sábado, 7 de dezembro de 2024

Brasil pode virar alvo de 'tarifaço' de Trump por estar nos Brics?

O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, ameaçou na semana passada (30/11) impor tarifas de importação de 100% sobre produtos dos países do Brics, grupo de economias emergentes do qual o Brasil faz parte, caso tentem substituir o dólar por outra moeda em transações comerciais internacionais.

"A ideia de que os países do Brics estão tentando se afastar do dólar enquanto nós ficamos parados assistindo ACABOU", escreveu o republicano na Truth Social, sua plataforma de mídia social.

"Exigimos um compromisso desses países de que não criarão uma nova moeda do Brics, nem apoiarão nenhuma outra moeda para substituir o poderoso dólar americano, ou enfrentarão tarifas de 100% e devem esperar dizer adeus às vendas para a maravilhosa economia dos EUA", disse Trump.

"Eles podem procurar outro 'otário'! Não há chance de o Brics substituir o dólar americano no comércio internacional, e qualquer país que tente deve dizer adeus aos Estados Unidos."

Além do Brasil, o Brics inclui África do Sul, China, Índia, Rússia, Egito, Irã, Emirados Árabes Unidos e Etiópia. O Brasil vai assumir a presidência do bloco a partir de 1° de janeiro de 2025.

Os EUA são o segundo principal destino das exportações totais brasileiras, atrás da China, e o principal destino das exportações brasileiras de produtos manufaturados.

Em 2023 as exportações do Brasil aos EUA somaram US$ 36,9 bilhões (cerca de R$ 223 bilhões), pouco mais de um terço dos US$ 104,3 bilhões (cerca de R$ 630 bilhões) exportados para a China. As importações dos EUA para o Brasil totalizaram US$ 38 bilhões (cerca de R$ 230 bilhões).

Caso Trump levasse adiante a ameaça, as novas tarifas dificultariam a entrada de produtos brasileiros no mercado americano.

A equipe de transição do presidente eleito não ofereceu detalhes sobre os planos. O Brasil também não se pronunciou oficialmente sobre as declarações do americano.

"A declaração gera preocupação", diz à BBC News Brasil o presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

"Quando você fala 100% de tarifa, é como se dobrasse o preço do produto. E dobrando o preço, certamente a demanda vai ser retraída."

No entanto, Castro afirma que acha pouco provável que os EUA realmente decidam adotar um percentual tão elevado.

As declarações de Trump fazem parte de uma série de pronunciamentos recentes ameaçando tarifas sobre parceiros comerciais.

O presidente eleito, que toma posse em 20 de janeiro, disse que poderá impor tarifas de 25% sobre todos os produtos que entrarem nos EUA vindos do Canadá e do México, além de adicional de 10% sobre produtos da China, para forçar esses países a deter a entrada de drogas e imigrantes ilegais no território americano.

O primeiro mandato de Trump (2017-2021) foi marcado por uma guerra comercial com a China.

·        Debate sobre desdolarização

A menção ao Brics ocorre em um momento em que o bloco vem discutindo a desdolarização, em meio a críticas ao sistema financeiro internacional e à governança de instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

A dominância do dólar dá aos EUA vantagens econômicas e geopolíticas. O interesse em uma alternativa ao dólar aumentou ainda mais desde que os EUA endureceram sanções financeiras após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.

A criação de uma moeda para transações comerciais dentro do Brics reduziria a dependência da divisa americana, mas por enquanto a discussão está mais focada no incentivo ao uso das moedas locais no comércio.

O Brics tem seu próprio banco, o Novo Banco de Desenvolvimento, que financia projetos em moedas locais e é comandado pela ex-presidente brasileira Dilma Rousseff, que já criticou o "uso do dólar como arma".

No entanto, apesar das críticas à primazia do dólar no comércio internacional e do objetivo de diminuir a dependência da moeda americana, não há perspectiva de adoção de alternativas nas transações do bloco no curto prazo.

A criação de uma nova moeda não é nem mesmo mencionada nas declarações das cúpulas do Brics. Após as ameaças de Trump, o governo da África do Sul ressaltou que não há planos de criar uma moeda do Brics.

Diante desse cenário, a advertência de Trump foi criticada por sugerir falta de confiança no dólar.

