quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guerra contra o Irã encarece comida e energia no Sul Global enquanto Israel enfraquece rivais para dominar a região

A guerra dos Estados Unidos e Israel contra Irã e Líbano, assim como o genocídio que continua sendo cometido na Palestina, estão reconfigurando o panorama político da região. As alianças estão se recalibrando e as velhas hipóteses sobre o poder dos Estados Unidos estão sendo postas à prova. A guerra também pôs em evidência até que ponto a economia mundial continua ligada aos combustíveis fósseis e à importância estratégica do Golfo para as redes internacionais de energia e comércio.

Estas crises demonstram igualmente que o que ocorre na Palestina não fica na Palestina. O imperialismo e a exploração estenderam-se por toda a região, e suas repercussões estão sendo sentidas intensamente por todo o Sul Global, com o aumento dos preços da energia, a insegurança alimentar e as interrupções das cadeias de fornecimento; e tudo isso intensifica a precariedade econômica. Portanto, compreender a Palestina é compreender o sistema que produz estas crises.

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·        Desde Abajo: Como a atual guerra regional está remodelando a relação entre Estados Unidos, Israel e os Estados árabes do Golfo?

# Adam Hanieh: O que temos visto nas últimas duas décadas é uma tentativa por parte dos Estados Unidos de normalizar as relações entre os Estados árabes do Golfo e o regime israelense, que são, de fato, os dois pilares de seu projeto imperial no Oriente Próximo. Isso é claramente anterior ao genocídio em Gaza e à guerra dos Estados Unidos e Israel contra Irã e Líbano. Compreender esta trajetória requer situá-la em um contexto geopolítico mais amplo. Em resposta ao declínio relativo do poder global estadunidense, Washington tentou reafirmar sua supremacia em regiões como o Oriente Próximo. Uma das formas como o fez é unindo estes dois pilares sob um guarda-chuva estadunidense mais extenso.

A ascensão da China e o papel do Golfo na economia energética mundial são elementos centrais desta estratégia. A China depende, aproximadamente, em 60% do Oriente Próximo para suas importações de petróleo e, em boa parte, de seu gás natural liquefeito (GNL); por sua vez, o Golfo tornou-se um centro logístico-chave para as aspirações comerciais internacionais de Pequim. Ao mesmo tempo, apesar do aumento do investimento em energias renováveis, não estamos assistindo a uma verdadeira transição que abandone os combustíveis fósseis. De fato, a produção mundial de petróleo, carvão e gás alcançou níveis recorde no ano passado. Pelo contrário, o que estamos vendo é um processo acumulativo em que as energias renováveis se superpõem a uma base de combustíveis fósseis em expansão.

As monarquias do Golfo exemplificam esta dinâmica: lideram a expansão das energias renováveis em toda a região, ao mesmo tempo que aumentam a produção de petróleo e gás, sobretudo para reduzir o consumo doméstico de combustíveis fósseis para gerar eletricidade e para exportar mais petróleo e gás para o estrangeiro. Por estas razões, o Golfo continua sendo estratégico para esta ordem mundial dominada pelos combustíveis fósseis, não só para os Estados Unidos, como também para a China e para a economia global em geral. Portanto, um componente geral da estratégia estadunidense radica em contrapor-se à crescente influência da China na região por meio do projeto de normalização, ao mesmo tempo em que garante o controle permanente das redes energéticas e comerciais que sustentam a economia global.

# Diana Buttu: Depois dos acontecimentos de outubro de 2023, a opinião pública israelense deixou de se interessar pela normalização. Deixou de ser uma prioridade na agenda e continua assim. Em seu lugar, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pôs seu foco em debilitar os Estados árabes e reduzir sua influência política e econômica. É por isso que, ao longo dos últimos meses de guerra — uma guerra impulsionada por Israel —, um dos objetivos do regime israelense foi fomentar uma ruptura entre os próprios Estados árabes. Em certa medida, esta ruptura já se materializou. Ao mesmo tempo, o regime israelense tentou debilitar economicamente os Estados árabes com o objetivo de consolidar-se como potência regional dominante. A questão já não é a normalização, mas sim criar uma ordem regional que obrigue estes países a tratar com o Estado sionista e na qual a única forma de chegar aos Estados Unidos seja por meio de Israel.

