Terapia
experimental com células-tronco do nariz pode ser caminho para tratar lesão na
medula
Um
trabalho realizado em colaboração em diferentes centros da USP investigou um
novo tipo de tratamento para lesões agudas na medula espinhal em ratos. O
objetivo foi analisar as respostas e recuperação dos animais após sofrerem
contusão quando injetados com células da mucosa olfatória, que no grupo testado
mostrou evolução significativa.
A
medula espinhal integra parte do sistema nervoso central. É um tecido frágil e
de extrema importância, responsável por transportar estímulos do cérebro para o
resto do corpo, ou seja, uma importante peça do sistema neurológico. Em
situações como acidentes automobilísticos e quedas de significativas alturas,
lesões na medula espinhal são um cenário comum e grave em centros de trauma
hospitalares.
Essas
lesões, principalmente em estado grave, são consideradas de difícil tratamento
por se tratar de um tecido neurológico considerado de baixa plasticidade. Isso
significa que esses tecidos têm baixa capacidade de adaptação e reconstrução
após um insulto. Atualmente as principais formas de tratamento recomendadas são
estratégias de suporte, como medicamentos e fisioterapia para amenizar a lesão
e auxiliar na recuperação do paciente.
“Sabemos
que é um caminho muito difícil a investigação das lesões medulares, porque
ainda não temos, do ponto de vista assistencial, validado para aplicação
prática, nenhum insumo material ou terapia que consiga fazer uma reversão das
lesões”, detalha Brian Coimbra, autor da tese defendida na
Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) com orientação do professor Alexandre
Fogaça. “Então sabíamos que seria difícil conseguir um resultado
ultraexpressivo de recuperação neurológica, mas nós obtivemos alguns resultados
positivos”, completa o médico.
A
pesquisa foi feita a partir da cooperação entre diferentes centros e unidades,
entre eles o Laboratório de Genômica Funcional do Instituto de Biociências (IB)
da USP, o Laboratório de Estudos de Trauma, Raquimedular e Nervos do Instituto
de Ortopedia (Letran) e o Departamento de Patologia da FMUSP, principal
responsável pela análise dos espécimes obtidos na pesquisa.
A ideia
de utilizar as células-tronco da mucosa nasal ganhou força com a pandemia de
covid-19, quando pacientes infectados começaram a perder capacidade olfatória
e, tempos depois, recuperavam o sentido. Esse fenômeno permitiu que os
cientistas entendessem melhor um tipo celular chamado de célula
ectomesenquimal, que atua no processo de regeneração contínua da mucosa
olfatória.
“Durante
o nosso dia a dia, temos agressões nessa mucosa olfatória pelos poluentes do
ar, e algumas dessas células vão morrendo e outras vão se regenerando a partir
das células-tronco que são residentes no nosso olfato”, explica Coimbra. Além
disso, as mucosas olfativas são de fácil e pouco invasivo acesso, questão que
já dificultou o estudo de outras células para o processo de regeneração
medular. “Foram testadas células do cordão umbilical e do tecido de medula
óssea, por exemplo, mas elas apresentaram dificuldade de obtenção, uma eficácia
não tão boa ou restrição de resultado.”
Dentre
as hipóteses iniciais da pesquisa, estava a ideia de que as células
ectomesenquimais poderiam ajudar no processo de cicatrização e recuperação do
tecido lesionado, tese comprovada pelos testes realizados em laboratório com um
grupo de ratos que teve as células injetadas em seu organismo e se recuperou
rapidamente.
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Métodos para análise
Para
analisar o funcionamento das células ectomesenquimais nos roedores com algum
tipo de contusão na medula espinhal, o estudo utilizou um modelo de lesão
medular chamado Mass Impactor, no qual é possível programar a queda
de um peso em determinada altura causando assim, uma lesão. É possível regular
a altura a fim de criar uma lesão mais aguda, ou seja, com maior dano
neurológico, ou uma lesão mais superficial.
