quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ofensiva econômica dos EUA testa economia paralela do Irã

A nova fase da ofensiva econômica dos Estados Unidos contra o Irã pode atingir também a rede internacional que Teerã utiliza para movimentar recursos financeiros e mercadorias.

O resultado prático é uma possível pressão sobre intermediários, tornando mais difícil e mais caro para Teerã realizar transações internacionais, exportar petróleo e acessar moeda estrangeira. O país já enfrenta uma forte inflação.

Em discurso nesta segunda-feira (24/08), o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou que os EUA passarão a mirar cinco "linhas de sustentação" da economia iraniana: ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. Ele também advertiu empresas e intermediários estrangeiros que auxiliem o país a transferir recursos de forma considerada ilícita.

"Qualquer entidade que facilite a lavagem de dinheiro para o Irã será excluída do sistema financeiro baseado no dólar. A contagem regressiva começa agora", disse.

A estratégia busca reforçar as chamadas sanções secundárias, pressionando empresas, instituições financeiras e parceiros comerciais fora do Irã, em vez de apenas ampliar restrições sobre uma economia que já enfrenta amplo isolamento.

Washington anunciou medidas contra cerca de 60 indivíduos, empresas e embarcações. No entanto, a iniciativa, propagandeada inicialmente pelo presidente Donald Trump como um "Dia D econômico", evitou atingir bancos chineses e ficou em grande parte no terreno das ameaças.

<><> Como o Irã contorna as sanções

Há anos, o Irã depende de mecanismos paralelos ao sistema bancário formal para movimentar recursos. Casas de câmbio, ouro, criptomoedas, empresas de fachada e redes marítimas pouco transparentes ajudam o país a reduzir os efeitos das sanções.

A nova estratégia americana pretende dificultar essas operações ao elevar os custos para intermediários estrangeiros. A iniciativa ocorre em um momento de fragilidade econômica para o Irã.

As exportações de petróleo caíram significativamente após os esforços dos EUA para interromper os embarques iranianos. As vendas para a China, principal comprador do petróleo iraniano, recuaram para cerca de 534 mil barris por dia em agosto, ante 823 mil em julho e um pico próximo de 1,58 milhão de barris no início do ano.

O governo chinês disse que "fará o que for necessário" para defender seus direitos e interesses, após a ofensiva americana.

No mercado interno iraniano, os preços dos alimentos registraram alta de aproximadamente 128% em julho na comparação anual, segundo dados oficiais citados pela agência Reuters.

A desvalorização da moeda iraniana chegou a tal ponto que muitas transações, incluindo a compra e venda de imóveis e veículos, passaram a ser realizadas em dólares. Em alguns casos, anúncios de produtos e serviços também são divulgados na moeda americana.

<><> Inflação pressiona empresas

Os efeitos da crise já são visíveis entre empresários.

Um comerciante de materiais de construção em Teerã afirmou à DW que a inflação se tornou tão intensa que, em alguns casos, armazenar mercadorias gera mais ganhos do que vendê-las.

"Se eu guardar um produto no depósito por um mês, o preço pode subir mais do que o lucro que teria ao vendê-lo hoje", disse.

Ele também administra uma empresa de corte de pedras e relatou dificuldades crescentes para cumprir contratos antigos, já que a reposição dos materiais costuma custar muito mais algumas semanas depois. Ao mesmo tempo, aumentar os preços nem sempre é uma solução.

"Se elevar o valor além de certo ponto, ninguém consegue comprar", afirmou.

As restrições também afetam a capacidade das empresas de pagar fornecedores, importar insumos e manter empregos.

Um funcionário de uma empresa de comércio exterior disse à DW que mais de 70% dos empregados foram demitidos nos últimos seis meses.

Segundo ele, a companhia importava matérias-primas para produtos de uso pessoal e costumava efetuar pagamentos por meio de casas de câmbio nos Emirados Árabes Unidos.

"Agora nenhuma casa de câmbio aceita trabalhar conosco", relatou.

<><> Impacto sobre empresários iranianos no exterior

As consequências das sanções também atingem empresários iranianos que vivem fora do país.

Um empresário que se mudou para Dubai contou à DW que os negócios nos Emirados Árabes Unidos eram mais simples antes do conflito, mas a situação mudou.

"Hoje, ter um passaporte iraniano torna quase qualquer transação mais difícil", afirmou.

Segundo ele, muitos empreendedores enfrentam incertezas sobre a manutenção de contas bancárias e possíveis mudanças nas regras de residência.

"Sem estabilidade e com perspectivas pouco claras, é muito difícil administrar um negócio", disse.

<><> As novas sanções podem mudar o comportamento de Teerã?

Para Alireza Salavati, comentarista de economia política radicado em Londres, as novas medidas dificilmente provocarão uma mudança estratégica por parte do governo iraniano.

Segundo ele, praticamente todos os principais setores da economia do país já estão sujeitos a sanções. Assim, a novidade estaria mais relacionada ao reforço da fiscalização de redes existentes do que à criação de novos instrumentos de pressão.

"Os efeitos tendem a ser principalmente psicológicos, intensificando as expectativas inflacionárias", avaliou.

Salavati também alerta que a pressão econômica pode enfraquecer os grupos de renda média e os profissionais que tradicionalmente oferecem espaço para posições políticas mais moderadas.

Em vez de promover mudanças rápidas, acredita ele, as sanções podem aprofundar a polarização e levar o Estado a reduzir subsídios e programas de assistência social já limitados.

<><> O risco de fortalecimento da economia paralela

Há ainda um efeito colateral potencial. Quanto mais os EUA restringem os canais financeiros formais, maior tende a ser o incentivo para o desenvolvimento de mecanismos informais.

A economia iraniana já conta com redes complexas de intermediários, transferências via criptomoedas, empresas de fachada, operações em dinheiro vivo e mercados cambiais paralelos.

Fechar uma rota pode tornar as transações mais caras, mas não necessariamente impedi-las.

"A consequência mais ampla provavelmente será corrosiva, e não transformadora", afirmou Salavati, advertindo que o resultado pode ser a expansão de uma economia subterrânea ainda maior e menos controlada.

As novas sanções podem dificultar o financiamento do comércio exterior iraniano, a obtenção de moeda forte e a manutenção das redes econômicas que sustentam parte da atividade do país. No entanto, os impactos imediatos já recaem sobre empresas, trabalhadores e famílias que enfrentam inflação elevada e os efeitos da guerra.

¨      Líderes apostam em outro desfecho

Os Estados Unidos afirmam ter lançado uma "investida econômica contra as conexões financeiras do Irã em todo o mundo".

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, declarou que as sanções incluem ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e navegação e que qualquer nação que se associar financeiramente ao Irã ficará isolada.

Mas o anúncio de Bessent, denominado por ele como "Dia D econômico", pode ter soado mais dramático em Washington do que em Teerã.

Pouco antes do anúncio, o ministro da Economia do Irã, Ali Madanizadeh, chamou a medida de "a mesma velha conversa" e declarou que seu país está pronto para "qualquer cenário".

Madanizadeh destacou que Teerã já esperava as medidas e tem planos para enfrentá-las.

A reação coloca em evidência a principal questão que provavelmente os líderes iranianos estão se fazendo: o que os Estados Unidos podem fazer agora que ainda não tenham tentado antes?

Bessent ameaçou impor sanções secundárias mais amplas contra países, bancos e empresas que continuarem fazendo negócios com o Irã. Mas a política básica não é nova.

O Irã enfrenta sanções americanas há anos. Elas incluem penalizações contra empresas estrangeiras que negociam com o país.

O importante para Teerã é se Washington pode impor sanções mais amplas do que já fez anteriormente.

O bloqueio americano já fez diferença. A medida reduziu a capacidade do Irã de exportar por via marítima a mesma quantidade de petróleo comercializada anteriormente — e também dificultou a importação de mercadorias e equipamentos.

O Irã detém extensas fronteiras terrestres com sete países e tem anos de experiência em usar essa geografia para driblar as sanções. Mas as vias terrestres não substituem facilmente o comércio marítimo, especialmente as exportações de petróleo.

