Meta
usa influenciadores para direcionar debate sobre proteção a crianças nas redes
Uma
investigação do Projeto de Transparência em Tecnologia (Tech Transparency
Project, TTP, em inglês), centro de informação e pesquisa da organização sem
fins lucrativos Campaign for Accountability (CfA), revela como a Meta vem
mobilizando influenciadores, grupos de pais, organizações da sociedade civil e
especialistas para promover seus próprios mecanismos de proteção infantil e
influenciar o debate sobre novas leis de segurança digital em diferentes
países, inclusive no Brasil.
Segundo
o TTP, a estratégia combina eventos patrocinados, pesquisas de opinião
encomendadas pela própria Meta e parcerias pagas com influenciadores e
organizações que passam a divulgar mensagens favoráveis às soluções da empresa.
O relatório chama atenção para o risco de que essa atuação transfira o debate
sobre políticas públicas para campanhas de comunicação conduzidas pela própria
plataforma.
O
levantamento identificou iniciativas semelhantes na Austrália, Nova Zelândia,
Índia, Indonésia, Malásia, Filipinas, Japão, Emirados Árabes Unidos, Reino
Unido, Canadá, França e Espanha. Em comum, está a tentativa da empresa de
promover ferramentas como o recurso Contas de Adolescente Instagram e os
controles parentais como alternativas à adoção de medidas regulatórias mais
restritivas, especialmente limites de idade para acesso às redes sociais.
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O caso brasileiro
O
Brasil é um dos maiores mercados do Instagram e, desde março de 2026, está sob
as novas regras do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital),
que estabelece obrigações para plataformas digitais relacionadas à proteção de
crianças e adolescentes, incluindo mecanismos de aferição de idade, supervisão
parental e prevenção de riscos.
De
acordo com o TTP, a empresa realizou um evento em junho deste ano semelhante
aos chamados Acampamentos de Segurança do Instagram (Instagram Safety Camps em
inglês), voltado à promoção das ferramentas de segurança do Instagram, que aqui
no Brasil ganhou o nome de “Em Modo Seguro”. O evento contou com a participação
do humorista Fábio Porchat e de influenciadores, incluindo Talitah Sampaio. A
organização também denuncia uma série de publicações patrocinadas de
influenciadores brasileiros promovendo as Contas de Adolescente. Entre os nomes
citados estão Fernanda Fabris, Douglas Silva e o casal Maju Mendonça e Arthur
Luis Cardoso.
A
reportagem tentou contato com todos os influenciadores brasileiros mencionados
na investigação para saber os seus posicionamentos sobre as ações da Meta, mas
não recebemos retorno até o momento da publicação. O espaço segue aberto para
respostas.
Um dos
pontos destacados pelo levantamento é a repetição da mesma mensagem utilizada
pela Meta em outros mercados: a ideia de que ferramentas de supervisão parental
e contas específicas para adolescentes seriam uma alternativa mais adequada do
que restrições amplas de acesso às redes sociais.
O ECA
Digital entrou em vigor em março deste ano, com novas responsabilidades para as
plataformas, enquanto parlamentares continuam discutindo propostas que podem
ampliar as restrições de acesso de crianças e adolescentes às redes sociais,
como o Projeto de Lei 94/26 na Câmara dos Deputados, que debate sobre a
proibição do acesso de menores de 16 anos a redes sociais.
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A estratégia da Meta não começou agora
A
atuação identificada pelo TTP também se insere em um movimento mais amplo de
profissionalização do lobby das Big Techs no Brasil. Uma investigação da
Agência Pública e do Centro Latino-americano de Investigação Jornalística
(CLIP), parte do projeto A Mão Invisível das Big Techs, mapeou 74 profissionais
de 16 grandes plataformas que atuam diretamente nas articulações das empresas
com os poderes Executivo e Legislativo. Dois em cada três desses profissionais
tinham passado anteriormente por órgãos públicos, como ministérios, casas
legislativas, Presidência da República ou agências reguladoras, prática
conhecida como porta giratória.
A Meta
aparece como a empresa com o maior contingente identificado: com 19
profissionais em posições de políticas públicas ou relações governamentais, ela
fica à frente do Google, se considerados também os profissionais ligados ao
YouTube. A reportagem aponta ainda que Meta e Google tiveram atuação
particularmente agressiva contra o PL das Fake News entre 2022 e 2024, com
anúncios em jornais, aeroportos e outras ações públicas para pressionar contra
o projeto.
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Um modus operandi global de lobby
Para
André Fernandes, diretor do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do
Recife (IP.rec), a estratégia identificada pelo TTP é parte de um modus
operandi global das Big Techs. Segundo ele, o uso de influenciadores não é um
recurso secundário, mas uma ferramenta já incorporada às estratégias de lobby
das grandes empresas de tecnologia: “Os próprios influencers são mapeados como
um recurso lobístico a ser utilizado por essas empresas”, afirma.
Fernandes
diferencia ainda lobby de advocacy. Enquanto o lobby corresponde à defesa de
interesses privados perante tomadores de decisão, o advocacy estaria
relacionado à apresentação de informações e evidências para a construção de
políticas públicas voltadas à proteção de direitos.
No caso
analisado pelo TTP, porém, ele identifica uma atuação que vai além da
interlocução direta com autoridades. “A intenção realmente é uma mobilização
pública orquestrada para a defesa da solução que a empresa entende”, afirma.
Para o
diretor do IP.rec, essa estratégia ganha ainda mais relevância no Brasil porque
o lobby não possui regulamentação capaz de estabelecer, de forma ampla,
mecanismos de transparência e controle sobre essas relações. Segundo ele, a
ausência de registros sobre reuniões, temas discutidos e atores envolvidos
dificulta o escrutínio público das estratégias de influência.
Ele
também chama atenção para práticas como eventos patrocinados e reuniões
fechadas. Na avaliação de Fernandes, esse tipo de atuação pode produzir “uma
falsa percepção da realidade”, especialmente quando estudos produzidos pelas
próprias empresas são utilizados para sustentar suas posições.
Para
Maria Mello, gerente de Digital do Instituto Alana, as ferramentas anunciadas
pela Meta podem representar algum avanço, mas não enfrentam, por si só,
problemas estruturais do funcionamento das plataformas.
O
recurso Contas de Adolescentes concentra-se principalmente na restrição de
interações, com configurações privadas por padrão, filtros de mensagens e
redução do contato com pessoas desconhecidas. O problema é que ainda faltam
informações que permitam verificar como a empresa efetivamente modera os
conteúdos destinados a esse público: “Precisamos ter acesso aos relatórios de
risco”, afirma Mello, defendendo mais transparência sobre a atuação das
plataformas e sobre a moderação de conteúdo.
Ela
também chama a atenção para uma questão central do ECA Digital: a necessidade
de enfrentar mecanismos de design que estimulam o uso prolongado das
plataformas. Notificações excessivas, reprodução automática de conteúdos e
recompensas relacionadas ao tempo de uso são previstos na regulamentação como
exemplos de práticas que podem incentivar um uso excessivo, problemático ou
compulsivo.
“Essa é
uma ação que isoladamente, sem adoção de mudanças relacionadas ao design, não
funciona”, avalia. Para Mello, existe ainda um risco importante na forma como a
Meta vem promovendo suas ferramentas: o deslocamento da responsabilidade das
plataformas para famílias e adolescentes.
Ao
divulgar controles parentais e recursos de segurança por meio de
influenciadores, especialistas e campanhas voltadas às famílias, a empresa pode
fazer com que a discussão deixe de ser sobre a responsabilidade estrutural das
plataformas e passe a ser sobre como pais e adolescentes utilizam esses
serviços, critica. “A supervisão parental é parte da política de proteção
online à criança e adolescente”, afirma Mello. Mas, segundo ela, “sozinha, ela
não vai substituir a responsabilidade das plataformas de construir ambientes
seguros e transparentes.
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Restrição de idade e o limite da autorregulação
A
discussão também envolve uma questão central para o avanço de leis de proteção
infantil: até que ponto cabe às próprias plataformas estabelecer os limites de
segurança de seus produtos. Para André Fernandes, a sucessão de controvérsias
envolvendo as Big Techs enfraqueceu a possibilidade de confiar exclusivamente
na autorregulação. Ele resume a questão a partir de uma formulação do filósofo
da tecnologia Luciano Floridi: “o tempo da autorregulação acabou.”
Na
avaliação de Fernandes, diante de sucessivos episódios de desrespeito a
direitos e de estratégias de influência das empresas, medidas como restrição de
acesso e verificação etária passam a ser necessárias. “Me parece que é preciso,
sim, uma medida mais enérgica da sociedade”, afirma.
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Publicidade nas escolas e a disputa pelo discurso
Maria
Mello chama atenção ainda para outro episódio relacionado à estratégia de
comunicação da Meta no Brasil. Ela menciona como exemplo as recentes denúncias
da organização Ctrl Z sobre a promoção de publicidade das Contas de
Adolescentes do Instagram na porta de escolas em São Paulo, em uma ação de
comunicação mercadológica diretamente direcionada a crianças e adolescentes.
Para o Instituto Alana, a prática configura publicidade abusiva e ilegal no
país.
A
partir disso, Mello questiona o volume de recursos empregados pela empresa na
promoção das Contas de Adolescentes. “Eu fico me perguntando se o volume de
investimento que a empresa faz para a divulgação dessas contas […] não valeria
a pena se usado justamente para fazer as mudanças previstas no ECA Digital”,
afirma.
A
observação coloca em perspectiva a estratégia global descrita pelo TTP: não se
trata apenas de a Meta desenvolver ferramentas de proteção, mas também de como
a empresa escolhe comunicar essas ferramentas e ocupar o debate público sobre
segurança infantil.
Procurada
para comentar a estratégia apontada pelo levantamento, a Meta defendeu as
parcerias com pais e criadores de conteúdo como parte de uma atuação de longo
prazo para ampliar a conscientização sobre ferramentas de segurança:
“Trabalhamos
com pais e criadores de conteúdo há muitos anos para difundir as ferramentas
que ajudam a manter os adolescentes seguros online. Firmar parcerias com
criadores de conteúdo para aumentar a conscientização sobre recursos de
segurança é uma prática comum em todo o setor, e é uma das formas mais eficazes
de garantir que os pais conheçam as proteções disponíveis para eles e suas
famílias. Temos orgulho desse trabalho e continuaremos a atuar em conjunto com
pais e especialistas nessa área”.
Em
2019, Mark Zuckerberg afirmou que, em sua própria casa, não queria que seus
filhos passassem muito tempo diante de uma televisão ou de um computador. “De
modo geral, não quero que meus filhos fiquem sentados diante de uma televisão
ou de um computador por muito tempo”, disse o CEO da Meta.
Para
Mello, a discussão deveria estar centrada em saber se as plataformas são
seguras “by design”, ou seja, se seus próprios sistemas, funcionalidades e
arquiteturas são construídos para proteger direitos de crianças e adolescentes,
e não apenas se famílias e usuários estão utilizando corretamente as
ferramentas disponíveis.
Diante
do poder econômico e político das Big Techs, André Fernandes aponta ser
necessário garantir que a construção e a implementação das regras ocorram em
ambientes transparentes e plurais, nos quais o setor privado não seja o único
ator capaz de definir os termos do debate.
Fonte:
Por Aline Melo, da Agencia Pública

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