Departamento
de Guerra dos EUA investe 750 milhões de dólares em terras raras brasileiras
O
Departamento de Guerra, antigo Departamento de Defesa dos Estados Unidos,
anunciou um investimento de 750 milhões de dólares (cerca de R$ 3,8 bilhões) na
compra de terras raras produzidas no Brasil pela mineradora Serra Verde.
Na
prática, o anúncio coloca as terras raras extraídas no Brasil diretamente no
ecossistema da indústria militar estadunidense – elementos de terras raras são
utilizados pela indústria de armamentos dos EUA por seu magnetismo e
resistência a altas temperaturas. Essa possibilidade já havia sido apontada por
reportagem da Agência Pública, que mostrou as conexões da Serra Verde com os
interesses do governo americano.
Segundo
o Departamento de Guerra, os recursos serão aportados em uma “Empresa de
Propósito Específico” para viabilizar um acordo de compra do concentrado de
terras raras (chamado de carbonato) produzido pela Serra Verde no projeto Pela
Ema, no norte de Goiás.
Esse
acordo já tinha sido tornado público pela própria mineradora em abril, quando a
Serra Verde comunicou uma operação de fusão e aquisição com a empresa americana
USA Rare Earth e a formalização de um contrato para fornecer 100% da sua
produção por 15 anos para uma “Empresa de Propósito Específico”, que à época
não foi nomeada ou especificada, mas que seria capitalizada por agências do
governo americano e fontes privadas.
Agora,
o próprio Departamento de Guerra deu mais detalhes sobre o investimento na
“Empresa de Propósito Específico”, chamada “US SIIE”. O montante de 750 milhões
de dólares faz parte de um pacote de investimentos de 1,55 bilhão de dólares no
total, que inclui um compromisso de compra de 300 milhões pela Agência de
Logística de Defesa do Departamento e outro compromisso de compra de 500
milhões por parte de um grande banco comercial que não foi especificado.
“Garantir
cadeias de suprimentos resilientes, tanto domésticas quanto de aliados, é um
requisito fundamental para operações de guerra”, afirmou Mike Cadenazzi,
Secretário-Assistente de Guerra para Política de Base Industrial.
“Ao
estabelecer parceria com a Serra Verde, damos um passo decisivo para quebrar o
quase monopólio de nossos adversários sobre os elementos de terras raras. Esse
esforço conjunto assegura que nossa base industrial de defesa tenha acesso
garantido e de longo prazo aos materiais críticos necessários para fabricar
sistemas de armas de última geração e manter nossa vantagem tecnológica”,
completou ele, em referência à China, que controla mais de 90% do processamento
industrial desses elementos químicos.
Elementos
de terras raras são utilizados em ímãs de caças F-35, drones e mísseis
Tomahawk, produzidos pela indústria de armamentos dos EUA. Não à toa, o governo
americano tem pressa em quebrar esse monopólio. O Departamento de Guerra
decidiu proibir, a partir de 2027, a aquisição de ímãs feitos com terras raras
extraídos ou processados na China e em outros países considerados inimigos,
como Rússia, Irã e Coreia do Norte.
No meio
dessa disputa, o Brasil, dono da segunda maior reserva de terras raras no
mundo, é estratégico. Assim como a Serra Verde, que é a única mineradora no
país a já produzir terras raras em escala comercial. A empresa produz um
concentrado com vários elementos de terras raras, entre eles o samário, que é
majoritariamente usado pela indústria militar por conta de sua resistência a
altas temperaturas. Desde abril do ano passado, a China restringiu a exportação
desse elemento e seus derivados, como as ligas metálicas, e passou a exigir uma
série de documentos para a obtenção de licenças de exportação, incluindo a
identificação do usuário final dos produtos – que, em muitos casos, são
fabricantes de armamentos.
“A
Serra Verde é a única produtora das terras raras pesadas fora da Ásia e ela tem
as quatro terras raras magnéticas”, disse Barbara Humpton, CEO da USA Rare
Earth, em uma entrevista à Fox News. “E a iniciativa brilhante do governo dos
EUA foi criar uma sociedade de propósito específico, com apoio de várias
agências governamentais e investimento privado, para garantir um contrato de
compra de 100% da produção por 15 anos, assegurando que nós tenhamos acesso aos
materiais necessários para a nossa economia e para a nossa defesa”, completou a
executiva.
Para
isso, a USA Rare Earth, dona da Serra Verde, já garantiu 1,6 bilhão de dólares
em financiamento do governo americano, que terá participação acionária na
companhia. Também comprou a britânica Less Common Metals, uma das maiores
fornecedoras de ligas metálicas de terras raras, e firmou um acordo de vendas
mútuas com a Arnold Magnets. Diante das restrições chinesas, essas duas
empresas – Less Common Metals e Arnold Magnets – trabalharam ao longo do ano
passado para encontrar fontes alternativas de samário a fim de continuar
produzindo os ímãs usados em mísseis Tomahawk, como mostrou o jornal americano
New York Times.
Fonte:
Por Isabel Seta, da Agencia Pública

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