Por
que os idosos estão indo para a extrema direita?
No
último mês de abril, o jornal britânico The Guardian publicou, assinada por
Simón Usborne, uma extensa reportagem intitulada “Sinto que estou perdendo
ela”, dedicada às “famílias destruídas por parentes mais velhos que viram para
a extrema direita”. A reportagem, repleta de testemunhos pessoais, documenta
exatamente isso: como muitos idosos, viciados em redes sociais, se
radicalizaram politicamente, aderindo progressivamente a teorias da conspiração
que os alinharam a posições de extrema direita. “Conversei com dezenas de
pessoas sobre as dolorosas divisões que estão surgindo em suas famílias, onde
essas guinadas para a direita estão se tornando mais evidentes”, escreve
Usborne. “Elas me descreveram um cenário de alienação impulsionada pela
desinformação”.
Usborne
cita em sua reportagem os resultados de uma ampla pesquisa realizada em 2025
pelo Ofcom (Office of Communications, o órgão regulador independente das
comunicações no Reino Unido). De acordo com os dados, “os britânicos com mais
de 65 anos passam hoje o tempo recorde de três horas e vinte minutos por dia
conectados à internet”. A pesquisa revelou ainda que, para 75% desse mesmo
grupo de usuários de redes sociais, o Facebook é seu principal aplicativo; para
um terço, é a única plataforma que utilizam.
Usborne
cita também uma análise de dados realizada pelo próprio The Guardian no ano
passado, que concluiu que os grupos de extrema direita no Facebook são um motor
de radicalização no Reino Unido. A análise foi feita a partir dos perfis de
algumas das pessoas acusadas de crimes cibernéticos relacionados aos distúrbios
que ocorreram após o assassinato de três meninas em Southport, no verão de
2024. “As 51 mil publicações analisadas no âmbito do projeto revelaram padrões
de retórica anti-imigrante e teorias da conspiração”. Uma boa parte da
população com mais de 65 anos seria consumidora do conteúdo dessas publicações.
Esses
dados podem ser extrapolados para a Espanha ou outros países? As estatísticas
tanto do CSIC (Conselho Superior de Investigações Científicas) quanto do INE
(Instituto Nacional de Estatística) sugerem que sim, pois concluem que “cerca
de 83% das pessoas entre 65 e 74 anos usam a internet com frequência, e os
idosos espanhóis superam a média da zona do euro nessa faixa etária”. Outra
estatística da Fundação Mapfre reforça essas conclusões. O 5º Barômetro do
Consumidor Sênior observa que “75% dos espanhóis com mais de 55 anos estão
conectados à internet, 18 pontos percentuais a mais do que em 2020, quando esse
dado era de 57%”. Observa-se ainda que esse aumento no uso da internet se
intensificou especialmente entre aqueles com idades entre 75 e 84 anos, “faixa
etária que passou de 29,9% para 38% em apenas um ano”. Quanto às redes sociais
que frequentam, “a mais utilizada pelos idosos espanhóis é o Facebook, com 11
milhões de usuários, ou seja, 89% dos idosos que utilizam a internet. Em
seguida vem o Instagram, com 8,4 milhões de usuários idosos (67,9%), e o
TikTok, com 6,5 milhões de idosos (52,4%) – um dado relevante, considerando que
se trata de uma rede social muito recente e escolhida principalmente por
usuários da Geração Z”.
Se
relacionarmos esses dados com os que se podem extrair das estatísticas sobre o
consumo de programas de televisão, o quadro que se desenha é assustador. Se
dermos crédito aos dados fornecidos pelo Laboratório Jornalístico da Fundação
Luca de Tena, as pessoas com mais de 65 anos, na Espanha, dedicam mais de cinco
horas e meia por dia a assistir televisão, e 87% delas o fazem na televisão
tradicional. Se pensarmos que boa parte dessas horas é dedicada a programas de
entretenimento chulo e sensacionalismo como os de Ana Rosa Quintana, Susana
Griso e Pablo Motos, fica fácil entender que o impacto do uso das redes sociais
sobre essas mesmas pessoas é o da chuva sobre o molhado, e que o que estamos
testemunhando – como se depreendia de um artigo publicado nesta mesma revista
sobre como “as redes sociais e a IA normalizaram o consumo de desinformação
após a pandemia” – é um obscurecimento quase sistemático e uma distorção
intencional da percepção que uma maioria significativa da população com mais de
65 anos tem sobre os grandes problemas que os afetam.
