As
raízes que suportam o peso do mundo
Desde
adolescente, ou talvez antes, caminho pelas ruas com um especial fascínio pelas
árvores nas calçadas.
Olho
para essas árvores e enxergo os descasos, precariedades e também as
resistências e belezas que elas nos mostram, e não consigo deixar de ver muito
sobre nós, cidadãos, sujeitos…
Hoje,
sou psicanalista e um de meus hobbies é fotografar essas árvores e pensar o que
nós todos temos em comum com elas, nas cidades em que vivemos.
Aqui,
quero falar sobre raízes que carregam grandes pesos.
“Teus
ombros suportam o mundo / e ele não pesa mais que a mão de uma criança”. Esses
versos foram escritos por Carlos Drummond de Andrade, no poema “Teus ombros
suportam o mundo” que integra o livro “Sentimento do Mundo”, de 1940.
O poeta
fala sobre um tempo “em que não se diz mais: meu amor. / Porque o amor resultou
inútil. / E os olhos não choram. / E as mãos tecem apenas o rude trabalho. / E
o coração está seco. (…) Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. / A vida
apenas, sem mistificação.”
O
eu-lírico denuncia uma vida “maquinizada”, de tempos em que nos impedimos de
sentir, sonhar, desejar, fantasiar, ou, nas palavras do poeta, “mistificar”.
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Tempos sombrios
Os anos
1930 foram profundamente marcados pela ascensão do nazifascismo, depressão
econômica (e, com ela, tantas outras depressões), o processo de migração em
massa desenraizando as populações do campo para as cidades (noto que esse tema
das migrações acabou aparecendo nos meus outros textos). E a guerra que eclode
no fim dos anos 1930…
Tudo
isso, e muito mais, leva a um processo de incertezas, desesperança, sentimentos
de impotência, medos… sofrimento psíquico.
Em
“Sentimento do Mundo”, Drummond também escreve na “Elegia 1938”.
O poema
começa dizendo: “Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e
as ações não encerram nenhum exemplo”. E encerra: “Coração orgulhoso, tens
pressa de confessar tua derrota / e adiar para outro século a felicidade
coletiva. / Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição /
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”.
Mais do
que tentar falar sobre essa atmosfera do período, melhor deixar que o poeta de
Itabira fale.
Em
“Confissões de Minas” (1944), livro que reúne algumas crônicas, artigos,
ensaios de até então, Drummond diz:
“A
solidão é niilista. Penso numa solidão total e secreta, de que a vida moderna
parece guardar a fórmula, pois para senti-la não é preciso fugir para para
Goiás ou às cavernas. No formigamento das grandes cidades, entre os roncos dos
motores e os barulhos dos pés e das vozes, o homem pode ser invadido
bruscamente por uma terrível solidão, que o paralisa e o priva de qualquer
sentimento de fraternidade ou temor. Um desligamento absoluto de todo
compromisso liberta e ao mesmo tempo oprime a personalidade”.
O “eu”
se refugia diante da grandeza dos desafios, se dissolve dentro da solidão das
massas das grandes cidades, se isola diante da desesperança, em uma defensiva
indiferença e destemor.
Eis o
mundo sem “mistificação”, desencantado.
Em
“Luto e Melancolia”, Freud utiliza a imagem da sombra que cai sobre o sujeito
para expressar a perda melancólica. Drummond usa a imagem da “noite”.
Lemos
em “A noite dissolve os Homens”: “A noite desceu. Que noite! Já não enxergo
meus irmãos / (…) a noite espalhou o medo / e a total incompreensão / A noite
caiu. Tremenda, / sem esperança… / (…) a noite dissolve os homens, diz que é
inútil sofrer, / (…) A noite anoiteceu tudo… / O mundo não tem remédio…”
Freud
também fala da pulsão de morte como certo desligamento libidinal. Drummond fala
que um “desligamento absoluto de todo compromisso liberta e ao mesmo tempo
oprime a personalidade”.
