Eleições
e a ameaça do bolsonarismo adaptável
Quando escrevi, em abril, que o
perigo não estava na repetição de Bolsonaro, mas em sua capacidade de
adaptação, tratava-se de uma hipótese sobre um processo que ainda se anunciava
mais do que se mostrava e que dependeria do tempo da campanha para adquirir
materialidade. Esse teste veio de forma particularmente dura. Foram precisamente
os meses que separam aquele texto deste que acumularam sobre a candidatura de
Flávio Bolsonaro um volume de desgaste que, em outra configuração do
eleitorado, provavelmente produziria uma queda mais profunda e duradoura. O
áudio divulgado pelo Intercept, no qual o senador aparece solicitando recursos
ao dono do Banco Master para financiar o filme sobre o pai, o rompimento
público de Michelle Bolsonaro, em vídeos nos quais denunciou grosserias e seu
afastamento das decisões, o tarifaço que se seguiu aos acenos a Washington, o
constrangimento da visita de Milei ao Brasil para declarar apoio: tudo isso se
concentrou num intervalo curto e se ofereceu ao noticiário como a crônica de
uma derrocada anunciada. A derrocada, no entanto, não veio.
É
justamente na distância entre o tamanho do estrago e a timidez de seu efeito
eleitoral que se encontra o primeiro indício empírico consistente da hipótese,
e a série histórica da Quaest para o segundo turno permite enxergá-lo com
nitidez. Em maio, Lula e Flávio estavam separados por um único ponto, num
empate técnico. Em junho, a vantagem de Lula abriu para seis pontos; em julho,
chegou a oito. Então, quando a lógica linear do escândalo sugeria o
aprofundamento do fosso, agosto trouxe o recuo da diferença para três pontos,
com a leitura mais recente registrando 43 a 40, resultado tratado como empate
técnico dentro da margem de erro da pesquisa. O piso de Flávio, no pior momento
desse acúmulo de crises, foi de 37%. Esse piso não apenas resistiu como voltou
a subir enquanto a candidatura operava seus ajustes.
A
sequência não permite atribuir mecanicamente a recuperação a cada movimento de
bastidor, como se outras variáveis não atuassem sobre a disputa. Mas demonstra
algo anterior e decisivo: o desgaste não produziu a liquidação esperada, e a
candidatura conservou força suficiente para se reorganizar. Trata-se de um
comportamento que a gramática convencional do escândalo tem dificuldade de
explicar, porque essa gramática pressupõe um eleitorado disponível, permeável,
passível de ser movido pela revelação. É precisamente esse pressuposto que a
polarização brasileira dissolveu.
Foi
essa dissolução que tentei nomear, em outro texto, com o conceito de guerra de
imposição de custos, tomado de empréstimo à teoria da estratégia para descrever
o modo como o escândalo passa a funcionar quando as bases estão consolidadas e
o voto já não se converte com facilidade. Num quadro assim, a denúncia deixa de
ser instrumento de eliminação e se torna instrumento de atrito. Sua função não
é necessariamente derrubar o adversário, mas obrigá-lo a gastar tempo, energia
e atenção na defesa, drenando sua capacidade de construir uma narrativa própria
e ocupando o ciclo político com a gestão do dano em vez da afirmação do
projeto. Flávio Bolsonaro pagou esse custo e sobreviveu a ele. Essa
sobrevivência abriu a folga dentro da qual a adaptação pôde operar. A imposição
de custos explica por que a candidatura não morreu sob o peso do desgaste, mas
permanece subordinada à questão central: o que Flávio fez com a resistência que
demonstrou possuir?
Enquanto
a esquerda comemorava a queda nas pesquisas e interpretava o ruído da imposição
de custos como sinal de fragilidade terminal, Flávio executava uma silenciosa e
consequente sequência de movimentos. Reconstituiu a equipe econômica não com
tecnocratas neutros trazidos para romper com o projeto anterior, mas com
quadros centrais do próprio governo de seu pai. Convocou Daniella Marques e
Adolfo Sachsida para a coordenação e agregou sete novos nomes, em boa parte
egressos da estrutura de Paulo Guedes, entre eles Alexandre Messa, Vladimir
Kühl Teles, Alexandre Ywata e Myrian Prado. O grupo combina integrantes do
governo Bolsonaro com economistas de formação acadêmica em instituições como
Berkeley, Minnesota e Northwestern, todos capazes de falar a língua do ajuste
fiscal, da responsabilidade com as contas e da previsibilidade econômica.
No
marketing, promoveu trocas sucessivas até chegar a Duda Lima, o publicitário
que, em 2022, trabalhou para apresentar ao eleitor um Jair Bolsonaro
domesticado. A escolha admite, na prática, que a moderação improvisada havia
fracassado e que a construção de uma imagem palatável precisava ser entregue a
quem já conhecia o ofício de traduzir o bolsonarismo em linguagem apresentável.
Flávio também recuou dos atores mais queimados, manteve distância calculada de
Carlos e Eduardo e empurrou a soberania e a política externa para o segundo
plano depois que a atuação de Eduardo junto aos Estados Unidos se revelou um
passivo. Concentrou o discurso em segurança pública e custo de vida.
Mesmo a
crise com Michelle foi absorvida por esse movimento. Depois do rompimento
público, Flávio pediu desculpas e a reincorporou à campanha em aparições
conjuntas, sem devolver a ela o comando da sucessão. O que parecia apenas mais
um sinal de desagregação familiar foi transformado numa demonstração de unidade
administrada. Cada um desses gestos é um movimento de bastidor, de reação,
cálculo e composição de forças. Nenhum deles depende do carisma que o candidato
notoriamente não tem.
É aqui
que a tese de abril precisa avançar. A leitura segundo a qual Flávio é fraco no
palanque e forte nos bastidores, embora contenha uma parte da verdade, ainda é
insuficiente. Ela trata a fraqueza da persona como um passivo que a competência
de articulação viria compensar. O que os fatos sugerem é algo mais inquietante:
a fraqueza da persona não é apenas o déficit que o bastidor cobre, mas uma das
condições que tornam a adaptação possível.
O
discurso cru e tosco faz de Flávio um orador tecnicamente tão limitado quanto o
pai, mas desprovido do magnetismo político que convertia a limitação de Jair em
linguagem de identificação. Essa ausência de brilho próprio também opera como
um ativo. Um herdeiro sem o carisma disruptivo do patriarca é mais fácil de
vestir com a roupagem da previsibilidade fiscal, mais fácil de entregar ao
mercado sem estrépito e mais fácil de reposicionar em pautas de gestão sem que
a base reconheça imediatamente uma ruptura com a herança recebida. A moderação
que Jair Bolsonaro jamais poderia sustentar, porque sua persona incontornável a
impedia, é precisamente a moderação que Flávio pode tentar executar. O que no
pai era força, a figura magnética que arrastava multidões e definia o horizonte
simbólico, era também o que travava a adaptação. O que no filho parece
fraqueza, a ausência de uma identidade política forte o bastante para resistir
ao reposicionamento, é o que a libera.
Isso
não significa que a ausência de carisma deixe de cobrar seu preço. A mesma
plasticidade que facilita a normalização dificulta a produção de entusiasmo,
reduz a capacidade de mobilização e torna Flávio dependente do sobrenome e da
chancela paterna. A persona fraca é, ao mesmo tempo, adaptável e pouco
mobilizadora. O risco para sua candidatura reside nessa segunda dimensão. O
perigo para seus adversários reside na primeira. O bolsonarismo talvez não
precise que Flávio ocupe integralmente o lugar simbólico de Jair. Pode bastar
que o pai continue funcionando como fiador da base enquanto o filho oferece ao
restante do sistema uma superfície menos agressiva, mais previsível e, por isso
mesmo, mais tolerável.
É essa
inversão de hierarquia que constitui o cerne do bolsonarismo adaptado. Jair
Bolsonaro subordinava o bastidor à persona. Colocava toda a máquina de
articulação a serviço de uma figura que se recusava a moderar porque a
disrupção era seu principal ativo e a moderação seria interpretada como perda.
Flávio Bolsonaro subordina a persona ao bastidor. Aceita ser a figura apagada,
o nome sem brilho, o herdeiro que não empolga, porque essa condição libera a
máquina para operar a depuração de que o projeto necessita para atravessar a
elevada rejeição com que começou e alcançar o empate técnico em que se
encontra. Subestimá-lo pela pobreza do discurso é cometer o erro exato que a
candidatura deseja que se cometa: confundir a modéstia da figura com a modéstia
do projeto, quando é justamente a figura modesta que permite ao projeto ser
ambicioso sem parecer ameaçador.
Jair
Bolsonaro também promovia trocas incessantes, demitia e substituía equipes e
articuladores num ritmo que fez da instabilidade uma marca de seu governo. Nem
todas essas trocas foram arroubos intempestivos. No segundo tempo de sua
gestão, houve um cálculo frio de sobrevivência que substituiu quadros
ideológicos por operadores do fisiologismo. Da mesma forma, nem todas as trocas
de Flávio representam serenidade estratégica. A sucessão de marqueteiros em
poucos meses, em meio ao escândalo do Banco Master e às vésperas da campanha,
foi também gestão de dano sob pressão, campanha que apanha e reage.
A
diferença não está, portanto, na temperatura de cada decisão, mas na direção
para a qual a soma das decisões empurra o projeto. Quando Jair trocava, mesmo
calculando, o vetor apontava para a radicalização, o fisiologismo e a
blindagem, nunca para a depuração diante do mercado e do centro. Quando Flávio
troca, ainda que atabalhoadamente, cada decisão somada às outras desenha uma
trajetória reconhecível: a da previsibilidade recrutada, do ruído descartado,
do quadro de Guedes reconvocado, do irmão queimado mantido à distância e da
unidade familiar recomposta sob controle. Não se trata necessariamente de um
plano central executado por estrategistas oniscientes, mas de uma campanha cuja
soma das reações produz um vetor adaptativo. A mesma instabilidade que no pai
era sintoma de descontrole ou instrumento de sobrevivência funciona, no filho,
como o método turbulento pelo qual a adaptação se realiza.
Essa
adaptação opera em duas direções diferentes e complementares. Para o mercado, a
imprensa econômica e parcelas do centro, oferece quadros conhecidos,
compromisso fiscal e redução do ruído institucional. Para o eleitorado menos
ideologicamente consolidado, procura traduzir essa normalização por meio de
promessas mais imediatas: segurança, custo de vida, ordem e capacidade de
gestão. Uma operação não conduz automaticamente à outra. É precisamente essa
passagem que o marketing precisará construir na reta final. O economista de
formação internacional não conquista, por si só, o jovem periférico, mas pode
compor a imagem de previsibilidade que será traduzida para a linguagem concreta
do preço dos alimentos, do emprego, da violência e da estabilidade cotidiana.
Se as
bases estão consolidadas, se o escândalo converte pouco e se a imposição de
custos atrita sem eliminar, a eleição tende a se decidir na margem ainda não
consolidada, e não no confronto simbólico entre as duas figuras: indecisos,
votos brancos e nulos, eleitores propensos à abstenção. Nessa margem, jovens,
periferias e segmentos afastados da polarização assumem peso decisivo. Esse
eleitor não está naturalmente disponível para a nova roupagem bolsonarista. É
justamente sobre suas inseguranças materiais, sua desconfiança da política e
sua baixa fidelidade às identidades partidárias que a candidatura adaptada
tentará operar.
A
figura apagada de Flávio, um passivo na mobilização da militância, pode se
transformar em ativo diante de quem rejeita a paixão política, mas aceita uma
promessa administrável de segurança e contas em ordem. O desafio do campo
progressista não é apenas vencer o debate simbólico que tende a vencer entre os
já convencidos. É disputar a margem que decide, falando com uma experiência
social que não se sente integralmente representada por nenhum dos campos. Isso
exige reconhecer que o adversário já se apresenta como uma versão depurada do
que foi derrotado em 2022: menos capaz de fascinar e mais fácil de tolerar.
A tese
de abril, que circulou para além do que eu esperava, foi republicada, traduzida
para o francês pelo Autres Brésils e publicada pela France Amérique Latine. Não
pretendia funcionar como profecia eleitoral, mas como descrição de uma
transformação em curso. Os meses seguintes deram materialidade política à
hipótese. O que está posto na mesa não é um candidato fraco que sobrevive por
milagre ao escândalo, mas um projeto que aprendeu a se reapresentar sem o ruído
do patriarca, mantendo seus operadores, reorganizando sua linguagem e vestindo
a herança com a roupagem da normalidade.
Seu
perigo não se mede pela vantagem que ainda não possui nas pesquisas. Pesquisa é
retrato de um momento, e a urna permanece o único veredito. O perigo se mede
pela desproporção entre o desgaste que se abateu sobre a candidatura e o pouco
que esse desgaste conseguiu movê-la; pela capacidade de absorver o que deveria
tê-la enfraquecido de maneira irreversível e chegar à reta final empatada,
reorganizada e mais apresentável justamente onde a lógica convencional previa o
colapso.
A
adaptação ainda pode encontrar seu limite na falta de entusiasmo, na
dependência do pai e nas contradições entre a base radical e a normalização
prometida ao mercado e ao centro. Mas ignorá-la por causa desses limites seria
repetir o erro de confundir ausência de magnetismo com ausência de força. O que
torna esse projeto perigoso não é qualquer dianteira eleitoral que ele ainda
não alcançou. É sua capacidade de permanecer sob o que deveria derrubá-lo e de
utilizar essa permanência para mudar de forma sem abrir mão de sua herança. É
isso que o torna mais difícil de enfrentar do que quando ainda parecia apenas a
sombra do pai.
Fonte: Por
Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

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