Vale a
pena destacar esses dados porque a atenção e o alarmismo costumam se concentrar
na faixa etária mais jovem. Muitos já a consideram praticamente perdida no que
diz respeito à sua capacidade de resposta crítica às manipulações às quais está
exposta em seu consumo constante das redes sociais. Por outro lado, está claro
que o problema, embora em graus distintos, afeta toda a população, sem que as
faixas etárias de meia-idade estejam muito mais a salvo dos danos que a
intoxicação em massa com dados da realidade e as formas de interpretá-los
causam tanto aos idosos quanto aos jovens.
O fato
é que, partindo dessa situação, torna-se cada vez mais difícil a possibilidade
de diálogo ou de conversa. E o pior: mesmo que esse diálogo ou essa conversa
venham a ocorrer, a possibilidade de aproximar posições, ou mesmo de
compreendê-las, torna-se cada vez mais difícil. A reportagem do The Guardian
destaca os conflitos familiares gerados por essa radicalização quase
inconsciente de pessoas já idosas que, durante boa parte de suas vidas,
mantiveram posições políticas mais ou menos conservadoras, mais ou menos
razoáveis, mas que, há algum tempo, não têm receio de expressar, muitas vezes
com toda a tranquilidade, como se fosse a coisa mais normal do mundo, ideias e
opiniões muito extremas sobre assuntos sobre os quais, de repente, passam a se
pronunciar como se fossem especialistas.
Simón
Usborne anexou à sua reportagem um curta-metragem de seis minutos, realizado no
ano passado, que ilustra o impacto potencial dessa situação nas famílias.
Intitula-se A Family Tea (Um chá familiar, em tradução livre). Não deixem de
assistir. Copio o que Usborne diz sobre ele: “Uma mãe assiste a propaganda
anti-imigrante em seu laptop enquanto o marido lê o jornal e o filho adulto
olha para o celular. A mãe, enfermeira de profissão, fica furiosa ao perder uma
promoção para um colega estrangeiro. A tensão aumenta e logo ela começa a
repetir mentiras sobre a teoria nacionalista branca da ‘grande substituição’.
Seu filho, cuja parceira é imigrante, vai embora. ‘Se você continuar assim,
talvez não veja seus netos crescerem’, diz o pai”.
Enquanto
escrevo isso, percebo que me encontro dentro da faixa etária sobre a qual
tratam essas reflexões. Estamos falando dos boomers já envelhecidos. Quem
diria. A faixa geracional mais numerosa da história do Ocidente! Aquela que, na
Espanha, viveu intensamente os anos da Transição para a democracia e da euforia
social-democrata. Muitos desses aposentados e aposentadas que passam as manhãs
e noites assistindo televisão e que, nos momentos em que não o fazem, se
empanturram de “notícias” das redes sociais, votaram, na época, no socialista
Felipe González (PSOE). E não uma, mas duas e três vezes. Enquanto isso, o
próprio González, com sua aparência de boneco de olinda, vai ao programa de TV
sensacionalista El Hormiguero para dar lições com a mesma retórica de 40 anos
atrás, já esclerotizada, e com a qual contribui para que seus antigos eleitores
fiquem pasmos com o que o atual primeiro-ministro Pedro Sánchez (PSOE) e sua
turma estão fazendo.
Cada
vez com mais frequência, quando participo de uma conversa com pessoas da minha
idade ou mais velhas e o assunto política surge de algum jeito, a discussão
encalha em poucos minutos devido à tendência cada vez mais compulsiva de
defendermos as próprias opiniões recorrendo ao smartphone e exibindo
estatísticas elaboradas segundo critérios que ninguém sabe quais são. Os
argumentos vão sendo progressivamente substituídos pelos dados, aos quais se
atribui a mesma função persuasiva. Como se os argumentos não fossem justamente
o que nos permite interpretar os dados.
Moro em
Barcelona e testemunhei as fraturas, muitas vezes dolorosas, quando não
traumáticas, a que deu origem o movimento separatista durante seus anos de
auge. Estou imune a surpresas no que diz respeito à atrofia da comunicação e
até mesmo da simpatia quando questões políticas se interpõem, ainda mais se
permeadas por paixões identitárias.
Já
disse em outras ocasiões que cresci em um ambiente claramente franquista. Minha
família é de direita por todos os lados, e nunca faltaram, nas reuniões
familiares, discussões acaloradas sobre política. Portanto, estou acostumado
aos conflitos que elas geram, bem como às suas consequências.
Continua
após o anúncio
Mas o
que vem acontecendo tem pouco a ver com filiações ideológicas ou nacionalistas,
sejam elas mais ou menos fundamentadas em origens sociais, tradições familiares
e culturais, convicções religiosas, trajetórias educacionais, interesses
econômicos ou de classe, etc. Perdemos o rumo. Os idosos da geração boomer
parecem ter sofrido uma lobotomia. Velhos amigos acordam um dia transformados
em conservadores obstinados, sem que se consiga explicar o motivo. Eles não
ganharam na loteria, nem foram promovidos no trabalho. Também não parece que as
coisas estejam indo pior do que sempre foram. E, quanto aos males da idade, não
parece que se tornarem fascistas vá salvá-los. Pois não me refiro aqui à
tradicional e, até certo ponto, compreensível guinada conservadora que muitos
dão à medida que envelhecem. Aqui não entram em jogo, de forma alguma, nem a
experiência adquirida, nem a sabedoria conquistada, nem mesmo o apego ao
pequeno capital espiritual e material acumulado. Não. Trata-se de uma
reviravolta quase total, de uma mutação que parece tê-los transformado em
idiotas da noite para o dia.
Vocês
se lembram daquele clássico do cinema de terror, Vampiros de Almas (1956), de
Don Siegel? O filme foi objeto de um poderoso remake intitulado Invasores de
Corpos (1978), dirigido por Philip Kaufman e estrelado por Donald Sutherland.
Os moradores de uma cidadezinha da Califórnia começam a se comportar de maneira
estranha. Todos observam como seus colegas, amigos e parceiros apresentam
transformações no comportamento que os tornam irreconhecíveis, por mais que sua
aparência continue a mesma. Só muito tarde o protagonista descobre que a razão
do fenômeno está em grandes vagens de aparência vegetal (como as de ervilhas) e
de origem extraterrestre, nas quais são geradas cópias exatas dos humanos, que
os substituem quando estes dormem ou perdem a consciência.
Pois
bem: estamos testemunhando algo semelhante. Da mesma forma que, no
curta-metragem compartilhado por Usborne, o filho fica chocado ao ouvir sua mãe
criticar os imigrantes como se ignorasse que ele próprio tem uma namorada que é
imigrante, dia após dia todos nós observamos como o simpático vizinho do nosso
prédio, que passa por grandes dificuldades para pagar o aluguel, aproveita o
fato de descermos juntos no elevador para reclamar dos abusos que o novo
projeto de lei sobre moradia pretende impor aos proprietários; como nossa
sobrinha, que mal conseguiu se tornar independente e acabou de ter um filho,
afirma que pensa em não matriculá-lo na escola pública para que ele não se
misture com sabe-se lá quem e receba uma educação deficiente; como um amigo que
está há dois meses esperando por uma pequena cirurgia no sistema público de
saúde não para de reclamar dele, logo depois de ter me contado, com ar de
orgulho, como este ano passou a perna na Receita Federal na declaração de
imposto de renda; como o rapaz colombiano que entrega em casa as compras que a
vizinhança faz no supermercado da esquina comemora ostensivamente a vitória de
Abelardo de la Espriella nas eleições presidenciais de seu país; como a doce
velhinha que costumava se encontrar com minha mãe na missa diária, ao parar um
pouco para conversar conosco, se mostra indignada com o fato de recursos
públicos serem destinados a crianças e mulheres que entraram ilegalmente em
nosso país.
Os
exemplos podem se multiplicar infinitamente e em todas as direções. O que venho
dizer é que o lixo que tantos cidadãos consomem em massa pelas redes sociais e
pela televisão os desconectou de suas próprias origens e até mesmo de suas
próprias circunstâncias, e os está transformando em réplicas cegas de discursos
e até mesmo de emoções e sentimentos que atentam não apenas contra seus
próprios interesses materiais, mas também, muitas vezes, contra seus próprios
afetos, além dos princípios éticos e morais que, por outro lado, eles continuam
acreditando que orientam e regem suas vidas e seu comportamento.
Que
isso ocorra entre os mais jovens talvez fosse, até certo ponto, explicável, na
medida em que, com a vida pela frente, eles ainda podem se dar ao luxo de
fantasiar livremente tanto sobre o que são quanto sobre o que podem vir a ser.
Mas ver sexagenários e septuagenários mijando para fora do vaso repetidamente,
endossando veementemente ideias e opiniões que se chocam com o pouco ou o muito
que conseguiram alcançar, o pouco ou o muito que seu sistema de valores e seu
próprio esforço pessoal contribuíram para tornar este mundo mais habitável e
decente, e suas próprias vidas mais habitáveis e decentes, constitui um
espetáculo tanto preocupante quanto deprimente. Ainda mais porque não se
consegue vislumbrar nenhuma solução para impedir que as coisas sigam assim.
Fonte:
Por Ignacio Echevarría, no CTXT

Nenhum comentário:
Postar um comentário