E os grupos [terapêuticos] fazem com que eu não me sinta mais
sozinho”, afirmou. Ele diz que esse vício é o pior que já enfrentou. “Pior do
que minha dependência no passado em álcool e outras drogas. Nunca me senti tão
perdido na vida. Hoje reconheço que preciso de terapia.” Atualmente, ele
trabalha em uma escola no interior de Goiás no serviço de reposição de
alimentos. “Estou recomeçando minha vida. Espero que meus filhos um dia me
perdoem.”
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Riscos e tratamentos
A
psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti (que trata e estuda o
transtorno do controle de impulso) do Hospital das Clínicas de São Paulo,
explica que pessoas em vulnerabilidade, nas classes C e D, são as mais
atingidas. Esse público costuma procurar melhorias nas condições de vida, mas
se deparam com desinformação e publicidade enganosa por todos os lados.
Pessoas
mais vulneráveis, moradoras de comunidades periféricas e que ganham perto de um
salário mínimo viram alvos fáceis, avaliam as especialistas consultadas pela
reportagem. As pessoas são atacadas por anúncios que induzem a uma falsa ideia
de que o jogo serviria como uma complementação de renda. “São pessoas que
querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter com as bets. Isso
se tornou realmente muito perigoso”. O contexto social eleva a vulnerabilidade
das pessoas afetadas pelo transtorno. “Quando você pensa em um jovem que reside
numa comunidade, todo o dinheiro que ele perde, impacta na subsistência da
família”. Isso impacta a saúde mental dos pacientes.
Kátia
Branco contextualiza que a distorção da realidade provocada pelos estímulos
aumenta a impulsividade da pessoa em maior vulnerabilidade social. O
endividamento “em cascata” provoca agravamento de sintomas como depressão,
ansiedade e ideação suicida. Ela lamenta ainda o crescimento do número de
transmissões esportivas que tratam a aposta como uma brincadeira sem grandes
consequências. “Aumentou a procura no ambulatório e em vários serviços em busca
de ajuda para o tratamento”, testemunha. A pesquisadora defende a necessidade
de preparar melhor os psiquiatras que estão na rede pública. Inclusive porque
há uma diversidade de perfis de pacientes, incluindo homens, mulheres,
adolescentes e idosos.
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“Cassino na palma da mão”
Segundo
a psicóloga Claudia Feres, da secretaria de Saúde do Distrito Federal, o
tratamento contra a ludopatia, que é uma doença, leva em conta que se
caracteriza por um transtorno de controle dos impulsos. “Aliado agora à
tecnologia e a esse mundo das telas, a pessoa tem um cassino na palma da mão
para acessar sem sair de casa e a qualquer hora”. Ela explica que é importante
tratar a doença dentro da lógica da redução de danos tentando fazer com que a
pessoa se afaste do celular.
“Há
quem comece a usar os joguinhos por desinformação e falta de perspectiva”.
A
psicóloga explica que as unidades de saúde contam com equipes
multidisciplinares para atender pessoas em diferentes estágios da doença. O
ideal, segundo ela, é que a própria pessoa e familiares possam procurar
atendimento o quanto antes. Há diferentes sinais para gerar atenção: a pessoa
evita se socializar, trocar a madrugada pelo dia e demonstra nervosismo. “Nos
Caps, pessoas chegam com um pedido de socorro desesperado. Nós fazemos o
acolhimento e buscamos trazer a família para perto. A ideia é pensar em
estratégias que façam sentido”, afirma a psicóloga.
A
profissional explica que, ao mesmo tempo em que a pessoa carrega culpa, também
leva em conta que o jogo gera um dos únicos prazer que tem. “O paciente perde,
além de tudo, o respeito das pessoas. Vai sendo abandonada pela família e
também se abandonando”. Há, então, um contexto social que fragiliza o
indivíduo. Por isso, pode ser incorreto atribuir a alguém uma predisposição
para a doença. “Se você singulariza e responsabiliza unicamente um indivíduo,
ignora-se que o problema é muito maior. A solução tem que ser no âmbito
coletivo e de políticas públicas também”, afirma.
