‘Anatomia
do golpismo ainda insepulto’, afirma Eugênio Aragão
Há
trajetórias que não apenas testemunham a história institucional de um país, mas
se entrelaçam às suas horas mais graves. A de Eugênio José Guilherme de Aragão
foi forjada nessa intersecção precisa, onde o rigor da academia encontra o
núcleo duro do poder estatal. Graduado pela Universidade de Brasília (UnB)
(chão no qual fincou sua cátedra para moldar gerações no Direito Internacional
Público), lapidou sua visão de mundo com o mestrado em Direitos Humanos
pela University of Essex, na Inglaterra. A essa arquitetura,
somou-se a erudição do título de doutor, outorgado com a distinção máxima summa
cum laude pela Ruhr-Universität Bochum, na Alemanha. Uma
densidade intelectual talhada não para o conforto dos salões, mas para o embate
democrático. Onde o olhar comum enxerga a neutralidade asséptica dos códigos, a
arqueologia analítica de Aragão rastreia o choque subterrâneo de forças. Ele
desvela a engrenagem do Estado com uma acuidade que estilhaça consensos fáceis.
Foi essa envergadura que sustentou sua travessia dos anfiteatros universitários
lotados de alunos para o epicentro das tormentas em Brasília:
subprocurador-geral da República, vice-procurador-geral eleitoral e, no ápice
do vendaval que desfez o pacto republicano em 2016, assumindo o bastão do
Ministério da Justiça. Nas horas de fratura, era à sua sobriedade que se
recorria.
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Eis a entrevista.
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Em 14 de março de 2016, a Agência Brasil noticiou que a
ex-presidenta Dilma Rousseff o havia escolhido para o Ministério da Justiça, no
lugar de Wellington César Lima e Silva, que saíra depois de o Supremo decidir
que membro do Ministério Público não podia ocupar cargo político. O senhor
vinha do cargo de vice-procurador-geral eleitoral no Tribunal Superior
Eleitoral. Dois dias depois, o juiz de Curitiba levantou o sigilo do diálogo
telefônico entre a presidenta e o ex-presidente Lula, que hoje é o nosso presidente.
Três anos mais tarde, em texto publicado pelo site Viomundo em 12 de junho de
2019, o senhor afirmou que aquele diálogo foi tornado público criminosamente.
Minha pergunta é sobre o momento exato, não sobre o julgamento posterior:
quando o senhor assumiu a pasta, sabendo que aquilo tinha acabado de acontecer,
o senhor entendeu que estava entrando num ministério ou numa trincheira?
Disse à
presidenta Dilma, naquela ocasião, que estava caindo de paraquedas numa casa em
chamas. Ou seja, era mais do que uma trincheira: era uma casa pegando fogo. Mas,
veja bem, há certas coisas que fazemos na vida porque simplesmente têm de ser
feitas. Diante de certos desafios, você tem sua convicção e acha a solução para
o problema. Por mais duro que seja, tem de arregaçar as mangas e ir em frente.
Não há outra solução. Então, acho que aquele momento chegou porque tinha de
chegar. Quem me procurou para saber se eu aceitaria o cargo foi o hoje ministro
Marinho. Ele foi à minha casa e disse que a presidenta queria que eu fosse
ministro da Justiça. De início, levei um susto. Perguntei: “Vocês estão certos?
Têm certeza disso?” Ele disse: “Se você não tem certeza, então eu vou dizer à
presidenta que você não quer.” Eu disse: “Não, calma. Vamos discutir isso
direitinho.” Conversamos e, no dia seguinte, fui ao Palácio da Alvorada falar
com ela. Quando ela falou comigo, a primeira coisa que me disse, e os atos seguintes
a confirmaram, foi: “Olha, vai ter alguém muito aborrecido com essa escolha,
viu?” Eu disse: “Quem? Não sei, presidenta. Quem?” Ela respondeu: “O Janot.” Eu
perguntei: “Por quê?” E ela: “Porque ele deve estar furioso nesta hora de você
virar ministro da Justiça.” Então eu disse: “Não quero acreditar. Bom, mas se
ele estiver, o azar é dele. O que é que eu posso fazer? Cada um no seu
quadrado.”
De
fato, quando o meu nome foi ao Conselho Superior para que autorizassem a minha
saída, apenas um conselheiro votou contra a minha cessão: o Doutor Carlos
Frederico, de quem gosto muito. Ele alegava que eu não tinha prova de haver
feito a opção pelo regime anterior. É que, diferentemente do Wellington, eu era
de antes de 88 e, por isso, podia ser requisitado para o Ministério da Justiça.
Mas o Conselho considerou aquilo irrelevante e me liberou. Depois, antes mesmo
da posse, o que aconteceu? Dona Marisa estava muito doente. O presidente Lula
falou com a presidenta Dilma dizendo que precisava estar com a Marisa, cuidando
dela, e que não sabia se teria condições de vir a Brasília para a posse, já que
seria empossado como chefe da Casa Civil. Então a Dilma disse assim: “Não, vou
fazer o seguinte: você já deixa o seu termo de posse assinado e, se a gente
precisar, eu apenas assino e você toma posse mesmo não estando presente.” Era
essa a ideia. E foi exatamente o que aconteceu com o Jaques Wagner. Naquele
mesmo dia, ele foi nomeado Chefe do Gabinete Pessoal da Presidência da
República, no mesmo sistema: não podia estar presente, mas já havia assinado a
ata, e a presidenta assinou na hora o termo de posse sem a presença dele. Portanto,
aquilo que foi interpretado como se fosse um salvo-conduto para que o
presidente Lula não fosse preso é de uma molecagem sem tamanho, porque não
havia nada de verdade nisso. Eles recortaram, tiraram aquilo do contexto. Era
apenas um meio para que ele pudesse ficar com dona Marisa e, ao mesmo tempo,
tomar posse. Uma questão de procedimento, nada mais do que isso.
Mas
aquela conversa entre o presidente Lula e a presidenta Dilma se deu num momento
em que já havia expirado o prazo da interceptação telefônica fixado pelo Moro.
E foi o próprio Moro quem liberou para publicação o que já estava fora do
prazo. Portanto, não havia nenhuma autorização judicial para aquela
interceptação: era um resto de interceptação que eles deveriam ter destruído. Mas
aí, o que acontece? Vemos que, no mesmo dia daquele almoço com Aécio Neves, sai
a decisão do ministro Gilmar afastando o presidente Lula da possibilidade de
tomar posse como chefe da Casa Civil. Foi esse, infelizmente, o desenrolar dos
fatos.
·
A denúncia foi recebida com base no artigo 10 da Lei
1.079, de 1950: decretos de crédito suplementar editados sem autorização do
Congresso Nacional e as chamadas pedaladas fiscais. A acusação sustentou que os
decretos suplementares autorizaram a suplementação do orçamento em mais de 95
bilhões de reais e contribuíram para o descumprimento da meta fiscal de 2015. A
defesa respondeu que os decretos se basearam em remanejamento de recursos,
excesso de arrecadação e superávit financeiro, isto é, que não criaram despesa
nova. Isso é muito importante. E o ministro Nelson Barbosa acrescentou, em 27
de agosto de 2016, que a mudança de entendimento do Tribunal de Contas da União
não podia ser aplicada retroativamente para condenar a presidenta. A pergunta é
técnica e única, ministro: existia ali fato típico de crime de responsabilidade
que pudesse justificar o impeachment de um presidente da República e,
particularmente, de uma presidenta da República?
Olha, o
que eles alegavam era o quê? Era despesa sem previsão orçamentária, sem
previsão de recurso alocado. Isso não era verdade. Não era verdade porque esses
recursos existiam como suplementação. Depois, alegaram que aquilo era para
programas da Caixa Econômica, para moradia, para vários programas sociais do
governo. Ora, era normal naquela época, e o TCU sempre considerou normal, que,
se a despesa ocorresse dentro do mesmo exercício e a devolução à Caixa
Econômica também se desse dentro do mesmo exercício, não havia nada de errado. O
que fez o governo? Aplicou esse dinheiro nesses programas em vez de pagar os
empréstimos que devia à Caixa Econômica. Mas havia sobra de arrecadação para
pagar a Caixa no final do ano, no final do exercício. Portanto, a Caixa seria
ressarcida no mesmo período. Se tivesse ficado para o período seguinte, você
poderia até dizer: “fez despesa naquele exercício sem dinheiro alocado, sem
recursos previstos para aquilo”. Mas estavam previstos. Porque, na verdade, o
que foi usado foi um dinheiro que seria devolvido à Caixa. E havia caixa para
devolver, só que no final do ano, com sobra de arrecadação. Então, a chamada
pedalada consistiu em pagar em dezembro, e não em maio ou junho, dentro do
mesmo exercício. Portanto, não haveria descumprimento do orçamento, coisa
nenhuma. E essa era uma prática corrente desde a época do presidente Fernando
Henrique Cardoso. Nunca ninguém a questionou, desde que o ajuste de contas
fosse feito dentro do mesmo exercício. Não havia, então, nada de novo: o TCU
sempre aprovou as contas com isso. Eles usaram aquilo apenas como pretexto. Foi
um pretexto. E mais: não é falta de recurso, portanto não é falta de previsão.
Esses programas estavam todos previstos, todos. O que havia era, digamos, um
desbalanço de caixa: o dinheiro viria no segundo semestre e era preciso fazer
os desembolsos. Fez-se então o desembolso com o dinheiro que iria para a Caixa
Econômica, para ressarci-la depois. Não houve nada de errado nisso. Portanto, o
fato não era típico. Não havia nada, e todo mundo sabia disso. Agora, todo
mundo fingiu que não entendia, inclusive o próprio Supremo Tribunal Federal.
Porque essa questão, bem ou mal, estava no primeiro mandado de segurança, que
foi para o ministro Fachin. Era, na verdade, uma questão procedimental, mas que
já discutia todo o cabimento do procedimento por crime de responsabilidade. O
ministro Fachin, se quisesse, poderia ter parado tudo ali mesmo. Poderia ter
parado tudo ali. Não parou porque não quis. E o voto do ministro Barroso, que
veio substituir o do ministro Fachin, porque o ministro Fachin, de última hora,
voltou atrás e queria dar tudo como certo, nada de errado, apenas garantiu que
houvesse antes a defesa escrita, ou seja, permitiu que houvesse devido processo
legal. Mas não pôs em questão a causa do processo, a causa de pedir. Isso não
colocou em dúvida. Então, nesse aspecto, parece-me que o engodo começou desde o
início desse processo. Um processo que não era para ter acontecido.
·
Ministro, aqui eu me dirijo, com todo o respeito, ao
professor Aragão, o professor de Direito. E, de repente, uma vara de Curitiba
chutando os poderes, a ponto de desestabilizar a República, de derrubar uma
presidenta da República. Um leigo em Direito pergunta, então, a um eminente
professor de Direito: como isso acontece de uma hora para outra? E o caminho
fica livre para que ocorra novamente, ministro?
Tínhamos
duas situações distintas. Nós tínhamos o Eduardo Cunha aqui em Brasília,
furioso. Primeiro, porque Arlindo Chinaglia resolvera concorrer com ele à
presidência da Câmara, e ele imaginava que não teria concorrente. Depois,
porque, a seu ver, o PT teria feito corpo mole no Conselho de Ética e não
votou, como ele queria, pelo arquivamento do processo que corria contra ele,
Eduardo Cunha.
Eduardo
Cunha ainda tentara um acordo: “vocês arquivam esse processo contra mim e eu
não recebo a representação contra a presidenta Dilma”. E o PT não aceitou esse
jogo. Este é o fato, e ele não tem nada a ver com o Moro. O juiz Moro estava lá
na 13ª Vara de Curitiba. E a 13ª Vara de Curitiba se fortaleceu, na verdade, no
curso de uma campanha que começou em 2013: a campanha da PEC 37. Não sei se o
senhor se lembra, mas, por conta de um aumento da tarifa de ônibus em São
Paulo, começaram a estourar todas aquelas manifestações. E o governo do Estado
de São Paulo mandou bala nos manifestantes. A virulência da repressão gerou
manifestações em outras cidades: Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte.
Depois, espalhou-se pelo país inteiro. No início, o mote das manifestações era
contra a violência policial na repressão dos protestos. Foi o país todo que se
levantou. Mas a coisa desandou, no sentido de que outros atores começaram a
mexer também com os tais black blocks, aqueles de capa preta, que
resolveram adotar atitudes até predatórias dentro das manifestações. Chegou um
determinado momento, lá por volta de maio, junho, em que ninguém mais sabia
qual era a agenda daqueles protestos. As manifestações eram pelas
manifestações. Pronto. Não havia mais agenda.
Lembro-me
bem do Jornal Nacional entrevistando um manifestante lá em Fortaleza. A
pergunta era assim: “Mas por que o senhor está se manifestando aqui? Por causa
de quê?” E o manifestante diz: “Por tudo isso que aí está.” “Bom, e como é que
o senhor define tudo isso que aí está?” E ele responde: “Tudo isso que aí está
é muito grande para ser definido.” Ou seja, ninguém sabia mais qual era a razão
daquelas manifestações. Elas adquiriram uma dinâmica provocativa, típica de
revoluções coloridas. Aquilo era claramente induzido para desestabilizar o
governo. E tanto é assim que, antes das manifestações, a presidenta Dilma tinha
algo em torno de 75%, 78% de popularidade e, depois delas, a popularidade dela
havia baixado para 40%.
Então,
o objetivo era claramente eleitoral: a eleição de 2014, desestabilizar a
presidenta Dilma. Isso era bem claro. E aí vem a instituição chamada Ministério
Público, que se desviou do seu papel constitucional de 1988, de garante dos
direitos coletivos, de garante dos direitos humanos, e se concentrou muito no
seu papel repressivo, policial, para depois, principalmente depois do mensalão,
tornar-se, digamos, o guardião da moralidade da sociedade. Usou essas
manifestações para inserir uma pauta dentro delas: contra a PEC 37. E a PEC 37
era a PEC idiota que, na verdade, dava à polícia o monopólio da investigação
criminal. Queria tirá-la do Ministério Público: só a polícia poderia fazer
investigação criminal. Então a briga era entre a Polícia Federal e o Ministério
Público Federal. No fundo, era isso. E eles conseguiram. Como iriam perder,
porque a bancada policial era muito forte no Congresso, colocaram a questão
dentro das manifestações. A população comprou essa pauta, como se fosse contra
a “PEC da impunidade”, porque tirar do Ministério Público o poder de investigar
seria coisa de impunidade, seria para salvar políticos e coisas assim, coisas
que não tinham nada a ver com impunidade. E retirar essa atribuição do
Ministério Público não significa, por si só, impunidade. Eu acho que, como
cidadão, para mim tanto faz quem investiga, a polícia ou o Ministério Público,
contanto que quem investigue obedeça aos cânones das garantias fundamentais,
das garantias processuais. Se é a polícia ou se é o Ministério Público, isso
não é pauta que interesse à população: isso é pauta corporativa. Mas eles
conseguiram, e realmente conseguiram derrotar a PEC 37. Com isso, o Ministério
Público se sentiu superpoderoso, empoderado. Conseguiram derrotar a polícia.
E aí,
em março de 2014, haviam aparecido os primeiros informes sobre a Petrobras,
sobre as coisas que estavam acontecendo na Petrobras, sobre recursos que
estavam sendo dados a políticos, e assim por diante. O Rodrigo Janot e o seu
núcleozinho mais próximo, o dos ferrabrás, vão a Washington, a convite do
governo americano, para visitar a OEA, mas também para visitar o Departamento
de Justiça e órgãos do gênero. E voltam convencidos de que são os salvadores da
pátria e de que têm realmente de agir contra o “estado de coisas” aqui do
Brasil, que seria a corrupção generalizada. E começa aquela campanha do
“corrupção, não” e por aí vai. Isso em 2014, ou seja, em plena campanha
eleitoral. Vê-se claramente uma instrumentalização eleitoreira da iniciativa
persecutória. Tanto é assim que, no final, quando a Dilma já é vencedora, o
PSDB propõe uma ação contra a diplomação dela no TSE, na qual juntam
praticamente todas as reclamações que fizeram ao longo da campanha, fazem
um pot-pourri e apresentam aquilo como ação de impugnação de
diplomação da Dilma. Não tinha chance de ir para a frente, porque tudo aquilo
já havia sido julgado pelo TSE e rejeitado como reclamações.
Mas aí
o ministro Gilmar insere lá dentro, manda inserir lá dentro, manda pedir os
autos da Lava Jato sobre a Petrobras. E isso depois de já ter decaído o prazo
de propositura dessa ação. E junta as duas coisas num processo só. Ou seja,
fatos totalmente estranhos, e com o prazo dessa ação, o prazo da AIME, já
expirado. Não se podia mais propor ação eleitoral, porque o prazo já tinha
expirado havia muito tempo. Aquilo deveria entrar numa nova ação, só no período
seguinte, porque o prazo da AIME é de 15 dias: você tem 15 dias para propor. Já
tinha expirado, portanto, o prazo de decadência dessa ação. Colocou aquilo
dentro de um pacote, numa sacola que já estava no Tribunal, fez essa salada
russa, e isso depois da eleição, depois da diplomação, para ver se conseguia
anular aquela eleição. E isso veio para mim, que era vice-procurador-geral
eleitoral. E eu disse: olha, quanto ao mérito da inicial, ali não há nada,
porque tudo aquilo já foi tratado pelo TSE e foi rejeitado ao longo da
campanha. Não há nenhum abuso de poder econômico nem abuso de poder político
nessas questões que já foram examinadas. Quanto a esses novos documentos que
foram encartados a pedido do ministro Gilmar Mendes, também não vejo como
possam prosperar, porque estão completamente fora da petição inicial, fora da
causa de pedir; a ação não tratara disso em momento nenhum. E, por
consequência, não se pode inovar a causa de pedir depois de proposta a ação.
Portanto, opinei para que isso fosse ignorado. Isso gerou um fogo dentro do
TSE. Já era fevereiro de 2015, e a coisa já estava pegando fogo.
Mas
aquilo ficou lá quieto, com o Janot.
Quando
eu saio da Vice-Procuradoria-Geral Eleitoral para ir ao Ministério da Justiça,
o Rodrigo Janot nomeia Nicolao Dino para ser o novo vice-procurador-geral
eleitoral. E o que faz Nicolao Dino? Desconsidera o meu parecer e manda incluir
na AIME todo o material da Lava Jato. Curioso isso: se eu já tinha pedido para
tirar, ele manda reincluir. Bom, mas aí a Dilma é destituída em maio de 2016 e,
quando o ministro Herman Benjamin leva ao plenário o julgamento dessa AIME, ele
traz um voto de novecentas e tantas páginas para cassar a presidenta Dilma. Mas
ela já estava cassada. Portanto, aquilo não iria alterar nada. Poderia, quando
muito, tratar de inelegibilidade, já que no processo de impeachment
resguardaram a elegibilidade dela.Mas quem iria se dar mal com esse processo
era o Temer, porque o Temer era o vice da chapa dela. Então, se a ação fosse
julgada procedente, o Temer perderia o mandato. E o que acontece? O mesmo
ministro Gilmar, que na época tinha colocado esses documentos lá dentro e que
ficou furioso com o meu parecer, o parecer que dizia que aquilo não podia ser
objeto da AIME porque eram fatos novos que não estavam na inicial, vota no
sentido do meu parecer. Ou seja, fecha a escada debaixo do Nicolao, e o Nicolao
fica segurando no pincel, porque o processo acabou. E o Herman Benjamin não se
conforma. Faz questão, então, de ler todo o voto dele, de novecentas páginas,
ao longo de mais de uma semana, no plenário, para mostrar como votaria, quando
estava bem claro que aquilo não ia para lugar nenhum. Porque ninguém tinha
interesse em cassar o Temer. É esse o fato. Então, aí é que está a ligação da
Lava Jato com a derrocada da Dilma: foi a papelada inserida impropriamente no
processo, depois de já proposta a AIME.
·
O senhor tocou na viagem do ex-procurador-geral da
República Rodrigo Janot aos Estados Unidos. Parte da esquerda esposa a tese de
que houve dedo norte-americano na queda da ex-presidenta Dilma. O senhor
concorda com essa tese? Onde, como e quando?
Concordo
integralmente. Quando fui ministro da Justiça, estive na Embaixada dos Estados
Unidos: pedi uma audiência com a então embaixadora. A embaixadora foi tão
covarde que não quis me receber a sós, tendo me recebido com toda a equipe
diplomática. Fui recebido acompanhado por umas vinte pessoas, para que nenhum
assunto pudesse ser tratado a quatro olhos. Não se resolveu nada. Estava muito
claro ali de que lado a Embaixada estava: eles se recusaram a conversar com o
ministro da Justiça. Esse era o fato. Foi uma conversa absolutamente oca.
Peguei meu chapéu e fui embora. Ou seja, a Embaixada sabia claramente o que
estava acontecendo, e apoiava. E não quis, em momento nenhum, ouvir o governo a
respeito daquele assunto. Isso é um fato concreto: havia total desinteresse da
Embaixada em ouvir as teses do governo sobre o impeachment.
·
Isso é um ponto preocupante agora, a respeito da possível
eleição do presidente Lula pela quarta vez?
Acho
que a situação hoje é muito diferente. Porque, se a eleição ocorrer de forma
clara e normal (haverá gritaria, haverá desavenças, isso é normal), se ela
ocorrer dentro de um senso de normalidade, não há muito o que se possa fazer
contra o presidente Lula no sentido de submetê-lo a um impeachment em ano
eleitoral. Não vejo esse cenário. A embaixada norte-americana pode querer
provocar, são experts nisso, pode querer provocar uma revolução colorida no
Brasil. Mas hoje não há motivo para isso, porque, apesar da preocupação
constante com o déficit público, o fato é que o desemprego está baixo, o custo
de vida se reduziu drasticamente e a inflação está sob controle. Hoje há
governabilidade no Brasil, diferentemente do governo anterior, o do Bolsonaro,
em que não tínhamos ninguém governando o país. Hoje temos uma pessoa governando
o país, preocupada com os dados, preocupada com o bem-estar da população. Temos,
então, um cenário muito diferente daquele cenário de fragilidade econômica que
foi criado na época da presidenta Dilma, com um certo rescaldo da crise de
2008, que chegou tardiamente ao Brasil, com a queda do valor das commodities no
mercado internacional e a falta de liquidez nas contas brasileiras. Isso fez
com que, no início do governo Dilma, ela escolhesse um rumo mais conservador
para a economia. Depois, viu que aquilo não encontrava eco nas suas bases
políticas, trocou o ministro da Fazenda e passou a adotar uma política de mais
investimento social, o que, evidentemente, desagradou os banqueiros. Afora a
Lava Jato e o Eduardo Cunha, havia o desconforto da Faria Lima com os rumos da
economia. Esta não me parece a situação de hoje, até porque acredito que a
Faria Lima tenha hoje mais tranquilidade com o presidente Lula à frente da
economia, que foi conservador, diga-se de passagem, do que teria com um governo
Bolsonaro, que foi uma bagunça total. Hoje há mais segurança de investimento do
que havia antes.
Eu não
acho que isso venha a acontecer hoje. O que está acontecendo, sim, são
campanhas eleitorais concomitantes: a brasileira, de um lado, e a
norte-americana, de outro, a de meio de mandato nos Estados Unidos, que
ocorrerá depois da nossa. E o Trump precisa mostrar para a sua turminha do MAGA
que colocará o Brasil de joelhos. Isso tem muito a ver com o discurso eleitoral
dele lá. Tanto que ele voltou a criar taxas para a China, agora quer falar
grosso com a Rússia, voltou atrás no seu memorando de entendimento com o Irã. Então,
toda esta bagunça da política externa dele é consequência das midterm
elections, porque ele sabe que ali tem ponto a perder: se perder o controle
de uma das Casas, já é um desastre; das duas, será um desastre completo. É mais
difícil que ele perca o controle do Senado do que o da Câmara dos
Representantes, mas é bem possível que perca o das duas. Aí, ele não governaria
mais.
·
A impressão que tenho como cidadão brasileiro é que
Rodrigo Janot foi uma das pessoas mais excêntricas que já passaram pela chefia
do Ministério Público. O procurador-geral da República é escolhido pelo
presidente da República. Eu pergunto ao senhor: por que ele foi escolhido pela
presidenta Dilma, se tinha essa personalidade que me parece excêntrica,
política, exacerbada, num cargo em que se deveria primar pela técnica e não
pela política?
Bom,
então aí eu vou ter de dar a mão à palmatória. Porque, quando houve a eleição
dentro da Casa para que o Rodrigo viesse a ser procurador-geral da República,
ele ficou em primeiro lugar; em segundo lugar ficou a Ela Wiecko; e em terceiro
lugar ficou a Deborah Duprat. Essa foi a lista tríplice. A presidenta Dilma,
apoiada, no caso, pelo ministro Adams, da AGU, queria a Ela Wiecko como
procuradora-geral da República. E nós, que éramos o Zé Eduardo, o Sigmaringa e
eu, tínhamos a avaliação de que a Ela não teria, digamos, pulso para confrontar
os arroubos da Casa, da Procuradoria; que ela era uma pessoa muito lhana, muito
mansa, e que nós precisávamos de uma pessoa com pulso para enfrentar a
Procuradoria. E o Rodrigo sempre foi… Ele era de um grupo político do qual eu
fazia parte dentro da Casa, um grupo que era o Wagner Gonçalves, o Álvaro
Ribeiro Costa, o Cláudio Fonteles. E nós achávamos que era a vez do Rodrigo
mesmo. O Rodrigo já tinha sido preparado para isso, porque tinha sido
presidente da ANPR, a Associação Nacional dos Procuradores da República, e era
uma pessoa muito assertiva. E do que nós precisávamos era de uma pessoa
assertiva. Todos nós sabíamos, digamos, de uma certa fragilidade dele com a
bebida alcoólica. Mas nunca vimos isso atrapalhá-lo na sua carreira. Nunca. Então
nós tínhamos uma impressão. Antes de o nome dele ser levado à presidenta da
República, tivemos vários almoços e jantares, inclusive na casa dele, de que o
Genoino participou. Eu participei, o Sig participou, o Zé Eduardo participou.
Fomos até visitar o Zé Dirceu também. Aí, nós já tínhamos apoio de Zé Dirceu
também, e chegamos à conclusão de que ele seria o melhor nome. Ele, inclusive,
falou até para o Genoino: “fica tranquilo, que, eu assumindo esse cargo,
ninguém… eu não vou pedir prisão de ninguém nessa coisa de mensalão, não. Nós
vamos rever essa história.” Isso foi prometido por ele. Prometido por ele, na
casa dele. Aí, quando a mensagem para indicar a Ela Wiecko já estava
praticamente pronta na mesa da presidenta, o que fizemos imediatamente? Fomos
procurar o ministro Lewandowski. Ele era presidente do Supremo na época.
Contamos a história e o ministro Lewandowski então ligou para a presidenta
Dilma e falou para ela que o melhor nome era o do Rodrigo Janot. E aí virou.
Foi aí que deixou de ser Ela Wiecko e passou a ser Rodrigo Janot.
Menos
de 14 dias depois de tomar posse, o Rodrigo pede… Ele não espera o Ministro
Joaquim Barbosa abrir o prazo para ele. Entra nos autos e pede a prisão de João
Paulo Cunha, José Dirceu e Genoino. Ou seja, ali ele desdisse o que tinha dito
na campanha dele, em vários almoços, na frente de um monte de gente. Foi uma
traição. Uma traição. Porque, rigorosamente, ele poderia até dizer: “olha, eu
me convenci de outra forma, mas vou conversar com você para dizer que estou
achando que não”. Ele foi lá, surpreendeu todo mundo com esse pedido de prisão,
e aí Genoino, José Dirceu e João Paulo foram presos, entre outros. Naquela
época, o Genoino estava numa situação de saúde extremamente frágil, porque
tinha tido uma ruptura da aorta. Então foi uma desumanidade dolorosa a que
aconteceu. Nós brigamos para ver se conseguíamos tirar o Genoino pelo menos
dessa situação. Não conseguimos: Joaquim Barbosa era irredutível e o Janot
também não ajudava. A briga começou ali. A minha briga com o Janot, a minha
decepção, começou ali. Mas eu tinha para mim uma missão, que era a eleição de
2014. Eu estava como vice-procurador-geral eleitoral e, se renunciasse ali por
discordância com o Janot, que na verdade é o que eu gostaria de fazer, porque
já ali eu vi que não dava para confiar nele, com isso eu iria colocar em risco
a tranquilidade da eleição de 2014. Porque eu me lembro da eleição de 2010, em
que a doutora Sandra Cureau foi vice-procuradora-geral eleitoral e ficou a
campanha eleitoral inteira perseguindo a presidenta Dilma. O Ministério Público
fez de tudo, em 2010, para impedir que a Dilma fosse eleita. Fez de tudo.
Então
eu queria estar no TSE, não para garantir a eleição dela, porque ela não
precisava disso, ela tinha voto, mas para garantir a tranquilidade da eleição,
para que nenhum candidato fosse alvo de perseguição pelo Ministério Público.