Por isso, a pressão pode se agravar muito mais se Washington conseguir fechar os canais que sobreviveram às sanções anteriores, principalmente em relação à China e aos países vizinhos do Irã.

Mas este é um grande desafio. O Ministério das Relações Exteriores da China declarou nesta terça-feira (25/8) que se opõe firmemente às sanções, consideradas ilegais por Pequim.

Se as sanções não produzirem o efeito esperado, o anúncio de Bessent poderá fortalecer os iranianos que se opõem a um acordo com os Estados Unidos. Eles poderão defender que Washington retomou as pressões econômicas porque suas opções são limitadas.

Uma nova campanha militar traz seus riscos e anos de sanções não conseguiram forçar o Irã a aceitar as exigências americanas. Washington também manteve pouco espaço para a diplomacia.

O Paquistão e outros mediadores ainda tentam retomar as negociações, mas os Estados Unidos não descartaram novos ataques. A retomada das ameaças poderá enfraquecer as autoridades iranianas que defendem o acordo.

<><> 'Só consigo comprar carne com cupom de subsídio do governo'

O Irã já enfrentava graves problemas antes da guerra, com a inflação em alta e sua moeda se enfraquecendo rapidamente. Esses problemas se agravaram ainda mais após o início dos combates, com os ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel no último dia 28 de fevereiro.

A desvalorização da moeda iraniana, o rial, traz graves e amplas consequências. As importações ficam mais caras, as empresas enfrentam dificuldades de planejamento e o dinheiro das pessoas perde valor.

As restrições às exportações de petróleo também reduzem o acesso do governo à moeda estrangeira.

Negin (nome fictício) é uma mulher de 34 anos. Ela afirma que sua renda mensal, agora, equivale a cerca de US$ 100 (cerca de R$ 515).

"Não vou ao cinema, teatro, nem shows", conta ela à BBC. "Não compro presentes para ninguém. Não vou a festas de aniversário."

"Só consigo comprar carne com o cupom de subsídio do governo; se não tivesse, não poderia comprar."

Mona é uma dona de casa com dois filhos. Ela conta que seu marido não consegue trabalho desde o início da guerra.

"Estamos assustados, especialmente após as sanções que começaram ontem", segundo ela. "Desde o início da guerra, meu marido não voltou a trabalhar. Ele costumava trabalhar em navios."

"Estamos tentando administrar nossas despesas da melhor forma possível, mas certamente precisamos cortar todos os gastos extras e pequenos luxos", lamenta Mona.

O Irã talvez acredite que o tempo corre contra o presidente Trump.

Novas paralisações no Estreito de Ormuz podem elevar ainda mais os preços do petróleo e da gasolina, aumentando a inflação nos Estados Unidos e criando um problema político, antes das eleições americanas de meio de mandato, em novembro.

Com isso, Teerã tem uma data clara a observar, mas depender das eleições americanas é uma aposta. Até lá, a economia iraniana poderá ficar muito enfraquecida.

Depois das eleições, existe um novo problema. Como Trump não busca a reeleição em 2028, seu governo pode sentir mais liberdade para prosseguir confrontando o Irã e aceitar os custos.

Ou seja, o Irã olha para dois relógios. Um deles é político e marca o tempo em Washington. O outro é econômico e fica dentro do Irã.

A cada mês de redução das exportações de petróleo, interrupção do comércio e pressão sobre o rial, os custos da espera por um acordo para o fim da guerra aumentam.

Esta situação deixa os líderes iranianos com uma escolha difícil. Fazer concessões agora pode parecer uma rendição sob pressão e fortalecer os políticos linha-dura, que afirmam que Washington irá simplesmente aumentar suas exigências.

Aguardar pode melhorar a posição do Irã, se a estratégia de Trump gerar problemas políticos ou econômicos. Mas Teerã também poderá acabar negociando mais tarde com sua economia enfraquecida.

E grande parte também depende do que acontecer fora do Irã.

Se os bancos chineses, parceiros de comércio regionais e empresas começarem a se afastar por acreditarem que Washington irá puni-los, a campanha de Bessent pode alterar os cálculos de Teerã.

Caso contrário, pode acontecer o oposto. Os iranianos que rejeitam um compromisso dirão que Washington jogou outra carta supostamente decisiva, sem alterar o equilíbrio, e que o Irã deve continuar esperando ou resistir.

¨      China rechaça ameaça de sanções 'ilegais e sem fundamento' dos EUA por cooperação com Irã

A China rechaçou nesta terça-feira (25/08) as ameaças dos Estados Unidos de adotarem medidas contra países que não aderirem às sanções impostas ao Irã. Em entrevista coletiva, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian, reiterou a oposição de Pequim às sanções unilaterais e defendeu a retomada do diálogo para reduzir as tensões.

“A China tem reiteradamente manifestado sua firme oposição a sanções unilaterais ilegais, sem fundamento no direito internacional e não autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU”, afirmou Lin Jian, ao ser questionado sobre a adoção de contramedidas por parte de Washington.

O porta-voz chinês criticou a estratégia de pressão econômica contra o Irã e alertou para suas consequências internacionais. “A guerra econômica e as táticas de pressão máxima não ajudarão a resolver o problema; elas apenas intensificarão ainda mais os conflitos, causarão riscos de contágio, perturbarão a ordem econômica e financeira global e prejudicarão os direitos e interesses legítimos de outros países”, afirmou.

“A tarefa urgente é reduzir a tensão e retornar ao caminho do diálogo e da negociação o mais rápido possível”, acrescentou.

Lin Jian também defendeu a legitimidade das relações mantidas entre Pequim e Teerã. “A cooperação entre a China e o Irã sempre foi conduzida dentro da estrutura do direito internacional e não deve ser interferida ou interrompida”. E acrescentou que “a China está acompanhando de perto os desdobramentos relevantes e tomará todas as medidas necessárias para salvaguardar firmemente seus próprios direitos e interesses”.

<><> Sanções norte-americanas

A reação de Pequim ocorre após o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmar, nesta segunda-feira (24/08), que nenhum país, incluindo a China, estará fora do alcance das retaliações norte-americanas.

“Queremos deixar claro hoje que ninguém está por acima do alcance das sanções dos Estados Unidos. Se facilitarem transações e fizerem parte do ecossistema que transforma o petróleo iraniano em dinheiro e em repressão, serão alvo”, declarou Bessent, referindo-se, entre outros agentes, a instituições bancárias chinesas.

A advertência foi feita durante o anúncio de uma nova etapa da ofensiva econômica dos Estados Unidos contra  o Irã, batizada de Operação “Pária Econômico”. O secretário do Tesouro classificou a iniciativa como “a maior ofensiva financeira já orquestrada contra um adversário”.

¨      A reação dos EUA

O governo americano pareceu reagir com cautela à resposta da China. Quase seis meses após o início da guerra envolvendo o Irã, os Estados Unidos vivem o dilema de não querer se indispor contra uma potência cada vez mais propensa a retaliar, ainda mais a um mês da visita do líder chinês, Xi Jinping, aos EUA.

No anúncio de segunda-feira, Bessent divulgou ainda sanções contra mais de 60 entidades, indivíduos e navios de diferentes países que, segundo Washington, permitem ao Irã adquirir tecnologia nuclear e de mísseis, realizar operações cibernéticas e gerar receitas petrolíferas.

Apesar de a medida não impactar diretamente nenhuma entidade da China continental, há duas empresas do ramo petrolífero entre as sancionadas que são de Hong Kong, território semiautônomo sob domínio da China.

O secretário do Tesouro também advertiu na segunda que cada país tem um prazo determinado para encerrar as atividades identificadas por Washington e garantiu que os EUA atuarão unilateralmente contra aqueles que não o fizerem.

Nos últimos anos, a China tem sido a principal compradora de petróleo iraniano, chegando a responder por cerca de 90% de suas exportações de petróleo bruto, o que a coloca na linha de frente das sanções anunciadas pelo governo Trump.

 

Fonte: DW Brasil/Opera Mundi

 

Nenhum comentário: