Deportações
nos EUA: a farsa da ultradireita
Nenhum
conflito social se extingue por completo; ele se redistribui. Guerras,
desvalorizações cambiais severas, instabilidade institucional, crises
humanitárias não se dissolvem quando as pessoas fogem deles — viajam junto,
inscritos nos corpos que atravessam fronteiras. A migração é, nesse sentido,
menos um evento do que um mecanismo: uma das vias pelas quais as sociedades
transferem para outros territórios tensões que não resolvem em casa.
Nos
países de origem, a emigração funciona como amortecedor. Absorve parte da
população economicamente excedente, alivia a pressão sobre mercados de trabalho
saturados e converte o descontentamento — que poderia se organizar
politicamente — em remessas que estabilizam economias frágeis. Quem parte
costuma ser o mais inquieto, o mais disposto ao risco, e sua saída adia o
acerto de contas com as contradições internas. A migração é, já aí, uma forma
de externalizar o conflito.
O que
acontece do lado receptor é onde as contradições do mercado de trabalho se
tornam mais evidentes.
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A refração do conflito: do vertical ao horizontal
O
trabalhador imigrante entra na estrutura produtiva pela base — os postos mais
precários, menos qualificados e pior remunerados: a colheita, a obra, o
processamento de alimentos, os serviços gerais. Esse contingente atua como um
exército industrial de reserva: uma oferta flexível de força de trabalho que,
pela própria existência, exerce pressão descendente sobre os salários. Sua
vulnerabilidade jurídica não é um acidente lamentável do sistema; é exatamente
o que o torna barato, flexível e descartável — baixando o custo de quem
contrata e acirrando a competição na base do mercado de trabalho.
A
tensão nasce de um conflito vertical: a disputa entre capital e trabalho pela
apropriação da riqueza gerada. Mas quase nunca é vivida assim. O trabalhador
nativo cujo salário estagna, cujo bairro se transforma, cujos serviços se
deterioram, não enxerga o patrão que lucra com a mão de obra barata — enxerga o
vizinho que fala outra língua. O conflito vertical refrata-se num conflito
horizontal: o confronto entre frações da própria classe trabalhadora, nativos
contra estrangeiros.
Seria
cômodo parar aqui, tratando essa raiva como pura ilusão a ser corrigida. O
próprio argumento não deixa. Se a mão de obra barata de fato comprime o salário
na base, o trabalhador que sente a pressão não se engana quanto ao efeito —
apenas, no máximo, quanto à causa. O conflito horizontal tem um núcleo
material, e a tradição operária nunca soube o que fazer com ele: oscilou a vida
inteira entre o internacionalismo que proclama e a defesa do salário concreto,
que a empurrou, uma vez após outra, para o fechamento. Quem chama o nativo de
tolo repete, do avesso, o desprezo que diz combater.
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O bode expiatório: à direita, e a uma certa esquerda
A
refração precisa de cola, e a cola é o estigma. Estigmatizar é condensar num só
corpo ansiedades difusas — o salário que não sobe, o bairro que muda, a fila
que não anda — e projetá-las sobre quem chegou por último. Erguida essa
fronteira moral, ela se torna imune à evidência: mostrar que o imigrante
contribui mais do que consome não desarma o estigma, porque o estigma nunca foi
sobre a conta. É sobre pertencer.
Seria
confortável imaginar esse mecanismo como propriedade exclusiva da direita, que
o opera pela cultura, pela segurança e pelo fantasma da “substituição”. No
entanto, o fenômeno possui uma dimensão estrutural mais antiga e sedimentada:
quando abandona a centralidade do conflito distributivo, uma certa esquerda
também passa a tratar o imigrante como o vetor de uma crise cuja origem reside
no próprio mercado de trabalho. Não se trata de uma atração recente ou de um
desvio conjuntural, mas de uma matriz de pensamento que atravessa a história do
movimento operário e ganha corpo em sotaques nacionais distintos.
Na
Alemanha, o caso é programático: em torno de Sahra Wagenknecht organizou-se uma
esquerda redistributiva e restritiva que vê na imigração de massa um
instrumento de rebaixamento salarial, acusando a “esquerda de estilo de vida”
de ter trocado a distribuição pela moral identitária. Nos Estados Unidos, o
argumento é mais antigo do que se admite e atua como pano de fundo do próprio
sindicalismo — desde a resistência de Samuel Gompers no final do século XIX até
os episódios mais controversos de César Chávez nas décadas de 1960 e 1970.
Quando Bernie Sanders chamou as fronteiras abertas de “proposta dos irmãos
Koch” em 2015, argumentando que a medida servia para inundar o mercado com
força de trabalho barata e derrubar salários, ele reativava a lógica pura do exército
de reserva. No Reino Unido, o Blue Labour desloca o eixo do salário para a
pertença comunitária: sustenta que a imigração de massa corrói os laços de
reciprocidade — “família, fé e bandeira” — sobre os quais a solidariedade da
classe trabalhadora tradicional se construiu. E na Dinamarca, a
social-democracia de Mette Frederiksen foi além do discurso: adotou uma
política de asilo severa em nome expresso de salvar o Estado de bem-estar,
ganhou eleições e sustentou-se no poder com ela. Restricionismo de esquerda não
como lamento de oposição, mas como programa de governo.
Alemanha,
Estados Unidos, Reino Unido e Dinamarca chegam à mesma porta por ruas
diferentes — a formulação programática, a preservação do salário, a coesão
comunitária e a sustentação do Estado social. E os quatro agarram um problema
real: a fronteira aberta é, de fato, desejada também pelo capital ávido por mão
de obra barata, e o defensor humanitário canta, sem querer, a música do
empregador. O que essa esquerda faz, porém, é resolver o problema pelo avesso.
Já nos estudos históricos das lutas operárias do século XIX — como nas tensões
entre trabalhadores ingleses e imigrantes irlandeses —, notava-se que o
antagonismo entre nativos e estrangeiros não era espontâneo, mas cultivado. A
divisão servia exatamente ao propósito de enfraquecer a força coletiva do
trabalho. Fazer do imigrante bode expiatório, mesmo em nome do salário
nacional, presta o serviço que os ganhos de capital agradecem: mantém a classe
trabalhadora partida ao meio, discutindo a fronteira em vez da renda do
trabalho.
É no
ponto exato em que esse diagnóstico ecoa de lado a lado que a discussão se
desloca do terreno econômico para o terreno da reação. Há uma tragédia
analítica nesse movimento: ao identificar um problema real — a
instrumentalização da força de trabalho desprotegida pelo capital —, essa
esquerda oferece uma resposta catastrófica, validando a premissa de que a
preservação do salário exige a exclusão do estrangeiro.
Quando
a premissa da interdição deixa de ser monopólio da direita e ganha curso na
social-democracia e nos partidos de esquerda, abre-se o espaço em que formas
autoritárias de política prosperam. O fascismo histórico nunca se afirmou
apenas pela imposição direta, mas pela capacidade de transversalizar o estigma
— de convencer tanto o patrão quanto o trabalhador de que a coesão nacional e o
bem-estar exigem a extirpação de um elemento externo. Ao aceitar que a proteção
do trabalhador nativo depende do fechamento da fronteira, a esquerda não apenas
resolve o nó pelo avesso: ela pavimenta a violência institucional como política
de Estado.
Para a
direita, a vulnerabilidade do imigrante não é uma disfunção do sistema, mas a
engrenagem exata que viabiliza o trabalho barato e flexível; a retórica da
expulsão cumpre sua função eleitoral sem alterar essa vantagem econômica. A
verdadeira capitulação recai sobre a esquerda restricionista: ao abraçar a
pauta do fechamento sob o pretexto de proteger o salário nacional, ela renuncia
à organização coletiva dos trabalhadores e aceita a gramática da purificação do
mercado de trabalho. O rebaixamento salarial não decorre da chegada de quem
busca trabalho, mas da desproteção jurídica em que o imigrante é mantido.
Atacar o estrangeiro em vez da ilegalidade que o precariza equivale a combater
o sintoma, poupar a causa e oferecer ao fascismo a sua matéria-prima mais
duradoura: o consentimento da própria classe trabalhadora para a barbárie.
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A deportação como sinalização política
Nesse
quadro, a política de deportação em massa do governo Trump cumpre uma função
primariamente de sinalização. Não eleva salários, não recompõe serviços
públicos, não altera a divisão dos ganhos econômicos. O que faz é sinalizar
autoridade — oferecer ao eleitorado um alvo visível e um gesto direto de
intervenção estatal sobre o fluxo migratório, um inimigo que pode ser algemado,
contado, removido.
E
sinais assim custam caro. Segundo a modelagem do Economic Policy Institute, uma
operação de remoção em larga escala nos Estados Unidos custaria cerca de US$
269 bilhões — média de US$ 2.358 por contribuinte. Convém frisar que se trata
de uma projeção de custo — o preço estimado de remover em larga escala —, e não
de uma contagem de deportações já realizadas: o valor mede o que um programa
dessa magnitude consumiria, não quantas pessoas o governo Trump de fato
expulsou. O número, por si só, impressiona. Seu verdadeiro significado só
aparece quando perguntamos o que esse dinheiro deixa de fazer.
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O que se deixa de fazer
Os
mesmos US$ 269 bilhões pagariam o salário de quase 932 mil professores, ou de
mais de um milhão de bombeiros; cobririam o Medicaid de quase 12 milhões de
pessoas, o atendimento médico de mais de 5 milhões de veteranos, 6,7 milhões de
vagas de creche no Head Start ou quase 9,8 milhões de moradias populares.
Repare
no que essa lista tem em comum. São exatamente os bens públicos cuja escassez
alimenta o ressentimento que a deportação promete aplacar — escolas
superlotadas, filas na saúde, aluguel impagável, insegurança. Ao gastar
centenas de bilhões para expulsar trabalhadores em vez de investir neles, o
Estado não apenas deixa de resolver o conflito: ele o aprofunda. A escassez
gera ressentimento, o ressentimento sustenta a expulsão, a expulsão consome os
recursos que aliviariam a escassez. O conflito não é resolvido; é reinvestido.
Convém,
ainda assim, desconfiar da própria arma. Há algo de rendição em defender
pessoas pelo saldo que deixam no caixa, como se o direito de permanecer
dependesse de serem lucrativas — e a conta pudesse, um dia, virar-se contra
elas. Os números do EPI são um fato e um constrangimento ao mesmo tempo: vencem
o debate no terreno em que ele foi posto, quando talvez fosse o terreno, e não
a resposta, o que estava errado.
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A geografia da contradição
O mapa
dos custos repete a lógica. Califórnia (US$ 39,8 bilhões), Texas, Flórida e
Nova York concentram os maiores valores absolutos — não por acaso, mas porque
são os territórios onde trabalho imigrante e reprodução do capital mais se
entrelaçam. São os motores econômicos que dependem exatamente da mão de obra
que agora se propõe remover.
E
quando o custo é medido por contribuinte, a contradição salta: mesmo estados
alinhados à retórica da expulsão pagam caro. A Flórida arca com US$ 2.907 por
contribuinte, acima da média nacional.
O
eleitor que aplaude a deportação é, com frequência, o mesmo que a paga — e que
perde, na conta final, os serviços que o dinheiro poderia ter comprado. A
refração é tão eficaz que a vítima fiscal aplaude a própria fatura.
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Capital livre, trabalho acorrentado
Há uma
última camada, e é a mais estrutural. Na ordem econômica contemporânea, o
capital atravessa fronteiras sem atrito — investimentos, lucros e cadeias
produtivas fluem globalmente. O trabalho, não. Essa assimetria expõe a função
primordial do Estado-nação: num mundo de mercados globalizados, a própria razão
de existir do Estado ancorou-se no controle estrito das fronteiras e na
definição de quem pertence ou não ao corpo político.
A
fronteira cumpre a função de manter a diferença geográfica e jurídica que torna
a força de trabalho barata além dos limites nacionais. Ao criminalizar a
mobilidade humana, o Estado-nação não apenas reafirma a sua soberania
territorial, mas presta o serviço de conservação dessa disparidade. A
deportação atua como a ferramenta dessa manutenção — a intervenção estipulada
para assegurar um arranjo em que o capital é cosmopolita, mas o trabalhador
permanece prisioneiro da geografia.
E há
uma coincidência que envenena as boas consciências: a fronteira aberta é
desejada, por razões opostas, pelo migrante que busca trabalho e pelo patrão
que o quer barato. Defender a presença do estrangeiro é, às vezes, defender
também as condições em que ele é explorado, e a saída limpa desse nó não é
evidente. A expulsão em massa, vista assim, não é anomalia nem mero
desperdício: é a expressão coerente de um arranjo que precisa do trabalhador
imigrante e, ao mesmo tempo, precisa negar-lhe direitos — que o quer presente
como força de trabalho e ausente como cidadão.
Reduzir
a deportação a uma questão de custo-benefício, como faz a calculadora do EPI,
ilumina apenas uma face do problema — e este texto deve o rigor de seus números
a esse recorte. Mas os números, lidos contra a lógica do conflito, dizem mais
do que pretendem. Dizem que o dinheiro gasto para expulsar é dinheiro não gasto
para reconciliar; que a energia mobilizada contra o estrangeiro é energia
subtraída da disputa por distribuição; que a fronteira, longe de conter o
conflito, apenas o transfere de lugar — e, a cada transferência, o encarece.
O que
fica sem resposta não é o preço da expulsão, e sim se existe alguma pergunta
sobre pertencer que caiba, sem se perder, dentro de uma planilha.
Nenhum
conflito social desaparece. Deportar não o elimina. Apenas escolhe quem paga
por ele — e adia o momento em que será preciso, enfim, enfrentá-lo.
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Enquanto faz espetáculo, Trump ameaça críticos e governo
prepara medidas para até anular eleição. Por David Brooks
O governo Trump é um circo sem
intervalos e, às vezes, há tantos atos simultâneos que nem se sabe para onde
olhar. Bombas caem, são anunciadas novas sanções contra povos inteiros, mais
crianças são enjauladas, direitos civis são anulados, a liberdade de expressão é
cada vez mais limitada, opositores e dissidentes são publicamente ameaçados e…
há uma corrida de carros na capital do país. Esse é o resumo do circo desta e
de tantas outras semanas.
O
espetáculo continua, com consequências cada vez mais graves dentro e fora do
país.
No
exterior: o estreito de Ormuz foi declarado
“território estadunidense” pelo mandatário. Continuou-se acusando Cuba de ser o
país mais perigoso não pelo poderio de suas armas, mas pelo de suas ideias e
ideais, que aparentemente convencem estadunidenses inocentes demais.
São
anunciadas operações militares conjuntas de forças estadunidenses dentro de
países latino-americanos contra aqueles que “envenenam” estadunidenses,
novamente aparentemente inocentes, com drogas.
E
continuam sendo impostas sanções contra quase todos, desde povos inteiros até o
Tribunal Penal Internacional.
Mas
talvez a notícia mais importante da semana tenha sido a retirada do Canadá da
negociação comercial com Washington, com o primeiro-ministro declarando que
“avisei que os Estados Unidos estão tentando nos destruir para poder se
apoderar de nós. E prometi que isso nunca, jamais, acontecerá. Estamos
cumprindo essa promessa”.
Dentro
do país: o Executivo ameaçou processar criminalmente um centro de análise
política por divulgar um relatório concluindo que o envio da Guarda Nacional
não teve efeito sobre o crime, como afirmava a Casa Branca.
Em
Nevada, só foi possível identificar 185 eleitores potencialmente não cidadãos,
e não os quase 16 mil que a Casa Branca havia denunciado. Dissidentes que antes
eram trumpistas foram novamente atacados pelo presidente como “perdedores” com
“QI baixo”.
Harvard
e outras universidades continuam sendo punidas pelo governo federal, acusadas
de permitir o “antissemitismo” — ou seja, críticas a Israel. A rede nacional de
televisão ABC está se defendendo contra a ameaça da Casa
Branca de anular sua licença de transmissão; enquanto o diretor e o
editor-chefe da revista das Forças Armadas, Stars & Stripes,
foram demitidos pelo Pentágono por ousarem publicar reportagens sobre as
condições deterioradas e os problemas de saúde mental de 5 mil marinheiros no
porta-aviões Lincoln, mobilizado durante nove meses como parte da guerra contra
o Irã.
Todas
as semanas são documentadas as condições insalubres e cruéis dentro dos centros
de detenção para imigrantes. No Texas, Liam, uma criança de 5 anos que
caminhava para ir jogar futebol e estava prestes a entrar no jardim de
infância, foi detido pelo ICE e agora está em uma dessas instalações
carcerárias.
Supremacistas
brancos marcharam em Michigan com palavras de ordem anti-muçulmanas e cartazes
pela “deportação de 100 milhões” deste país. Em Washington, a nova era
macartista agora alerta sobre a maior ameaça interna ao país, o comunismo, e
até tenta fundir dois “inimigos” em um só: “os islamocomunistas”.
Neste
fim de semana, carros de corrida competiram em uma pista no centro de
Washington, DC, mais um espetáculo “patriótico” que, assim como o de artes
marciais mistas (literalmente o equivalente a um circo de gladiadores)
realizado nos jardins da Casa Branca há algumas semanas, foi promovido como ato
oficial — e, como sempre, como negócio — para celebrar o 250º aniversário dos
Estados Unidos.
Enquanto
prosseguem os espetáculos e a grandiloquência tão incrivelmente medíocre que
prevalece em Washington, especialistas alertam sobre preparativos e medidas
oficiais para manipular e até anular as próximas eleições de meio de mandato,
em novembro, que, segundo as previsões, serão adversas ao partido no poder.
O
circo, com seus atos incessantes, suas acrobacias de engano e ameaça e suas
palhaçadas, continuará até que o público — dentro e fora do país — decida não
participar mais desse espetáculo.
Fonte:
Por Marcelo
Phintener, em Outras Palavras/La Jornada

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