Quando
a metrópole troca a fábrica pelo fundo de investimento
A
Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) não é mais a locomotiva industrial do
Brasil. Dados recentes da Fundação SEADE sobre a variação do Valor de
Transformação Industrial (VTI) na região, entre 2011 e 2021, apontam para uma
desconcentração produtiva em direção ao interior paulista, sobretudo às regiões
administrativas de Campinas, São José dos Campos e Sorocaba, na esteira de um
processo de desindustrialização nacional. Tal processo afeta os municípios da
RMSP com diferentes intensidades. O mais afetado, entretanto, é o município de
São Paulo, cuja participação no país se reduziu de 5,8% para 2,3%.
Mas a
perda de protagonismo industrial não significa perda de centralidade. Ainda que
a literatura aponte a diminuição de sua dinâmica econômica e produtiva e a
redução de seu crescimento populacional a cada novo Censo Demográfico, a RMSP
mantém posição de destaque. Ela segue como a principal centralidade urbana do
território nacional, destacando-se no setor financeiro e de negócios e como
principal centro de comando do país na era digital.
Ao
resgatar as leituras clássicas das décadas de 1970 e 1980, sobre a urbanização
brasileira no período industrial, com o objetivo de desvendar a produção do
espaço urbano contemporâneo na RMSP, tornou-se necessário atualizar o arcabouço
explicativo.
As
chaves analíticas que permitiam compreender a metrópole paulistana há quatro ou
cinco décadas já não são suficientes para explicar os fatores que hoje orientam
os fluxos de pessoas, mercadorias, valores, dados e dinheiro. São esses fluxos
que ajudam a definir o dinamismo imobiliário em uma escala ampliada e a
centralidade que São Paulo ocupa na rede de cidades por ela polarizada.
Uma
evidência dessa transformação é o crescimento do volume da oferta imobiliária
residencial na RMSP nos últimos dez anos, que saltou de 66.767 para 94.758
unidades habitacionais, registrando um aumento de 42%. Na capital, o
crescimento foi ainda maior: de 38 mil unidades habitacionais, em 2011, para 79
mil, em 2021.
À luz
das transformações recentes na configuração do capitalismo brasileiro,
presididas pela ordem neoliberal, pelo encolhimento da indústria, pela
reprimarização da economia e pela financeirização, este artigo evidencia os
nexos entre desconcentração produtiva, desindustrialização e atuação do mercado
imobiliário na metrópole paulistana. Este, por sua vez, se renova para
acompanhar as mudanças de uma racionalidade que amalgama “velhos” e “novos”
fatores e reconfigura a reprodução do espaço urbano, cada vez mais orientada
pela lógica do sistema financeiro-imobiliário globalizado.
Em
lugar da dinâmica industrial, atividades terciárias passam a constituir a
principal fonte de dinamismo, em particular, aquelas de natureza rentista e
ligadas à chamada economia digital. A RMSP se atualiza e satisfaz, como nenhuma
outra aglomeração urbana brasileira, as atuais exigências da acumulação de
capital. As perdas de investimentos e empregos decorrentes do “ajuste espacial”
(Harvey, 1984) – ocorrido em resposta à crise desenvolvimentista e que se
seguiu à abertura comercial e a uma política monetária baseada em elevadas
taxas de juros – reforçaram a queda da importância da indústria e a
consolidação de uma nova classe hegemônica, rentista, nesta São Paulo
pós-industrial. Afinal, é nela que se concentram as condições propícias a esse
novo regime de acumulação.
As
economias de aglomeração de que a RMSP vem desfrutando ao longo de décadas
sustentam sua capacidade, incomparável no país, de atrair pessoal qualificado e
atividades mais intensivas em capital, conhecimento e competências de TI
associadas à economia digital. Isso possibilita a renovação de sua posição de
destaque na rede urbana brasileira. Centros de comando financeiro,
potencializados pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs),
também se beneficiam das economias de aglomeração da metrópole paulista, assim
como das interações a distância, agora possíveis em múltiplas escalas, da local
à nacional e à global. A RMSP se consolida, assim, como principal nó de
articulação de fluxos centrais (Taylor; Hoyler; Verbruggen, 2010), que
interligam a economia brasileira ao sistema-mundo – não sem gerar novas
contradições.