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Um salto para o século 21
Já que
poeta mineiro fala tanto de tempos, saltamos para o século 21.
Crise
climática. Novamente o fascismo perde a vergonha de se apresentar como solução
para os medos do mundo. Guerras. IA como ameaça aos empregos. Um futuro ainda
mais incerto.
Durante
uma pandemia, um governo de extrema-direita e seus apoiadores defendem que as
pessoas arriscarem suas vidas e seguirem trabalhando é melhor do que prejudicar
(deprimir) a economia.
O
neoliberalismo, com sua lógica completamente impessoal, colocou a vida humana
como a última das prioridades para qualquer tomada de decisão sobre os rumos do
mundo.
Nas
“nuvens digitais”, que nada mais são que toneladas de computadores, o capital
se reproduz virtualmente em proporções inéditas e sem distinguir dia e noite;
seja no sentido do ciclo natural dos dias, seja no sentido de que qualquer
“anoitecimento” de nossas forças não é razão para pararmos de produzir.
Byung
Chul Han, em seu livro mais famoso, “A Sociedade do Cansaço”, nos fala do nosso
esgotamento. A todas essas misérias do mundo capitalista, o neoliberalismo
acrescentou um dos seus ingredientes mais cruéis: a autoculpabilização do
sujeito por seus males.
Similar
à denúncia de impotência de Drummond, diante da “grande máquina”, Mark Fischer,
em “Realismo Capitalista”, leva ao extremo a advertência: “Somos capazes de
imaginar o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo.”
A
onipresença do neoliberalismo em nosso cotidiano tenta nos roubar a capacidade
de tecer sonhos, só nos restando o “rude trabalho”, lamentado no poema de
Drummond.
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“Uma flor nasceu, rompeu os asfalto”
Contemporaneamente
ao “Sentimento do Mundo” de Drummond, Bertolt Brecht escreveu, na década de
1930, “Aos que virão depois de nós”. Em determinado momento, lemos: “Que tempos
são esses / quando falar sobre flores é quase um crime / Pois significa silenciar
sobre tanta injustiça?”
O
eu-lírico recusou corajosamente os conselhos de se “afastar dos problemas do
mundo”, mesmo sabendo que o custo disso é “que o ódio contra a baixeza também
endurece os rostos! / A cólera contra a injustiça faz a voz ficar rouca!”. O
custo foi alto: “Fiz amor sem muita atenção e não tive paciência com a
natureza.”
Já em
1945, Drummond lança “A Rosa do Povo”. A guerra já estava se encerrando e
Hitler já havia sido derrotado. Neste livro, o eu-lírico que, em 1940, aparecia
mais isolado e recluso, está nas ruas e no famoso poema “A flor e a náusea”
anuncia: “Uma flor nasceu na rua!” e diz em tom imperativo:
“Passem
de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. / Uma flor ainda desbotada /
ilude a polícia, rompe o asfalto. / Façam completo silêncio, paralisem os
negócios, / garanto que uma flor nasceu”.
Na
clínica psicanalítica, nas lutas dos movimentos sociais, nos atos mais banais
do dia a dia, é preciso lutar a luta que, conforme observa Brecht, “endurece os
rostos” e “faz a voz ficar rouca”… Porém, também a de Drummond, que fala de
flores e enxerga nelas precariedade e resistência.
É
preciso, também, questionar os pesos que carregamos nos ombros, conhecê-los e
saber qual parte nos cabe nele, o que é nossa responsabilidade e o que não é.
Se, em
parte, a vida maquinizada nos permite continuar sobrevivendo, ela também nos
faz agir como se o mundo pesasse o mesmo que as mãos de uma criança.
Essas
raízes calçadas, ao romperem o concreto cinza das cidades, nos mostram a vida
que existe por baixo dele. Essa vida pode e deve vir à tona.
Sim… é
urgente afastar os bondes, os ônibus, romper o asfalto, fazer completo
silêncio, paralisar os negócios e ver uma flor nascer.
Fonte:
Por Thiago Esperandio, em Outras Palavras

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