Essa era a minha missão. Então eu não podia simplesmente sair de lá e não saber
depois quem o Rodrigo iria colocar nesse cargo, para depois desandar a eleição
de 2014. Por isso, mantive-me no cargo. Aquela coisa: a gente tapa o nariz,
toma Sonrisal e vai em frente. E fui em frente. A campanha não foi fácil para
mim, foi uma coisa extremamente desgastante, a tal ponto que, terminada a
campanha, logo depois da aprovação das contas da presidenta Dilma, eu fui
hospitalizado. Fiquei 15 dias internado, por conta do estresse da campanha. Tive,
portanto, um custo inclusive de saúde muito grande, e embates também com o
Janot. Não foi fácil. Mas nós conseguimos, pelo menos, garantir a tranquilidade
das eleições. E a presidenta Dilma então se elegeu.
·
Ministro, o senhor foi tão completo e preciso, e
contemplou tantos assuntos, que eu gostaria apenas de lhe abrir o microfone de
Outras Palavras para que o senhor fizesse suas considerações finais acerca do
futuro deste país.
Estamos
no momento de uma encruzilhada. Hoje, nesta eleição, nós temos, por um lado, o
caminho da normalidade: a possibilidade de o Brasil se recuperar de todos esses
seis anos de desastres que estão para trás, o sucesso do terceiro mandato do
presidente Lula, e a possibilidade de, realmente, dentro da tradição da
Constituição de 88, guardar o rumo da democracia, o fortalecimento
internacional do Brasil, a posição do Brasil, a integração do Brasil dentro de
uma estrutura global como os BRICS. Nós temos essa opção. E temos uma outra
opção, que é o repeteco daquilo que nós já tivemos durante a Covid, durante
períodos extremamente graves para o país. Então, nós estamos nessa
encruzilhada. Pelo que vamos optar? Pela normalidade, ou novamente por um
governo que vai improvisar, vai fazer cercadinhos, vai criar factoides e usar
as mídias sociais para ficar rufando os tambores da sua bolha? É esse o momento
que o Brasil está vivendo. E eu espero, espero realmente que o bom senso
prevaleça, que a gente consiga dar um quarto mandato ao presidente Lula, o que,
da parte dele, eu acho que é um gesto de muita coragem, porque é uma pessoa
que, com 80 anos, por mais que esteja bem de saúde e tudo mais… Normalmente,
imagina-se que a maioria das pessoas com 80 anos quer cuidar dos seus,
descansar, ter os seus momentos para si mesma. Ele não. Ele mais uma vez vai e
se sacrifica.
·
Parece que, desde 79, ministro, ele não tem essa
possibilidade de descanso. Ele está, ininterruptamente.
Ele
está desde 1979 com o dedo na tomada. Acredito que seja uma coragem dele,
coragem cívica, e que mereça toda a consideração. As instituições também
precisam de um sacolejo. O excepcionalismo que aconteceu, as agressões do
Bolsonaro contra o sistema judicial, contra o STF, geraram no STF algumas
práticas que eram de natureza defensiva, mas que, no dia a dia, se tornaram
completamente disfuncionais. Nós temos hoje no STF 10 ministros, e cada um é um
STF. Fazem o que bem entendem; não existe mais segurança jurídica. É uma
improvisação judicial que deixa todo mundo inseguro. Eu poderia até me estender
sobre isso, mas acho que não é o caso. O fato é que se inventou muito. Isso tem
muito a ver com a inação do procurador-geral anterior, Augusto Aras, que
simplesmente cruzou os braços diante das maluquices que se faziam com o
Supremo, levando o Supremo a assumir iniciativas que não são suas, por causa do
procurador-geral da República, transformando o Supremo num órgão inquisitório.
Coisa que ele não deveria ser, tomando para si iniciativas acusatórias. E isso
é ruim para o Supremo. Na verdade, eu sonho com um Supremo Tribunal Federal que
fosse apenas constitucional e que transferisse toda esta carga de Direito Penal
para o Superior Tribunal de Justiça e não tivesse mais nada a ver com isso.
Porque o Supremo não tem andado bem na matéria penal, infelizmente, e isso é
por causa de todos esses desafios, em função da tentativa de golpe de Estado,
que fez com que o Supremo tivesse de fugir um pouco do roteiro. E isso não lhe
fez bem. Acho que o Supremo cresceria muito se fosse hoje apenas uma instância
constitucional.
Fonte:
Entrevista a Thiago Gama, em Outras Palavras

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