sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Quais são as ‘conotações marxistas’ da Palantir?

No começo do mês de agosto, a Palantir, notória empresa de gestão e inteligência de dados para serviços de governança, militares e empresariais, emitiu uma carta aberta aos seus investidores onde são apresentados alguns dados econômicos verdadeiramente reveladores: um aumento de 93% em sua receita, além do crescimento percentual de suas ações em aproximadamente 30%, ambos em relação ao mesmo período no ano anterior (apesar de operar em relativa queda na Nasdaq, se comparado ao pico das ações no mês de abril deste ano). 

Porém, chama ainda mais atenção a afirmação de que essa empresa, a líder no mercado para operacionalização de dados em operações militares – notoriamente com o sistema Maven, utilizado pelos EUA e Israel contra o Irã, e possivelmente na operação de sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro – teria “conotações marxistas”! Mas qual o sentido dessa afirmação?

Assinada pelo seu co-fundador e CEO, o excêntrico e comicamente sinistro Alex Karp – formado em direito e doutor em Teoria Social pela Universidade Goethe, em Frankfurt –, frequentemente descrito como “o filósofo no Vale do Silício”, a carta é atravessada também pelo seu estilo frequente, com certas provocações, algo notável desde o livro A República Tecnológica (Intrínseca, 2025), que assina com Nicholas Zamiska, chefe de assuntos corporativos e consultor jurídico da própria Palantir. O chamado “manifesto” da empresa, publicado na antiga plataforma Twitter em 22 máximas, expressa de forma sintética a “filosofia política” presente no livro, que é também, de certa maneira, a diretriz ideológica da empresa.

Novamente em um tom de manifesto, o texto começa com o anúncio da emergência de um movimento global: “a revolução por independência e soberania em IA” que está à caminho. Sua crítica é em direção à entrega das chaves institucionais ao redor do globo para os criadores de modelos de linguagem, deixando-os assim “soltos em suas casas.” O “levante revolucionário” de Estados e empresas teria como demanda o controle dos seus dados e, mais importante, a manutenção da propriedade sobre a inteligência organizacional e empresarial, que é estruturalmente expropriada [by design] pelos modelos produzidos com essa finalidade, conscientemente ou não, nos “laboratórios de linguagem” – um diagnóstico que ressoa na crítica de Stiegler à expropriação tecnológica do saber-teorizar! 

Contra os modelos de linguagem alimentados pelo trabalho escrito, que é produto da “nossa civilização”, a Palantir seria a beneficiária de uma revolta contra a submissão dessa expropriação, com seus clientes negando-se a tornarem-se “Estados vassalos” de tais laboratórios. O crescimento de receita e valor especulativo da sua empresa seriam indícios factuais de que ela consagra-se como ponta de lança desse processo “revolucionário” em curso. Toda essa retórica revolucionária em um tom cômico de manifesto político pastiche desidratado seria o suficiente para justificar as supostas “conotações marxistas” da empreitada, especialmente se considerarmos a característica irônica e patética dos discursos de um CEO nada ingênuo, com formação filosófica informada pela teoria crítica!

Mas a ironia cínica de Karp parece residir mais além. Na terceira parte de sua carta, Alexander ironiza o modelo de negócios das empresas de IA, como já havia feito em entrevistas televisivas. Ele afirma que a Palantir é paga pelo “derivativo da criação de valor”, em contraste com a monetização de cliques, tokens ou chats. Ele ainda ratifica que a “gamificação do desenvolvimento mais significante na história da economia moderna” parece, para a Palantir, equivocado. É constrangedor, mas precisamos admitir que ele não deixa de ter alguma razão, ainda que cinicamente. Contra o “complexo industrial tokenizado”, que pretende traduzir a popularidade e o uso de suas plataformas em valor, capturando também a peculiaridade intelectual de seus clientes e, enfim, seus próprios meios de produção, Karp reafirma que a Palantir sempre negou e continuará negando uma relação parasitária com seus parceiros. 

As supostas conotações marxistas da Palantir são uma piada de mal gosto, mas não só. Vinte dias após a publicação de sua carta, o mercado respondeu bem, com uma alta de 11% nas ações da empresa durante o período. Para uma empresa duramente criticada pelo seu envolvimento no bombardeio da escola feminina Shajareh Tayyebeh de Minab, no Irã, matando 175 pessoas – em sua maioria, crianças –, alvo que teria sido selecionado pelo “serviço prestado” através do software Maven, essa carta pública é mais do que um modo de tergiversar; é também certa estratégia de marketing. Apontar tal “conotação marxista” em sua empresa é sinalizar, ainda que de modo cínico, aos seus clientes, que a vanguarda disruptiva e “revolucionária” do mercado é encabeçada por eles – é uma forma retórica cifrada de tentar se opor à crescente suspeita de blocos internacionais às gigantes de IA. 

Após a publicação de seu “manifesto”, que afirma a superioridade de civilizações sobre outras e a necessidade da imposição unilateral do domínio global norte-americano – e após diferentes entrevistas onde Karp prega uma oposição entre a “mulher acadêmica liberal”, como inimiga do país, e o “homem trabalhador comum”, além de afirmar a necessidade de “impor medo aos inimigos dos EUA” –, Karp parece colocar em prática alguns insights básicos da tradição frankfurtiana, para fins não apenas de mercado, mas de atualização política da retórica e ideologia imperial das Big Techs. Se, como formulado por Walter Benjamin, todo fascismo esconde um potencial revolucionário perdido, Karp pretende ganhar por antecipação invertendo deliberadamente a fórmula: “a revolução está do nosso lado” – um movimento que não é novo na história dos discursos fascistizantes. 

Obviamente, a valorização da Palantir não passa simplesmente por discursos tresloucados e cartas públicas de seu CEO: o avanço imperialista de EUA e Israel sobre o Irã são, hoje, uma das maiores vitrines da empresa, com o alinhamento ao segundo governo Trump, por exemplo, no projeto de desenvolvimento do chamado “domo de ouro” – “um sistema de mísseis antiaéreos similar ao ‘Domo de Ferro’ de Israel, capaz de proteger o país contra qualquer tipo de ameaça, incluindo mísseis nucleares” – sendo uma de suas maiores fontes de investimento. As relações da Palantir com o Estado dos EUA não são recentes, mas estão em sua origem: a In-Q-Tel, empresa estatal de capital de risco para investimento tecnológico, foi uma de suas principais financiadoras desde o princípio. 

Não sem razão, um dos principais motivadores de sua fundação foram os atentados do 11 de setembro, que expuseram uma lacuna na articulação de dados entre agências estatais. Ou seja, desde sua criação, a Palantir encontrou um nicho de mercado na mediação tecnológica entre agências de Estado, voltando-se para a defesa nacional e os interesses imperialistas. As “conotações marxistas” da empresa revelam-se, assim, uma espécie de mensagem invertida: Alexander Karp está explicitamente comunicando, pelo discurso que promove, a necessidade de sua existência – ou, a de seus serviços – para a manutenção do império, através de uma análise “crítica” dos impasses nas dinâmicas de soberania, em um momento de profunda reorganização das estruturas do capitalismo global. 

¨      Infância e violência nas redes sociais

Nos últimos tempos, despontam notícias de crimes brutais cometidos por jovens, especialmente adolescentes, transmitidos ao vivo em plataformas digitais. Crimes que se dirigem a vítimas extremamente vulneráveis: animais, crianças mais novas, por vezes até mesmo bebês. Mais do que a transmissão, as condições objetivas e subjetivas para a realização de tais atos são cultivadas nos ambientes digitais, plataformas que possibilitam uma espécie de suspensão dos imperativos sociais que organizam certa manutenção de leis simbólicas, no sentido constitutivo do termo: leis que formam o aparelho psíquico, que organizam a relação com os limites sobre si mesmo e sobre os outros, necessários à própria vida em sociedade.

O Discord tem sido a principal plataforma de tais episódios nos últimos tempos, mas vale lembrar que essa espécie de crime derivado de “subculturas digitais” sádicas e suicidárias não é exatamente recente. Poderíamos relembrar diversos casos estrangeiros anteriores mas, no Brasil, foi o Massacre de Realengo que demarcou um episódio fundamental onde ambientes digitais possibilitaram o “recrutamento”, “cultivo” e “fomento” do que se tornaria talvez o primeiro caso de violência extrema promovida por grupos masculinistas, incels, explicitando o que poderíamos conceber como um agenciamento entre perversidade e melancolia, viabilizado pela própria estrutura das plataformas digitais. Ao menos desde então, sabemos que fatores como o anonimato e o cultivo das chamadas “câmaras de eco” são elementos importantes. Mas há algo além.

Esses casos também implicam crimes onde perpetradores não são simplesmente “sádicos psicopatas”, mas jovens em profunda fragilidade psíquica, levados inclusive a episódios de auto-mutilação pública, ou a cometerem homicídios, incentivados pelos seus “pares” em meios digitais por argumentações que se atrelam ao próprio ímpeto de suicídio – algo como “se você pretende se matar, leve outros junto.” Não raramente, esses outros são outros específicos: outros racializados ou, muito frequentemente, são outras, i.e., mulheres, meninas, alvos da violência misógina que é constantemente fomentada em meios digitais.

 Entretanto, uma questão ainda segue em aberto: por que esses episódios ocorrem dentro de tal configuração? É a mediação digital que torna a juventude não só violenta, mas insensível a tamanhas brutalidades? O que há de específico nas formas de mediação do digital que fomenta tais crimes? Para começarmos a lidar com essas perguntas, é fundamental recorrermos a teorias críticas que não moralizem nem reifiquem tais fenômenos. 

Primeiro, devemos desambiguar as noções de perversão e perversidade, especialmente no que diz respeito à infância: é Freud quem apresenta a noção polêmica e, todavia, fundamental, de sexualidade infantil enquanto perverso-polimórfica. Dois termos moralmente implosivos. A sexualidade, desde Freud, precisa ser compreendida como algo além do que associamos imediatamente com “o sexual” enquanto genital ou reprodutivo. É, antes, uma desambiguação, um desvio de rota que caracteriza inclusive aquilo para além do “sexo” imediatamente imaginado. A sexualidade, desde Freud, é o nome para um impasse, não um fim em si mesmo, nem uma meta. É a maneira pela qual podemos nomear a plasticidade e indeterminação “inerente” – e, também por isso, não essencial – da experiência humana. Tão difícil quanto central, sua definição aponta para a própria subversão “intransponível” e “inescapável” que é característica da psicanálise. 

Já a posição “perverso-polimórfica” da infância apresenta uma contradição em termos: a perversão seria, por definição, “não polimórfica” – i.e., a multiplicidade de formas não condiz com a característica fetichista da perversão, que implica em uma fixação a algum objeto, frequentemente destacado do outro, podendo ser inclusive um objeto inanimado. O termo contraditório aponta então para algo conflituoso e indeterminado da infância que pode ser concebido como uma plasticidade experimentada nos processos de formação da psique. Isso não é desimportante, na medida em que também revela uma vulnerabilidade às interferências externas: o caráter indeterminado do processo formativo é explorado pela sua própria condição por especuladores dessa mesma fragilidade. 

A noção de “especulação” não é fortuita. Primeiro, é preciso tirar do registro moralista uma concepção de infância como inapta à violência – é inclusive o contrário que se mostra hoje. Seria necessário também desmoralizar a própria forma como concebemos a noção de violência, mas esse é um outro assunto. Aqui se trata de entendermos que a experiência da infância não é algo dado, inato, mas construído e preservado por determinadas práticas e condições do laço social que não são a-históricas, e nem começaram a sofrer ameaças hoje, pelas mediações tecnológicas do presente. Todavia, é inegável que o contemporâneo digital apresenta um problema novo à própria infância, irredutível a particularidades locais. Mas por que então compreendermos a situação contemporânea como uma especulação da infância?

Primeiro porque trata-se, fundamentalmente, de um processo monetizável – para usarmos um termo da era digital. Desde os canais que “interpelam” jovens no Youtube, ou por perfis no Instagram e TikTok, até lives no Discord que transformam sessões de tortura em mercadoria, trata-se de uma cadeia de especulação financeira da fragilidade, fundamentalmente infantil, como mecanismo de monetização. O discurso incel ou redpill deixou de ser uma “subcultura misógina” para se verter em um nicho de mercado – do qual lucram tanto seus “influenciadores” quanto as próprias plataformas. Em outros registros, especula-se algo para além do financeiro, porém ainda associado à linguagem do dinheiro: a associação entre perversidades e sua organização mercadológica online

Não sejamos levianos, a associação entre o que há de mais deletério nas práticas humanas sempre encontrou-se muito que bem com a forma mercadoria – a escravidão é um exemplo inegável. Todavia, hoje, com a generalização da infraestrutura digital, e sob a égide neoliberal que fragmenta qualquer base de seguridade social e produz uma melancolização condicionante ao laço simbólico, encontramos uma configuração específica para a deteriorização de certo “pacto civilizacional” mínimo, defendido a duras penas desde o século passado. Isso ocorre porque, de um lado, o neoliberalismo impõe o isolamento solipsista dos indivíduos: somos todos responsáveis por nossas próprias misérias, sozinhos, ainda que elas sejam infligidas de modo externo – encontramos aqui um elemento crucial que torna a melancolia não mais uma patologia do indivíduo, mas um pathos do nosso próprio tempo.

