Saúde mental: mães enfrentam desafios como
depressão e exaustão materna
Quando uma pessoa
engravida, o corpo muda. A primeira e mais óbvia mudança é, claro, a barriga,
que cresce conforme o útero se expande para acomodar o bebê que está se
desenvolvendo ali. Os seios ficam mais fartos enquanto se preparam para
produzir o leite que irá alimentar o filho. Outras mudanças não tão óbvias
também podem acontecer: os dedos, os pés e as mãos ficam inchados, o nariz
também pode aumentar de tamanho.
Mas algumas das
mudanças mais significativas, que chegam como um furacão na vida das futuras
mães, acontecem sem que ninguém veja, embora elas sejam perceptíveis para quem
toma o cuidado de observar. Essas transformações acontecem no cérebro e no
sistema hormonal da gestante.
Todo esse processo
começa no início da gravidez e pode se entender, de acordo com alguns estudos,
até dois anos depois do parto. E por mais que estejam sendo conduzidos,
atualmente, novos estudos na área, ainda existem poucas informações e dados que
ajudem a embasar e a compreender os transtornos mentais que podem atingir as
gestantes e mães, consequências de toda a transformação que o cérebro e toda a
fisiologia da mulher passa.
Eles são um importante
embasamento científico para que comecemos a cuidar melhor da saúde mental das
mães e servem para, de certa forma, confirmar o que muitas delas sentem e não
têm coragem de externar, afinal, vão ouvir de muitos que "isso é normal"
ou que "deveriam estar felizes com os filhos".
De acordo com a
Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem
com algum tipo de transtorno mental. O Brasil lidera o ranking mundial de país
mais ansioso e é o quinto mais depressivo. Diversos estudos demonstram que as
mulheres são maioria nos casos severos e extremamente severos de ansiedade,
depressão e estresse.
No Brasil, as mães
representam 69% da população feminina, de acordo com pesquisa do Datafolha de
maio de 2023, o que demonstra a importância de um olhar mais atento para a
saúde mental dessas mulheres. O adoecimento psicoemocional delas impacta
diretamente não só a própria saúde, mas também no cuidado e na qualidade de
vida de toda a família, afetando a sociedade como um todo.
• O blues e a depressão
Um dos quadros mais
frequentes e que requer mais atenção após o nascimento de um bebê é a depressão
pós-parto, que, segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgados em
2016, atinge 25% das mães brasileiras no período de seis a 18 meses após o parto.
Mas o que é e o que
determina o transtorno? Alberto Zaconeta, PhD em ciências da saúde, professor
da Universidade de Brasília e coordenador de obstetrícia da Maternidade do
Hospital Santa Lúcia, ao responder o questionamento, ressalta a importância de
diferenciar o baby blues e a depressão pós-parto.
Muito frequente,
acometendo uma a cada duas ou três puérperas, o baby blues caracteriza-se pela
labilidade emocional, marcada pela instabilidade e pelo choro emotivo. Alberto
o define como um quadro benigno e transitório, que costuma ocorrer nas primeiras
semanas após o nascimento e que, quando se estende muito além disso, é um sinal
de alerta.
A depressão pós-parto
costuma se iniciar algumas semanas após o parto e muitas vezes se assemelha com
um baby blues prolongado, com tristeza e apatia persistentes. Também costuma
vir acompanhada de falta de interesse ou prazer nas atividades, irritabilidade,
desânimo, culpa e, em alguns casos mais graves, pensamentos de morte ou
suicídio.
Além dos sintomas de
cansaço físico, dificuldade de concentração, sonolência, sentimentos de
incapacidade e frustração são alguns elementos que podem sugerir algo além do
baby blues. "Os transtornos do humor no pós-parto são subdiagnosticados
porque ainda prevalece o mito de que essa é sempre uma fase feliz. Também é
comum achar que todos os sintomas podem ser explicados apenas pelo cansaço com
o cuidado da criança", comenta o médico.
Além de todos os
prejuízos para a mulher, a depressão pós-parto afeta significativamente o
vínculo da mãe com o bebê no que diz respeito ao aspecto afetivo. Esses bebês
podem apresentar, no futuro, efeitos no desenvolvimento social, afetivo e
cognitivo.
"A mulher
depressiva, normalmente, amamenta pouco e não cumpre o calendário vacinal dos
bebês. As crianças, por sua vez, têm maior risco de apresentar baixo peso e
transtornos psicomotores", acrescentou Mariza Theme, pesquisadora da
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), responsável pelo
estudo da instituição sobre depressão pós-parto.
• Cuidar-se para cuidar
Mãe de primeira
viagem, a psicóloga Amanda Célia Rebelo, 40 anos, acredita que mulheres que
desejam e sonham com a maternidade têm a tendência de esperar que tudo seja
perfeito e que elas sintam apenas coisas boas com a chegada dos filhos.
Mesmo engravidando aos
37 anos, sem planejar e com a surpresa de que teria gêmeas, as pequenas Letícia
Célia e Marina Célia Macedo Rebelo de Melo, atualmente com 3 anos, ela não
achou que passaria por tantos desafios emocionais.
Um pouco antes do
parto, Amanda perdeu a mãe, que sempre foi um ponto de apoio para ela e com
quem ela esperava contar para navegar a própria maternidade. "Mesmo que
você tenha uma rede de apoio, tudo pode mudar de repente e você vai precisar
reconstruir esse suporte."
Mesmo casada e com um
parceiro presente, Amanda se sentiu muito só durante o puerpério,
principalmente quando amamentava durante a madrugada. "É normal, é comum,
mas a gente fica muito vulnerável. Por saber que isso poderia evoluir para algo
mais sério, fiquei muito atenta e me cuidei muito nessa área mental",
conta.
Com problemas de
memória e entendendo que o cérebro muda fisiologicamente, Amanda sentiu
dificuldade ao conciliar os papéis que ocupava anteriormente, de amiga, filha,
irmã e esposa, ao de mãe e cuidadora principal de duas bebês.
Os desafios por que
passou, embora não tenha chegado a ter um diagnóstico de burnout materno ou
depressão pós-parto, acenderam um alerta em Amanda. "Quantas mulheres não
passam por isso sozinhas e com muito mais dificuldades em cuidar da saúde mental?",
questionou.
Assim, ela iniciou um
processo de mudança de área em sua carreira, motivada tanto pelo desejo de
passar mais tempo em casa com as filhas quanto pelo de ajudar as mulheres a
navegar com mais suavidade pela maternidade. Ela se especializou no atendimento
a mães, e em seu perfil no Instagram (@amandacrebelo.psi), compartilha dicas e
palestras, além de dividir o próprio maternar.
• Os hormônios e a solidão
A causa dos
transtornos mentais é multifatorial, como explica Alberto Zaconeta, PhD em
ciências da saúde. Ele aponta, porém, o aspecto hormonal como um grande e
importante catalisador. "A queda abrupta dos hormônios placentários,
principalmente estrogênio, é um gatilho para a ocorrência desses transtornos em
mulheres suscetíveis."
Outro ponto muito
salientado pelos profissionais de saúde é a solidão e a falta de rede de apoio.
Duas questões que tiveram impacto substancial na maternidade da arquiteta e
servidora pública Cecília *(nome fictício).
Anos atrás, ela lutou
contra a depressão e o transtorno de ansiedade. Quando, em 2020, após pegar
covid, começou a sentir dores sem explicação, as jogou na conta da saúde
mental. Em seguida, descobriu a fibromialgia. E foi assim que ela iniciou sua
gravidez de gêmeas, aos 47 anos.
"Parei de tomar
os remédios da fibromialgia assim que descobri, então foi uma gravidez muito
dolorosa, que exigiu muito do meu corpo. Tudo já começou desafiador na parte
física e depois o meu (então) marido mudou completamente comigo, de uma forma muito
negativa", revela.
Ainda que a gestação
fosse um sonho muito esperado pelo casal, que conseguiu o sucesso por meio da
fertilização in vitro, Cecília acredita que a expectativa pela chegada das
filhas despertou gatilhos no parceiro. "Ele deixou de cuidar de mim e
começou a me tratar muito mal. Eu não conseguia fazer minha própria comida e
ele não se importava, não fazia ou comprava nada para mim, eu emagreci seis
quilos durante a gestação", conta.
Cecília acredita que
passou a viver um relacionamento abusivo, com violência psicológica, que
beirava a física, afinal ela estava debilitada e sem nenhum tipo de suporte.
Quando explicou que precisava de cuidados de saúde, o marido sugeriu que ela
fosse para a casa da mãe.
Ainda durante a
gravidez, o obstetra indicou que ela procurasse um psiquiatra, que constatou a
depressão perinatal — quando o transtorno se inicia ainda durante a gestação e
persiste até o pós-parto. O especialista em saúde mental sugeriu que ela
iniciasse um tratamento farmacológico. "Já era uma gestação complicada e
eu achei melhor esperar até que elas nascessem para começar a medicação",
conta.
Ao entender o que
estava acontecendo, Cecília decidiu que não manteria o casamento. Porém,
pensando nas filhas e no desejo de que elas criassem vínculo com o pai, adiou a
separação. Já tratando a depressão, ainda casada e com duas bebês, Cecília
começou a ter crises de pânico. "Ali eu vi que tinha chegado ao meu
limite, elas já tinham um vínculo com o pai e o custo que aquilo estava tendo
para a minha saúde era alto demais. Elas também precisavam, e precisam, de uma
mãe saudável e feliz.".
• Um novo começo
Quando as meninas
tinham dez meses, ela se separou e conta que não se arrepende da escolha que
fez pelas filhas. "Apesar de tudo, ele virou um pai super apaixonado e
presente para elas. Eu me esforcei tanto para engravidar e elas mereciam o
melhor possível, incluindo um pai. Mas quando cheguei ao meu limite, encerrei
aquela relação entre eu e ele. Até porque sinto que minhas filhas precisam ter
um exemplo de mulher que não permite que alguém a trate dessa forma."
Essa ruptura aconteceu
há cerca de dois meses, a mãe de Cecília passou a morar com ela e as bebês,
dando o suporte para que ela se recupere e possa cuidar das filhas. A depressão
fez com que o leite de Cecília secasse muito cedo e, assim que parou de amamentar,
iniciou o tratamento farmacológico.
O psiquiatra
responsável pelo atendimento da arquiteta considera até mesmo um quadro de
estresse pós-traumático, resultado tanto da gestação de risco e do período que
as filhas passaram na UTI Neonatal quanto do abuso psicológico e emocional
sofrido.
"Mas o que fazer?
Você é um adulto funcional, tem bebês que dependem de você. Posso estar em um
momento super difícil, mas eu não posso ficar trancada no quarto chorando. Eu
jogo a sujeira para debaixo do tapete e um dia limpo", argumenta.
Esse cenário é uma
realidade de muitas mães, que, sem um suporte, chegam e ultrapassam o próprio
limite, pois são as únicas com quem os filhos podem contar. Cecília ressalta
que mesmo sendo bem informada, tendo feito um trabalho preventivo de saúde
mental e contando com uma rede de apoio, nada disso a blindou de passar pela
depressão pós-parto.
"Tenho rede de
apoio, meus pais são muito presentes, minhas amigas também. Eu tinha com quem
conversar, desabafar, sempre fui consciente com a saúde mental. Estou em uma
posição de muito privilégio e, ainda assim, passei por tudo isso", lamenta.
Esse ponto de vista é
também o que faz com que Cecília tenha ainda mais empatia com mães que têm
condições mais complicadas e afirma que toda mãe faz o que melhor que pode, e
que é importante refletir sobre isso e julgar menos as mulheres.
