Facebook
não barra anúncios com desinformação sobre eleições brasileiras
Um
experimento da Anistia Internacional mostrou que as medidas da Meta não estão
sendo suficientes para combater a desinformação no Facebook na campanha
eleitoral brasileira. A ONG internacional submeteu 14 anúncios com conteúdo
desinformativo sobre as eleições brasileiras e um neutro. Oito foram aceitos,
enquanto os sete restantes (incluindo o neutro) foram sinalizados para
verificação de identidade por parecerem relacionados a uma questão social,
eleição ou política, em vez de serem rejeitados especificamente por conterem
desinformação eleitoral. Nenhum deles foi postado publicamente, portanto, os
usuários não tiveram contato com o conteúdo.
Os 14
anúncios desinformativos do experimento da Anistia Internacional incluíam
alegações de que as eleições de outubro deste ano seriam fraudadas e pedidos de
intervenção militar. Com exceção do anúncio neutro, os 14 violaram as próprias
políticas da Meta sobre desinformação, especificamente a seção relacionada à
interferência na votação ou no comparecimento dos eleitores. A definição de
desinformação da Meta inclui “conteúdo com potencial para interferir em
processos políticos”.
Três de
quatro anúncios que pediam intervenção militar foram aprovados. Um deles dizia:
“Precisamos de uma revolução militar. Não vote nas eleições e os militares vão
tomar o poder se houver menos de 50% de comparecimento nas urnas”.
O
anúncio neutro foi incluído pela Anistia para testar a exigência de verificação
de identidade feita pela Meta para a postagem de quaisquer conteúdos
relacionados a eleições.
Segundo
a ONG, a conta usada para o teste não concluiu o processo de verificação de
identidade para manter o perfil mais neutro, de modo a evitar influência do
algoritmo. Portanto, não há como saber se, caso fosse feita a verificação de
identidade da conta, os anúncios seriam aceitos ou não.
Em
2025, o Facebook tinha 109,2 milhões de usuários no Brasil, segundo a
plataforma de dados Statista; já o Instagram é mais popular e contava com 146
milhões de contas no mesmo ano. Os anúncios podem circular entre as
plataformas.
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Pouco tempo para as novas regras
De
acordo com a descrição do experimento da Anistia Internacional, os anúncios
refletiam “três táticas frequentemente utilizadas por políticos e candidatos
para apoiar práticas autoritárias”: “deslegitimação eleitoral”, com conteúdos
que minam a confiança no sistema de votação brasileiro e nos resultados;
“construção do inimigo”, colocando adversários políticos e a Justiça como
ameaças; e “autoritarismo com foco na segurança pública”, que traz o uso da
força, da intervenção militar ou de um líder forte como respostas necessárias
ao crime.
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Anúncio-teste do experimento da Anistia Internacional no Facebook
“Em vez
de zelar pela participação eleitoral e pelo acesso à informação precisa, estes
sistemas de moderação correm o risco de aprovar conteúdo nocivo [ao processo
eleitoral]”, diz Ummar Bashir, pesquisador e consultor da Anistia para
Inteligência Artificial e Direitos Humanos.
Os
anúncios foram enviados de fora do Brasil, do escritório da Anistia em Londres,
sem uso de VPN, recurso que poderia simular que o conteúdo fora postado em
território nacional. Para a ONG, a aprovação é preocupante porque mostra
“vulnerabilidades passíveis de exploração por atores nacionais ou estrangeiros
que busquem influenciar processos eleitorais”.
A Meta
não respondeu aos questionamentos da ONG sobre as falhas de moderação que
permitiram ao Facebook aceitar os anúncios enganosos.
Questionada
pela Pública, a empresa disse que investe “recursos significativos para
proteger o processo eleitoral de 2026 no Brasil – da transparência em
publicidade, líder do setor, à aplicação de protocolos rigorosos para anúncios
sobre questões sociais, eleições ou política – e continuaremos a fazê-lo.”
Afirmou ainda que o relatório da Anistia Internacional se baseou em uma amostra
pequena de anúncios que nunca foram publicados. “Não reflete a escala do nosso
trabalho. Nosso processo de análise de anúncios possui diversas camadas de
análise e detecção, antes e depois deles serem publicados”.
Em seu
site institucional, a empresa informa que usa inteligência artificial para
identificar, nos anúncios, conteúdos que possam violar suas políticas. Em
seguida, segundo a empresa, o conteúdo é avaliado automaticamente ou por
revisores humanos e, quando uma violação é confirmada, são aplicadas medidas
como remoção, restrição ou rejeição dos anúncios, de acordo com os Padrões da
Comunidade da Meta. Este conjunto de regras, de acordo com a companhia, “é
baseado no feedback de usuários e especialistas em tecnologia, segurança
pública e direitos humanos”.
Em
2025, dias antes da posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o CEO
da Meta, Mark Zuckerberg, anunciou uma mudança drástica nas políticas de
moderação de conteúdo e checagem de dados. Segundo ele, a intenção era combater
uma suposta “censura” promovida por checadores “enviesados”, dos quais ele
prometeu se livrar.
“O
teste da Anistia aponta motivos para preocupação, sim. No Brasil, estamos
diante de uma nova exigência que altera bastante a forma de condução dos
negócios de todas as plataformas, não só da Meta”, avalia Fernando Neisser,
professor de Direito Eleitoral da FGV/SP. Ele se refere ao julgamento do
Supremo Tribunal Federal que revisou o Artigo 19 do Marco Civil da Internet e
decidiu, em 2025, que as plataformas não precisam esperar decisões judiciais
para derrubar conteúdos.
Neisser
lembra ainda as novas obrigações impostas pelos planos de conformidade
entregues pelas plataformas ao TSE na primeira quinzena de agosto de 2026.
Segundo o professor, eles determinam a necessidade de verificação temática de
publicidade paga por parte das empresas de tecnologia. Os planos ainda não
foram divulgados na íntegra até o fechamento desta reportagem.
“Para
certos assuntos, como pornografia infantil, a verificação é fácil de ser feita
com filtro automatizado. Mas é muito difícil ainda filtrar de forma
automatizada temas tão contextuais, como discurso de ódio e atos
antidemocráticos”, avalia Neisser, que diz que a aplicação dessas regras na
eleição deste ano é pouco provável. “É muito difícil exigir a criação de
mecanismos num prazo tão curto. Eles foram pedidos basicamente às vésperas do
início do processo eleitoral. Não é crível imaginar uma mudança de procedimentos
em um prazo tão exíguo”.
Para
Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, a forma
como a Meta lida com a desinformação também contribui para o modelo de negócios
da empresa de Zuckerberg. “O experimento mostra que a Meta não está fazendo o
suficiente para impedir que sua plataforma seja um vetor de desinformação, ao
mesmo tempo em que continua lucrando com os sistemas de conteúdo e publicidade
que possibilitam sua disseminação”.
Fonte:
Por Maria Martha Bruno, da Agencia Pública

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