segunda-feira, 28 de outubro de 2024

O risco de anestesia genital depois de interromper o uso de antidepressivos

Durante a pandemia, J. não soube lidar com a ansiedade provocada pelo isolamento e, com a devida orientação de um psiquiatra, começou a fazer uso de antidepressivos. Quando a situação se normalizou, ficou feliz de poder abrir mão da medicação, mas sofreu um choque: ao suspender o remédio, passou a enfrentar um quadro de disfunção sexual severa. Pior: perdera toda a sensibilidade dos genitais. M. chegou aos 30 anos sem ter tido um orgasmo. Ao rever seu histórico médico, descobriu que, aos 11 anos, havia utilizado antidepressivos e se pergunta se isso não foi determinante para uma disfunção sexual permanente. O que J. e M. têm em comum é uma condição pouco compreendida, mas que começa a chamar a atenção: a disfunção sexual pós-antidepressivos (Post-SSRI Sexual Dysfunction ou PSSD). Para entender melhor a questão, conversei com o pesquisador Pedro Marinho, que faz doutorado em farmacologia na University of Toronto (Canadá). Ele é coautor de artigo sobre o tema publicado recentemente na prestigiada revista científica Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology.

“Desde a década de 1990, a disfunção sexual é um efeito colateral bastante conhecido dos antidepressivos, que atinge cerca de 75% dos pacientes. O que não tem a mesma visibilidade é que essa condição pode continuar por tempo indefinido, e até piorar, depois da interrupção do tratamento. Especificamente, me refiro aos inibidores seletivos da recaptação da serotonina e inibidores seletivos da recaptação da serotonina e da noradrenalina”, explica Marinho. “São medicamentos usados para um leque amplo de transtornos, como ansiedade, TOC, depressão, pânico, dor crônica e síndrome do intestino irritável. Nos Estados Unidos, 12% da população fazem uso contínuo desses remédios. Contudo, em um grupo de pacientes, a disfunção sexual não só persiste indefinidamente como, com frequência, se torna mais severa. O sintoma cardinal (principal) da PSSD é a anestesia genital. A anestesia não está atrelada a outros sintomas de depressão ou distúrbios psiquiátricos, é algo bem específico. Muitos chegam a afirmar que se sentem castrados quimicamente, que há uma desconexão total entre o cérebro e os genitais”, acrescenta.

Os sintomas incluem ainda redução ou perda da libido, inabilidade de ter orgasmos, disfunção erétil em homens e falta de lubrificação vaginal em mulheres. A PSSD ocorre em ambos os sexos, em todas as faixas etárias. Como se trata de uma condição pouco conhecida, os pacientes se deparam com a descrença dos profissionais de saúde quando relatam seus sintomas – a queixa é quase sempre associada a um quadro de depressão, como se não houvesse qualquer ligação com o medicamento.

“Quem tomou antidepressivos antes da adolescência, ou das primeiras relações sexuais, pode não saber o real impacto da medicação em sua sexualidade, por não dispor do baseline (um estado anterior) para comparar. Há pessoas que acreditavam ser assexuais, até se darem conta de que o fato de não sentirem seus órgãos genitais, ou de não terem um orgasmo, talvez esteja vinculado à utilização do medicamento quando muito jovens. Apesar de existirem diversos antigos científicos descrevendo o problema, não há tratamentos para a PSSD”, diz Marinho.

Há comunidades, como a PSSD Network e a Canadian PSSD Society, e grupos de apoio e fóruns on-line no Reddit e Facebook. Além de dar suporte emocional aos membros, um dos objetivos dessas associações é levantar fundos para pesquisa. Veículos consagrados, como os jornais “The New York Times” e “The Guardian”, também se debruçaram sobre o assunto. O artigo, intitulado “Frequency of self-reported persistent post-treatment genital hypoesthesia among past antidepressant users: a cross-sectional survey of sexual and gender minority youth in Canada and the US”, investigou a prevalência da anestesia (hipoestesia) genital em pacientes que suspenderam o tratamento com antidepressivos nos EUA e Canadá.

“Nossos dados dão uma estimativa de prevalência de que até 13.2% dos pacientes reportaram a persistência da anestesia genital após a interrupção do tratamento com antidepressivos, quando comparados com outros medicamentos psiquiátricos. Estamos diante de um cenário no qual uma quantidade significativa de indivíduos está sob o risco de desenvolver disfunção sexual irreversível após utilizar uma classe de medicamentos extremamente comum. Devido ao aumento de prescrições durante a pandemia, é possível que o número de pessoas com essa condição cresça muito”, alerta o pesquisador.

 

•        Cinta funciona para dor lombar? Entenda quando ela pode ou não ser usada

Dor na lombar (ou lombalgia) é aquele desconforto na parte inferior das costas. Estima-se que 80% das pessoas no mundo sofram com isso.

Na maioria das vezes, fazer uma caminhada de intensidade leve ou moderada, para além de praticar exercícios físicos regularmente, pode melhorar a qualidade de vida do paciente. É o que sugere um recente estudo australiano publicado na "Lancet", importante revista de divulgação científica.

O médico Ricardo Meirelles, ortopedista chefe da cirurgia de coluna do Into, o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, que fica no Rio de Janeiro, concorda com o resultado apresentado pelo trabalho. Ele foi entrevistado pelo podcast Bem Estar. Ouça no player acima.

"Esse estudo mostrou que as pessoas que mantinham uma regularidade de caminhadas de três a cinco vezes por semana numa faixa aí de 30 minutos diários tiveram uma segunda crise de dor lombar mais adiante, mais espaçada uma da outra. E, quando essa crise vinha, era numa intensidade menor."

"Então, mostrou que um exercício simples, barato e de fácil acesso a todos, incluindo pessoas que moram no meio rural, que moram isoladas, que antes não teriam acesso a uma academia ou um pilates especializado, elas podem se beneficiar cima de uma caminhada com regularidade."

Sobre a intensidade, Meirelles ressalta que isso é pessoal. O ideal é que sempre as pessoas busquem uma maior intensidade sempre, mas que isso pode ser melhorado com o tempo e com a prática.

<><> Uso de cintas

Quando a dor vem, muita gente, mesmo sem indicação, tende a usar cintas, algo que Meirelles desaconselha a ser feito com regularidade, já que pode causar uma certa dependência. O ideal, mesmo, é fortalecer o músculo e usar a cinta vez ou outra, mas sempre com acompanhamento.

"Eu desestimulo muito meus pacientes a usar qualquer tipo de mobilização no tronco, porque toda vez que a gente substitui a função de um músculo, você leva esse músculo a uma hipotrofia e um enfraquecimento."

"Então, quem usa cinta com regularidade vai ter muita dificuldade de ficar sem ela. Essa pessoa está fazendo justamente o oposto do que a gente recomenda, que é o fortalecimento da musculatura."

Mas Meirelles ressalta que, em alguns casos, como proteção, a cinta pode ser indicada. Em casos de trabalhadores que precisam de proteção e quando o paciente está com dor crônica, a cinta oferece uma analgesia.

"Usar uma cinta para proteger a lombar, por exemplo, se você é um trabalhador braçal e precisa erguer um peso, tudo bem, porque você está protegendo numa situação específica."

"Se você está numa crise de dor lombar aguda, por exemplo, uma uma crise muito forte de dor, aí, sim, você pode usar uma cinta para te dar um pouco de analgesia, que é a melhora da dor, mas fazer uso crônico indiscriminado da cinta não é legal."

<><> Grávidas podem?

Principalmente no final da gestação, é comum que grávidas tenham dores na lombar com frequência.

Meirelles explica que elas entram em uma situação específica, em que a cinta para segurar a barriga pode ser usada, se o médico que acompanha a mulher der o aval, claro.

"Por conta do tamanho da barriga, essa barriga pesada e volumosa, ela acaba levando o tronco um pouquinho para frente. Isso nos desvia gravitacionalmente para frente. Com isso, a musculatura precisa fazer mais força para manter a cabeça centrada e é daí vem a dor nas grávidas."

"Não tem problema nenhum o uso de uma cinta elástica ou qualquer dispositivo que ajude essa mulher a manter o centro de equilíbrio."

De todo modo, para todo tipo de caso, vale ressaltar: consulte sempre um médico especialista, investigue as causas da dor na lombar e siga o tratamento recomendado por quem entende do assunto.

 

Fonte: g1

 

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