Quais
são as ‘conotações marxistas’ da Palantir?
No
começo do mês de agosto, a Palantir, notória empresa de gestão e inteligência
de dados para serviços de governança, militares e empresariais, emitiu
uma carta aberta aos seus investidores onde são
apresentados alguns dados econômicos verdadeiramente reveladores: um aumento de
93% em sua receita, além do crescimento percentual de suas ações em
aproximadamente 30%, ambos em relação ao mesmo período no ano anterior (apesar
de operar em relativa queda na Nasdaq, se comparado ao pico das ações no mês de
abril deste ano).
Porém,
chama ainda mais atenção a afirmação de que essa empresa, a líder no mercado
para operacionalização de dados em operações militares – notoriamente com o
sistema Maven, utilizado pelos EUA e Israel contra o Irã, e possivelmente na operação de
sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro – teria “conotações
marxistas”! Mas qual o sentido dessa afirmação?
Assinada
pelo seu co-fundador e CEO, o excêntrico e comicamente sinistro Alex Karp
– formado em direito e doutor em Teoria
Social pela Universidade Goethe, em Frankfurt –, frequentemente descrito como
“o filósofo no Vale do Silício”, a carta é atravessada também pelo seu estilo
frequente, com certas provocações, algo notável desde o livro A
República Tecnológica (Intrínseca, 2025), que assina com Nicholas
Zamiska, chefe de assuntos corporativos e consultor jurídico da própria
Palantir. O chamado “manifesto” da empresa, publicado na antiga plataforma
Twitter em 22 máximas, expressa de forma sintética a “filosofia política”
presente no livro, que é também, de certa maneira, a diretriz ideológica da
empresa.
Novamente
em um tom de manifesto, o texto começa com o anúncio da emergência de um
movimento global: “a revolução por independência e soberania em IA” que está à
caminho. Sua crítica é em direção à entrega das chaves institucionais ao redor
do globo para os criadores de modelos de linguagem, deixando-os assim “soltos
em suas casas.” O “levante revolucionário” de Estados e empresas teria como
demanda o controle dos seus dados e, mais importante, a manutenção da
propriedade sobre a inteligência organizacional e empresarial, que é
estruturalmente expropriada [by design] pelos modelos produzidos com
essa finalidade, conscientemente ou não, nos “laboratórios de linguagem”
– um diagnóstico que ressoa na crítica
de Stiegler à expropriação tecnológica do saber-teorizar!
Contra
os modelos de linguagem alimentados pelo trabalho escrito, que é produto da
“nossa civilização”, a Palantir seria a beneficiária de uma revolta contra a
submissão dessa expropriação, com seus clientes negando-se a tornarem-se
“Estados vassalos” de tais laboratórios. O crescimento de receita e valor
especulativo da sua empresa seriam indícios factuais de que ela consagra-se
como ponta de lança desse processo “revolucionário” em curso. Toda essa
retórica revolucionária em um tom cômico de manifesto político pastiche
desidratado seria o suficiente para justificar as supostas “conotações
marxistas” da empreitada, especialmente se considerarmos a característica
irônica e patética dos discursos de um CEO nada ingênuo, com formação
filosófica informada pela teoria crítica!
Mas a
ironia cínica de Karp parece residir mais além. Na terceira parte de sua carta,
Alexander ironiza o modelo de negócios das empresas de IA, como já havia feito
em entrevistas televisivas. Ele afirma que a Palantir é paga pelo “derivativo
da criação de valor”, em contraste com a monetização de cliques, tokens ou
chats. Ele ainda ratifica que a “gamificação do desenvolvimento mais
significante na história da economia moderna” parece, para a Palantir,
equivocado. É constrangedor, mas precisamos admitir que ele não deixa de ter
alguma razão, ainda que cinicamente. Contra o “complexo industrial tokenizado”,
que pretende traduzir a popularidade e o uso de suas plataformas em valor,
capturando também a peculiaridade intelectual de seus clientes e, enfim, seus
próprios meios de produção, Karp reafirma que a Palantir sempre
negou e continuará negando uma relação parasitária com seus parceiros.
As
supostas conotações marxistas da Palantir são uma piada de mal gosto, mas não
só. Vinte dias após a publicação de sua carta, o mercado respondeu bem, com uma
alta de 11% nas ações da empresa durante o período. Para uma empresa duramente
criticada pelo seu envolvimento no bombardeio da escola feminina Shajareh
Tayyebeh de Minab, no Irã, matando 175 pessoas – em sua maioria,
crianças –, alvo que teria sido selecionado pelo
“serviço prestado” através do software Maven, essa carta pública
é mais do que um modo de tergiversar; é também certa estratégia de marketing.
Apontar tal “conotação marxista” em sua empresa é sinalizar, ainda que de modo
cínico, aos seus clientes, que a vanguarda disruptiva e “revolucionária” do
mercado é encabeçada por eles – é uma forma retórica cifrada de tentar se opor
à crescente suspeita de blocos internacionais às gigantes de IA.
Após a
publicação de seu “manifesto”, que afirma a superioridade de
civilizações sobre outras e a necessidade da imposição unilateral do domínio
global norte-americano – e após diferentes entrevistas onde Karp prega uma
oposição entre a “mulher acadêmica liberal”, como inimiga do país, e o “homem
trabalhador comum”, além de afirmar a necessidade de “impor medo aos inimigos
dos EUA” –, Karp parece colocar em prática alguns insights básicos
da tradição frankfurtiana, para fins não apenas de mercado, mas de atualização
política da retórica e ideologia imperial das Big Techs. Se, como formulado por
Walter Benjamin, todo fascismo esconde um potencial revolucionário perdido,
Karp pretende ganhar por antecipação invertendo deliberadamente a fórmula: “a
revolução está do nosso lado” – um movimento que não é novo na história dos
discursos fascistizantes.
Obviamente,
a valorização da Palantir não passa simplesmente por discursos tresloucados e
cartas públicas de seu CEO: o avanço imperialista de EUA e Israel sobre o Irã
são, hoje, uma das maiores vitrines da empresa, com o alinhamento ao segundo
governo Trump, por exemplo, no projeto de desenvolvimento do chamado “domo de
ouro” – “um sistema de mísseis antiaéreos similar ao ‘Domo de Ferro’ de Israel, capaz de
proteger o país contra qualquer tipo de ameaça, incluindo mísseis nucleares” –
sendo uma de suas maiores fontes de investimento. As relações da Palantir com o
Estado dos EUA não são recentes, mas estão em sua origem: a In-Q-Tel, empresa
estatal de capital de risco para investimento tecnológico, foi uma de suas
principais financiadoras desde o princípio.
Não sem
razão, um dos principais motivadores de sua fundação foram os atentados do 11
de setembro, que expuseram uma lacuna na articulação de dados entre agências
estatais. Ou seja, desde sua criação, a Palantir encontrou um nicho de mercado
na mediação tecnológica entre agências de Estado, voltando-se para a defesa
nacional e os interesses imperialistas. As “conotações marxistas” da empresa
revelam-se, assim, uma espécie de mensagem invertida: Alexander Karp está
explicitamente comunicando, pelo discurso que promove, a necessidade de sua
existência – ou, a de seus serviços – para a manutenção do império, através de
uma análise “crítica” dos impasses nas dinâmicas de soberania, em um momento de
profunda reorganização das estruturas do capitalismo global.
¨
Infância e violência nas redes sociais
Nos
últimos tempos, despontam notícias de crimes brutais cometidos por jovens,
especialmente adolescentes, transmitidos ao vivo em plataformas digitais.
Crimes que se dirigem a vítimas extremamente vulneráveis: animais, crianças
mais novas, por vezes até mesmo bebês. Mais do que a transmissão, as condições
objetivas e subjetivas para a realização de tais atos são cultivadas nos
ambientes digitais, plataformas que possibilitam uma espécie de suspensão dos
imperativos sociais que organizam certa manutenção de leis simbólicas, no
sentido constitutivo do termo: leis que formam o aparelho psíquico, que
organizam a relação com os limites sobre si mesmo e sobre os outros,
necessários à própria vida em sociedade.
O
Discord tem sido a principal plataforma de tais episódios nos últimos tempos,
mas vale lembrar que essa espécie de crime derivado de “subculturas digitais”
sádicas e suicidárias não é exatamente recente. Poderíamos relembrar diversos
casos estrangeiros anteriores mas, no Brasil, foi o Massacre de Realengo que demarcou um
episódio fundamental onde ambientes digitais possibilitaram o “recrutamento”,
“cultivo” e “fomento” do que se tornaria talvez o primeiro caso de violência
extrema promovida por grupos masculinistas, incels, explicitando o
que poderíamos conceber como um agenciamento entre perversidade e melancolia,
viabilizado pela própria estrutura das plataformas digitais. Ao menos desde
então, sabemos que fatores como o anonimato e o cultivo das chamadas “câmaras
de eco” são elementos importantes. Mas há algo além.
Esses
casos também implicam crimes onde perpetradores não são simplesmente “sádicos
psicopatas”, mas jovens em profunda fragilidade psíquica, levados inclusive a
episódios de auto-mutilação pública, ou a cometerem homicídios, incentivados
pelos seus “pares” em meios digitais por argumentações que se atrelam ao
próprio ímpeto de suicídio – algo como “se você pretende se matar, leve outros
junto.” Não raramente, esses outros são outros específicos:
outros racializados ou, muito frequentemente, são outras, i.e.,
mulheres, meninas, alvos da violência misógina que é constantemente fomentada
em meios digitais.
Entretanto,
uma questão ainda segue em aberto: por que esses episódios ocorrem dentro de
tal configuração? É a mediação digital que torna a juventude não só violenta,
mas insensível a tamanhas brutalidades? O que há de específico nas formas de
mediação do digital que fomenta tais crimes? Para começarmos a lidar com essas
perguntas, é fundamental recorrermos a teorias críticas que não moralizem nem
reifiquem tais fenômenos.
Primeiro,
devemos desambiguar as noções de perversão e perversidade, especialmente no que
diz respeito à infância: é Freud quem apresenta a noção polêmica e, todavia,
fundamental, de sexualidade infantil enquanto perverso-polimórfica. Dois termos
moralmente implosivos. A sexualidade, desde Freud, precisa ser compreendida
como algo além do que associamos imediatamente com “o sexual”
enquanto genital ou reprodutivo. É, antes, uma desambiguação, um desvio de rota
que caracteriza inclusive aquilo para além do “sexo” imediatamente imaginado. A
sexualidade, desde Freud, é o nome para um impasse, não um fim em si mesmo, nem
uma meta. É a maneira pela qual podemos nomear a plasticidade e indeterminação
“inerente” – e, também por isso, não essencial – da experiência humana. Tão
difícil quanto central, sua definição aponta para a própria subversão
“intransponível” e “inescapável” que é característica da psicanálise.
Já a
posição “perverso-polimórfica” da infância apresenta uma contradição em termos:
a perversão seria, por definição, “não polimórfica” – i.e., a multiplicidade de
formas não condiz com a característica fetichista da
perversão, que implica em uma fixação a algum objeto, frequentemente destacado
do outro, podendo ser inclusive um objeto inanimado. O termo contraditório
aponta então para algo conflituoso e indeterminado da infância que pode ser
concebido como uma plasticidade experimentada nos processos de formação da
psique. Isso não é desimportante, na medida em que também revela uma
vulnerabilidade às interferências externas: o caráter indeterminado do processo
formativo é explorado pela sua própria condição por especuladores dessa
mesma fragilidade.
A noção
de “especulação” não é fortuita. Primeiro, é preciso tirar do registro
moralista uma concepção de infância como inapta à violência – é inclusive o
contrário que se mostra hoje. Seria necessário também desmoralizar a própria
forma como concebemos a noção de violência, mas esse é um outro assunto. Aqui
se trata de entendermos que a experiência da infância não é algo dado, inato,
mas construído e preservado por determinadas práticas e condições do laço
social que não são a-históricas, e nem começaram a sofrer ameaças hoje, pelas
mediações tecnológicas do presente. Todavia, é inegável que o contemporâneo
digital apresenta um problema novo à própria infância, irredutível a
particularidades locais. Mas por que então compreendermos a situação
contemporânea como uma especulação da infância?
Primeiro
porque trata-se, fundamentalmente, de um processo monetizável –
para usarmos um termo da era digital. Desde os canais que “interpelam” jovens
no Youtube, ou por perfis no Instagram e TikTok, até lives no
Discord que transformam sessões de tortura em mercadoria, trata-se de uma
cadeia de especulação financeira da fragilidade, fundamentalmente infantil,
como mecanismo de monetização. O discurso incel ou redpill deixou
de ser uma “subcultura misógina” para se verter em um nicho de mercado – do
qual lucram tanto seus “influenciadores” quanto as próprias plataformas. Em
outros registros, especula-se algo para além do financeiro, porém ainda
associado à linguagem do dinheiro: a associação entre perversidades e sua
organização mercadológica online.
Não
sejamos levianos, a associação entre o que há de mais deletério nas práticas
humanas sempre encontrou-se muito que bem com a forma mercadoria – a escravidão
é um exemplo inegável. Todavia, hoje, com a generalização da infraestrutura
digital, e sob a égide neoliberal que fragmenta qualquer base de seguridade
social e produz uma melancolização condicionante ao laço
simbólico, encontramos uma configuração específica para a deteriorização de
certo “pacto civilizacional” mínimo, defendido a duras penas desde o século
passado. Isso ocorre porque, de um lado, o neoliberalismo impõe o isolamento
solipsista dos indivíduos: somos todos responsáveis por nossas próprias
misérias, sozinhos, ainda que elas sejam infligidas de modo externo –
encontramos aqui um elemento crucial que torna a melancolia não
mais uma patologia do indivíduo, mas um pathos do nosso
próprio tempo.