O
espaço urbano da RMSP tende, assim, a intensificar as concentrações de renda e
riqueza herdadas de períodos anteriores, espelhadas na intensa produção de
propriedades e bens imobiliários, sobretudo para a moradia. Ao mesmo tempo,
estrutura-se uma espacialidade própria, caracterizada por uma rede de
centralidades com níveis distintos de consolidação na mancha urbana
metropolitana. Seus papéis e importâncias se alteram continuamente,
evidenciando interdependências e complementaridades entre as atividades imobiliárias
e a inserção regional das localidades.
Tal
transformação pode ser entendida como parte do “ajuste espacial” decorrente da
crise desenvolvimentista, que intensificou a desconcentração seletiva da
indústria em direção ao interior do estado, ao mesmo tempo que se articulou à
predominância da acumulação rentista, no contexto do ingresso da periferia do
capitalismo na era do conhecimento e da revolução digital. Diante de mudanças
estruturais de tal magnitude, as trajetórias dos eixos de desenvolvimento
regional no estado de São Paulo não permanecem imunes.
O
argumento aqui defendido é o de que a “grande desistência histórica do antigo
empresariado industrial paulistano” (Pochmann, 2022), se converte em práticas
orientadas à acumulação rentista-financeira. À medida que a participação da
indústria na estrutura econômica da RMSP encolhe, acentua-se a concentração de
renda, em paralelo à redução dos postos de trabalho operário. Ao reduzir a
composição orgânica do capital, a acumulação financeira limita a expansão do
mercado imobiliário, que, por sua vez, retroalimenta a acumulação financeira e
passa a focar em investidores como clientes.
Para
superar os efeitos de bloqueio à expansão do mercado decorrentes da
concentração de renda, a financeirização da produção imobiliária paulistana
lança mão de métodos semelhantes aos costumeiramente utilizados no capitalismo
nacional, hostil a qualquer possibilidade de homogeneização social, nos termos
de Celso Furtado (1979). Renova-se, nesta solução à crise desenvolvimentista, o
formato ornitorrinco característico da socioeconomia brasileira, tal como
exposto por Francisco de Oliveira (2013).
Nessa
perspectiva, buscou-se estabelecer, nos anos 2000, os nexos entre o
“esvaziamento industrial” e a renovação da acumulação financeira, decorrente de
sua estreita combinação com modalidades de operações imobiliárias na metrópole
paulistana. Tal renovação reitera as vantagens da metrópole, apesar do
arrefecimento de seu dinamismo industrial.
Configura-se,
assim, um mercado imobiliário metropolitano com níveis distintos de
consolidação, que reestrutura o território e evidencia interdependências e
complementaridades entre as atividades imobiliárias e as distintas inserções
regionais das localidades, mediante o transbordamento escalar decorrente da
desconcentração industrial.
A
dinâmica imobiliária na metrópole paulistana nos anos 2000, analisada a partir
do ciclo de expansão, sobretudo a partir da segunda década, revelou a
existência de vetores de expansão relacionados aos principais eixos de
mobilidade interurbanos e de desenvolvimento regional. Esses vetores se
constituem por subtipos de mercado que apresentam diferentes gradientes de
consolidação.
Mais
recentemente, sobretudo após a crise econômica, política e institucional de
2015 no país e em um contexto de retração das atividades imobiliárias, o
reposicionamento do setor fez com que a capital (re)assumisse centralidade em
escala ampliada, concentrando volumes inéditos de lançamentos residenciais.
Foram quase 100 mil unidades lançadas em 2025, correspondentes a 84% do total
da RMSP, com forte participação de produtos do segmento econômico, a preços
equivalentes aos do teto das faixas de mercado do Programa Minha Casa, Minha
Vida.
Impulsiona
essa crescente dinamização das atividades do setor uma vertiginosa valorização
imobiliária, que está no centro da reconfiguração das disputas nas fronteiras
entre a função social da moradia e o interesse privado lucrativo, hegemônico em
tempos de inflexão ultraneoliberal nesta metrópole cada vez mais desigual.
Fonte:
Por Ana Cristina Fernandes, Carolina Pozzi de Castro, Fernando Mesquita,
Letícia Sígolo e Poliana Ueda, no Le Monde

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