O que Netanyahu, seu Governo e grande parte da opinião pública israelense priorizam agora é o domínio regional. Não só o domínio militar e político que Israel já vem impondo há muito tempo graças a sua relação com os Estados Unidos, mas também uma forma mais ampla de supremacia que não permita que apareça na região nenhuma outra potência competidora. O que inclui debilitar a influência econômica dos Estados do Golfo. Desta perspectiva, ações como o ataque de Israel contra o Catar em setembro de 2025 e a constante pressão pelo confronto com o Irã refletem uma lógica estratégica mais ampla. Até os ataques de represália contra Israel são considerados um custo aceitável se propiciam objetivos de maior calado, como a expansão territorial em lugares como Líbano, Síria e Gaza, e o debilitamento de centros alternativos de poder econômico e político árabes. Ainda assim, no Golfo estão emergindo diferentes setores. Alguns atores se questionam por que investiram tanto nos Estados Unidos — e, no caso dos Emirados Árabes Unidos (EAU), em acordos com Israel — se nenhum dos dois foi capaz de oferecer uma proteção ou assistência reais. Outros, no entanto, dobram a aposta e garantem que o único caminho viável para avançar continua sendo um alinhamento mais profundo. O que é relevante é que já não parece haver um enfoque regional unitário e unificado como acontecia no passado.

·        Supõe que a decisão dos Emirados Árabes Unidos de abandonar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) significa uma consolidação mais profunda de sua aliança com o regime israelense?

# Adam Hanieh: Parte da decisão dos EAU de retirar-se da Opep tem a ver com a situação atual do mercado mundial do petróleo. O papel principal da Opep foi tradicionalmente moderar a oferta de petróleo no mercado internacional, mas, em um contexto em que os preços do petróleo estão elevados — e sendo provável que se mantenham assim em um futuro próximo —, os EAU buscam maior liberdade para aumentar a produção e as exportações sem estas restrições. Este movimento reflete ainda tensões mais profundas entre os EAU e a Arábia Saudita, que segue sendo a força dominante dentro da Opep. Igualmente, a economia dos EAU diversificou-se mais nos últimos anos. O petróleo continua sendo essencial, mas setores como a logística, as finanças, os produtos petroquímicos, a inteligência artificial, os centros de dados e as energias renováveis cresceram consideravelmente, o que significa que o petróleo ocupa agora um papel algo menos dominante do que antes. Dito isto, está claro que os EAU, em particular, aprofundaram recentemente sua relação tanto com Israel como com os Estados Unidos, movidos por sua determinação estratégica geral de fortalecer os laços com Israel por meio do projeto de normalização que surgiu dos Acordos de Abraão. É o que se aprecia nos informes sobre o fornecimento de sistemas de armas por parte de Israel aos EAU durante a guerra em curso e nas especulações da imprensa israelense em torno da visita de Netanyahu aos EAU há alguns meses. De maneira que, pelo menos no caso dos EAU, a normalização parece estar se intensificando. Ainda assim, não surpreenderia que houvesse debates entre a elite política dos Emirados sobre se esta é a estratégia adequada a seguir. No caso da Arábia Saudita, por sua vez, a situação continua sendo mais complicada e reflete em parte a fratura entre este país e os EAU. Resta ver se a Arábia Saudita seguirá finalmente o mesmo caminho.

·        O que revela o enfoque do regime israelense sobre a normalização com os Estados árabes, quanto a como vê seu lugar na região?

# Diana Buttu: Antes de outubro de 2023, existia um grande impulso em Israel para avançar no projeto de normalização com os Estados árabes. Este projeto se baseava sobretudo em marginalizar os palestinos e enviar uma mensagem à opinião pública israelense de que o regime nunca necessitara realmente abordar a questão palestina. Que, em troca, podia manter a paz e os laços econômicos com o mundo árabe sem pôr fim à ocupação, sem desmantelar o projeto colonial e, claro, sem abordar os direitos fundamentais dos e das palestinas e, o que é mais importante, o Direito ao Retorno. O regime israelense vem afirmando há muito que quer “paz com seus vizinhos”, mas, apesar de contar com um acordo de paz com o Egito desde 1979, nunca teve o que poderia ser descrito como uma paz cordial com o Egito. O mesmo ocorre com a Jordânia, apesar do acordo de 1994. E, ainda que o regime israelense nunca tenha estado em guerra com os EAU, a relação com este país também foi muito assimétrica. É verdade que há israelenses que viajam aos EAU, mas não se observa o mesmo fluxo na outra direção. No entanto, desde outubro de 2023, mesmo o debate sobre a normalização desapareceu quase por completo do discurso público israelense. De fato, me surpreenderia que a maioria das e dos israelenses conseguissem mencionar cinco países árabes além dos quatro que acabamos de mencionar. Em parte, isso se deve ao fato de que Israel considera a si mesmo separado da região. As e os israelenses não costumam aprender árabe e, historicamente, Israel imaginou a si mesmo alinhado com a Europa mais do que integrado ao Oriente Próximo. Por esta razão, a normalização nunca teve a ver realmente com a integração na região. Desde outubro de 2023, o discurso político israelense polarizou-se ainda mais. Como resultado, a normalização já não parece ser o objetivo central. Em termos gerais, atualmente as e os israelenses não se preocupam com a normalização. Pode-se dizer que nunca se preocuparam. A retórica sempre se expressou em torno da paz, mas a trajetória política focalizou cada vez mais o domínio e não a coexistência.

·        Que papel desempenha a China ante o relativo debilitamento da dominação estadunidense na região?

# Adam Hanieh: Ainda que os Estados Unidos continuem dominando do ponto de vista militar e financeiro, creio que estamos assistindo a um enfraquecimento relativo de seu poder em nível internacional. Sua posição já não é tão indiscutível como era antes. Ao mesmo tempo, creio que no interior da China há um debate em curso acerca de até que ponto deve desempenhar um papel ativo no Oriente Próximo, ou se lhe interessa mais permitir que os Estados Unidos continuem enfrentando dificuldades em meio ao debilitamento de sua dominação regional. Voltando à minha intervenção anterior, este debate vem determinado pelo reconhecimento por parte da China da importância da região, dada sua dependência das importações de energia do Oriente Próximo, em particular dos Estados do Golfo. Existe, além disso, um vínculo mais forte entre o comércio petroleiro e o domínio do dólar estadunidense em escala global, o que é importante porque assegura a capacidade de Washington de impor sanções a Estados e empresas da China e de outros lugares.

Nos últimos anos, a China levou a cabo um esforço decisivo tanto para aumentar suas reservas de petróleo como para diversificar suas importações energéticas, afastando-as do Oriente Próximo e dirigindo-as para sócios como a Rússia. Neste momento, China e Rússia mantêm intensas conversações sobre novos projetos de gasodutos para conectar ambos os países. Mas, além da energia, a região adquiriu uma importância cada vez maior para a estratégia global da China. A Iniciativa do Cinturão e Rota², por exemplo, depende em grande parte do Golfo como centro logístico fundamental: cerca de 60% do comércio da China com Europa e África passa por Dubai. A região reveste, portanto, uma enorme relevância estratégica para as aspirações comerciais internacionais da China. Por todas estas razões, creio que os responsáveis políticos chineses estão muito conscientes do que está sucedendo no Oriente Próximo e, de maneira geral, da questão relativa ao futuro do poderio estadunidense na região. No entanto, é difícil imaginar que a China vá assumir o mesmo papel em matéria de segurança que os Estados Unidos desempenharam historicamente na zona. A China não conta com a mesma rede de bases militares nem com a mesma capacidade de projeção militar.

# Diana Buttu: No que se refere à Palestina mais concretamente, a China manteve historicamente uma posição bastante coerente: opõe-se à ocupação e apoia uma solução de dois Estados, assim como muitos outros países. Mas, além disso, em geral tem evitado envolver-se profundamente na luta palestina. Talvez haja uma exceção notória: a China acolheu as conversações de reconciliação entre as facções políticas palestinas durante o genocídio. O objetivo declarado era fomentar algum tipo de unidade palestina para que, pelo menos, pudesse existir uma estratégia política unificada para fazer frente ao regime israelense. Mas, além disso, o papel da China parece bastante limitado. Em minhas conversas com pessoas da China, a opinião reiterada é que, ainda que Pequim apoie a Palestina, sua política exterior não se baseia fundamentalmente na intervenção direta nem em uma implicação política mais profunda. Dito isto, esta posição se distingue da dos Estados Unidos, que nunca defendeu realmente que é preciso libertar nenhuma parte da Palestina.

·        Como está afetando as comunidades vulneráveis, especialmente no Sul Global, a atual crise econômica mundial provocada pela guerra?

