Minerais
críticos: O neocolonialismo ronda o Brasil
A
disputa pelos chamados minerais críticos tornou-se um dos eixos centrais da
geopolítica contemporânea. A transição energética, apresentada ao mundo como
resposta à emergência climática, depende de um conjunto de matérias-primas sem
as quais não há carro elétrico, turbina eólica, painel solar ou data center.
Lítio, terras raras, nióbio, grafita, níquel e cobre passaram a ocupar, nas
estratégias de segurança das grandes potências, o lugar que o petróleo ocupou
ao longo do século XX. E, como ocorreu com o petróleo, a corrida por esses
recursos vem acompanhada de pressões, ameaças e ingerências sobre os países que
os possuem.
O
comportamento recente do governo norte-americano ilustra bem essa nova fase. Em
2025, Washington impôs tarifas elevadas sobre produtos brasileiros e
condicionou sua revisão a decisões internas do Estado brasileiro, inclusive de
natureza judicial, tratando o comércio como instrumento de coerção política.
Não se trata de episódio isolado. A mesma potência acumula, na América Latina e
em outras regiões do sul global, sanções, ameaças e declarações que tratam
países soberanos como área natural de influência e seus recursos como ativos de
segurança dos Estados Unidos, como se a riqueza alheia fosse extensão do
próprio território. Nesse quadro, o subsolo brasileiro deixou de ser tema de
política econômica para se tornar tema de soberania. E a ameaça não é apenas
externa. Setores da política nacional se movem abertamente no sentido de apoiar
a agenda de Washington, e um pré-candidato à Presidência da República, ligado à
extrema-direita alinhada ao trumpismo, chegou a defender publicamente que os
Estados Unidos sejam o parceiro preferencial para explorar os recursos naturais
do país. A decisão sobre quem controlará essa riqueza, em que termos e em
benefício de quem, estará em jogo nas urnas em outubro de 2026, e caberá ao
eleitorado brasileiro a responsabilidade de compreender o que está em disputa.
Um
episódio recente mostra que essa tentativa de integração subordinada já está em
curso. Em abril de 2026, tornou-se pública a aquisição da Mineração Serra
Verde, instalada no município de Minaçu, no norte de Goiás, por uma corporação
americana do setor de terras raras, em negócio de 2,8 bilhões de dólares. A
operação de Minaçu é a única extração comercial de terras raras fora da Ásia, o
que a converteu em ativo estratégico de primeira ordem. Meses antes, a empresa
já havia recebido 565 milhões de dólares em financiamento da Corporação
Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, agência do
governo federal americano, e firmado contrato de quinze anos para fornecer ao
mercado americano óxidos de disprósio e térbio com preços mínimos garantidos ao
comprador. O cerrado goiano passou a integrar, formalmente e por contrato, a
estratégia de segurança mineral de Washington.
Os
números que permanecem no território são de outra grandeza. Dados da Agência
Nacional de Mineração mostram que as terras raras geraram apenas 1,89 milhão de
reais em Compensação Financeira pela Exploração Mineral em 2025, o equivalente
a 0,82% da arrecadação minerária de Goiás. A comparação é eloquente. Um negócio
avaliado em bilhões de dólares no mercado internacional produz, na ponta local,
um royalty que não custeia sequer a manutenção das estradas por onde o minério
é escoado. A riqueza sai, o valor é agregado fora e a compensação que fica é
simbólica.
O
Brasil ocupa posição singular nessa corrida. Segundo o Serviço Geológico do
Brasil, o país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com 21
milhões de toneladas, cerca de 23% do total global, atrás apenas da China.
Concentra ainda 94% das reservas mundiais conhecidas de nióbio e posições de
destaque em grafita e níquel. Os elementos mais valorizados desse grupo, como o
neodímio, o praseodímio, o disprósio e o térbio, são justamente os empregados
na fabricação de ímãs permanentes para motores elétricos e geradores eólicos,
cuja demanda deve crescer de forma acelerada nas próximas décadas. Em tese,
essa dotação mineral daria ao país enorme poder de barganha nas negociações
internacionais, permitindo escolher parceiros, impor condições, exigir contrapartidas
tecnológicas e planejar o aproveitamento das reservas no longo prazo, segundo o
interesse nacional. Na prática, o que se observa é a repetição de um padrão
antigo, em que a pressa dos compradores dita o ritmo e os termos da exploração.
O
movimento dos compradores é rápido e articulado. A União Europeia acelera
parcerias para garantir o suprimento de compostos de terras raras extraídos em
Minas Gerais, como a carta de intenções firmada entre a mineradora que opera o
projeto Colossus, em Poços de Caldas, e uma multinacional química belga. O
Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Japão anunciaram pacote financeiro
para mapear áreas promissoras na Bahia e no Vale do Jequitinhonha. O governo
brasileiro, por sua vez, formulou em 2026 a Estratégia Nacional de Terras
Raras, que desaguou na Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos,
aprovada pela Câmara dos Deputados. A moldura institucional avança. O que ainda
não avançou foi a garantia de que essa riqueza servirá ao desenvolvimento do
país e dos territórios de onde é extraída.