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Controle
Foi com
essa expectativa que outro paciente, que aqui chamaremos de João*, de 32 anos,
procurou uma unidade do Caps. Ele, que ficou paraplégico “após uma briga”, faz
tratamento semanalmente em um grupo terapêutico e costuma ser acompanhado pela
mãe. Eles conseguiram transporte de casa para uma comunidade a 30 quilômetros
do Caps que frequenta. A maior preocupação da mãe no momento é que o filho
passou a gastar os poucos recursos da família com jogos online hospedados em
sites de bets. “Na verdade, não consigo me controlar. Não sei o quanto já
perdi”. A mãe espera que nada interrompa o tratamento dele. A psiquiatra Kátia
Branco, do Hospital das Clínicas da USP, alerta que o apoio da família se torna
fundamental para que os pacientes mantenham a medicação em ordem e as sessões
de atendimento.
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Abstinência
No
entanto, há quem ainda resista às terapias mesmo com sinais de dependência. O
pedreiro autônomo Ricardo*, de 26 anos, é morador da comunidade do Sol
Nascente, a segunda maior favela do Brasil. Ele diz que faz apostas desde 2018
e não contabilizou exatamente o quanto perdeu. “Mais de R$ 100 mil”. Começou a
apostar pela curiosidade e pelo que ouviu de amigos que poderia ter um
acréscimo de renda e ainda se divertir. Essa é uma alegação falsa e perigosa.
No começo, ele até conseguiu ganhar uma ou duas vezes. Não passavam de
chamarizes para o que viria depois.
Pai de
um menino de dois anos de idade, o rapaz viu o relacionamento acabar por causa
das dívidas causadas por bets. “Já fiquei até de madrugada. A abstinência bate
tão forte que a gente não consegue ter uma noite de sono normal”, explica. Ele
acredita que abriu os olhos antes de se afundar mais. Afirma que foi criado por
mãe solo e que não teve coragem de contar para ela ter perdido dinheiro em
apostas. Ele pôde estudar apenas até a oitava série. “Eu acho que não me
considero viciado porque não tive que vender coisas de casa para pagar
dívidas”.
Ricardo
testemunha que é comum haver convites na comunidade para que grupos se reúnam
de forma online para trocar ideias sobre como ser mais efetivo na aposta.
“As
pessoas se unem. O mesmo gráfico (do cassino) que roda para um, dependendo da
plataforma, roda para todos. Do mesmo jeito que pagou para mim, vai pagar para
o próximo”. Como hoje trabalha de forma autônoma com reformas, sonha um dia
poder fazer uma faculdade de engenharia e esquecer dos problemas que já
atravessaram sua vida, inclusive ter dificuldade de pagar pensão alimentícia.
Para evitar as tentações por mexer no celular durante a madrugada, ele desliga
o telefone e tenta manter o mais longe possível do aparelho.
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Jogo problemático é “questão séria”
Em nota
à Agência Brasil, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que diz
representar 75% do mercado brasileiro, afirmou que reconhece a importância do
debate sobre a prevenção ao jogo problemático e à proteção das pessoas em
situação de vulnerabilidade. “O instituto reforça que as apostas devem ser
tratadas sempre como uma forma de entretenimento, nunca como fonte de renda ou
alternativa para subsistência”, aponta. A entidade considera que, desde o
início do mercado federal regulado, no início do ano passado, as empresas
autorizadas passaram a operar com regramento e controle. Considera ainda que o
“jogo problemático é uma questão séria” e seu enfrentamento exige atuação
coordenada entre poder público, reguladores, empresas, entidades e sociedade
para a prevenção e no atendimento das pessoas que necessitem de suporte.
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“Regras são rigorosas”, avalia instituto
Em
relação aos anúncios publicitários, os empresários do setor entendem que as
ações de comunicação passaram a estar submetidas a regras específicas e
rigorosas. “Isso inclui medidas para a proteção de crianças e adolescentes, e a
vedação absoluta de mensagens que apresentem as apostas como alternativa de
enriquecimento ou solução financeira”. A entidade garante que mantém diálogo
constante com o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar).
Ao mesmo tempo, opina que a regulamentação brasileira do setor de apostas é uma
“das mais modernas do mundo, com obrigações tributárias e normas operacionais”.
O IBJR
acrescenta que o combate às plataformas ilegais, que não estão submetidas às
mesmas regras de fiscalização e controle. “O fortalecimento do ambiente
regulado contribui para ampliar a rastreabilidade das operações, a
responsabilização dos operadores e os mecanismos de proteção aos apostadores”.
Pessoas
entrevistadas pela Agência Brasil não tiveram seus nomes identificados na
reportagem em função da situação de vulnerabilidade que enfrentam.
Fonte:
BBC News Brasil/Agencia Brasil

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