sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Sócio de Cerimedo, Negre indagou Flávio Bolsonaro sobre “possível fraude eleitoral” e resposta antecipou estratégia

ócio de Fernando Cerimedo, que assumiu o site La Derecha Diário, principal porta-voz da ultradireita latino americana, Javier Negre indagou Flávio Bolsonaro (PL) sobre “possível fraude eleitoral” nas eleições presidenciais do Brasil em entrevista em março deste ano na conferência conservadora CPAC, no Texas, Estados Unidos, onde o senador esteve ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro.

Negre assumiu 100% do portal de ultradireita após a prisão de Cerimedo, acusado de ser o mandante da tentativa de assassinato da ex, a advogada Nadia Beller, na Bolívia.

Na entrevista, anunciada pelo La Derecha como “proibida no Brasil”, Negre indaga Flávio Bolsonaro sobre “o que você vai fazer para controlar o voto e possível fraude eleitoral?”. O sócio, Cerimedo, chegou a ser indiciado pela Polícia Federal no processo de tentativa de golpe por uma live em dezembro de 2022 em que atacava o sistema eleitoral brasileiro. O argentino, no entanto, não entrou na denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR).

O senador brasileiro diz que pretende “treinar muitas pessoas para que façam a fiscalização antes, durante e na apuração dos votos, pessoalmente” e se mostra tranquilo ao dizer que “a nova configuração do Tribunal Superior Eleitoral no Brasil é muito mais segura hoje”.

“São pessoas independentes e acredito que vão tomar todas as atitudes, inclusive a contratação de tecnologia que possa dar mais segurança e transparência a todo o nosso processo eleitora”, disse.

A declaração, em março, antecipou a estratégia de Flávio Bolsonaro em apostar suas fichas em Kássio Nunes Marques e André Mendonça, ministros indicados por Jair Bolsonaro (PL) que ocupam a presidência e vice-presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que vêm blindando o filho “01” do ex-presidente em decisões na corte.

Nas redes, Negre segue com a campanha explícita a Flávio Bolsonaro. Em publicação na rede X no dia 16 de agosto, quando já se preparava para assumir os negócios do sócio Cerimedo, ele escreveu que o senador é “a única solução para o Brasil”, em 16 de agosto, quando foi lançada a campanha eleitoral.

<><> Cerimedo teria usado robôs na campanha de Bolsonaro em 2022

Em entrevista à Folha de S.Paulo nesta terça-feira (27), Nádia Beller, que se recupera da tentativa de assassinato, afirmou que Cerimedo, que já admitiu ter usado robôs em campanhas eleitorais da extrema direita na América Latina, utilizou a sua estrutura para favorecer Bolsonaro em 2022. “Pelo que entendi, foi essa campanha. Ele me disse que foi isso”, relatou ela, quando questionada se a atuação de Cerimedo no Brasil foi durante a última eleição presidencial.

Nadia ainda relatou que Cerimedo prometeu ajudar Flávio Bolsonaro durante a campanha deste ano à presidência. Ela afirma que questionou o consultar se o filho de Jair Bolsonaro tinha alguma chance de vencer, e que ele teria respondido que iriam “lutar”.

“Ele me disse que estava difícil, mas que eles iriam lutar. Esse foi o único comentário que ele fez para mim”, disse. Questionada se Cerimedo quis afirmar, com isso, se ajudaria Flávio, ela completou: “Foi o que entendi na hora, que eles iam tentar. Isso foi logo que a candidatura foi anunciada. Eu perguntei: ‘E ele tem alguma chance?’ Ele respondeu: ‘Hummm, vamos lutar’”.

Nadia também comentou sobre a aproximação de Cerimedo e Eduardo Bolsonaro e afirmou que o filho de Jair é “um amigo muito querido” do consultor, e que eles se encontraram nos Estados Unidos no início de agosto.

Além disso, em julho, os dois participaram de uma live no canal de Eduardo, em que voltaram a atacar a integridade do sistema eleitoral brasileiro.

