sexta-feira, 28 de agosto de 2026

As raízes que suportam o peso do mundo

Desde adolescente, ou talvez antes, caminho pelas ruas com um especial fascínio pelas árvores nas calçadas.

Olho para essas árvores e enxergo os descasos, precariedades e também as resistências e belezas que elas nos mostram, e não consigo deixar de ver muito sobre nós, cidadãos, sujeitos…

Hoje, sou psicanalista e um de meus hobbies é fotografar essas árvores e pensar o que nós todos temos em comum com elas, nas cidades em que vivemos.

Aqui, quero falar sobre raízes que carregam grandes pesos.

“Teus ombros suportam o mundo / e ele não pesa mais que a mão de uma criança”. Esses versos foram escritos por Carlos Drummond de Andrade, no poema “Teus ombros suportam o mundo” que integra o livro “Sentimento do Mundo”, de 1940.

O poeta fala sobre um tempo “em que não se diz mais: meu amor. / Porque o amor resultou inútil. / E os olhos não choram. / E as mãos tecem apenas o rude trabalho. / E o coração está seco. (…) Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. / A vida apenas, sem mistificação.”

O eu-lírico denuncia uma vida “maquinizada”, de tempos em que nos impedimos de sentir, sonhar, desejar, fantasiar, ou, nas palavras do poeta, “mistificar”.

<><> Tempos sombrios

Os anos 1930 foram profundamente marcados pela ascensão do nazifascismo, depressão econômica (e, com ela, tantas outras depressões), o processo de migração em massa desenraizando as populações do campo para as cidades (noto que esse tema das migrações acabou aparecendo nos meus outros textos). E a guerra que eclode no fim dos anos 1930…

Tudo isso, e muito mais, leva a um processo de incertezas, desesperança, sentimentos de impotência, medos… sofrimento psíquico.

Em “Sentimento do Mundo”, Drummond também escreve na “Elegia 1938”.

O poema começa dizendo: “Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo”. E encerra: “Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota / e adiar para outro século a felicidade coletiva. / Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”.

Mais do que tentar falar sobre essa atmosfera do período, melhor deixar que o poeta de Itabira fale.

Em “Confissões de Minas” (1944), livro que reúne algumas crônicas, artigos, ensaios de até então, Drummond diz:

“A solidão é niilista. Penso numa solidão total e secreta, de que a vida moderna parece guardar a fórmula, pois para senti-la não é preciso fugir para para Goiás ou às cavernas. No formigamento das grandes cidades, entre os roncos dos motores e os barulhos dos pés e das vozes, o homem pode ser invadido bruscamente por uma terrível solidão, que o paralisa e o priva de qualquer sentimento de fraternidade ou temor. Um desligamento absoluto de todo compromisso liberta e ao mesmo tempo oprime a personalidade”.

O “eu” se refugia diante da grandeza dos desafios, se dissolve dentro da solidão das massas das grandes cidades, se isola diante da desesperança, em uma defensiva indiferença e destemor.

Eis o mundo sem “mistificação”, desencantado.

Em “Luto e Melancolia”, Freud utiliza a imagem da sombra que cai sobre o sujeito para expressar a perda melancólica. Drummond usa a imagem da “noite”.

Lemos em “A noite dissolve os Homens”: “A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos / (…) a noite espalhou o medo / e a total incompreensão / A noite caiu. Tremenda, / sem esperança… / (…) a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer, / (…) A noite anoiteceu tudo… / O mundo não tem remédio…”

Freud também fala da pulsão de morte como certo desligamento libidinal. Drummond fala que um “desligamento absoluto de todo compromisso liberta e ao mesmo tempo oprime a personalidade”.

<><> Um salto para o século 21

Já que poeta mineiro fala tanto de tempos, saltamos para o século 21.

Crise climática. Novamente o fascismo perde a vergonha de se apresentar como solução para os medos do mundo. Guerras. IA como ameaça aos empregos. Um futuro ainda mais incerto.

Durante uma pandemia, um governo de extrema-direita e seus apoiadores defendem que as pessoas arriscarem suas vidas e seguirem trabalhando é melhor do que prejudicar (deprimir) a economia.

O neoliberalismo, com sua lógica completamente impessoal, colocou a vida humana como a última das prioridades para qualquer tomada de decisão sobre os rumos do mundo.

Nas “nuvens digitais”, que nada mais são que toneladas de computadores, o capital se reproduz virtualmente em proporções inéditas e sem distinguir dia e noite; seja no sentido do ciclo natural dos dias, seja no sentido de que qualquer “anoitecimento” de nossas forças não é razão para pararmos de produzir.

Byung Chul Han, em seu livro mais famoso, “A Sociedade do Cansaço”, nos fala do nosso esgotamento. A todas essas misérias do mundo capitalista, o neoliberalismo acrescentou um dos seus ingredientes mais cruéis: a autoculpabilização do sujeito por seus males.

Similar à denúncia de impotência de Drummond, diante da “grande máquina”, Mark Fischer, em “Realismo Capitalista”, leva ao extremo a advertência: “Somos capazes de imaginar o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo.”

A onipresença do neoliberalismo em nosso cotidiano tenta nos roubar a capacidade de tecer sonhos, só nos restando o “rude trabalho”, lamentado no poema de Drummond.

<><> “Uma flor nasceu, rompeu os asfalto”

Contemporaneamente ao “Sentimento do Mundo” de Drummond, Bertolt Brecht escreveu, na década de 1930, “Aos que virão depois de nós”. Em determinado momento, lemos: “Que tempos são esses / quando falar sobre flores é quase um crime / Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?”

O eu-lírico recusou corajosamente os conselhos de se “afastar dos problemas do mundo”, mesmo sabendo que o custo disso é “que o ódio contra a baixeza também endurece os rostos! / A cólera contra a injustiça faz a voz ficar rouca!”. O custo foi alto: “Fiz amor sem muita atenção e não tive paciência com a natureza.”

Já em 1945, Drummond lança “A Rosa do Povo”. A guerra já estava se encerrando e Hitler já havia sido derrotado. Neste livro, o eu-lírico que, em 1940, aparecia mais isolado e recluso, está nas ruas e no famoso poema “A flor e a náusea” anuncia: “Uma flor nasceu na rua!” e diz em tom imperativo:

“Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. / Uma flor ainda desbotada / ilude a polícia, rompe o asfalto. / Façam completo silêncio, paralisem os negócios, / garanto que uma flor nasceu”.

Na clínica psicanalítica, nas lutas dos movimentos sociais, nos atos mais banais do dia a dia, é preciso lutar a luta que, conforme observa Brecht, “endurece os rostos” e “faz a voz ficar rouca”… Porém, também a de Drummond, que fala de flores e enxerga nelas precariedade e resistência.

É preciso, também, questionar os pesos que carregamos nos ombros, conhecê-los e saber qual parte nos cabe nele, o que é nossa responsabilidade e o que não é.

Se, em parte, a vida maquinizada nos permite continuar sobrevivendo, ela também nos faz agir como se o mundo pesasse o mesmo que as mãos de uma criança.

Essas raízes calçadas, ao romperem o concreto cinza das cidades, nos mostram a vida que existe por baixo dele. Essa vida pode e deve vir à tona.

Sim… é urgente afastar os bondes, os ônibus, romper o asfalto, fazer completo silêncio, paralisar os negócios e ver uma flor nascer.

 

Fonte: Por Thiago Esperandio, em Outras Palavras

 

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