Uma
nova agricultura contra a ruína alimentar
É
nítido o contraste entre a gravidade com que as organizações multilaterais, os
governos, os movimentos sociais, a filantropia e as próprias entidades
empresariais encaram a erosão da biodiversidade em áreas de florestas
protegidas e o quase completo silêncio que cobre a destruição das fontes de
vida no interior da produção agropecuária. “A crise global da biodiversidade na
agricultura é negligenciada em comparação com aquela dos sistemas naturais”,
afirmam pesquisadores do Kew Royal Botanic Gardens em artigo na Nature
Sustainability em 2024. Por mais importantes que sejam as florestas, o futuro
da segurança alimentar global não poderá ser alcançado sem agrobiodiversidade.
O
abismo entre agricultura e biodiversidade é uma das mais claras expressões de
uma característica central das técnicas e dos programas científicos em que se
apoia o crescimento agropecuário contemporâneo. Para garantir que o aumento das
safras acompanhasse o crescimento da demanda, a partir dos anos 1960, o método
consistiu basicamente em moldar a paisagem a partir de sementes cujos
potenciais produtivos se revelam com o uso de fertilizantes sintéticos e com a
aplicação de agrotóxicos, ou seja, produtos voltados a destruir os seres vivos
que ameaçam as plantações.
Fortalecer
a biodiversidade no interior destas paisagens não fazia parte nem dos programas
de pesquisa, nem das políticas públicas e muito menos das práticas dos
agricultores. Esta grande separação é a marca fundamental e constitutiva do
sistema agroalimentar contemporâneo: agropecuária de um lado, biodiversidade do
outro.
É
verdade que este padrão produtivo cumpriu função civilizatória crucial,
permitindo o aumento da oferta e, por aí, abrindo caminho para a redução da
fome no mundo. No entanto, o constante aumento das safras (e da produção
animal) não pode escamotear três abalos recentes, mostrando que este é um
padrão que caminha em direção ao colapso.
O
primeiro abalo é geopolítico e atinge não só o Brasil, mas também a Argentina e
os Estados Unidos. A aposta na crescente liberalização comercial, para promover
a expansão da produção de grãos e a construção de infraestruturas para permitir
o barateamento de sua exportação para a China, chega agora ao impasse. Os
conflitos armados recentes e a determinação da China em reduzir sua dependência
da soja vinda das Américas exprime um fenômeno mais geral em que a
liberalização comercial e as longas cadeias de valor a ela associadas são
substituídas pela defesa da soberania alimentar. A ideia tão propalada de um
mundo carente de calorias e proteínas cuja demanda só as Américas seriam
capazes de preencher perdeu sustentação geopolítica.
O
segundo abalo é tecnológico. Embora os métodos produtivos inaugurados pela
Revolução Verde aumentem a produtividade do solo (mais produtos por unidade de
área cultivada), o mesmo não pode ser dito dos insumos dos quais depende a
produção. Ao longo dos últimos 30 anos, a produção global e a produção
brasileira de grãos dependem (por unidade de produto) do uso de quantidades
cada vez maiores de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos.
A
consequência é não apenas o aumento da poluição, das emissões de gases de
efeito estufa e da destruição da biodiversidade, mas a ampliação dos riscos e
dos custos para os agricultores. Dos riscos, porque estes insumos são, na sua
esmagadora maioria, importados. Dos custos, porque eles se tornam cada vez mais
caros. A resistência dos organismos que se quer combater com agrotóxicos exige
seu uso crescente, o que pesa nas contas dos agricultores. O contraste entre os
lucros das grandes corporações fornecedoras destes insumos e o recorde de
recuperações judiciais dos agricultores revela o esgotamento de um padrão que
hoje representa a maior ameaça à segurança alimentar global.
O
terceiro abalo é climático. O território em que se localizou a mais importante
revolução agrícola do mundo tropical, o Cerrado brasileiro, oferece condições
cada vez menos propícias a produzir com as técnicas que permitiram sua
transformação. Estudo liderado por Ludmila Rattis, do Instituto de Pesquisas da
Amazônia e publicado na Nature em 2021 prevê que 50% da área destinada à
produção de grãos no Cerrado não serão mais adequadas a esta cultura em alguns
anos, devido tanto aos eventos climáticos extremos como ao desmatamento, que
agrava seus impactos.
O
Brasil é pioneiro nas inovações tecnológicas voltadas ao enfrentamento destes
abalos, como o plantio direto, a adoção de curvas de nível e o uso de
inoculantes à base de Bradyrhizobium que aumenta a fixação biológica de
nitrogênio ampliando, portanto, a produtividade da soja. Estas inovações, no
entanto, em nada alteram as bases dos modelos produtivos dominantes, cuja
dependência de insumos poluentes, importados e caros estrangula os rendimentos
dos agricultores. É fundamental que a inovação tecnológica caminhe na direção
contrária à que orientou a Revolução Verde, ou seja, que ela faça da
biodiversidade não uma inimiga e sim a mais importante infraestrutura da oferta
agropecuária.
Não se
trata de uma utopia longínqua ou de ambição ainda confinada aos laboratórios de
pesquisa e sim de um conjunto de conquistas científicas e de práticas que já
vêm sendo aplicadas, não em nichos ou produções especializadas, mas no próprio
coração da soja brasileira. Há dez anos, nasceu em Rio Verde (GO) o Grupo
Associado de Agricultura Sustentável, organização hoje de alcance nacional e
que está impulsionando o mais ambicioso movimento de transformação ecológica da
agropecuária brasileira. A ambição é muito próxima àquela que nasce com os
movimentos sociais ligados à agroecologia nos anos 1970, mas com fundamentação
científica bem mais robusta e atingindo não apenas agricultores familiares, mas
também grandes fazendas produtoras de grãos.
Um
passo fundamental para acelerar a transição do sistema agroalimentar está nas
tecnologias. A lei dos bioinsumos, aprovada em 2024, tem a originalidade global
de separar o controle e as regras sanitárias sobre este insumo daquelas que
regem o uso de agrotóxicos. A regulamentação desta lei está sendo discutida
agora. É fundamental a participação ampla neste debate (cujo alcance não é
apenas setorial) para garantir que o aumento da oferta de bioinsumos por
agricultores, cooperativas e empresas não seja travado por medidas que retardem
sua adoção e que aumentem ainda mais o poder dos incumbentes.
Fonte:
Por Ricardo Abramovay, em Outras Palavras

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