Por
último, mas não menos importante, a infraestrutura do digital, disposta no que
podemos chamar de digitalização realmente existente, generaliza um
processo de fragmentação subjetiva, onde todos os indivíduos expostos a esse
processo são reduzidos à condição de usuários – i.e., integrantes do
complexo industrial total de produção, extração e, fundamentalmente,
expropriação informacional. E, vale ressaltar, da informação enquanto dado
digital. Esse processo intensifica a melancolização neoliberal: se “perceber
a si como responsável por seu destino, ter uma escala quantificável de valor
para si a partir de seus desempenhos e identificar-se como coisa – empresa de
si mesmo –, incute aos sujeitos dentro do neoliberalismo uma forma específica
de produção de sentido a si e ao mundo” é o que podemos compreender como
melancolização desde o (impasse do) laço social, então a digitalização
realmente existente, dominada pela dinâmica monopolista das plataformas,
extrapola os princípios desse processo enquanto externalização objetiva da
metrificação de si – e enquanto condição da socialização atual, vertendo-se
assim no imperativo da subjetivação contemporânea.
Mas o
que então todo esse imbróglio tem a ver com as novas dinâmicas de violência que
perpassam a juventude, mediada pelos espaços digitais? Eis aqui o grande
impasse geracional: estudos recentes apontam uma nova condição, perpetrada pela
lógica algorítmica de subjetivação. Essa condição diz respeito à
impossibilidade estrutural da linguagem digital apresentar
elementos fundamentais à constituição subjetiva – elementos que, em termos
freudianos, dizem respeito à internalização da falta, da lacuna constitutiva
fundamental à identidade e, assim, à constituição do sujeito. Em termos
resumidos, trata-se da lei simbólica, i.e., o que se chama, em vocabulário
psicanalítico, de castração . Apesar da palavra parecer um
tanto assustadora para não adeptos do jargão, ela diz respeito ao processo pelo
qual cada indivíduo internaliza o limite entre si mesmo e o próximo, o que
impõe tanto certas condições do mal-estar na civilização, quanto,
por outro lado, possibilita a capacidade de lidar com o outro – em termos
amplos, com a alteridade enquanto dimensão da diferença que
possibilita algum nível de alteração de si mesmo.
Ao
elidir essa negação constitutiva, a digitalização realmente existente,
especialmente na medida em que é organizada pela curadoria dos processos
identificatórios automatizados por IAs (ou seja, pelo aprendizado profundo de
máquinas, e não meramente a ideia comum que se tem hoje de inteligências
artificiais como chatbots ou assessores, secretários), acentua
tanto os processos de resistência quanto de repressão, pois passa a refletir
uma imagem ilusória dos usuários [6], uma imagem sem a dimensão de sua própria
inconsistência.
É
por isso também que a trivialização do julgamento moral sobre crimes hediondos
não toca no cerne do problema: obviamente, é fundamental responsabilizarmos
plataformas como o Discord – ou qualquer outra que produza um regime de exceção
frente às leis de um Estado que pretende-se soberano. Bloquear tais plataformas
são sim medidas fundamentais. Todavia, essa é uma característica própria à
digitalização realmente existente: ela, por definição, produz meandros de
subversão a qualquer regulamentação. E, pior, como foi argumentado
anteriormente, os modos de subjetivação que produzem a condição de
possibilidade para tais crimes continuam correntes e indeléveis em outras
plataformas.
Trata-se,
fundamentalmente, de um problema que já não é apenas estrutural, como é
estruturante – para abusar de um jargão sociológico. A própria maneira pela
qual as plataformas digitais estão dispostas demandam uma reflexão crítica não
apenas sobre a sua fenomenologia, mas sobre a relação que elas compõem frente à
realidade social contemporânea. Não se trata simplesmente de “medicar” o “tempo
de tela” dos jovens, de policiar a exposição de crianças aos meios digitais, ou
de interditar a plataforma X ou Y. Tudo isso, de fato, parece compor uma
“redução de danos”. Entretanto, por outra via, parece interditar uma questão
mais urgente e que, de certa forma, também parece antiquada: o que a condição
do regime de existência “online” reflete sobre a própria existência “offline”?
De outro modo, podemos questionar também em que medida a fragmentação,
sobreposição, ou mesmo a implosão dessa diferença diz sobre a condição do nosso
próprio tempo.
Esses
impasses precisam de respostas que não sejam nem tecnofóbicas, nem moralistas.
Também não serão tecnosolucionistas (encontraremos a IA reguladora ideal) ou
reacionárias (retornaremos a um passado primevo fantasioso, onde nenhum dos
nossos problemas existiam). Os impasses de cada tempo demandam uma resposta à
altura desse próprio tempo. Cabe a nós formular tais respostas – e, talvez,
devêssemos começar por fazer as perguntas certas.
Fonte:
Por Cian Barbosa, em Opera Mundi

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