Por último, mas não menos importante, a infraestrutura do digital, disposta no que podemos chamar de digitalização realmente existente, generaliza um processo de fragmentação subjetiva, onde todos os indivíduos expostos a esse processo são reduzidos à condição de  usuários – i.e., integrantes do complexo industrial total de produção, extração e, fundamentalmente, expropriação informacional. E, vale ressaltar, da informação enquanto dado digital. Esse processo intensifica a melancolização neoliberal: se “perceber a si como responsável por seu destino, ter uma escala quantificável de valor para si a partir de seus desempenhos e identificar-se como coisa – empresa de si mesmo –, incute aos sujeitos dentro do neoliberalismo uma forma específica de produção de sentido a si e ao mundo” é o que podemos compreender como melancolização desde o (impasse do) laço social, então a digitalização realmente existente, dominada pela dinâmica monopolista das plataformas, extrapola os princípios desse processo enquanto externalização objetiva da metrificação de si – e enquanto condição da socialização atual, vertendo-se assim no imperativo da subjetivação contemporânea. 

Mas o que então todo esse imbróglio tem a ver com as novas dinâmicas de violência que perpassam a juventude, mediada pelos espaços digitais? Eis aqui o grande impasse geracional: estudos recentes apontam uma nova condição, perpetrada pela lógica algorítmica de subjetivação. Essa condição diz respeito à impossibilidade estrutural da linguagem digital apresentar elementos fundamentais à constituição subjetiva – elementos que, em termos freudianos, dizem respeito à internalização da falta, da lacuna constitutiva fundamental à identidade e, assim, à constituição do sujeito. Em termos resumidos, trata-se da lei simbólica, i.e., o que se chama, em vocabulário psicanalítico, de castração . Apesar da palavra parecer um tanto assustadora para não adeptos do jargão, ela diz respeito ao processo pelo qual cada indivíduo internaliza o limite entre si mesmo e o próximo, o que impõe tanto certas condições do mal-estar na civilização, quanto, por outro lado, possibilita a capacidade de lidar com o outro – em termos amplos, com a alteridade enquanto dimensão da diferença que possibilita algum nível de alteração de si mesmo.

Ao elidir essa negação constitutiva, a digitalização realmente existente, especialmente na medida em que é organizada pela curadoria dos processos identificatórios automatizados por IAs (ou seja, pelo aprendizado profundo de máquinas, e não meramente a ideia comum que se tem hoje de inteligências artificiais como chatbots ou assessores, secretários), acentua tanto os processos de resistência quanto de repressão, pois passa a refletir uma imagem ilusória dos usuários [6], uma imagem sem a dimensão de sua própria inconsistência.

 É por isso também que a trivialização do julgamento moral sobre crimes hediondos não toca no cerne do problema: obviamente, é fundamental responsabilizarmos plataformas como o Discord – ou qualquer outra que produza um regime de exceção frente às leis de um Estado que pretende-se soberano. Bloquear tais plataformas são sim medidas fundamentais. Todavia, essa é uma característica própria à digitalização realmente existente: ela, por definição, produz meandros de subversão a qualquer regulamentação. E, pior, como foi argumentado anteriormente, os modos de subjetivação que produzem a condição de possibilidade para tais crimes continuam correntes e indeléveis em outras plataformas. 

Trata-se, fundamentalmente, de um problema que já não é apenas estrutural, como é estruturante – para abusar de um jargão sociológico. A própria maneira pela qual as plataformas digitais estão dispostas demandam uma reflexão crítica não apenas sobre a sua fenomenologia, mas sobre a relação que elas compõem frente à realidade social contemporânea. Não se trata simplesmente de “medicar” o “tempo de tela” dos jovens, de policiar a exposição de crianças aos meios digitais, ou de interditar a plataforma X ou Y. Tudo isso, de fato, parece compor uma “redução de danos”. Entretanto, por outra via, parece interditar uma questão mais urgente e que, de certa forma, também parece antiquada: o que a condição do regime de existência “online” reflete sobre a própria existência “offline”? De outro modo, podemos questionar também em que medida a fragmentação, sobreposição, ou mesmo a implosão dessa diferença diz sobre a condição do nosso próprio tempo. 

Esses impasses precisam de respostas que não sejam nem tecnofóbicas, nem moralistas. Também não serão tecnosolucionistas (encontraremos a IA reguladora ideal) ou reacionárias (retornaremos a um passado primevo fantasioso, onde nenhum dos nossos problemas existiam). Os impasses de cada tempo demandam uma resposta à altura desse próprio tempo. Cabe a nós formular tais respostas – e, talvez, devêssemos começar por fazer as perguntas certas. 

 

Fonte: Por Cian Barbosa, em Opera Mundi

 

Nenhum comentário: