Por
que cada vez mais meninos querem ficar musculosos
Nas
últimas décadas, a maioria das pessoas aprendeu a detectar os sinais de que uma
adolescente está desenvolvendo uma relação pouco saudável com seu corpo.
Geralmente,
ela deseja ficar mais magra.
Mas
conversei com o médico Roberto Olivardia, que estuda os problemas de imagem
corporal há mais de 30 anos. Ele acredita que a sociedade não seja tão eficaz
para detectar os problemas verificados com os meninos.
A
obsessão de muitos meninos e adolescentes não é por emagrecer, mas sim por
ganhar massa muscular. Por isso, a detecção do problema pode ser muito mais
difícil, pois fazer exercício e ganhar força costumam ser considerados sinais
de disciplina e saúde.
Embora
a maioria dos jovens esportistas não desenvolva nenhum transtorno, Olivardia
afirma que esta tendência de problemas de imagem corporal entre os meninos vem
se agravando.
Recentemente,
ele tem atendido no seu consultório meninos de apenas 10 anos de idade e afirma
que um dos principais motivos são as redes sociais.
"Depois
de me dedicar por tanto tempo a este trabalho e de observar a situação antes e
depois da chegada das redes sociais, posso dizer que, hoje, enfrentamos um
fenômeno totalmente diferente", afirma ele.
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Confira abaixo a entrevista.
• Muitas pessoas já sabem identificar uma
adolescente extremamente magra e compreendem quando tudo começa a se agravar.
Mas acho que o mesmo não ocorre com os meninos e seus músculos. Precisamos
agora ter uma conversa similar sobre como é um corpo em forma no caso deles?
Roberto
Olivardia: Sem dúvida, com os meninos, é diferente.
Temos
estudos que remontam ao século 17 sobre as mensagens opressoras recebidas pelas
mulheres em relação à magreza e à feminilidade. Mas, com os homens, foi um
pouco diferente.
Segundo
nossas pesquisas, este fenômeno começou a ser realmente incorporado à cultura
popular no final dos anos 1970 e início da década de 1980, quando começamos a
observar uma maior proliferação de corpos musculosos.
Não foi
por acaso que Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone foram os maiores
astros de bilheteria daquela época. Em muitos sentidos, seus corpos eram seu
principal patrimônio.
Assim
como falamos para as meninas e mulheres, que seu corpo não define quem elas
são, essas conversas, em grande parte, foram ignoradas em relação aos meninos.
Aqueles
que têm mais músculos são considerados mais masculinos. Hoje, esta ideia é
promovida de forma evidente, provavelmente como nunca antes, nas redes sociais
e, especialmente, na chamada "machosfera".
• Vamos voltar à década de 1990, quando
você e seus colegas cunharam o termo "dismorfia muscular". O que era
preocupante sobre este transtorno na época?
Olivardia:
Em meados dos anos 1990, eu investigava transtornos alimentares em meninos,
adolescentes e homens adultos e recebia muitas ligações de pessoas interessadas
em participar dos nossos estudos.
Muitos
homens me diziam: "Antes, eu sofria de anorexia ou bulimia nervosa. Não
tenho mais este problema, mas estou mergulhado nessa busca obsessiva para
desenvolver mais musculatura. A diferença é que, agora, esta obsessão, de
alguma forma, é socialmente aceita."
De
fato, em vez de serem questionados, eles, muitas vezes, recebem elogios. As
pessoas dizem: "Você tem muita disciplina", "que força de
vontade!".
Não
costumamos imaginar que um homem musculoso possa ter uma patologia e a maioria
deles, é claro, não tem.
Mas
estes são homens que, embora sejam corpulentos, musculosos e até considerados
por muitas pessoas como alguém com o corpo ideal, continuam acreditando que são
pequenos demais.
Eles
vivem com o receio de que, no dia seguinte, poderão repentinamente se tornar
frágeis.
Estes
homens pensam constantemente no tamanho do seu corpo e na sua aparência, até o
ponto em que esta preocupação acaba afetando significativamente diferentes
aspectos da sua vida.
• O que você observa hoje no seu
consultório, que não havia 5 ou 10 anos atrás?
Olivardia:
Bem, em primeiro lugar, as redes sociais criaram uma cultura em que todos são
especialistas.
Por
isso, quando um influenciador difunde determinadas ideias sem nenhum tipo de
respaldo científico, vejo que a minha opinião, como psicólogo clínico, a de um
médico ou de qualquer especialista em um determinado tema é completamente
descartada ou, pelo menos, colocada no mesmo nível daquela pessoa.
• Que a de um influenciador do TikTok, por
exemplo?
Olivardia:
Exatamente. A de um influenciador do TikTok, simplesmente porque ele tem 10
milhões de seguidores, como se isso automaticamente lhe outorgasse
credibilidade.
• Como profissional de saúde, deve ser
desesperador para você.
Olivardia:
Sem dúvida. Não por uma questão de ego, mas porque existem pessoas sofrendo as
consequências das informações que recebem.
Anos
atrás, quando surgiu a internet, todos aqueles grupos que promoviam transtornos
do comportamento alimentar eram preocupantes. Mas, de alguma forma, aquilo
parecia um fenômeno mais contido.
Agora,
existe outro nível, totalmente diferente.
Dez
anos atrás, se encontrássemos um jovem batendo no próprio rosto com um martelo,
como promovem alguns desses influenciadores do looksmaxxing, este comportamento
seria considerado quase psicótico, pois era algo extremamente incomum.
Até
pessoas com obsessão pela própria imagem corporal, que talvez não tivessem
chegado tão longe, diriam: "Isso já é demais."
Mas,
quando você é exposto constantemente a este tipo de conteúdo, este
comportamento acaba sendo normalizado.
É
preciso ter em conta que trabalho com meninos de apenas 10 anos que têm
problemas de imagem corporal, além de adolescentes muito vulneráveis, que
buscam o mesmo que todos nós: aceitação e conexão.
Este
comportamento está sendo normalizado porque existem influenciadores que recebem
muita atenção, ganham muito dinheiro, desfrutam dos seus 15 minutos de fama e
acumulam milhões de seguidores, o que, de alguma forma, outorga credibilidade a
eles.
São
eles que dizem a estes jovens: "Se você fizer isso, terá acesso às
mulheres, ao poder, ao respeito e a tudo o mais."
• Conte como pessoas cada vez mais jovens
apresentam dismorfia muscular e esta obsessão por desenvolver ao máximo sua
musculatura. A que você acha que isso se deve?
Olivardia:
A idade vem diminuindo.
Acredito
que, em parte, isso ocorre porque há pessoas que dirigem suas mensagens
especificamente para este público e porque os jovens têm acesso a essas vozes
através das redes sociais.
Uma das
primeiras perguntas que faço aos meus pacientes homens quando abordamos este
tema é: "Quem você segue nas redes sociais?"
Eu já
conheço muitos desses influenciadores e, quando não conheço, analiso o conteúdo
que eles publicam.
Porque
eu vejo este paciente durante 50 minutos por semana, enquanto ele pode estar
ouvindo aquela outra pessoa entre 10 e 15 horas semanais.
Esta é
realidade que enfrentamos nós, pais, médicos e profissionais de saúde mental.
• Existe uma linha muito tênue entre
praticar exercício de forma saudável e de maneira pouco sadia. E nem sempre é
fácil diferenciar uma da outra. O que você diria aos pais e treinadores para
ajudá-los a identificar a diferença?
Olivardia:
Vinte e cinco anos atrás, escrevi, junto com um colega, o livro The Adonis
Complex ("O complexo de Adonis", em tradução livre).
Lembro
que, às vezes, recebíamos críticas como: "Então vocês são contra o
exercício e a alimentação saudável." E claro que não é assim.
Sabemos
que existem graves problemas de saúde que também afetam os jovens, como a
obesidade, a falta de atividade física e a privação do sono.
Quando
penso nessa linha que separa o saudável do problemático, existem dois aspectos
que considero fundamentais.
O
primeiro é: a pessoa se percebe a si própria de forma realista?
Se você
é pai ou treinador e seu filho, aluno ou esportista, diz: "Meu Deus, estou
muito gordo" quando não está; ou "estou magro demais" quando, na
verdade, tem uma musculatura considerável, este já é um sinal de alerta.
O
segundo aspecto é até que ponto este comportamento afeta outras áreas da sua
vida.
Tenho
pacientes obcecados por fazer exercícios. Eles passam cinco ou seis horas por
dia na academia e ficam completamente esgotados.
E
qualquer pessoa ficaria, se levantasse pesos durante cinco ou seis horas
diárias. No final, não sobra tempo para mais nada e eles acabam presos em um
círculo vicioso.
E, é
claro, também é importante prestar atenção em comportamentos perigosos, como o
consumo de esteroides e outras substâncias. Tenho muitos pacientes que acabam
desenvolvendo dependência de opioides, devido à dor que eles sofrem por excesso
de treinamento na academia.
Definitivamente,
não sou contra a promoção da alimentação saudável, de fazer exercícios ou de
dormir bem.
Fazer
exercício é bom, mas dez horas de exercício não são necessariamente melhores
que uma. Dormir oito horas é excelente, mas, se alguém dorme 15 horas,
provavelmente algo não estará funcionando bem.
Fonte:
BBC News

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