O risco
de repetição histórica é concreto, pois a cadeia produtiva desses minerais
envolve etapas complexas de beneficiamento e refino que permanecem pouco
desenvolvidas no Brasil. Sem dominar essas etapas, o país tende a continuar
exportando concentrado mineral de baixo valor e importando, a preços muito
superiores, os ímãs, as baterias e os equipamentos fabricados com sua própria
matéria-prima. É o mesmo padrão de dependência que marcou toda a história
econômica brasileira. Do pau-brasil ao ouro, do café ao minério de ferro, a
posição do país na divisão internacional do trabalho se repete. A novidade é
apenas a embalagem discursiva, que reveste a velha exportação de
matérias-primas com a linguagem da sustentabilidade. Agora a extração se
apresenta como contribuição à transição energética.
Nenhum
caso expõe o custo local desse arranjo com tanta clareza quanto o do lítio no
Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Uma mineradora canadense iniciou em
2023 a produção comercial de concentrado de lítio no complexo Grota do Cirilo,
entre os municípios de Araçuaí e Itinga, e rapidamente se tornou a maior
operação do gênero no país. A empresa se apresenta ao mercado internacional
como produtora de lítio verde, com selo próprio de sustentabilidade que alega
zero uso de água potável, zero barragens de rejeito e zero emissões. O discurso
é impecável. A realidade documentada no território conta outra história.
A
questão da água é o núcleo do conflito. A mineradora obteve outorga da Agência
Nacional de Águas para captar 3,6 milhões de litros por dia em uma região
semiárida que convive com escassez hídrica crônica. Famílias das comunidades
rurais do entorno sobrevivem com 30 a 50 litros diários por pessoa. O Movimento
dos Atingidos por Barragens calcula que o volume outorgado à empresa seria
suficiente para abastecer 34 mil famílias. O contexto climático agrava o
quadro. Estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres
Naturais revelou que o Vale do Jequitinhonha concentra 18 das 20 cidades que
mais aqueceram no Brasil em 2023. É nesse cenário que a empresa distribui às
famílias caixas d’água de mil litros, estampadas com seu logotipo e abastecidas
uma vez por mês por caminhão-pipa, como parte de um programa social que
apresenta ao mercado como evidência de responsabilidade corporativa. Mil litros
mensais para uma família inteira, concedidos por quem capta milhões de litros
diários do mesmo território. A escassez, que já era severa antes da chegada do
empreendimento, converteu-se em disputa direta entre a produção destinada à
exportação e a sobrevivência cotidiana das famílias, e essa disputa vem sendo
decidida, até aqui, em favor da exportação.
Os
impactos vão muito além da água. Moradores das comunidades de Piauí Poço
Dantas, Ponte do Piauí e Taquaral Seco relatam poeira permanente, doenças
respiratórias, ruído ininterrupto de máquinas e rachaduras nas casas provocadas
pelas detonações. Relatório do Ministério Público de Minas Gerais identifica
cerca de 70 famílias diretamente impactadas pelo empreendimento. Nota técnica
assinada por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais e da
Universidade Estadual de Montes Claros aponta irregularidades no licenciamento
ambiental, ausência de consulta às comunidades e a adoção de tecnologias mais
baratas e mais destrutivas do que as alternativas disponíveis, recomendando a
paralisação das atividades. Parecer técnico do Ministério Público Federal registra
que o Estudo de Impacto Ambiental do empreendimento não contou com nenhum
antropólogo ou sociólogo, o que comprometeu a identificação das comunidades
tradicionais afetadas, entre elas populações indígenas e quilombolas.
Diante
dessa realidade documentada por relatórios, notas técnicas e denúncias das
próprias comunidades, as instituições públicas de controle começaram a se
movimentar e a produzir respostas concretas. Em setembro de 2025, o Ministério
Público Federal recomendou à Agência Nacional de Mineração a suspensão e a
revisão de todas as autorizações de pesquisa e extração de lítio no Vale do
Jequitinhonha, exigindo consulta prévia, livre, informada e de boa-fé às
populações locais antes de qualquer nova concessão. Em dezembro do mesmo ano, o
Ministério Público de Minas Gerais ajuizou ação civil pública pedindo o
bloqueio de 50 milhões de reais da mineradora para garantir a reparação dos
danos coletivos, além de auditoria independente e assessoria jurídica permanente
para as comunidades. Tramita ainda no Supremo Tribunal Federal ação direta que
questiona a legalidade do empreendimento e dedica um capítulo ao racismo
ambiental, argumentando que a população do Vale, majoritariamente preta, parda
e indígena, sofre impacto desproporcional e é tratada nos documentos da empresa
como parte impactada, e não como parte interessada.
Um
episódio ocorrido durante a COP30, em novembro de 2025, sintetizou a dimensão
simbólica dessa relação. Em entrevista a uma rede internacional de televisão, a
presidente-executiva da mineradora afirmou que a empresa havia treinado a
geração perdida do Vale, formada por mulas de água, crianças sem escola que
carregavam latas na cabeça. A declaração provocou repúdio imediato de
moradores, prefeitos, lideranças comunitárias e parlamentares da região. A fala
é reveladora justamente porque não foi um acidente. Ela expressa o modo como o
capital minerador enxerga as populações dos territórios que explora. Não como
sujeitos de direitos com quem se negocia em pé de igualdade, mas como paisagem
atrasada que a empresa alega redimir pelo emprego. É a mesma retórica
civilizatória que acompanhou todos os ciclos extrativos anteriores, da colônia
à república.
O
paradoxo central merece ser enunciado sem rodeios. A descarbonização das
economias do norte global, necessária e urgente, está sendo construída sobre a
reprodução do pacto colonial nos territórios do sul. O carro elétrico que
circula na Europa e nos Estados Unidos carrega lítio extraído com água que
falta às famílias do semiárido mineiro. A turbina que descarboniza a matriz
elétrica americana depende de disprósio e térbio garantidos por contrato de
longo prazo em Minaçu, a preços mínimos definidos em benefício do comprador. Os
custos ambientais e sociais da transição foram transferidos para comunidades
que pouco ou nada consomem da energia limpa gerada com seus recursos, enquanto
os benefícios econômicos e tecnológicos se concentram nos países compradores e
nos acionistas das mineradoras.
Nesse
arranjo, a retórica da sustentabilidade cumpre função precisa. Os selos de
lítio verde, as certificações ESG e os relatórios corporativos de
responsabilidade social não protegem os territórios. Legitimam a operação
perante investidores e consumidores distantes, que compram a promessa de um
produto limpo sem conhecer o que ocorre na origem. O caso do Jequitinhonha
oferece um exemplo acabado dessa engenharia reputacional. A mesma empresa que
se apresenta como produtora de lítio carbono zero compensou suas emissões com
créditos de carbono de um projeto na Amazônia investigado por suspeita de
grilagem de terras públicas. A sustentabilidade anunciada no mercado financeiro
internacional se sustenta, na prática, sobre passivos empurrados para os elos
mais fracos da cadeia.
Há,
contudo, uma disputa em aberto, e ela importa. A aprovação da Política Nacional
de Minerais Críticos e o debate sobre a criação de uma empresa estatal para o
setor, a Terrabras, defendida por parlamentares e combatida pelo empresariado
da mineração, indicam que o desenho institucional ainda não está fechado.
Soberania, aqui, não significa fechar o país ao investimento externo. Significa
a capacidade do Estado de definir os termos da exploração. Significa exigir
beneficiamento e industrialização em território nacional, transferência efetiva
de tecnologia, consulta prévia e vinculante às comunidades atingidas e
repartição real de benefícios com os municípios produtores. Significa,
sobretudo, não permitir que contratos privados de longo prazo, firmados sob
pressão geopolítica, hipotequem o controle nacional sobre recursos que serão
decisivos pelas próximas décadas. O próprio Brasil já viveu essa encruzilhada.
Foi a decisão de manter o controle nacional sobre o petróleo, com a criação da
Petrobras, que transformou uma posição de dependência em capacidade tecnológica
e industrial reconhecida mundialmente. A lição vale integralmente para os
minerais da transição energética.
O poder
público brasileiro tem responsabilidade direta nesse quadro, e não apenas por
omissão regulatória. O Fundo Clima, gerido pelo BNDES e criado para financiar o
enfrentamento da mudança climática, concedeu 500 milhões de reais à mesma
mineradora do Jequitinhonha para dobrar sua capacidade de produção, com base
nas licenças concedidas pelos órgãos ambientais estaduais. O Estado que
financia a expansão do modelo é o mesmo que deveria fiscalizá-lo. Enquanto os
governos estaduais competem entre si oferecendo isenções fiscais e
licenciamento ambiental acelerado, com prazos encurtados e exigências
abrandadas, para atrair mineradoras, as comunidades atingidas seguem sem ser
consultadas, e a arrecadação que fica nos territórios permanece irrisória.
Trata-se de uma escolha política, não de uma fatalidade econômica.
A
experiência de Minaçu e do Jequitinhonha ensina que a correção de rumo não virá
por concessão espontânea do capital. Virá da pressão organizada das comunidades
atingidas, da atuação dos Ministérios Públicos, da pesquisa universitária
independente e do jornalismo que documenta o que os relatórios corporativos
omitem. A transição energética é indispensável, mas não haverá transição justa
enquanto ela repetir a violência colonial que pretende superar. Sem soberania
sobre a cadeia produtiva e sem as populações locais como protagonistas das
decisões, o extrativismo verde é apenas extrativismo. E o Brasil conhece, há
cinco séculos, o final dessa história. Cabe ao país, agora, escrever um final
diferente.
Fonte:
Por Reinaldo Dias, em Outras Palavras

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