<><> Elo com o narcotráfico

Preso acusado de ser o mandante de Nadia Beller, Cerimedo agora terá que responder a uma nova investigação aberta pela Procuradoria Departamental de Beni, na Bolívia, após suspeitas de elo com o narcotráfico internacional.

Segundo o procurador departamental de Beni, Alexander Mendoza, o amigo do clã Bolsonaro é suspeito de oferecer proteção a voos irregulares relacionados ao transporte de drogas. Ele afirma que Cerimedo estaria envolvido em supostas irregularidades ocorridas no município de Santa Ana de Yacuma, onde aeronaves de pequeno porte teriam sido utilizadas em operações ligadas ao tráfico de drogas.

“Trata-se de uma certa proteção que supostamente está sendo oferecida no município de Santa Ana, em relação a voos irregulares. Estão dando cobertura. Esse é o termo que tem sido usado em relação a certas aeronaves de pequeno porte que supostamente estão ligadas ao tráfico de substâncias controladas”, afirmou o procurador em entrevista nesta quarta-feira (26).

Cerimedo já enfrenta outros três processos na Bolívia por tentativa de feminicídio contra a ex, por violência doméstica relacionada ao caso e suspeitas de enriquecimento ilícito que teriam causado prejuízo ao Estado boliviano.

•        Rui Falcão pede ao STF cooperação com Bolívia para investigar fazenda de bots de Cerimedo

O deputado federal Rui Falcão (PT-SP) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a adoção urgente de medidas de cooperação jurídica internacional com a Bolívia para obter e preservar provas relacionadas a uma suposta “fazenda de bots” encontrada em endereços ligados ao argentino Fernando Cerimedo. O parlamentar também quer que seja investigada uma eventual conexão da estrutura com as eleições brasileiras de 2026.

Segundo o documento encaminhado por Falcão, autoridades bolivianas apreenderam dispositivos eletrônicos e identificaram uma estrutura de automação digital em locais associados a Cerimedo. O pedido busca garantir que esse material seja preservado e compartilhado com as autoridades brasileiras.

Cerimedo já aparece em investigações no Brasil relacionadas aos ataques ao sistema eleitoral e à tentativa de ruptura democrática após as eleições presidenciais de 2022. Ele foi indiciado pela Polícia Federal em 2024 no âmbito dessas apurações.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) reconheceu que o argentino participou da divulgação de conteúdos infundados sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas. A conduta de Cerimedo, porém, permaneceu em investigação separada porque, naquele momento, não havia elementos suficientes para estabelecer seu grau de conhecimento e eventual adesão ao projeto criminoso investigado.

Na petição encaminhada a Moraes, Falcão argumenta que as provas recolhidas na Bolívia podem contribuir justamente para esclarecer pontos ainda pendentes dessa investigação. A solicitação de cooperação internacional pretende permitir que as autoridades brasileiras tenham acesso aos equipamentos, dados e demais elementos obtidos no país vizinho.

<><> Possível interferência nas eleições de 2026

O pedido apresentado ao STF também amplia o foco para o atual processo eleitoral. Falcão solicita que seja verificado se a estrutura de automação identificada pelas autoridades bolivianas possui ou possuía alguma relação com as eleições brasileiras de 2026.

Entre os pontos que o deputado pretende ver investigados estão a identidade dos operadores da estrutura, as contas utilizadas, as fontes de financiamento, eventuais clientes e os possíveis beneficiários das atividades. A petição também pede a apuração de vínculos com pessoas, partidos políticos ou candidaturas no Brasil.

A preocupação apontada no documento ocorre após Cerimedo voltar a participar de discussões públicas envolvendo o sistema eleitoral brasileiro. Em julho, o argentino esteve em uma transmissão com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) na qual as urnas eletrônicas voltaram a ser questionadas.

Falcão busca, com isso, verificar se a estrutura encontrada na Bolívia teria sido utilizada ou preparada para atuar no debate político e eleitoral brasileiro. O objetivo do pedido é permitir o rastreamento da operação e identificar quem teria participado de seu funcionamento ou se beneficiado dele, caso seja comprovada alguma conexão com o Brasil.

<><> Deputado pede compartilhamento de provas com TSE

Além do envio das informações às autoridades responsáveis pelas investigações criminais, Falcão solicita que eventuais provas de natureza eleitoral obtidas por meio da cooperação com a Bolívia sejam compartilhadas com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e com a Procuradoria-Geral Eleitoral.

A medida permitiria que elementos relacionados especificamente às eleições de 2026 fossem analisados também pelas instituições responsáveis pela fiscalização do processo eleitoral.

•        Cerimedo: como ação no STF pode conectar live do golpe, em 2022, à suposta “granja de bots” para Flávio Bolsonaro

prisão de Fernando Andrés Cerimedo na Bolívia abriu uma nova frente de investigação que pode voltar ao episódio mais conhecido envolvendo o argentino no Brasil: a live de novembro de 2022 em que ele apresentou um suposto dossiê para tentar sustentar a tese, já desmentida, de fraude nas urnas eletrônicas brasileiras.

Agora, um pedido apresentado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tenta fazer a ponte entre aquela operação e o atual processo eleitoral brasileiro. A chamada “Notícia de Fato Superveniente”, protocolada em 24 de agosto pelo deputado federal Rui Falcão (PT-SP), pede cooperação jurídica com a Bolívia para preservar e compartilhar dados dos equipamentos apreendidos com Cerimedo.

Entre eles está uma estrutura que o Ministério Público boliviano descreveu publicamente como uma “granja de bots”, classificação usada por autoridades bolivianas para classificar a estrutura para disparo em massa de mensagens e publicações em redes sociais. A estratégia é usada pela ultradireita transnacional para propagar discurso de ódio e fake News. A ação foi importada para o Brasil pelo clã do ex-presidente, que tinha o filho “02”, Carlos Bolsonaro (PL), como comandante do chamado Gabinete do Ódio.

No documento, Rui Falcão pede que “seja apurado se a estrutura de contas automatizadas apreendida na Bolívia foi utilizada ou estava sendo preparada para interferir no processo eleitoral brasileiro de 2026, mediante disseminação de desinformação, amplificação artificial de conteúdo, ataques ao sistema eletrônico de votação ou favorecimento e desfavorecimento de candidaturas”.

O deputado ainda solicita que “seja especificamente investigada a existência de pagamentos, contratos, propostas comerciais ou outras formas de remuneração provenientes de pessoas físicas, pessoas jurídicas, partidos políticos, candidaturas ou intermediários brasileiros, relacionados à prestação de serviços de comunicação, propaganda ou operação digital por Fernando Andrés Cerimedo”.

A Notícia de Fato ainda solicita que “a Polícia Federal, recebidas as provas, promova o cruzamento técnico com os elementos já existentes na investigação relativa a 2022”. E é aí que a história de Cerimedo volta a se encontrar com a trama golpista que levou Jair Bolsonaro a ser condenado a 27 anos e 3 meses de prisão.

<><> A live que colocou Cerimedo no radar da PF

Em 4 de novembro de 2022, poucos dias depois do segundo turno da eleição presidencial, Cerimedo fez uma transmissão ao vivo na qual apresentou um suposto dossiê destinado a sustentar a existência de fraude nas urnas eletrônicas brasileiras. O material teve ampla repercussão no Brasil e no exterior.

A investigação brasileira posteriormente encontrou elementos que apontaram para uma participação mais próxima de integrantes da estrutura que atuava em torno do então presidente Jair Bolsonaro.

Segundo a peça apresentada ao STF, a denúncia da Procuradoria-Geral da República registrou que a organização criminosa havia preparado materiais para divulgação por Cerimedo, com o objetivo de manter a narrativa de fraude e enfraquecer a legitimidade do processo eleitoral.

Além disso, a PGR apontou que dados extraídos do celular do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e delator do esquema, mostraram que ele procurou o telefone de Cerimedo por meio do então major Angelo Martins Denicoli. Em colaboração premiada, Cid teria confirmado a ligação entre Denicoli e Cerimedo e relatado que o grupo interessado em supostas fraudes nas urnas mantinha comunicação com o argentino.

O material apresentado na live também não teria surgido simplesmente das mãos de Cerimedo. Segundo a peça, integrantes do grupo editaram a apresentação e produziram novos conteúdos a partir dela para ampliar e diversificar a propagação da tese de fraude.

<><> A lacuna deixada pela PGR

Cerimedo foi indiciado pela PF em 2024, mas não entrou na denúncia apresentada pelo Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, no processo da trama golpista.

A razão apontada pela PGR foi justamente uma lacuna que os novos dados apreendidos na Bolívia podem ajudar a preencher: embora estivesse comprovada a divulgação de conteúdos falsos, ainda não havia elementos suficientes para determinar se Cerimedo era apenas um vetor de propagação ou se tinha conhecimento e domínio sobre o projeto criminoso.

Suas condutas foram, por isso, remetidas para processos apartados da ação que condenu Bolsonaro.

Agora, a Notícia de Fato apresentada pede para que a PF faça o cruzamento dos equipamentos apreendidos na Bolívia com os dados já obtidos pela investigação em 2022, inclusive os extraídos dos aparelhos de Mauro Cid. A intenção é identificar conversas, arquivos, horários, operadores e eventuais conexões que permitam reconstruir a cadeia de comunicação de Cerimedo.

<><> Da fraude de 2022 à eleição de 2026

O novo elemento é que Cerimedo voltou a aparecer em discussões sobre as urnas brasileiras em 2026. Em 23 de julho, ele participou de uma transmissão com Eduardo Bolsonaro, na qual voltou a questionar a confiabilidade do sistema eleitoral.

Menos de um mês depois, em 18 de agosto, foi preso na Bolívia. Durante as buscas realizadas pelas autoridades locais, foram apreendidos celulares, computadores, documentos, dinheiro e equipamentos que, segundo o Ministério Público boliviano, formariam uma espécie de “granja de bots”.

A propaganda eleitoral brasileira havia começado dois dias antes.

A coincidência levou os autores da petição a pedir uma perícia específica para verificar se a estrutura tinha alguma relação com o processo eleitoral brasileiro.

<><> Flávio Bolsonaro entra no alvo da perícia

A peça apresentada a Moraes peque para que seja investigado se a suposta “granja de bots” seria usada na campanha de Flávio Bolsonaro.

Entre os termos que deverão ser procurados nos equipamentos estão os nomes de Flávio e Eduardo Bolsonaro, além de contratos, pagamentos, comunicações com campanhas brasileiras, bancos de conteúdo, contas brasileiras, publicações em português e ferramentas de automação.

O pedido também mira a movimentação financeira: a PF deve procurar indícios de pagamentos, contratos ou propostas comerciais feitos por pessoas, empresas, partidos, candidaturas ou intermediários brasileiros para serviços de comunicação, propaganda ou operação digital.

Caso sejam encontrados registros que liguem Cerimedo a uma campanha brasileira, a investigação poderá estabelecer quem o contratou, quais serviços foram prestados, quem operava a estrutura e quem financiava a operação.

<><> A ponte entre os dois episódios

A iniciativa apresentada ao STF tenta, na prática, recuperar a ponta que ficou aberta na investigação de 2022.

De um lado está o Cerimedo que, em 4 de novembro de 2022, apresentou a falsa tese de fraude nas urnas e voltou a propagá-la em dezembro.

De outro, está o Cerimedo de 2026, novamente discutindo o sistema eleitoral brasileiro ao lado de Eduardo Bolsonaro e, semanas depois, preso na Bolívia com equipamentos que autoridades locais descrevem como uma estrutura de automação de redes.

O STF agora poderá tentar descobrir se existe uma conexão documental entre esses dois momentos.

Quatro anos depois da live que ajudou a alimentar a ofensiva golpista contra o resultado eleitoral de 2022, os aparelhos apreendidos na Bolívia podem fornecer os elementos que faltaram para esclarecer qual era, de fato, o papel de Cerimedo naquela operação — e se sua atuação voltou a mirar as eleições brasileiras em 2026.

 

Fonte: Brasil 247/Fórum

 

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