# Adam Hanieh: Temos que deixar de ver a região como uma gigantesca torneira de petróleo. O Golfo está profundamente integrado às cadeias de fornecimento mundiais, e isso significa que as guerras em que estão implicados o Irã ou o Líbano têm repercussões muito além do Oriente Próximo, especialmente nos países vulneráveis do resto do Sul Global. Um dos avanços determinantes dos últimos anos é que as economias do Golfo se diversificaram além da mera exportação de petróleo cru e gás. Agora são importantes exportadores de produtos químicos, fertilizantes e outros produtos petroquímicos. Aproximadamente um terço dos envios mundiais de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, junto com exportações de enxofre e hélio.

O impacto do aumento dos preços destes produtos, assim como a possibilidade de interrupções no fornecimento, implica que os países do Sul Global enfrentam o risco de perturbações muito mais amplas em seus sistemas alimentares. O aumento dos preços do gás encarece o custo das máquinas, da irrigação e do transporte marítimo. Os preços dos fertilizantes também estão subindo. Até os plásticos utilizados para embalar alimentos dependem em grande parte das exportações petroquímicas do Golfo. Muitos países que dependiam das importações do Golfo já enfrentavam graves crises antes que começasse a guerra. O Sudão é um exemplo claro. O país está há anos devastado pela guerra civil e já fazia frente a uma grave insegurança alimentar, ao mesmo tempo que dependia em grande parte das importações de fertilizantes do Golfo. Iêmen e Líbano enfrentam vulnerabilidades similares.

Assim, as perturbações procedentes do Golfo se amplificam por estas crises preexistentes. Nesse sentido, é provável que os países do Sul Global se vejam afetados muito mais profundamente do que países como o Reino Unido ou outros Estados europeus.

·        Como tudo isso está afetando a luta pela libertação palestina?

# Diana Buttu: Não falta muito para que o mundo deixe de prestar atenção na Palestina. Os dois primeiros anos do genocídio obrigaram as pessoas a prestar atenção em Gaza pela enorme dimensão da destruição: cidades inteiras arrasadas, dezenas de milhares de meninos e meninas assassinadas e cerca de 100 mil mortos segundo algumas estimativas. Mas, mesmo então, a maior parte das ações que o regime israelense estava levando a cabo em outros lugares continuava passando despercebida: na Cisjordânia, em Jerusalém, nos territórios ocupados em 1948 e no Líbano. E agora, com a guerra regional expandindo-se e com o genocídio mantido, fica mais fácil para o mundo voltar ao que chamam “a rotina de sempre”, o que, na prática, significa voltar a ignorar a Palestina. Concentrar-se de verdade na Palestina exigiria enfrentar o regime israelense, mas Estados Unidos, Canadá e os Estados da Europa Ocidental simplesmente não querem isso. De modo que a atenção se deslocou para longe de Gaza, para o Irã, que é precisamente o que queria Netanyahu. Enquanto isso, desde o cessar-fogo de outubro de 2025, as forças de ocupação israelenses continuaram bombardeando Gaza diariamente. Centenas de palestinos e palestinas foram assassinados e milhares foram feridos desde então, mas muito poucos atores internacionais falam disso. Não houve nenhuma reconstrução significativa, nem uma entrada importante de alimentos ou material de reconstrução, e Israel continuou estendendo seu controle sobre Gaza. O próprio Netanyahu alardeou recentemente que as forças israelenses controlam agora 60% do território e pretendem apoderar-se de mais. Os palestinos e palestinas voltaram a ser abandonados agora que a atenção internacional se desviou para outros lugares. Um desenlace que, lamentavelmente, era totalmente previsível.

¨      O Boicote Abrangente a Israel: Do Protesto de Base a uma Ferramenta Internacional de Pressão. Por Wisam Zoghbour

O boicote a Israel deixou de ser apenas um ato individual limitado a evitar a compra de certos produtos; evoluiu para um discurso político, econômico e jurídico de alcance global. Seu escopo expandiu-se de campanhas de consumo para abranger instituições, universidades, sindicatos e governos, tudo isso em meio à crescente oposição pública às políticas de Israel em relação ao povo palestino. Uma característica marcante da fase atual é a ampliação do alcance do movimento de protesto. Ele não se restringe mais a cidades árabes ou aos tradicionais círculos de solidariedade, tendo se estendido a cidades de toda a Europa e dos Estados Unidos.

Inúmeras universidades nessas regiões testemunharam protestos, ocupações e movimentos estudantis que exigem o fim da guerra, rejeitam a cooperação com instituições ligadas a Israel e pedem a revisão de investimentos e vínculos acadêmicos.Esses protestos demonstram que a causa palestina não é mais uma questão marginal na esfera pública ocidental. Amplos segmentos da opinião pública — particularmente jovens, estudantes e acadêmicos — agora veem o boicote como uma ferramenta legítima de pressão civil pacífica.

Esses apelos ganharam um significado jurídico especial após o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, em julho de 2024. Tal decisão concluiu que a presença contínua de Israel nos territórios palestinos ocupados é ilegal e reafirmou a obrigação dos Estados de não reconhecer a situação resultante dessa presença nem de prestar assistência à sua continuidade. Consequentemente, a questão não é mais se Israel pode ser boicotado, mas sim como transformar o boicote, de iniciativas esporádicas de base, em uma política organizada e de impacto.

Um boicote eficaz não implica visar indivíduos com base em sua identidade, nem significa necessariamente romper todas as formas de interação da noite para o dia.

Trata-se, antes, de construir um sistema de pressão que tenha como alvo atividades, instituições e empresas diretamente ligadas à ocupação, à expansão de assentamentos e a violações documentadas, sempre em conformidade com o direito internacional e garantindo a proteção de civis. Esse sistema começa com o consumidor, mas não deve parar por aí. Boicotes de base podem evoluir para boicotes institucionais — abrangendo universidades, sindicatos, organizações culturais e esportivas e fundos de investimento — e, eventualmente, traduzir-se em políticas governamentais relacionadas a comércio, investimentos, compras públicas, tecnologia e cooperação militar. É aí que reside o verdadeiro poder de um boicote: na sua transição de uma escolha individual para uma decisão institucional e coletiva.

Apesar de sua resiliência diante de crises, a economia israelense depende fortemente do comércio exterior, de investimentos, tecnologia, serviços e mercados globais.

Consequentemente, embora o boicote a um único produto de consumo possa ter um impacto limitado, a pressão torna-se muito mais potente quando visa fluxos de investimento, contratos internacionais, parcerias tecnológicas e acadêmicas e transações ligadas aos assentamentos. No entanto, um boicote exige um alto grau de precisão e credibilidade. Basear-se em listas não verificadas ou visar empresas sem evidências claras pode enfraquecer a campanha e fornecer aos opositores argumentos para desacreditá-la. Além disso, um boicote que não oferece alternativas corre o risco de se tornar um fardo para o consumidor — particularmente para os palestinos, que já enfrentam condições econômicas catastróficas. Portanto, o que é necessário é um boicote inteligente, baseado em evidências, faseado e mensurável — fundamentado em informações precisas e impulsionado por objetivos claramente definidos.

A mídia também desempenha um papel fundamental no sucesso desse processo, ao expor os vínculos econômicos de corporações, rastrear investimentos e contratos, fornecer informações confiáveis, apresentar alternativas ao público e combater campanhas de desinformação que buscam esvaziar o boicote de seu conteúdo político e de direitos humanos. As cenas de protestos nas ruas da Europa e dos Estados Unidos, juntamente com as ocupações observadas em universidades, confirmam que o boicote não é mais apenas um apelo palestino; tornou-se parte de um movimento civil global que se engaja com a causa palestina de várias maneiras. Em última análise, o boicote não deve ser visto como um substituto para ações políticas, diplomáticas e jurídicas, mas sim como uma ferramenta de pressão dentro de uma estratégia integrada.

A verdadeira questão não é se o boicote, por si só, pode mudar Israel, mas se a comunidade internacional está preparada para traduzir sua oposição à ocupação e às violações — atualmente expressa por meio de declarações e comunicados — em custos políticos, econômicos e jurídicos tangíveis. Quando o boicote se torna uma política institucional coordenada — respaldada por leis, dados, mídia e alternativas econômicas —, ele transcende o protesto simbólico, transformando-se em um instrumento pacífico para influenciar o equilíbrio da política internacional e apoiar o direito do povo palestino à liberdade, à independência e à autodeterminação.

 

Fonte: Por Adam Hanieh - Tradução: Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global

 

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