• Esgotamento mental
Também conhecido como
mommy burnout ou burnout materno, a definição do burnout parental surgiu após
serem observadas semelhanças entre o esgotamento mental fruto das atividades de
trabalho formais e remuneradas com o que surgia a partir da sobrecarga de trabalho
doméstico e cuidado com os filhos.
Ele é um tipo
específico de esgotamento emocional que afeta as figuras maternas e paternas,
devido ao estresse prolongado e à sobrecarga associada às responsabilidades
parentais cotidianas. Um dos sintomas é a sensação de ineficiência perante as
relações com os filhos, principalmente relacionada ao cuidado e à proteção.
O foco nas mães se dá
pelo fato de que 65% do trabalho de cuidado não remunerado fica com as
mulheres, de acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV), e elas são maioria
absoluta no cuidado primário com os filhos.
Entrevistando cerca de
2 mil mães, a B2 Mamy, plataforma que reúne e conecta mães e profissionais de
diversas áreas da saúde, e a Kiddle Pass, aplicativo de atividades para
crianças, conduziram o primeiro estudo brasileiro sobre o burnout parental.
Os resultados foram
alarmantes, como muitos profissionais de saúde e mães já imaginavam que
poderiam ser. Aproximadamente 90% das mães que trabalham fora sofrem
esgotamento mental. Das entrevistadas, 54% estão diagnosticadas, 17% apontam
suspeita de doenças emocionais, e o restante apresenta grandes riscos de
desenvolver problemas relacionados no futuro.
• Burnout parental
No ebook Burnout
Parental Report 2024, Vanessa Galvani, mestre em Educação, neuroeducadora
emocional e autora de livros parentais e infantis, comenta que o esgotamento
emocional nas figuras parentais abrange três dimensões:
1. Aumenta sentimento de culpa, fracasso e
arrependimento - muito observados na frase “Eu amo meus filhos, mas odeio ser
mãe/pai”;
2. Piora a qualidade da relação entre pais e
filhos - sentem-se exauridos e com isso, não existe espaço para uma conexão
profunda, afinal estão sempre no modo de sobrevivência;
3. Aumenta o risco de comportamento violento
e negligente - pais e mães cansados, estressados ficam mais predispostos a
negligenciar as necessidades das crianças e a responder de forma violenta.
Vanessa afirma ainda
que estudos mostram uma relação entre o esgotamento emocional e sete possíveis
consequências: escapismo, pensamentos suicidas, vícios, distúrbios do sono,
conflitos conjugais, distanciamento do parceiro/a e negligência e violência contra
os filhos.
• Mães diversas
Lygia Imbelloni, head
de saúde do aplicativo B2 Mamy, ressalta a importância de considerar os
diversos recortes que perpassam as 69 milhões de mulheres que são mães no
Brasil, segundo dados do IBGE, que demonstram ainda que 31% delas criam os
filhos sozinhas.
Para ela, a ausência
paterna é um ponto crucial quando se trata da saúde mental materna. A falta do
pai, tanto na criação e cuidados com os filhos quanto financeiramente, aumenta
a carga da mulher em mais de 20%. "Sem a presença e o auxílio dos homens
nesse cenário, sem conversar com eles e fazê-los entender e assumir seus
papeis, é difícil pensar em uma solução para essas mulheres", afirma.
Lygia comenta que as
mães de crianças atípicas ou neurodivergentes apresentam 74% mais esgotamento
moderado a grave do que as outras, principalmente durante o longo processo que
leva ao diagnóstico dos filhos. E a grande maioria das mães atípicas se torna
também mãe solo. Segundo o Instituto Mano Down, 73% dos homens abandonam o
filho com deficiência intelectual até os 5 anos.
As mães negras também
são mais afetadas, com um índice de esgotamento moderado a grave 21% maior do
que as mães brancas. Dados do IBGE mostram ainda que elas são maioria entre as
mães solo, cerca de 90%.
O estudo conduzido
pela Fiocruz sobre a depressão pós-parto também mostrou indicadores de recortes
socioeconômicos na prevalência do transtorno. A maioria das mães que apresentou
os sintomas eram de cor parda, baixa condição socioeconômica, com antecedentes
de transtorno mental, com hábitos não saudáveis, como o uso excessivo de
álcool, paridade alta e que não planejaram a gravidez.
• Maternidade atípica
A servidora pública
Marta (nome fictício) é uma mãe solo e atípica, seu filho, atualmente tem 8
anos e um diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade
(TDAH). Muito ativa, a criança tem dificuldade para entender e realizar
comandos, além de ficar frustrada e muito reativa quando isso acontece, o que
Marta sente que aumenta, e muito, a carga mental do cuidado do dia a dia.
A gravidez não foi
planejada e o então namorado de Marta foi rápido ao externar que não queria ser
pai, o que foi, para ela, motivo para encerrar o relacionamento. "Ele
rejeitou a criança em um primeiro momento e, mesmo que tenha voltado atrás e se
envolvido no pré-natal e tenha contato com o filho hoje, foi o suficiente para
que eu tivesse uma gestação marcada pela tristeza", conta.
O turbilhão de
sentimentos e a exaustão que a atingiram no pós-parto foram colocados na conta
da privação do sono e da tristeza por se ver, de forma inesperada, como uma mãe
solo. "Todos justificavam também pela novidade de ser mãe e todos os
hormônios", lembra.
Na consulta que toda
mãe deve passar cerca de 40 dias após o parto, a obstetra de Marta sugeriu que
ela iniciasse um tratamento com antidepressivos, mas ela não quis. "Somos
educada para, no papel de mãe, não olharmos para nós mesmas. Rejeitei o remédio
porque não queria que interferisse na amamentação, e achava que era só o
cansaço normal", considera.
Mesmo conversando com
muitas amigas que tiveram filhos na mesma época e percebendo que seu estado
mental estava pior que o de todas elas, Marta encontrava justificativas.
"Elas tinham parceiros presentes, alguém para fazer uma divisão justa das
tarefas e dividir toda aquela vivência de ter um bebê."
Com o apoio dos pais e
da irmã, Marta amamentou até os 2 anos e 7 meses e, mesmo com as coisas se
acalmando e encontrando o ritmo da rotina com o filho, a tristeza e a sensação
de que algo estava errado permanecia.
Quando seu filho
completou 3 anos, ela começou a cuidar da saúde mental. Iniciou a terapia e o
tratamento medicamentoso. Marta percebeu que tudo se tornou mais leve quando
começou a olhar com mais cuidado para si mesma e lamenta não ter feito isso
antes. "Vejo que meu afeto e cuidado com meu filho foram atrapalhados pela
tristeza, preocupação e ansiedade que eu sentia. Fico triste de olhar para trás
e perceber que poderia ter sido melhor para ele e para mim."
Hoje, ela divide os
cuidados do filho com o pai, que acaba deixando a maior parte do trabalho para
a própria mãe. "Mais uma vez é a mulher sobrecarregada e se culpando,
porque ela sente que errou na criação dele. É uma história que se repete com
muita frequência e precisamos mudar isso", completa.
• Atenção e prevenção
Dar a devida atenção
aos sintomas da depressão pós-parto vai muito além da saúde da maternidade e do
vínculo entre mãe e bebê. Um imenso tabu, o suicídio no pós-parto é ainda mais
invisibilizado, afinal, que mãe deixaria os filhos voluntariamente, certo?
Errado, e a
romantização da maternidade é um dos maiores motivos pelos quais muitas
mulheres sequer têm coragem de externar as tendências depressivas, que, se não
tratadas, podem levar a consequências extremas.
Embora não existam
dados sobre a ideação suicida no período gestacional e puerperal no Brasil, a
pesquisa Sob a sombra da maternidade: gravidez, ideação suicida e violência por
parceiro íntimo, publicada em 2015, no Jornal Panamericano de Saúde Pública, apontou
que das 358 gestante entrevistadas, 7,8% apresentaram ideação suicida.
Outro dado apresentado
na mesma publicação mostrou que, entre gestantes com sintomas psiquiátricos não
psicóticos, 61% têm alta ansiedade e ideação suicida. “Precisamos ter atenção
porque as mulheres não irão verbalizar espontaneamente o seu sofrimento, pois
esse estado lhes impõe sentimentos de vergonha, culpa e incapacidade para
desempenhar a função materna. O diagnóstico oportuno é essencial para poder
oferecer o tratamento, que inclui modificações na rotina familiar, psicoterapia
ou farmacoterapia. É importante ressaltar que há medicamentos que podem ser
usados com segurança por mulheres lactentes”, completa Alberto.
• Por dentro do mommy brain
Um estudo inédito,
publicado em setembro na revista científica Nature Neuroscience, mostrou um
pouco dos mistérios que ainda envolvem o cérebro feminino, sobretudo durante a
gestação. Neurocientistas fizeram imagens do cérebro de uma mulher 26 vezes,
antes, durante e depois da gestação, e dividiram o que encontraram na
publicação.
Emily Jacobs,
neurocientista da Universidade da Califórnia e autora do estudo, contou que
após uma pesquisa intensa sobre as mudanças que ocorrem no cérebro ao longo do
ciclo menstrual, uma das cientistas envolvidas teve a ideia de ser, ela mesma,
o objeto de estudo durante a sua gravidez.
Estudos feitos
observando o cérebro antes e depois da gravidez, mostram que a gestação encolhe
partes do cérebro, especificamente na massa cinzenta. E embora o termo mommy
brain, ou cérebro de mãe, seja constantemente usado para descrever a sensação
de esquecimento e confusão mental que ocorre nesse período, as neurocienstistas
explicam que esse processo é adaptativo e pode deixar o cérebro mais eficiente.
Pritschet, uma das
neurocientistas do projeto, explica que por mais que as mães esqueçam coisas
simples, como onde deixaram as chaves, elas estão muito mais atentas ao que
está acontecendo com os filhos.
No estudo, elas
perceberam que a matéria cinzenta diminui a partir das primeiras semanas da
gestação e tem uma redução de cerca de 4% ao longo da gravidez. No período do
parto, a diminuição passa por uma breve estabilização e depois continua
diminuindo pelo menos dois anos após o parto. O fenômeno não se concentra em
apenas uma região, mas atinge 80% das regiões cerebrais, e algumas áreas mudam
mais rapidamente que as outras.
Embora a diminuição de
massa cinzenta já fosse um fenômeno observado e estudado, as neurocientistas se
surpreenderam ao perceber que a matéria ou substância branca — parte mais clara
do cérebro composta por axônios, longos cabos que conduzem os sinais elétricos
entre os neurônios, e células gliais, que servem como apoio, sustentação,
isolamento elétrico e nutrição dos neurônios e gânglios — cresceu e se tornou
mais forte, tendo um pico no segundo trimestre e voltando quase ao normal no
momento do nascimento.
As mudanças são
motivadas pelos hormônios da gravidez, mais especificamente o aumento da
concentração de estradiol e progesterona, e se assemelham às observadas em
cérebros adolescentes durante a puberdade.
O estudo ainda não
consegue determinar o que esse aumento traz ao cérebro da gestante, mas quando
essas mudanças acontecem nos cérebros adolescentes, estão relacionadas a uma
melhora nas habilidades cognitivas.
A pesquisa trouxe
revelações importantes para que os cientistas em todo o mundo compreendam
melhor as mudanças que acontecem durante e após uma gravidez, e motivou a
continuação. Diversas voluntárias surgiram e se preparam para participar.
A comunidade
científica, sobretudo a feminina, ressalta a importância desse tipo de
iniciativa para que transtornos mentais relacionados à gestação sejam melhor
compreendidos e tratados.
Fonte: Correio
Braziliense

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