No caso
dos ratos Wistar utilizados para o desenvolvimento da terapia experimental, foi
usado o ponto de 12,5 milímetros de queda dessa massa: “O rato sofre uma lesão
neurológica que é visível, mas que permite que ele tenha uma função ainda
residual nos membros e assim permite a sua sobrevivência”, explica Coimbra.
“Precisamos encontrar um jeito de fazer uma lesão que não cause uma perda total
no indivíduo [rato], ou seja, que ele se torne inviável para continuar sendo
estudado na pesquisa”, detalha.
As
células da mucosa nasal utilizadas na análise foram obtidas a partir do septo
nasal dos ratos, por um método cirúrgico desenvolvido por Coimbra para uma
extração mais eficiente das células olfatórias, sem hemorragia. “O grande
problema de coletar o septo nasal dos ratos é que eles sofriam uma contaminação
hemorrágica importante. Então, quando você tirava o septo, o sangramento
contaminava esse septo e inviabilizava as células”, explica.
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A aplicação em ratos selecionados
Ao
todo, foram 60 ratos acompanhados por seis semanas apenas após a lesão na
medula espinhal e divididos em cinco diferentes grupos, sendo dois deles os
grupos um e dois, utilizados como grupo de controle e outros três como
experimentais.
Nos
dois primeiros grupos foram aplicadas técnicas para facilitar o acesso à medula
espinhal dos animais. No grupo um foi realizado um procedimento cirúrgico
chamado de laminectomia, com o objetivo de alçar o nervo sem lesá-lo.
No
grupo dois, a técnica foi a associada a outro procedimento, a abertura do saco
dural, membrana que protege a medula espinhal e é impermeável para algumas
substâncias. O objetivo foi garantir que as células ectomesenquimais atingissem
diretamente o nervo, não apenas a membrana.
As
lesões na medula começaram a ser aplicadas nos roedores, juntamente com os
procedimentos cirúrgicos, a partir do grupo três. O grupo também foi importante
para a definir o dano da contusão padrão que seria aplicada nos outros animais.
O grupo
quatro contou com a utilização do matrigel, um composto biológico gelatinoso.
Nesse caso, o material foi utilizado como veículo, um meio no qual as células
são injetadas e levadas até o local desejado sem que sejam carregadas para
outros locais do organismo que não o da lesão tratada. O composto é rico em
laminina, uma proteína que possibilita a conexão entre células do sistema
nervoso e que foi alvo de atenção com os estudos sobre a polilaminina, uma molécula descoberta recentemente que também
passa por testes para translação de tratamento de lesões na medula espinhal
humana.
O grupo
cinco foi o que apresentou resultados mais expressivos e contou com a junção
dos métodos aplicados anteriormente mais as células ectomesenquimais da mucosa
nasal dos roedores. Os ratos voltaram a andar na terceira semana do
experimento, indicando o grande potencial de regeneração neurológica das
células utilizadas e seu desempenho significativo na recuperação da função
motora.
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Em escala molecular
A
pesquisa revogou a teoria de que se as células-tronco — células com capacidade
de renovação — fossem colocadas no local em que a medula sofreu uma lesão,
poderiam ocupar o local lesionado e estabelecer um novo canal de condução.
Segundo Coimbra, o que ocorre é na verdade uma ação em que as células-tronco
recrutam substâncias que favorecem a regeneração neuronal na região, “não é que
elas [as células] vão ocupar o lugar da falha do nervo, elas carregam
substâncias e atraem substâncias para esse local, geram substâncias ali que vão
ajudar justamente a recuperação”, explica.
Apesar
de resultados positivos, a ação em nível molecular da atuação das células ainda
precisa de maior investigação. Os próximos passos do estudo estão voltados para
a entender melhor o nível molecular da atividade, bem como uma translação do
tratamento para humanos pensando em desenvolvimentos de fármacos, por exemplo.
A tese
será dividida em seis diferentes artigos submetidos a periódicos, dentre eles
o Global Spine Journal. Atualmente, as publicações estão em fase de
revisão final.
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Cola biológica ajuda na recuperação do movimento após
lesão medular, diz estudo
Uma
pesquisa de doutorado que testou o uso de uma cola biológica no reparo
cirúrgico de lesões na medula espinhal foi o vencedor na categoria Masters do
Prêmio Pio Corrêa de Inovação em Ciências Farmacêuticas da Biodiversidade
Brasileira 2021, promovido pela Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil
(ACFB).
Em
experimentos com camundongos, o procedimento cirúrgico foi associado ao
tratamento com um medicamento neuroprotetor e anti-inflamatório, resultando na
sobrevivência de 70% dos neurônios afetados e possibilitando aos animais
recuperar 50% do movimento no membro afetado.
O
projeto foi desenvolvido por Paula Regina Gelinski Kempe, doutoranda do
Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Estrutural (BCE) da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e bolsista da FAPESP.
A
pesquisa é orientada pelo professor Alexandre Leite Rodrigues de Oliveira, da Unicamp, e está
vinculada ao Projeto Temático “Recuperação sensório-motora após
axotomia de raízes medulares: emprego de diferentes abordagens experimentais”.
“Nosso
estudo utilizou o biopolímero de fibrina, uma cola biológica derivada do veneno
de serpente e de sangue de bubalinos [búfalos], como adjuvante para o reparo
cirúrgico de lesões na medula espinhal. O biopolímero de fibrina foi
desenvolvido no Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da
Universidade Estadual Paulista em Botucatu [Cevap-Unesp]. Apresenta efeitos
neuroprotetores e anti-inflamatórios, permitindo que o reparo da lesão seja
mais eficiente, sem a necessidade de suturas”, diz Oliveira à Agência
FAPESP.
Segundo
o professor, além da cola biológica, o estudo utilizou terapia farmacológica
com dimetil fumarato, uma droga já empregada no tratamento de esclerose
múltipla e psoríase.
“O
dimetil fumarato também apresenta efeitos neuroprotetores e anti-inflamatórios,
além de efeitos antioxidantes. Como modelo experimental, a avulsão de raízes
motoras em ratos foi utilizada. A avulsão é o arrancamento das raízes nervosas
por tração, na interface entre o sistema nervoso central e periférico,
interrompendo os comandos motores, gerando paralisia muscular”, explica.
A
combinação entre reparo cirúrgico com selante de fibrina e tratamento
farmacológico com dimetil fumarato, após três meses da lesão, resultou em
sobrevivência neuronal de até 70% dos neurônios motores afetados. Houve
importante preservação dos contatos entre esses neurônios (sinapses),
diminuição da inflamação tecidual e recuperação de até 50% dos movimentos do
membro afetado.
“Tais
resultados são promissores e fazem acreditar numa aplicação clínica viável no
futuro, melhorando a qualidade de vida dos pacientes, com maior autonomia e
produtividade”, afirma Oliveira.
A perda
de movimento de membros pode ocorrer após acidentes que causam danos na medula
espinhal ou em nervos periféricos, como quedas de moto, atropelamentos,
acidentes automobilísticos, quedas e mergulhos em águas rasas. Os sintomas
decorrentes da lesão medular se devem à morte neuronal, bem como à desconexão
do sistema nervoso central com os músculos, além de grande inflamação local,
que gera dor intensa.
Atualmente
são limitadas as cirurgias de reparo desse tipo de lesão e tratamentos
farmacológicos paliativos são usados para reduzir a dor. No entanto, ainda não
existem métodos que promovam melhora tanto em nível celular quanto funcional,
levando à perda de qualidade de vida dos indivíduos afetados.
O
Prêmio Pio Corrêa de Inovação em Ciências Farmacêuticas da Biodiversidade
Brasileira foi instituído pela ACFB com a finalidade de reconhecer publicamente
e estimular profissionais que atuam no Brasil nas diversas áreas das ciências
farmacêuticas relacionadas à biodiversidade brasileira.
Fonte: Por
Carolina Mattos – Jornal da USP/Agência FAPESP

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