sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Deportações nos EUA: a farsa da ultradireita

Nenhum conflito social se extingue por completo; ele se redistribui. Guerras, desvalorizações cambiais severas, instabilidade institucional, crises humanitárias não se dissolvem quando as pessoas fogem deles — viajam junto, inscritos nos corpos que atravessam fronteiras. A migração é, nesse sentido, menos um evento do que um mecanismo: uma das vias pelas quais as sociedades transferem para outros territórios tensões que não resolvem em casa.

Nos países de origem, a emigração funciona como amortecedor. Absorve parte da população economicamente excedente, alivia a pressão sobre mercados de trabalho saturados e converte o descontentamento — que poderia se organizar politicamente — em remessas que estabilizam economias frágeis. Quem parte costuma ser o mais inquieto, o mais disposto ao risco, e sua saída adia o acerto de contas com as contradições internas. A migração é, já aí, uma forma de externalizar o conflito.

O que acontece do lado receptor é onde as contradições do mercado de trabalho se tornam mais evidentes.

<><> A refração do conflito: do vertical ao horizontal

O trabalhador imigrante entra na estrutura produtiva pela base — os postos mais precários, menos qualificados e pior remunerados: a colheita, a obra, o processamento de alimentos, os serviços gerais. Esse contingente atua como um exército industrial de reserva: uma oferta flexível de força de trabalho que, pela própria existência, exerce pressão descendente sobre os salários. Sua vulnerabilidade jurídica não é um acidente lamentável do sistema; é exatamente o que o torna barato, flexível e descartável — baixando o custo de quem contrata e acirrando a competição na base do mercado de trabalho.

A tensão nasce de um conflito vertical: a disputa entre capital e trabalho pela apropriação da riqueza gerada. Mas quase nunca é vivida assim. O trabalhador nativo cujo salário estagna, cujo bairro se transforma, cujos serviços se deterioram, não enxerga o patrão que lucra com a mão de obra barata — enxerga o vizinho que fala outra língua. O conflito vertical refrata-se num conflito horizontal: o confronto entre frações da própria classe trabalhadora, nativos contra estrangeiros.

Seria cômodo parar aqui, tratando essa raiva como pura ilusão a ser corrigida. O próprio argumento não deixa. Se a mão de obra barata de fato comprime o salário na base, o trabalhador que sente a pressão não se engana quanto ao efeito — apenas, no máximo, quanto à causa. O conflito horizontal tem um núcleo material, e a tradição operária nunca soube o que fazer com ele: oscilou a vida inteira entre o internacionalismo que proclama e a defesa do salário concreto, que a empurrou, uma vez após outra, para o fechamento. Quem chama o nativo de tolo repete, do avesso, o desprezo que diz combater.

<><> O bode expiatório: à direita, e a uma certa esquerda

A refração precisa de cola, e a cola é o estigma. Estigmatizar é condensar num só corpo ansiedades difusas — o salário que não sobe, o bairro que muda, a fila que não anda — e projetá-las sobre quem chegou por último. Erguida essa fronteira moral, ela se torna imune à evidência: mostrar que o imigrante contribui mais do que consome não desarma o estigma, porque o estigma nunca foi sobre a conta. É sobre pertencer.

Seria confortável imaginar esse mecanismo como propriedade exclusiva da direita, que o opera pela cultura, pela segurança e pelo fantasma da “substituição”. No entanto, o fenômeno possui uma dimensão estrutural mais antiga e sedimentada: quando abandona a centralidade do conflito distributivo, uma certa esquerda também passa a tratar o imigrante como o vetor de uma crise cuja origem reside no próprio mercado de trabalho. Não se trata de uma atração recente ou de um desvio conjuntural, mas de uma matriz de pensamento que atravessa a história do movimento operário e ganha corpo em sotaques nacionais distintos.

Na Alemanha, o caso é programático: em torno de Sahra Wagenknecht organizou-se uma esquerda redistributiva e restritiva que vê na imigração de massa um instrumento de rebaixamento salarial, acusando a “esquerda de estilo de vida” de ter trocado a distribuição pela moral identitária. Nos Estados Unidos, o argumento é mais antigo do que se admite e atua como pano de fundo do próprio sindicalismo — desde a resistência de Samuel Gompers no final do século XIX até os episódios mais controversos de César Chávez nas décadas de 1960 e 1970. Quando Bernie Sanders chamou as fronteiras abertas de “proposta dos irmãos Koch” em 2015, argumentando que a medida servia para inundar o mercado com força de trabalho barata e derrubar salários, ele reativava a lógica pura do exército de reserva. No Reino Unido, o Blue Labour desloca o eixo do salário para a pertença comunitária: sustenta que a imigração de massa corrói os laços de reciprocidade — “família, fé e bandeira” — sobre os quais a solidariedade da classe trabalhadora tradicional se construiu. E na Dinamarca, a social-democracia de Mette Frederiksen foi além do discurso: adotou uma política de asilo severa em nome expresso de salvar o Estado de bem-estar, ganhou eleições e sustentou-se no poder com ela. Restricionismo de esquerda não como lamento de oposição, mas como programa de governo.

Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido e Dinamarca chegam à mesma porta por ruas diferentes — a formulação programática, a preservação do salário, a coesão comunitária e a sustentação do Estado social. E os quatro agarram um problema real: a fronteira aberta é, de fato, desejada também pelo capital ávido por mão de obra barata, e o defensor humanitário canta, sem querer, a música do empregador. O que essa esquerda faz, porém, é resolver o problema pelo avesso. Já nos estudos históricos das lutas operárias do século XIX — como nas tensões entre trabalhadores ingleses e imigrantes irlandeses —, notava-se que o antagonismo entre nativos e estrangeiros não era espontâneo, mas cultivado. A divisão servia exatamente ao propósito de enfraquecer a força coletiva do trabalho. Fazer do imigrante bode expiatório, mesmo em nome do salário nacional, presta o serviço que os ganhos de capital agradecem: mantém a classe trabalhadora partida ao meio, discutindo a fronteira em vez da renda do trabalho.

É no ponto exato em que esse diagnóstico ecoa de lado a lado que a discussão se desloca do terreno econômico para o terreno da reação. Há uma tragédia analítica nesse movimento: ao identificar um problema real — a instrumentalização da força de trabalho desprotegida pelo capital —, essa esquerda oferece uma resposta catastrófica, validando a premissa de que a preservação do salário exige a exclusão do estrangeiro.

Quando a premissa da interdição deixa de ser monopólio da direita e ganha curso na social-democracia e nos partidos de esquerda, abre-se o espaço em que formas autoritárias de política prosperam. O fascismo histórico nunca se afirmou apenas pela imposição direta, mas pela capacidade de transversalizar o estigma — de convencer tanto o patrão quanto o trabalhador de que a coesão nacional e o bem-estar exigem a extirpação de um elemento externo. Ao aceitar que a proteção do trabalhador nativo depende do fechamento da fronteira, a esquerda não apenas resolve o nó pelo avesso: ela pavimenta a violência institucional como política de Estado.

Para a direita, a vulnerabilidade do imigrante não é uma disfunção do sistema, mas a engrenagem exata que viabiliza o trabalho barato e flexível; a retórica da expulsão cumpre sua função eleitoral sem alterar essa vantagem econômica. A verdadeira capitulação recai sobre a esquerda restricionista: ao abraçar a pauta do fechamento sob o pretexto de proteger o salário nacional, ela renuncia à organização coletiva dos trabalhadores e aceita a gramática da purificação do mercado de trabalho. O rebaixamento salarial não decorre da chegada de quem busca trabalho, mas da desproteção jurídica em que o imigrante é mantido. Atacar o estrangeiro em vez da ilegalidade que o precariza equivale a combater o sintoma, poupar a causa e oferecer ao fascismo a sua matéria-prima mais duradoura: o consentimento da própria classe trabalhadora para a barbárie.

<><> A deportação como sinalização política

Nesse quadro, a política de deportação em massa do governo Trump cumpre uma função primariamente de sinalização. Não eleva salários, não recompõe serviços públicos, não altera a divisão dos ganhos econômicos. O que faz é sinalizar autoridade — oferecer ao eleitorado um alvo visível e um gesto direto de intervenção estatal sobre o fluxo migratório, um inimigo que pode ser algemado, contado, removido.

E sinais assim custam caro. Segundo a modelagem do Economic Policy Institute, uma operação de remoção em larga escala nos Estados Unidos custaria cerca de US$ 269 bilhões — média de US$ 2.358 por contribuinte. Convém frisar que se trata de uma projeção de custo — o preço estimado de remover em larga escala —, e não de uma contagem de deportações já realizadas: o valor mede o que um programa dessa magnitude consumiria, não quantas pessoas o governo Trump de fato expulsou. O número, por si só, impressiona. Seu verdadeiro significado só aparece quando perguntamos o que esse dinheiro deixa de fazer.

<><> O que se deixa de fazer

Os mesmos US$ 269 bilhões pagariam o salário de quase 932 mil professores, ou de mais de um milhão de bombeiros; cobririam o Medicaid de quase 12 milhões de pessoas, o atendimento médico de mais de 5 milhões de veteranos, 6,7 milhões de vagas de creche no Head Start ou quase 9,8 milhões de moradias populares.

Repare no que essa lista tem em comum. São exatamente os bens públicos cuja escassez alimenta o ressentimento que a deportação promete aplacar — escolas superlotadas, filas na saúde, aluguel impagável, insegurança. Ao gastar centenas de bilhões para expulsar trabalhadores em vez de investir neles, o Estado não apenas deixa de resolver o conflito: ele o aprofunda. A escassez gera ressentimento, o ressentimento sustenta a expulsão, a expulsão consome os recursos que aliviariam a escassez. O conflito não é resolvido; é reinvestido.

Convém, ainda assim, desconfiar da própria arma. Há algo de rendição em defender pessoas pelo saldo que deixam no caixa, como se o direito de permanecer dependesse de serem lucrativas — e a conta pudesse, um dia, virar-se contra elas. Os números do EPI são um fato e um constrangimento ao mesmo tempo: vencem o debate no terreno em que ele foi posto, quando talvez fosse o terreno, e não a resposta, o que estava errado.

<><> A geografia da contradição

O mapa dos custos repete a lógica. Califórnia (US$ 39,8 bilhões), Texas, Flórida e Nova York concentram os maiores valores absolutos — não por acaso, mas porque são os territórios onde trabalho imigrante e reprodução do capital mais se entrelaçam. São os motores econômicos que dependem exatamente da mão de obra que agora se propõe remover.

E quando o custo é medido por contribuinte, a contradição salta: mesmo estados alinhados à retórica da expulsão pagam caro. A Flórida arca com US$ 2.907 por contribuinte, acima da média nacional.

O eleitor que aplaude a deportação é, com frequência, o mesmo que a paga — e que perde, na conta final, os serviços que o dinheiro poderia ter comprado. A refração é tão eficaz que a vítima fiscal aplaude a própria fatura.

<><> Capital livre, trabalho acorrentado

Há uma última camada, e é a mais estrutural. Na ordem econômica contemporânea, o capital atravessa fronteiras sem atrito — investimentos, lucros e cadeias produtivas fluem globalmente. O trabalho, não. Essa assimetria expõe a função primordial do Estado-nação: num mundo de mercados globalizados, a própria razão de existir do Estado ancorou-se no controle estrito das fronteiras e na definição de quem pertence ou não ao corpo político.

A fronteira cumpre a função de manter a diferença geográfica e jurídica que torna a força de trabalho barata além dos limites nacionais. Ao criminalizar a mobilidade humana, o Estado-nação não apenas reafirma a sua soberania territorial, mas presta o serviço de conservação dessa disparidade. A deportação atua como a ferramenta dessa manutenção — a intervenção estipulada para assegurar um arranjo em que o capital é cosmopolita, mas o trabalhador permanece prisioneiro da geografia.

E há uma coincidência que envenena as boas consciências: a fronteira aberta é desejada, por razões opostas, pelo migrante que busca trabalho e pelo patrão que o quer barato. Defender a presença do estrangeiro é, às vezes, defender também as condições em que ele é explorado, e a saída limpa desse nó não é evidente. A expulsão em massa, vista assim, não é anomalia nem mero desperdício: é a expressão coerente de um arranjo que precisa do trabalhador imigrante e, ao mesmo tempo, precisa negar-lhe direitos — que o quer presente como força de trabalho e ausente como cidadão.

Reduzir a deportação a uma questão de custo-benefício, como faz a calculadora do EPI, ilumina apenas uma face do problema — e este texto deve o rigor de seus números a esse recorte. Mas os números, lidos contra a lógica do conflito, dizem mais do que pretendem. Dizem que o dinheiro gasto para expulsar é dinheiro não gasto para reconciliar; que a energia mobilizada contra o estrangeiro é energia subtraída da disputa por distribuição; que a fronteira, longe de conter o conflito, apenas o transfere de lugar — e, a cada transferência, o encarece.

O que fica sem resposta não é o preço da expulsão, e sim se existe alguma pergunta sobre pertencer que caiba, sem se perder, dentro de uma planilha.

Nenhum conflito social desaparece. Deportar não o elimina. Apenas escolhe quem paga por ele — e adia o momento em que será preciso, enfim, enfrentá-lo.

¨      Enquanto faz espetáculo, Trump ameaça críticos e governo prepara medidas para até anular eleição. Por David Brooks

O governo Trump é um circo sem intervalos e, às vezes, há tantos atos simultâneos que nem se sabe para onde olhar. Bombas caem, são anunciadas novas sanções contra povos inteiros, mais crianças são enjauladas, direitos civis são anulados, a liberdade de expressão é cada vez mais limitada, opositores e dissidentes são publicamente ameaçados e… há uma corrida de carros na capital do país. Esse é o resumo do circo desta e de tantas outras semanas.

O espetáculo continua, com consequências cada vez mais graves dentro e fora do país.

No exterior: o estreito de Ormuz foi declarado “território estadunidense” pelo mandatário. Continuou-se acusando Cuba de ser o país mais perigoso não pelo poderio de suas armas, mas pelo de suas ideias e ideais, que aparentemente convencem estadunidenses inocentes demais.

São anunciadas operações militares conjuntas de forças estadunidenses dentro de países latino-americanos contra aqueles que “envenenam” estadunidenses, novamente aparentemente inocentes, com drogas.

E continuam sendo impostas sanções contra quase todos, desde povos inteiros até o Tribunal Penal Internacional.

Mas talvez a notícia mais importante da semana tenha sido a retirada do Canadá da negociação comercial com Washington, com o primeiro-ministro declarando que “avisei que os Estados Unidos estão tentando nos destruir para poder se apoderar de nós. E prometi que isso nunca, jamais, acontecerá. Estamos cumprindo essa promessa”.

Dentro do país: o Executivo ameaçou processar criminalmente um centro de análise política por divulgar um relatório concluindo que o envio da Guarda Nacional não teve efeito sobre o crime, como afirmava a Casa Branca.

Em Nevada, só foi possível identificar 185 eleitores potencialmente não cidadãos, e não os quase 16 mil que a Casa Branca havia denunciado. Dissidentes que antes eram trumpistas foram novamente atacados pelo presidente como “perdedores” com “QI baixo”.

Harvard e outras universidades continuam sendo punidas pelo governo federal, acusadas de permitir o “antissemitismo” — ou seja, críticas a Israel. A rede nacional de televisão ABC está se defendendo contra a ameaça da Casa Branca de anular sua licença de transmissão; enquanto o diretor e o editor-chefe da revista das Forças Armadas, Stars & Stripes, foram demitidos pelo Pentágono por ousarem publicar reportagens sobre as condições deterioradas e os problemas de saúde mental de 5 mil marinheiros no porta-aviões Lincoln, mobilizado durante nove meses como parte da guerra contra o Irã.

Todas as semanas são documentadas as condições insalubres e cruéis dentro dos centros de detenção para imigrantes. No Texas, Liam, uma criança de 5 anos que caminhava para ir jogar futebol e estava prestes a entrar no jardim de infância, foi detido pelo ICE e agora está em uma dessas instalações carcerárias.

Supremacistas brancos marcharam em Michigan com palavras de ordem anti-muçulmanas e cartazes pela “deportação de 100 milhões” deste país. Em Washington, a nova era macartista agora alerta sobre a maior ameaça interna ao país, o comunismo, e até tenta fundir dois “inimigos” em um só: “os islamocomunistas”.

Neste fim de semana, carros de corrida competiram em uma pista no centro de Washington, DC, mais um espetáculo “patriótico” que, assim como o de artes marciais mistas (literalmente o equivalente a um circo de gladiadores) realizado nos jardins da Casa Branca há algumas semanas, foi promovido como ato oficial — e, como sempre, como negócio — para celebrar o 250º aniversário dos Estados Unidos.

Enquanto prosseguem os espetáculos e a grandiloquência tão incrivelmente medíocre que prevalece em Washington, especialistas alertam sobre preparativos e medidas oficiais para manipular e até anular as próximas eleições de meio de mandato, em novembro, que, segundo as previsões, serão adversas ao partido no poder.

O circo, com seus atos incessantes, suas acrobacias de engano e ameaça e suas palhaçadas, continuará até que o público — dentro e fora do país — decida não participar mais desse espetáculo.

 

Fonte: Por Marcelo Phintener, em Outras Palavras/La Jornada

 

 

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