O que fazer para a eleição de Lula?
Faltam
apenas 6 semanas para o primeiro turno das eleições. A polarização entre as
candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro permanece em alta, atuando como fator
bastante inquietante para as forças políticas efetivamente preocupadas com o
futuro da democracia no Brasil.
Um dos
aspectos que mais chamam a atenção é a dificuldade enfrentada pelo Presidente
da República em conseguir superar as barreiras para elevar os índices de
aprovação de seu governo.
Passados
quase 4 anos do início de seu terceiro mandato, a incerteza a respeito dos
resultados do pleito se mantém e a possibilidade de retorno da extrema direita
ao Palácio do Planalto não pode mais ser descartada a priori.
Ao que
tudo indica, a coordenação da campanha optou por uma perigosa e equivocada
estratégia para superar o filho de Bolsonaro. Ao invés de apontar os caminhos
para ajudar a resolver os dramas sociais e econômicos da grande maioria do povo
brasileiro, as peças de propaganda e as articulações políticas miram na
satisfação dos interesses do 0,1% do topo da nossa vergonhosa pirâmide da
desigualdade. Existe uma crença infundada e seguidamente refutada pela História
nos anos recentes de que acalmando o deus-mercado, tudo se resolverá. Vã
ilusão.
E
dá-lhe a exaltação de compromissos junto à Faria Lima e à nata do financismo
assegurando que nada vai ser alterado em termos da política econômica.
Já para
aqueles que compõem a grande maioria do eleitorado, o recado se restringe a
afirmar como a vida deles teria melhorado desde janeiro de 2023. Afinal, o PIB
cresceu um pouquinho. Além disso, o desemprego está em níveis mínimos de sua
série histórica. Assim, frente a tais indicadores irrefutáveis, a soberba dos
entendidos se enfurece.
Como é
que o povo pode ser assim tão ingrato e não reconhecer os méritos inequívocos
desta nova passagem de Lula pela Presidência da República? Só que não, a coisa
é bem mais complexa e os resultados das pesquisas de intenção de voto e de
aprovação do governo atestam que a estratégia está bastante equivocada.
A
campanha precisa decidir: o povo ou o financismo?
Repetir
à exaustão que o Produto Interno cresceu 2,3% no ano passado parece ser um
argumento insuficiente para convencer as pessoas de que tudo está ótimo e
maravilhoso. Em primeiro lugar, porque não está mesmo. Em segundo lugar, pelo
fato de que os quase 8 meses do presente ano também não ajudam muito na
avaliação positiva do governo, pois as expectativas é de que o ritmo das
atividades econômicas em geral seja ainda mais baixo na comparação com o ano
passado, mal superando a casa dos 2%.
Na
verdade, a equipe econômica tem conseguido alcançar o seu intento maldoso:
deixar a economia rodar em um ritmo mais reduzido do que o limite dos 2,5% de
crescimento “autorizado” pelo Novo Arcabouço Fiscal (NAF). Tudo isso em pleno
ano eleitoral, em uma disputa que já se desenhava como acirradíssima. Uma
loucura!
Alardear
que o problema crônico e estrutural do desemprego teria sido resolvido por
conta do anúncio dos indicadores do IBGE tampouco ajuda no convencimento do
eleitorado. Afinal, as reformas trabalhistas implementadas por Temer e
Bolsonaro ainda não foram revogadas por Lula, ao contrário do que ele havia
prometido durante a campanha eleitoral de 2022. Assim, a precariedade e a
informalidade, características estruturantes de nosso mercado de trabalho,
foram incorporadas para dentro da legislação.
Com
isso, as pessoas passam a trabalhar em situações terríveis em termos de
condições, jornada e remuneração. Mas quando perguntadas pelos agentes do IBGE
durante a pesquisa amostral se procuraram emprego ao longo dos últimos 30 dias,
elas são classificadas como “empregadas”.
O
avanço da “pejotização” e a perda de direitos como férias, 13º salário,
descanso semanal remunerado e contribuição para a previdência social, por
exemplo, fazem com que frases soltas como “redução do desemprego” soem como
estranhas a quem chega a receber valores inferiores a um salário mínimo por um
mês de trabalho.
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Abandonar as amarras da austeridade fiscal
Por
outro lado, a implementação de políticas de austeridade fiscal há décadas tem
provocado a redução da capacidade de o Estado oferecer serviços públicos de
qualidade.
A busca
sistemática e obsessiva de superávit primário resulta em compressão das
despesas com rubricas de natureza social, tais como previdência social, saúde,
educação, assistência social, segurança pública, saneamento, salários de
servidores, dentre tantas outras.
A
diminuição dos recursos orçamentários para tais setores implica o aumento da
privatização de tais serviços, com a consequente piora na percepção da
qualidade por parte dos usuários e o comprometimento crescente de parcela da
renda mensal com esse tipo de necessidade básica.
O mesmo
fenômeno se verifica nos aspectos de investimento público, seja de forma direta
pela União, seja por meios de empresa estatais ou bancos públicos federais. As
restrições para esse tipo de dotação previstas no NAF impedem que a
administração pública consiga avançar na estruturação de sistemas para atender
as necessidades da população e lançar as bases econômicas para um salto de
desenvolvimento econômico, social e ambiental. Ora, como o Estado sempre atuou
como o pilar para que estas etapas de crescimento diferenciado fossem exitosas,
parece impossível imaginar que o ambiente de austeridade fiscal permita que tal
cenário seja alcançado.
No
entanto, apesar de tais evidências, a campanha de Lula insiste no discurso
voltado exclusivamente às elites a respeito de seu compromisso com a
austeridade. O programa oficial da candidatura é explícito:
(…)
“Para isso, manteremos o novo arcabouço fiscal, que controlou o crescimento das
despesas sem prejudicar as políticas sociais e permitiu uma redução
significativa do déficit primário.” (…)
A essa
rendição absurda aos clamores da elite do financismo, somam-se as inúmeras e
seguidas declarações de integrantes da equipe econômica, desde o início de
2023, a respeito da necessidade de se eliminar os pisos constitucionais para
saúde educação, bem como a desvinculação dos benefícios da previdência (aí
incluído o essencial Benefício de Prestação Continuada, o BPC) em relação ao
salário mínimo.
Além
disso, é importante registrar que a própria promessa de campanha de Lula em
2022 (retomar a política de valorização real do salário mínimo de seus governos
anteriores) foi deixada de lado por essa obediência cega e burra ao NAF. Ao
invés de aplicar a inflação mais o índice de crescimento do PIB ao valor da
remuneração mínima do trabalhador, este último fator foi reduzido a 2,5% como
estabelecido na Lei Complementar 200 de 2023.
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Os indecisos precisam receber garantias de que a situação vai melhorar
Segundo
a avaliação dos analistas, a eleição presidencial tende a ser decidida pelo
contingente de indecisos. Esse segmento representa algo em torno de 10% do
eleitorado e precisa ser estimulado a optar por Lula.
Não
será com a apresentação de propostas de viés conservador e que implicam em
redução dos direitos da população que essa estratégia apresentará bons
resultados. A campanha deveria reconhecer as limitações daquilo que foi
oferecido pelo terceiro mandato até o momento e apresentar as alternativas de
preencher tais demandas a partir de 2027.
As
condições de vida da maioria da população estão muito aquém do razoável. Ao
contrário do final do segundo mandato de Lula, quando ele deixou o governo com
aprovação próxima de 87% em 2010, agora o quadro é bastante distinto. Assim,
papaguear o lero-lero do financismo a respeito de cortes nas despesas soa como
péssima opção política.
A
campanha deveria apresentar propostas concretas para superar o drama das
famílias endividadas, a exemplo das benesses que os sucessivos governos sempre
apresentaram para os sonegadores do grande capital. A campanha deveria elevar o
tom contra as apostas esportivas, as malfadadas “bets”, que tanto mal têm
causado ao povo pobre de nosso País.
O tempo
é curto, mas o momento exige respostas assertivas. A população precisa ter a
segurança de que o próximo mandato será melhor do que este que está se
encerrando agora.
Para
cativar o eleitor ainda desmotivado, a campanha terá de fazer muito mais do que
demonstrar que Lula foi melhor do que Bolsonaro. É preciso oferecer as
ferramentas para que o último mandato seja melhor do que o terceiro.
E tudo
deve começar pelo abandono da austeridade fiscal como leme de orientação do
rumo do governo. Sem a garantia de que
haverá recursos públicos à disposição para levar em frente o projeto de
desenvolvimento, tudo fica mais difícil na tarefa da conquista de votos.
Finalmente,
o candidato deveria assumir claramente que não haverá mudança nos pisos da
saúde e da educação, bem como que não haverá desvinculação dos benefícios
previdenciários em relação ao salário mínimo.
• Lula deve mirar fim da escala 6×1 na
estreia da propaganda eleitoral
O programa eleitoral do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva deve mirar o fim da escala 6×1 como uma das principais bandeiras
de sua estreia na propaganda eleitoral na televisão, marcada para este sábado
(29). A estratégia indica que a campanha pretende colocar no centro do debate
temas ligados a direitos trabalhistas, proteção social e melhoria das condições
de vida da população.
Lula e
Flávio Bolsonaro farão suas primeiras aparições na TV neste sábado, no horário
eleitoral presidencial, que será exibido às terças, quintas e sábados.
Nos
primeiros programas, Lula deverá destacar a proposta de fim da escala 6×1, tema
que dialoga diretamente com trabalhadores submetidos a jornadas de seis dias de
trabalho para apenas um de descanso. A pauta tende a ser apresentada pela
campanha como parte de uma agenda mais ampla de valorização do trabalho e
ampliação de direitos.
Além da
escala 6×1, o presidente deve abordar outros pontos associados à atuação de seu
governo, como a retirada do Brasil do Mapa da Fome, o fim da chamada “taxa das
blusinhas” e o combate ao feminicídio. A escolha dos temas sugere uma tentativa
de reforçar realizações sociais e econômicas junto ao eleitorado.
De
acordo com a coluna, Lula aparecerá de chapéu em todas as gravações. Parte dos
programas foi gravada na terça-feira (25) e também na semana anterior, no QG da
campanha, em Brasília. A produção ocorre sob supervisão do chefe da Secretaria
de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira, e do marqueteiro Raul
Rabelo.
O
cenário das gravações também terá simbolismo político. A ambientação deverá
incluir livros lidos por Lula durante o período em que esteve preso em
Curitiba, no Paraná, elemento que remete à trajetória recente do presidente e à
narrativa construída por sua campanha.
Do
outro lado da disputa, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deve usar sua estreia na
propaganda eleitoral para tratar de juros altos, preço dos alimentos e custo de
vida. Segundo a apuração, uma das estratégias será exibir gravações feitas na
porta das Casas Bahia.
O
senador gravou vídeos diante de uma loja fechada na semana passada, depois que
a tradicional varejista brasileira anunciou pedido de recuperação judicial. A
campanha de Flávio pretende usar o episódio para reforçar críticas à condução
da economia pelo governo federal.
• Lula recebe apoio de grupo evangélico:
‘está alinhado aos valores cristãos’
Um
grupo de evangélicos progressistas divulgou uma carta aberta em apoio à
reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em meio à ofensiva do
petista para ampliar sua presença junto ao eleitorado religioso e reduzir a
vantagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) nesse segmento.
O
documento é assinado pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito,
movimento formado por pastores e teólogos de diferentes regiões do país. Na
carta, o grupo afirma que a continuidade de Lula no governo está em sintonia
com valores cristãos e faz críticas diretas à candidatura de Flávio, associada
pela entidade a um projeto de “autoritarismo” e de defesa de “benefícios dos
mais ricos”.
“Não
podemos normalizar forças políticas que atacam as instituições, questionam o
resultado das urnas, estimulam a violência e ameaçam os direitos fundamentais.
A Bíblia nos ensina que ‘Deus não é Deus de desordem, mas de paz’”, afirma o
texto.
A
manifestação ocorre em um momento em que a campanha de Lula busca enfrentar um
dos principais desafios eleitorais do presidente: a resistência de parte
expressiva do público evangélico. Segundo pesquisas citadas pela CNN, Flávio
Bolsonaro mantém ampla vantagem sobre Lula entre eleitores religiosos, o que
levou o PT a intensificar a aproximação com lideranças do segmento.
Na
carta, a Frente também defende a atuação de Lula na preservação da democracia e
da soberania nacional, especialmente diante do tarifaço imposto pelos Estados
Unidos ao Brasil. Para o grupo, a conjuntura recente reforçou o papel do
presidente na contenção de ameaças à ordem institucional.
“A
experiência recente demonstrou a importância da liderança do presidente na
articulação da consciência democrática e na resistência às forças que ameaçaram
romper definitivamente a ordem constitucional. E isso não apenas no âmbito
nacional mas também na esfera global”, diz outro trecho do documento.
Apesar
do apoio formal à reeleição, a entidade afirma que a posição política não
elimina sua independência. O movimento ressalta que o apoio “não retira da
Frente sua autonomia” nem sua “capacidade de diálogo”.
A
aproximação de Lula com evangélicos também tem contado com a participação da
primeira-dama Rosângela Silva, a Janja. Como parte da estratégia de campanha,
ela lançou um comitê voltado ao público evangélico e um jingle de inspiração
gospel para reforçar a comunicação com esse eleitorado.
Além
disso, Lula pretende realizar um encontro com pastores evangélicos e se reunir
com o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), que já declarou apoio ao
presidente em uma eventual disputa de segundo turno contra Flávio Bolsonaro.
A
iniciativa busca ampliar pontes com lideranças religiosas e disputar um campo
em que a direita bolsonarista consolidou presença nos últimos anos. Ao obter o
apoio de pastores e teólogos progressistas, a campanha petista tenta mostrar
que a agenda democrática e social do governo também encontra respaldo em
setores evangélicos organizados.
Fonte:
Por Paulo Kliass, em Viomundo/Brasil 247

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