A
crise climática já move montanhas
Em
escalas de tempo geológicas, a Terra é um lugar dinâmico. Placas tectônicas se
deslocam. Continentes se movem. Montanhas sobem e descem. Mas, durante o
período de permanência da humanidade no planeta, o chão sob nossos pés
permaneceu, em grande parte, estável.
Esse
período estável pode agora ter chegado ao fim. As mudanças climáticas começaram
na atmosfera, onde os gases de efeito estufa se acumulam, retendo o calor do
sol. As águas do planeta reagiram — os padrões de precipitação se alteraram,
geleiras e calotas polares começaram a derreter, e o oceano absorveu
generosamente calor e dióxido de carbono.
Quando
as águas da Terra se deslocam, o solo sólido também se desloca. Agora, o
aquecimento está desestabilizando o solo em todo o planeta, e a geologia está
se tornando uma ciência em tempo real. Em cada vez mais lugares, o chão está
cedendo.
No
Alasca, na Noruega, na Groenlândia, no Chile e na Nova Zelândia, bem como em
todos os Alpes europeus, as montanhas estão se desmoronando. À medida que as
geleiras recuam — algumas a taxas sem precedentes —, deixam para trás penhascos
instáveis que antes eram sustentados pelo gelo. Em 2023, um deles desabou em um
fiorde na Groenlândia e gerou uma onda de 200 metros que enviou ondulações
através da Terra, detectadas em estações de monitoramento em todo o mundo por
nove dias. No Alasca, no ano passado, um tsunami gerado por deslizamento de
terra atingiu um fiorde frequentado por navios de cruzeiro. Na Suíça, no mesmo
ano, parte de uma geleira de montanha se despreendeu completamente, soterrando
a vila de Blatten em um deslizamento de terra cataclísmico. Na última década,
os cientistas coletaram exemplos dramáticos suficientes desse fenômeno para
sugerir que eles claramente não são incidentes isolados, mas parte de um padrão
que liga a perda de geleiras ao risco de deslizamentos de terra.
E esses
deslizamentos podem se tornar ainda maiores. Quando as geleiras derreteram após
o último máximo glacial, há cerca de 20 mil anos, os deslizamentos que se
seguiram foram ordens de magnitude maiores do que qualquer um que tenhamos
visto na história registrada. Mas, como algumas das geleiras atuais persistiram
na paisagem por mais tempo do que as daquele período glacial, elas tiveram
tempo para esculpir penhascos íngremes e instáveis. Isso significa que “ainda
não vimos os limites superiores dos deslizamentos de terra”, disse-me Kristian
Svennevig, geólogo do Serviço Geológico da Dinamarca e Groenlândia. Nas regiões
árticas, num futuro próximo, a magnitude dos deslizamentos pode exceder
qualquer coisa que os cientistas conheçam no registro geológico.
Juntamente
com as geleiras, o permafrost mantém as montanhas unidas em altas altitudes e
latitudes em todo o mundo. Ele também está em recuo, como os cientistas
previram na década de 1980 e como agora se tornou aparente em todas as
extensões do Ártico. Na cordilheira Brooks, lar do oleoduto Trans-Alasca,
montanhas há muito congeladas começaram a se deformar e desmoronar
espontaneamente nas últimas décadas, à medida que sua “cola” de permafrost
cede. “Estamos empurrando essas montanhas para um estado de desequilíbrio, no
qual elas precisam ajustar suas encostas para corresponder ao clima de hoje”,
disse-me o geólogo independente do Alasca, Bretwood Higman. Elas são
essencialmente íngremes demais para este regime de temperatura mais quente.
“Como
geólogo, achei chocante o quão difundido é o aumento súbito da atividade de
deslizamentos de terra”, disse Higman. Quando você está acostumado a pensar em
escalas que abrangem dezenas de milhares de anos, ver essas mudanças
acontecerem ao longo da vida humana — “é muito dramático.”
O
degelo do permafrost em regiões montanhosas já ameaça a infraestrutura. O
Parque Nacional Denali está perto de concluir uma ponte de US$ 100 milhões que
se estenderá sobre um deslizamento de permafrost em movimento. Na cordilheira
Brooks, engenheiros estão bombeando refrigerante no subsolo para recongelar o
permafrost e estabilizar os oleodutos. E as montanhas não são as únicas terras
que estão cedendo. O solo ártico, sólido como cimento, está se transformando em
pântanos. Comunidades em todo o Alasca tiveram que se realocar à medida que
suas casas, tanques de combustível, lagoas de esgoto e aterros sanitários
tombam, derramam ou afundam. Em outros lugares, à medida que enormes blocos
subterrâneos de gelo antigo derretem, a terra ao redor desaba nos vazios
deixados para trás, deformando estradas e engolindo edifícios. Na Sibéria, o
metano antes aprisionado explode sob o permafrost, causando crateras de 30
metros.
“Quando
o permafrost descongela, tudo muda”, disse-me Sue Natali, cientista do clima
ártico no Woodwell Climate Research Center. Natali e seus colegas também estão
vendo o degelo acelerar. “Isso não é uma possibilidade, e não é algo local. É
algo pan-ártico”, disse ela.
O clima
também está alterando o solo em latitudes mais baixas. Uma atmosfera mais
quente retém mais umidade, o que significa eventos de chuva mais frequentes e
extremos. Nos últimos anos, os cientistas começaram a modelar como esse tipo de
chuva aumentará o risco de deslizamentos e a vincular eventos individuais a
tempestades tornadas mais dramáticas pelas mudanças climáticas. “Chuvas mais
fortes, mais intensas e de maior duração têm maior possibilidade de gerar
deslizamentos de terra”, disse-me Jonathan Godt, que lidera o programa de
riscos de deslizamentos do Serviço Geológico dos Estados Unidos. Esses tipos de
fluxos de detritos e deslizamentos de lama agora ameaçam mais comunidades. Na
Carolina do Norte, o furacão Helene desencadeou mais de 2 mil deslizamentos de
terra em uma semana. Na Califórnia, encostas devastadas por exploração
madeireira e incêndios florestais causados pela seca deslizam após fortes
chuvas — um deslizamento de lama em Montecito destruiu 100 casas e matou 23
pessoas em 2018. Os deslizamentos de terra já causam US$ 20 bilhões em danos
globalmente, e esse custo só aumentará com as mudanças climáticas.
Os
cientistas já conseguiram catalogar os efeitos do derretimento das geleiras, do
degelo do permafrost e das chuvas extremas. Outras consequências dramáticas das
mudanças nos padrões de precipitação — erupções vulcânicas e terremotos — estão
apenas começando a ser compreendidas.
Há mais
de uma década, em seu livro *Waking the Giant*, o vulcanólogo da University
College London, Bill McGuire, compilou décadas de pesquisas sobre paleoclima
para prever que as mudanças climáticas poderiam levar a mais erupções
vulcânicas e terremotos. Um aumento na atividade vulcânica e tectônica seria
uma resposta natural ao fim de um período glacial. Durante milhares de anos, a
crosta terrestre, que estava comprimida pelo gelo, vem se recuperando
lentamente. Esse processo libera a pressão de falhas e vulcões há muito
subduzidos, como os da Islândia. As mudanças climáticas de origem antrópica
estão apenas acelerando esses processos. E a água, seja de chuvas extremas ou
do degelo glacial, pode percolar em rachaduras subterrâneas para aumentar a
pressão sobre as rochas e reduzir o atrito ao longo das falhas, desencadeando
tanto terremotos quanto erupções vulcânicas.
No ano
passado, pesquisadores na Suíça e na França encontraram algumas das evidências
mais claras até agora de que o degelo glacial pode de fato afetar os riscos
sísmicos em regiões de alta altitude. Após um período de intenso degelo glacial
em 2015, uma série de pequenos terremotos atingiu as Grandes Jorasses, no
Maciço do Mont Blanc, na fronteira entre França e Itália; a probabilidade de um
terremoto de magnitude 3,0 aumentou 10 vezes, disse-me Toni Kraft, sismólogo do
Serviço Sismológico Suíço da ETH Zurique e um dos autores de um artigo
relacionado. Esses tremores ainda são pequenos, mas podem desencadear quedas de
rochas que já estão em ascensão em todos os Alpes.
Falk
Amelung, geocientista da Universidade de Miami, também argumentou — de forma um
tanto controversa — que as chuvas extremas impulsionadas pelo clima podem ter
levado à dramática erupção do vulcão Kīlauea, no Havaí, em 2018. Os cientistas
não conseguiram encontrar um mecanismo desencadeador óbvio para a erupção, e
Amelung levantou a hipótese de que a chuva havia se infiltrado no edifício do
vulcão e aumentado a pressão dos poros na rocha, a quilômetros de profundidade,
para as taxas mais altas em quase 50 anos. Os vulcanologistas do USGS não
ficaram convencidos: uma ligação entre precipitação intensa e alguns tipos de
atividade vulcânica é amplamente aceita, mas alguns cientistas ainda rejeitam a
teoria de que uma erupção como a do Kīlauea pudesse ser causada pela água que
atinge o magma abaixo. Se Amelung e outros em seu campo estiverem certos, no
entanto, até 700 vulcões podem estar em risco de explosões de cúpula e colapso
de flancos nos próximos 80 anos, ele calculou.
“O
sistema deve estar fortemente tensionado, de modo que esteja próximo de se
romper de qualquer maneira”, disse-me ele. “E então essa pequena mudança de
tensão devido à água o leva ao limite.”
Durante
a longa história da Terra, pequenas perturbações causaram oscilações de
milênios entre condições de estufa e de glaciação. A quantidade de dióxido de
carbono que bombeamos para a atmosfera, a uma taxa mais alta do que nunca na
história geológica da Terra, é uma perturbação bastante significativa, que
então causa suas próprias perturbações significativas. “A crosta não está
isolada. Está sempre conectada. O clima, as camadas fluidas, a camada sólida —
não se pode separá-las”, disse-me Benedikt Soja, geocientista da ETH Zurique. A
atmosfera, o oceano e a terra são sistemas interativos, e seu frágil equilíbrio
está reagindo em conjunto ao estresse que colocamos sobre eles.
Fonte:
Por Christian Elliott, no The Atlantic | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras
Palavras

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