"A moeda do Brics é apenas uma ideia, não é realidade", diz à BBC News Brasil o professor Daniel McDowell, da Universidade de Syracuse, autor do livro "Bucking the Buck: US Financial Sanctions and the International Backlash Against the Dollar", sobre sanções financeiras dos EUA e a reação internacional contra o dólar.

"Se você acha que a única maneira de manter os países usando o dólar é com ameaças, essa seria uma situação ruim. Não acho que é a situação do dólar. Os EUA não precisam fazer ameaças para que o dólar continue a ser a moeda mais popular e importante do mundo", afirma McDowell.

Não há sinais de que a dominância do dólar nas finanças e no comércio internacional esteja ameaçada, especialmente em um momento em que a economia americana mostra desempenho robusto e em que o cenário geopolítico global apresenta riscos elevados.

O dólar continua sendo a principal moeda de reserva internacional. Segundo o FMI, bancos centrais ao redor do mundo têm quase US$ 7 trilhões (equivalente a mais de R$ 42 trilhões) em reservas na moeda americana. O montante é equivalente a 58% do total e o triplo das reservas em euro, que aparece em segundo lugar.

"A posição dos Estados Unidos e a importância do dólar são tão fortes que é muito difícil para os países se afastarem", diz à BBC News Brasil o economista Alan Deardorff, professor da Universidade de Michigan.

"Se Trump usar todas as tarifas que citou, há o risco de cortar os Estados Unidos da economia mundial até certo ponto e tornar o dólar menos útil para outros países. Isso poderia reduzir a dependência do dólar, que é exatamente o que ele diz que não quer que aconteça", afirma Deardorff.

China e Rússia estão entre os membros do Brics que reagiram às ameaças do presidente eleito dos EUA.

Um porta-voz do Kremlin disse que se os EUA recorrerem a "força econômica" para obrigar os países a usarem o dólar isso poderia "fortalecer ainda mais a tendência de mudança para moedas nacionais (no comércio internacional)".

Um porta-voz da Embaixada da China nos EUA disse à imprensa americana que "os EUA há muito tempo" usam a hegemonia do dólar "como ferramenta geopolítica", o que "prejudica a estabilidade econômica e financeira internacional e perturba a ordem internacional".

·        Negociação e impactos

A retórica de Trump costuma fazer parte de seu arsenal de negociação e é usada para persuadir outros países a seguirem os interesses dos EUA. Logo após as ameaças contra o Canadá e o México, os líderes daqueles países se apressaram em conversar com o presidente eleito.

"Trump tem um histórico de realmente usar tarifas, e fez isso de forma muito dramática em seu primeiro mandato. Mas ele também usa as ameaças para tentar obter respostas de outros países", destaca Deardorff.

"Acho que, neste caso (do Brics), é mais provável que isso aconteça. Tarifas de 100% seriam muito extremas, e por uma razão tão mal definida. Não me parece plausível, e me surpreenderia se ele realmente levasse (a ameaça) adiante", ressalta o professor da Universidade de Michigan.

Segundo Deardorff, o mais provável é que Trump tente obter algum tipo de promessa desses países.

"Promessas que seriam difíceis de fazer cumprir. Mas ele poderia dizer que obteve uma vitória ao usar essa ameaça", salienta.

McDowell também considera improvável que os EUA imponham tarifas de 100% contra os países do Brics ou qualquer outro país.

"Não diria que é uma ameaça vazia, porque Trump tem um histórico de usar tarifas como ferramenta de negociação. Mas acho que é provavelmente (uma ameaça) muito exagerada", diz o professor da Universidade de Syracuse.

"É possível que ele saiba que (o risco de uma moeda do Brics) não é real, mas queira fazer uma ameaça agora. E, dentro de alguns meses, poderá dizer 'Veja, a moeda do Brics não vai acontecer (graças à ameaça)", afirma McDowell.

"Ele gosta de contar vitórias, e isso pode ser parte do jogo."

Segundo Castro, da AEB, "ainda que possa haver um pouco de exagero nas declarações (de Trump), é um cenário que gera preocupação como um todo".

"O Brasil não tem preços competitivos, uma sobretaxa faria com que nossos produtos se tornem mais caros ainda. Com isso, deixaríamos de exportar produtos, principalmente manufaturados", afirma.

Castro salienta ainda que a guerra comercial dos EUA com a China impacta o Brasil, que "poderia ser invadido por produtos chineses". "A China vai transferir o que venderia aos EUA para outros mercados, como o Brasil", observa.

Caso os EUA fossem adiante com a ideia de tarifar os produtos do Brics, o impacto negativo também seria sentido na economia do país, fortalecendo o dólar e encarecendo os produtos americanos, o que poderia aumentar o déficit comercial.

Isso se traduziria em preços mais altos para os consumidores americanos, alimentando o risco de inflação e, assim, a necessidade de aumento das taxas de juros.

"É sempre verdade que, se e quando usamos tarifas sobre importações, isso aumenta o preço desses produtos importados para nossos compradores nos EUA, muitos dos quais não são consumidores, mas empresas que utilizam insumos importados para sua própria produção", ressalta Deardorff.

"Aumenta os custos e, portanto, os preços, não apenas dos bens importados em si, mas dos bens produzidos nos EUA."

"Também haveria retaliação, e países afetados por essas tarifas provavelmente responderiam com suas próprias tarifas", diz McDowell, lembrando que isso ocorreu em relação à China a partir de 2018.

"Isso poderia levar a uma guerra comercial maior entre os países. Não seria bom para ninguém."

 

¨      Deep State quer deixar Trump em um caminho sem volta. Por Eduardo Vasco

Após a vitória de Trump, Joe Biden e o Deep State aceleraram freneticamente um processo de escalada do intervencionismo mundial. Permitiram que Zelensky utilizasse os ATACMS em território russo e, não por coincidência, pouco depois Zelensky declarou que poderia aceitar um congelamento na guerra sob a condição de que a OTAN praticamente ocupasse a Ucrânia.

Concomitantemente, no mesmo dia em começou a vigorar o cessar-fogo entre Israel e Hezbollah, terroristas apoiados pelos Estados Unidos iniciaram a maior ofensiva em anos na Síria. E o episódio mais recente: a tentativa de autogolpe militar na Coreia do Sul. Essa escalada ocorre em três pontos nevrálgicos das tensões bélicas internacionais, todos adjacentes à Rússia.

Os comandantes do establishment americano não aceitam de modo algum que Donald Trump possa colocar em prática as suas ameaças de reduzir o papel dos EUA – inclusive militar – pelo mundo. São muitas as declarações de preocupação com essa possibilidade. O que o imperialismo americano precisa é manter as suas posições, que lhe garantem a hegemonia geopolítica global por meio da exploração das nações que ele subjuga com sua presença militar, de inteligência e seu poderio econômico.

<><> O caso Hunter Biden

Outra medida tomada por Biden, embora não seja tão relevante e impactante como as outras, chamou a atenção pelo nepotismo escancarado ao perdoar seu próprio filho, Hunter Biden, por duas acusações criminais contra ele. E Hunter é um personagem envolvido justamente com o regime ucraniano.

De 2013 a 2018, Hunter Biden arrecadou cerca de 11 milhões de dólares como advogado e membro de conselhos, incluindo empresas ucranianas e chinesas envolvidas em investigações de corrupção. Em 2020, Hunter revelou ser alvo de uma investigação federal sobre impostos. Ele foi aconselhado a corrigir sua declaração fiscal devido a uma renda não declarada de US$ 400 mil da Burisma, empresa ucraniana acusada de suborno. A análise de seus dados revela gastos excessivos com luxos e vícios, enquanto enfrentava dificuldades financeiras, incluindo dívidas fiscais e pessoais.

A Burisma, uma empresa de gás que nomeou Hunter para uma lucrativa cadeira no conselho, tinha como uma de suas representantes a Blue Star Strategies, uma empresa de lobby administrada por democratas. Em agosto, foi revelado que Hunter buscou ajuda do governo americano (através do embaixador em Roma) para o estabelecimento de contratos da Burisma na Itália em 2016.

As investigações levantaram questões nos Estados Unidos sobre ética e segurança nacional, uma vez que empresas estrangeiras poderiam usar esses vínculos para obter influência. Hunter afirma que cooperou integralmente com as investigações e nega ilegalidades, destacando que usou seus ganhos para pagar dívidas e sustentar a família.

Republicanos, especialmente no Senado, exploraram o caso para investigar possíveis conexões financeiras entre Hunter e o presidente, mas, até agora, não encontraram provas conclusivas. Hunter enfrenta críticas por seu histórico de dependência química, que ele mesmo admite ter influenciado seus gastos e decisões financeiras.

O diplomata ucraniano Andrei Telizhenko, que trabalhou na embaixada da Ucrânia nos EUA a partir de 2015, também foi funcionário da Blue Star, a empresa de lobby da Burisma. Em entrevista ao Grayzone, ele acusou a família Biden de estar envolvida em esquemas de corrupção pessoal na Ucrânia. Curiosamente, Telizhenko foi alvo de sanções pelo Departamento do Tesouro dos EUA por "ter se envolvido direta ou indiretamente, patrocinado, ocultado ou de outra forma sido cúmplice de influência estrangeira em uma eleição nos Estados Unidos".

Os democratas e os serviços de inteligência dos EUA – como, aparentemente, o próprio Tesouro – tentaram deslegitimar as denúncias contra Hunter Biden, tachando-as de simples “desinformação russa”.

Mas depois apareceram novas informações, ainda mais preocupantes, sobre o envolvimento de Hunter Biden com os ucranianos. Em março de 2022, a Newsweek repercutiu uma acusação do governo russo, de que Hunter Biden era sócio de um fundo de investimentos, Rosemont Seneca, que financiava dezenas de laboratórios biológicos por toda a Ucrânia. Os russos também denunciaram o próprio governo dos Estados Unidos por estar por trás desses laboratórios, que seriam utilizados para pesquisar doenças que poderiam ser transmitidas para a população russa do Donbass.

"Materiais recebidos nos permitiram traçar o esquema de interação entre órgãos do governo dos EUA e os biolaboratórios da Ucrânia", disse à época Igor Kirillov, o chefe das tropas de defesa radiológica, química e biológica da Rússia. Ele adicionou que a Rosemont Seneca atraiu atenção devido a um suposto "relacionamento próximo" com os principais fornecedores para "biolaboratórios do Pentágono ao redor do mundo". A USAID e a Open Society também estariam envolvidas.

Tulsi Gabbard, ex-congressista democrata e nomeada por Trump para ser sua diretora de Inteligência Nacional, reconheceu na época que os EUA financiavam laboratórios biológicos na Ucrânia.

Os casos ATACMS e Hunter Biden vieram acompanhados de uma série de medidas tomadas pelo presidente dos EUA de saída relacionadas à guerra na Ucrânia. Dentre elas,

•                        Informou ao Congresso planos de cancelar US$ 4,65 bilhões da dívida da Ucrânia, segundo a Bloomberg;

•                        Solicitou recretamente ao Congresso um adicional de US$ 24 bilhões para reabastecer os estoques do Pentágono destinados à Ucrânia;

•                        Intensificou as entregas de armas a Kiev, com um novo pacote de ajuda no valor de US$ 725 milhões, que incluirá possivelmente armas antitanque, minas terrestres, drones, mísseis Stinger, munições para os Sistemas de Foguetes de Artilharia de Alta Mobilidade (HIMARS) e munições de fragmentação para sistemas de lançamento múltiplo guiado.

•                        Impôs sanções ao maior banco russo que ainda não havia sido designado, o Gazprombank.

Por um lado, o indulto de Biden a seu filho repete o nepotismo já visto quando Trump perdoou Charles Kushner (pai de Jared Kushner, casado com Ivanka Trump) por inúmeras acusações de evasão fiscal e outras ilegalidades, em 2020. Por outro, os republicanos fingem que não se lembram daquele caso e já se animam com a possibilidade de Trump utilizar o indulto de Hunter como desculpa para perdoar, por exemplo, os seus apoiadores que invadiram o Capitólio em 2021.

Contudo, a ação do atual presidente indica que é de importância fundamental para os Estados Unidos a manutenção da guerra na Ucrânia pelo fato de os empresários do país colherem enormes lucros com a dependência de Zelensky da ajuda militar. Não apenas as companhias que produzem e fornecem armas, mas de todos os ramos, tanto pela privatização das indústrias e bancos ucranianos quanto pela venda de terras onde existem abundantes riquezas naturais.

Soma-se a isso o aspecto geopolítico: a Ucrânia é uma campo de batalha chave para a manutenção da atual ordem imperialista “baseada em regras” e dominada pelos Estados Unidos. O Deep State sabe que se perder a guerra o colapso da sua dominação mundial pode se acelerar, uma vez que a intervenção russa de 2022 já levou a grandes mudanças e contestações a essa dominação. Por isso é preciso que o governo Biden termine deixando uma herança maldita para Trump, a fim de que ele não possa voltar atrás e fique preso às necessidades de guerras e intervenções do aparato do Estado americano.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

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