sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Nem banco nem Estado: agiotas levam dinheiro vivo aos bairros argentinos e voltam para tomar bens e até casas

Na Argentina “Há agiotas e agiotas”, diz Yamila. “Alguns se chamam Pago Diario: são os que vêm de moto, emprestam uma quantia de dinheiro, não importa se conhecem você ou não; vêm até sua casa para lhe dar o dinheiro. Assim, depois sabem aonde precisam ir para cobrar de você. Esses são os mais perigosos”, comenta. “Muitas vezes, quando alguém diz agiota, está falando de narcotraficantes”, esclarece um dos integrantes das organizações sociais que participa da conversa com o Página/12.

Agiotas. Usurários. Traficantes. Soldadinhos. Sua casa. Entram. Pressão. Ficam com a televisão. Ficam com a geladeira. Colocam duas estacas no terreno e ficam com o lote. Mudanças às pressas. Sequestros extorsivos. Ameaças de incêndio.

Cada bairro os chama de uma maneira diferente. Eles são o novo fim de um funil. Expulsas do sistema de empréstimos bancários e das carteiras digitais pelo acúmulo de dívidas, cada vez mais pessoas recorrem aos agiotas. Muitos estão ligados a diferentes negócios da economia ilegal: drogas, jogos virtuais ou clandestinos.

O negócio cresce e causa terror nos bairros. Alguns nomes circulam de boca em boca; outros chegam de moto. Há quem tenha agências de automóveis, empreste para comerciantes ou depois fique com os bens. O velho banqueiro do jogo de apostas (quinielero) sempre tinha outro agiota por trás, e esse ofício é um dos que parecem estar se reconvertendo. São agiotas conhecidos, mas agora surgem novos atores que sabem que não há dinheiro, emprestam e cobram taxas “infinitas”, com juros de 10 mil ou 15 mil pesos por dia, o que pode desestabilizar qualquer economia familiar. Ameaçam. Ficam rondando. E ficam com as casas.

“Isso vem crescendo”, diz Luci Cavallero, socióloga e militante da Movida Ciudad. “Diante do esgotamento da possibilidade de obter créditos pelas carteiras digitais, as pessoas recorrem aos agiotas dos bairros”, acrescenta.

Os agiotas não surgiram agora, diz Luci. Historicamente, havia uma ou duas pessoas que emprestavam dinheiro nos bairros. O novo é o surgimento de outros agiotas que “já contam com o fato de haver uma falta total de liquidez nos bairros e que simplesmente vão dividindo os territórios entre si. Você empresta aqui, eu empresto aqui”.

São novos atores e têm uma ligação muito mais orgânica com as economias ilegais: não apenas com o tráfico de drogas, mas também com as apostas virtuais e ilegais. “Emprestar dinheiro se transforma em um mecanismo pelo qual você faz trabalhar o dinheiro que obtém de fontes ilícitas. Esse dinheiro que não poderia entrar no circuito legal é oferecido na forma de empréstimo a pessoas que estão passando por uma necessidade”, completa Cavallero.

<><> Um caso de narcotráfico na Justiça

O narcocrédito, como é chamado, é um mecanismo pelo qual uma pessoa que vende drogas em um bairro popular ou em uma favela encontra a possibilidade de emprestar dinheiro a juros usurários. Às vezes, os juros cobrados pelos traficantes são mais baixos do que os das carteiras digitais. São todos usuários, mas os traficantes são mais baratos.

Houve um caso que chegou à Justiça. Um casal sequestrou uma de suas devedoras, uma funcionária de uma pizzaria. Eles a mantiveram em cativeiro, sob ameaças e com uma arma de fogo, e exigiram de seu marido e de seus patrões o pagamento de um resgate: primeiro, 8 mil dólares; no final, 1,5 milhão de pesos.

O processo, levado a julgamento pelo promotor federal Fernando Domínguez, mostra cenas da deterioração econômica e social. Conversas por chat com ameaças, empréstimos para pagar as despesas diárias com alimentos, moradia ou uma viagem de formatura. Foram doze empréstimos ao todo entre fevereiro e março de 2026: onze com taxas que duplicavam o capital emprestado.

Os investigadores não conseguiram provar uma conexão com a economia ilegal do narcotráfico, embora tivessem uma forte suspeita de que assim fosse.

Além do narcotráfico, existem outras fontes de empréstimos territoriais. Também estão as agências de automóveis: não as grandes agências, mas oficinas menores, com cinco ou seis carros, que compram e vendem e geram dinheiro que depois saem para oferecer.

<><> Eva: a dívida em casa

Eva é pedreira, mãe e estudante. Trabalhou em um restaurante de Puerto Madero até sete anos atrás, quando foi demitida durante uma gravidez. Depois, se reinventou. Aprendeu seu novo ofício no bairro onde vive, um assentamento de seis quarteirões na região oeste da Grande Buenos Aires. A cooperativa construiu as casas e assumiu outros trabalhos. Com o governo de Javier Milei, o trabalho parou e ela se endividou.

— A situação ficou feia. Eu mantenho os cartões de crédito porque, para o trabalhador, eles são um tesouro precioso — diz. — Nós os utilizávamos em dezembro, como para dizer: bom, o que vamos comprar?

Talvez pintar a casa, comprar uma geladeira, em casos muito especiais. Mas, desde que Milei assumiu, as coisas foram piorando e o trabalho começou a diminuir.

O cartão deixou de pagar bens duráveis e passou a pagar as idas e vindas ao supermercado. Um problema de saúde no ano passado acabou tirando-a do mercado de trabalho.

— Por que você não pede uns trocados para determinada pessoa que não cobra tanto, mas pelo menos vai lhe emprestar e não exige documentos? — sugeriram a ela no bairro.

Eva tinha uma “bola de neve” de dívida no cartão: 1,2 milhão de pesos. Aceitou. No começo, pediu ao agiota 200 mil pesos e, um mês depois, devolveu 400 mil. Depois pediu 500 mil e, um mês depois, pediram-lhe um milhão. Não conseguiu devolver nada. Um dia, saiu para trabalhar e seu filho ligou para ela.

— Ele me disse que havia um homem que tinha entrado em casa e perguntava por mim — diz. — Ele foi até os fundos, olhou de um lado para o outro, perguntou a que horas eu voltava, a que horas eu saía. Meu filho não respondeu, apenas deu meu número: claramente, o homem não tinha boas intenções.

Eva deu um nome a eles: “agiotas usurários”.

— Dei a eles um nome vulgar, mas eles merecem: são agiotas usurários porque emprestam dinheiro sabendo que poderão tirar de você tudo o que quiserem e continuar gerando ainda mais miséria em sua vida.

E diz:

— Obviamente, quem vem pressionar você não é quem lhe emprestou o dinheiro. Ele manda um monte de soldados que trabalham para ele: não importa se você tem filhos, se está doente, se é aposentado. Eles sabem que vão pressionar você uma ou duas vezes e que, na terceira, vão colocar duas estacas no terreno: em alguns casos, ficam diretamente com as casas; em outros, esvaziam a casa; se você tiver um veículo, eles o levam.

<><> O fim do funil

Que dimensão isso tem? Quantos são? Quais são os dados? Hernán Letcher, do CEPA, sustenta que isso faz parte da precarização do endividamento.

“Neste momento, o aumento da inadimplência com os bancos começou a desacelerar — diz —, mas, quando você olha de perto, o banco resolveu seu problema porque não empresta mais e essa pessoa inadimplente se vira e pega dinheiro da carteira digital ou do agiota e paga o banco.”

O circuito é um funil de três partes: banco, carteiras digitais e agiota. Primeiro um, depois outro e, no final, os agiotas. A dívida das famílias cresceu violentamente de novembro de 2024 a junho de 2026: passou de 2,5 para 12,8, quatro vezes mais do que a das empresas. Hoje, a tomada de crédito desacelerou, mas a dívida informal cresce, com dois problemas: o dado desaparece — bancos e carteiras digitais têm rastreabilidade; o agiota, não — e surge o problema da dívida e dos juros.

Passa-se de uma dívida bancária com juros de 180% ao ano, com possibilidade de renegociação, para uma carteira digital com juros de até 1.400% e, finalmente, para o agiota do bairro, com juros infinitos, que podem ser cobrados até com o forno de uma casa.

Quantas são as pessoas afetadas? Como não há maneira de rastrear isso, não há estatísticas, não há nenhum registro: é um buraco negro. Os escritórios de advocacia, em geral, ligam para os inadimplentes e até os assediam; esses agiotas mandam alguém pressionar diretamente, com soldadinhos ou seja lá quem for, diz Letcher. “E aí você tem um problema sério porque não apenas não há registro, o problema é como resolver isso: como faço para registrar se o dinheiro foi emprestado pelos colombianos de não sei onde?”

No bairro de Eva, há vários casos. Um vizinho perdeu o carro para um agiota que agora circula com ele. Uma família perdeu metade de seu terreno para um agiota que construiu ali um complexo de quatro quitinetes, com banheiro, cozinha e sala de jantar, e um quarto no andar de cima. Outra mulher perdeu sua parte do terreno e, por enquanto, tem uma cerca e o início de uma obra. Eva, por precaução, deixou sua moto durante algum tempo na casa de sua mãe.

Hoje, as pessoas do bairro estão desesperadas, diz ela. Não conseguem pensar com clareza.

— Depois de ter passado por tudo isso e ter saído dessa confusão, eu digo: o que será que eu tinha na cabeça para conseguir entrar nesse círculo e sair ilesa? Porque acho que saí.

<><> Marta: professora, aposentada e assediada

Marta acaba de voltar do hospital com problemas de pressão: ficou com 19 por 11 durante todo o dia. É aposentada e, às vezes, não dorme. Agora vive com o filho. Tem dez agiotas que ficam “dando voltas” durante o dia, como um zumbido. Querem cobrar dívidas com juros de 10 mil pesos por dia. Ficam parados na porta de sua casa e batem.

— Há um que me colocou juros de 15 mil pesos por dia — diz. — Já lhe entreguei dinheiro, ele me pede eletrodomésticos. Dei a ele um micro-ondas que comprei e entrei em outro crédito para poder entregá-lo.

O homem não parou por aí.

— Agora ele está me assediando por causa de uma caixa de som que não sei como comprar, mas vou ter que fazê-lo porque não consigo explicar a você o assédio daqueles que vêm à minha casa.

A dívida começou há algum tempo, quando decidiu comemorar o aniversário do filho, que também havia se formado. Pediu um crédito, mas, como recebia uma aposentadoria mínima da Província e tinha um problema no Veraz por causa de um cartão, precisou recorrer a um agiota. O problema começou ali e se transformou em uma “roda imparável” que a mantém o tempo todo à beira do precipício.

“Conheço um que empresta dinheiro”, disse-lhe um vizinho quando tudo começou.

Agora, todos são agiotas que estão fora do sistema financeiro formal. Nem bancos nem carteiras digitais.

— Os meus são todos particulares e não sei se isso não é pior — diz —, porque você vive ameaçada o tempo todo. É algo que dá medo. Medo de sair na rua, você não sabe se vai encontrá-lo.

— Levaram alguma coisa de sua casa?

— Não, não — diz Marta. — Tive que comprar algo novo para eles, o micro-ondas, porque não queriam o da minha casa.

Na cidade, a violência aumenta da mesma maneira. Luci Cavallero menciona dois casos. Um agiota ameaçou uma mulher dizendo que levaria seus filhos para trabalhar para ele. Poderia se tratar de uma rede de exploração sexual com as meninas e de utilização dos meninos como soldadinhos de uma economia ilegal associada ao tráfico de drogas. Em outro caso, uma mulher foi intimidada por um agiota que rondava sua casa e ameaçava incendiá-la.

Diante da primeira ameaça, a organização fez uma arrecadação com o bairro para que a mulher pudesse pagar a dívida. No segundo caso, fizeram uma denúncia criminal.

A Movida Ciudad trabalha há um ano com pessoas endividadas em assembleias, oferecendo orientação e apoio em saúde mental, e busca levar a discussão aos bairros populares, como a Villa 31 ou a 21-24. Para Cavallero, uma denúncia criminal é importante, mas não é suficiente: é necessária uma rede de apoio nos bairros para aqueles que denunciam.

“É mais importante o acompanhamento das organizações porque a Justiça e os advogados não estão dentro do bairro e, então, as pessoas que denunciam ficam à mercê das represálias que esses grupos possam tomar”, explica. “É claro que o acompanhamento jurídico é importante, mas não é suficiente. E isso me faz lembrar muito da violência de gênero que essa pergunta nos apresentava: ‘Que dispositivos precisam ser criados nos bairros para dar uma solução multidisciplinar?’”

<><> Yamila: o agiota na porta da sua casa

Yamila começou a militar com um grupo de endividados. Pegou um crédito de 20 mil pesos para a SUBE e a dívida cresceu tanto que, um dia, atingiu o limite do cartão Naranja, seu único tesouro, com o qual compra comida para os filhos. Pagou o total enquanto pôde, até que pediu um empréstimo no bairro.

Mãe, decoradora e agora cozinheira em uma casa, vive em Lomas de Zamora, onde há agiotas de todos os tipos.

“Eles emprestam uma quantia de dinheiro que você pega: 500 mil pesos, mas tem que devolver um milhão. E esse milhão, como você devolve? E depois você tem o agiota na porta da sua casa o tempo todo. Graças a Deus, essa situação não aconteceu comigo, mas aqui no bairro a maioria está desesperada, tentando descobrir de onde pode tirar dinheiro para pagar.”

Fidel Ruiz é o coordenador de formação da La Poderosa. Antes de chegar ao ponto de tirar as coisas da sua casa — diz — existe uma etapa anterior: eles ficam, por exemplo, com o cartão da Asignación Universal.

Fidel acredita que os projetos de lei sobre endividamento são úteis, mas não são suficientes, porque o verdadeiro problema é estrutural.

“Aqui, a Cidade aprovou um projeto de Leandro Santoro para pessoas que estão endividadas, e também um de Pitu Salvatierra, mas os governos não estão pensando em nenhuma política pública que possa salvaguardar a vida integral desses vizinhos e vizinhas. Porque cortam a educação, cortam a saúde, cortam programas sociais, cortam tudo de você, mas depois colocam a culpa em você por estar se endividando.”

<><> A crueldade de quem empresta

Do outro lado, também há algo novo: uma espécie de “nada disso é um problema nem está errado”. Hernán Letcher republicou alguns anúncios de agiotas. Entre eles, uma câmera em primeira pessoa mostra uma caminhonete enquanto uma voz conta que eles vão buscar um fogão em uma casa.

Grande Buenos Aires. Rua de terra. A mulher não conseguiu pagar, diz a voz. Queria ligar para a Defesa do Consumidor e para o juiz, mas pressionamos e pressionamos o máximo que pudemos e nada — continua —, agora estamos indo buscar o fogão.

Plano seguinte: a casa de destino, de dia, área externa. A caminhonete dá ré. Fogão sendo carregado. E o grupo dá meia-volta e vai embora como se nada tivesse acontecido.

Vídeo dois. Outra moto. Outra câmera em primeira pessoa. Voz em off. Um anúncio: “Empréstimos de 70 K, lucro de 35 K”. O rapaz-câmera avança por outra paisagem parecida com a primeira, enquanto passa o anúncio e convida a acompanhá-lo nessa espécie de passeio de adrenalina ao vivo.

“Há uma lógica de contar a crueldade pelo lado de quem empresta dinheiro”, diz Letcher. “Há uma crueldade evidentemente própria da etapa política que indica que, pelo menos para uma parte, nada disso é um problema nem está errado, e quase, quase isso é visto como algo positivo. Como você promove seu negócio de empréstimos me mostrando isso?”

 

Fonte: Por Alejandra Dandan, em Página 12 - Tradução: Isabelle Paiva, para Diálogos do Sul Global

 

Nenhum comentário: