quarta-feira, 12 de julho de 2023

Ucrânia na Otan? O que esperar de reunião que pode determinar rumos da guerra

Os líderes da aliança militar ocidental Otan se reúnem na Lituânia, a partir desta terça-feira (11/7), para uma cúpula crucial, que pode determinar os rumos da guerra na Ucrânia e o futuro da aliança.

Os 31 aliados esperam mostrar à Rússia que estão determinados a apoiar militarmente a Ucrânia no longo prazo.

O encontro começou com um ânimo extra para o grupo, depois que a Turquia abandonou suas objeções à entrada da Suécia na aliança.

Os membros da Otan ainda não chegaram, no entanto, a um consenso sobre a intenção da Ucrânia de aderir à aliança.

Acredita-se que alguns aliados prometerão a Kiev novas garantias de segurança destinadas a impedir futuras agressões russas. Eles também discutirão o fornecimento de mais armas e munições.

Sobre a questão da adesão, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, quer que a Otan diga que a Ucrânia pode ingressar o mais rápido possível após o fim dos combates — definindo explicitamente como e quando isso será feito.

Mas algumas nações da Otan relutam em aceitar a adesão da Ucrânia, temendo que promessas a Kiev possam dar à Rússia um incentivo para prolongar a guerra.

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, disse que nenhuma decisão final foi tomada sobre o conteúdo do comunicado final, mas acrescentou: "Estou absolutamente certo de que teremos unidade e uma mensagem forte sobre a Ucrânia".

O encontro ocorre até quarta-feira (12/7).

Após conversas na noite de segunda-feira (10/7), ele anunciou que a Turquia concordou em apoiar o pedido da Suécia para ingressar na Otan. A notícia foi bem recebida pelos Estados Unidos e Alemanha, assim como pela própria Suécia.

A Turquia passou meses bloqueando a candidatura de Estocolmo, acusando a Suécia de abrigar militantes curdos. Stoltenberg disse que os dois lados trabalham juntos para lidar com as "legítimas preocupações de segurança" da Turquia.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, sugeriu anteriormente que apoiaria a Suécia se a União Europeia reabrisse as negociações de adesão da Turquia ao bloco — um pedido que foi rejeitado no passado pelas autoridades da UE.

Durante a reunião de dois dias, espera-se que os líderes da Otan cheguem a um acordo sobre novos planos para defender a aliança contra futuras agressões russas, reforçando suas forças no leste.

E também espera-se que a Otan aumente seu compromisso financeiro, estabelecendo a meta de 2% de gasto da riqueza nacional em defesa. O porta-voz de Rishi Sunak disse que o primeiro-ministro do Reino Unido conversaria diretamente com os países aliados para atingir essa meta.

A segurança foi reforçada em Vilnius, com as forças da Otan — incluindo mísseis de defesa aérea Patriot — defendendo a cúpula. O encontro ocorre a uma curta distância de Belarus e do exclave russo de Kaliningrado.

O objetivo geral da reunião é que a Otan mostre para o presidente Vladimir Putin que tem um compromisso militar de longo prazo da aliança com a Ucrânia.

As autoridades esperam que isso faça o líder russo mudar seus planos — colocando dúvidas em sua mente, no sentido de que ele pode esperar mais do Ocidente.

Por isso, alguns analistas veem esta cúpula como talvez tão importante quanto os ganhos militares no campo de batalha para persuadir Putin a mudar sua estratégia.

Alguns membros da Otan prometerão à Ucrânia novas garantias de segurança. O presidente dos EUA, Joe Biden, sugeriu que a Ucrânia poderia obter o tipo de apoio militar que seu país dá a Israel — compromissos de longo prazo projetados para deter potenciais agressores.

A aliança também aprofundará seus vínculos institucionais com a Ucrânia. Um fórum existente — a Comissão da Otan sobre Ucrânia — será incrementado, batizado de Conselho da Otan da Ucrânia. Isso dará à Ucrânia a capacidade de convocar reuniões da aliança como um parceiro em pé de igualdade.

"O direito de consultar não é algo insignificante", disse um funcionário.

Mas talvez o mais importante deste encontro é que alguns membros podem vir a definir mais explicitamente os passos para a Ucrânia se juntar à aliança.

A Otan concordou, em sua cúpula de 2008, em Bucareste, que a Ucrânia "será" membro e apoiou sua candidatura. Mas a aliança não disse como e quando isso pode acontecer. Os críticos dizem que definir um destino à Ucrânia, mas sem explicitar a rota certa para adesão, permitiu que Putin arriscasse realizar as invasões em 2014 e 2022 no país.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, se encontrará com Zelensky na cúpula, disse uma autoridade dos EUA à agência de notícias Reuters, embora o presidente ucraniano ainda não tenha confirmado oficialmente sua participação no evento.

Kiev entende que a Otan não pode convidar formalmente a Ucrânia para se juntar à aliança enquanto a guerra persiste.

Isso arriscaria mergulhar a aliança em uma guerra com a Rússia, já que a Otan seria obrigada, de acordo com o Artigo 5 de seu tratado, a defender qualquer membro que esteja sob ataque.

Em vez disso, Kiev quer uma promessa clara de adesão pós-guerra com um cronograma claro, para que saiba que a vitória trará a garantia de segurança sob o guarda-chuva nuclear da Otan.

Uma maneira de a Otan sinalizar seu desejo de aceitar a adesão da Ucrânia seria encurtar o chamado plano de solicitação de adesão, conhecido como MAP, na sigla em inglês. Este é o processo formal que testa se um país atende aos estritos padrões militares e governamentais da Otan — e pode levar décadas.

Mas é o que a Otan tem a dizer sobre a adesão da Ucrânia que está dividindo a aliança.

Os Estados bálticos e as nações do leste europeu estão pressionando para obter o máximo de clareza possível. Eles querem que a aliança deixe claro quanto progresso a Ucrânia fez em relação à adesão, especialmente quanto mais próximo seu exército pode operar com outras forças da Otan, agora que compartilha armas e estratégias semelhantes. Eles também querem que a Otan deixe claro quais outras condições a Ucrânia deve cumprir para aderir à aliança.

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O presidente da Lituânia, Gitanas Nauseda, disse que a Otan deve evitar que a adesão da Ucrânia vire algo como o horizonte: "Quanto mais você caminha em direção a ela, mais longe ela fica."

Mas alguns aliados — incluindo os EUA e a Alemanha — não querem prometer demais à Ucrânia. Eles querem que a Ucrânia faça mais para combater a corrupção no país, fortalecer seu judiciário e garantir o controle civil sobre seus militares.

Alguns também temem que a Otan seja arrastada para um conflito aberto com a Rússia. Eles temem que prometer a adesão da Ucrânia após a guerra daria a Putin um incentivo para escalar o conflito, mantendo combates de baixa intensidade por muito tempo para impedir a adesão da Ucrânia.

Outros aliados também temem perder espaço de manobra nas negociações do pós-guerra. Eles querem usar a promessa de adesão à Otan como um incentivo para a Ucrânia e uma ameaça para a Rússia, mas somente depois que os combates terminarem.

 

Ø  Otan indica que só permitirá candidatura quando guerra acabar

 

Em Vilnius, a mensagem que Kiev irá receber é de que a Ucrânia só deverá ser candidata à aliança militar quando a guerra acabar. O presidente americano, Joe Biden, afirmou recentemente que não há unanimidade em trazer a Ucrânia para “a família Otan” neste momento.

“Se a guerra está em andamento, estaremos todos em guerra contra a Rússia se a Ucrânia entrar na Otan agora”, ele explicou. A declaração de Biden foi um balde de água fria para a Ucrânia, que apostava em uma adesão iminente na aliança militar.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse nesta terça-feira (11) achar um "absurdo" caso a Otan não ofereça uma candidatura a seu país.

Especialistas acreditam que o sinal verde para a Ucrânia somente após o término do conflito pode significar um incentivo para a Rússia continuar esta guerra indefinidamente. Às vésperas da cúpula da Otan, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, realizou uma turnê diplomática para pressionar pela adesão de seu país à organização.

Zelensky, que deve participar da reunião em Vilnius, espera receber garantias de segurança e um sinal consistente sobre a candidatura ucraniana, apesar de a questão não ser consenso entre os países da Otan.

O secretário-geral do grupo, Jens Stoltenberg, que teve seu mandato prorrogado por mais um ano, disse estar “absolutamente certo” de que até o final da semana a Otan mostrará “unidade e uma mensagem forte” sobre a futura adesão da Ucrânia, além de continuar apoiando Kiev com armas, munições e treinamento o tempo que for necessário para combater a invasão russa.

Turquia dá sinal verde para adesão da SuéciaOutro grande destaque da agenda dos líderes da Otan é a adesão da Suécia à aliança, que estava sendo barrada pela Turquia. Nas negociações de segunda-feira à noite, poucas horas antes do início da cúpula, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, finalmente concordou em anular seu veto e recomendar ao parlamento de seu país a aprovação da candidatura da Suécia.

Mais cedo, Erdogan havia condicionado a entrada do país nórdico na Otan ao apoio de Bruxelas para a adesão da Turquia à União Europeia.

Ancara acusa Estocolmo de abrigar o que considera “terroristas curdos” e de recusar extradições. Além disso, a Turquia alega que o governo sueco tem sido cúmplice em protestos anti-islâmicos de extrema direita. Há duas semanas, as autoridades suecas aprovaram um protesto em que uma cópia do Alcorão, o livro sagrado do islã, foi queimado em frente da principal mesquita de Estocolmo. A manifestação coincidiu com a celebração muçulmana de Eid-al-Adha, a festa do sacrifício, que dá sequência à peregrinação à Meca, ponto alto do calendário islâmico.

Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, a Suécia e sua vizinha Finlândia abandonaram uma política de neutralidade que existia há décadas – ambas se mantiveram neutras durante a 2ª Guerra Mundial e a Guerra Fria – para solicitar adesão à Otan em maio do ano passado. A Finlândia, que faz fronteira com a Rússia, entrou oficialmente para a aliança militar em abril, e pela primeira vez participa de uma reunião de cúpula da organização como país-membro.

ZaporíjiaOs líderes da Otan reunidos em Vilnius estão a apenas 1 mil quilômetros da central nuclear de Zaporíjia, na Ucrânia, e a segurança do local, que está sob controle russo desde o início do conflito, é alvo de preocupação internacional.

A tensão tem crescido em torno do complexo nuclear, o maior da Europa. No início do mês, Kiev acusou Moscou de ter planos para explodir parte da usina nuclear, e Zelensky mencionou o risco de vazamentos radioativos. As acusações foram desmentidas pela Rússia, que afirmou a intenção da Ucrânia de preparar um ataque à Zaporíjia.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) salientou que a situação nas áreas próximas à central nuclear tem se tornado “cada vez mais imprevisível e potencialmente perigosa”. O Kremlin pediu que Zaporíjia seja prioridade nas discussões em Vilnius. “Afinal, se acontecer alguma coisa, a grande maioria dos membros da aliança estará na zona de impacto direto”, comentou o governo russo.

Enquanto isso, a Polônia quer que a Otan posicione armas nucleares americanas em seu território como reação à instalação das ogivas nucleares russas em Belarus.

 

Ø  Zelensky eleva tom e diz ser absurdo Otan não oferecer vaga à Ucrânia

 

Em meio à resistência de países como os EUA à entrada da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse nesta terça-feira (11) que será "um absurdo" se a aliança militar não oferecer ao seu país a candidatura.

Os líderes de todos os países membros da Otan estão reunidos nesta terça na Lituânia para uma das principais cúpulas do bloco, que vai avaliar a entrada da Suécia e da Ucrânia na aliança.

A expectativa, no entanto, é que a Otan adie a abertura da candidatura para Kiev, sob o argumento de que isso poderia elevar os riscos de uma terceira guerra mundial.

“Se a guerra está em andamento, estaremos todos em guerra contra a Rússia se a Ucrânia entrar na Otan agora”, declarou o presidente do EUA, Joe Biden.

Os EUA, que acabaram de aprovar o envio das polêmicas bombas de fragmentação ao Exército ucraniano, são os que lideram o grupo contrário à entrada da Ucrânia na aliança neste momento. Zelensky não escondeu a decepção com a opinião de seu maior aliado no Ocidente.

O líder ucraniano vinha esperando que a Otan oferecesse uma via rápida de entrada - para ingressar na aliança, um país deve seguir uma série de requisitos e esperar a votação por unanimidade dos países membros, em um processo que pode levar até dois anos.

Mas a legislação da Otan também prevê uma forma de entrada com caráter de urgência, caso todos os sócios estejam de acordo. Neste caso, como ocorreu com a Finlândia após o início da guerra na Ucrânia, o ingresso de um país pode ocorrer em poucos meses.

 

Ø  Kremlin diz que adesão da Suécia à Otan será negativa para segurança russa

 

O Kremlin disse nesta terça-feira que a esperada adesão da Suécia à Otan teria claras implicações negativas para a segurança da Rússia e que Moscou responderia com medidas semelhantes às que tomou depois que a Finlândia ingressou na aliança militar ocidental.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, também minimizou a decisão da Turquia de encerrar sua oposição à adesão da Suécia, dizendo que Ancara tem obrigações como membro da aliança e que Moscou não tinha ilusões a esse respeito.

Peskov disse que a Rússia e a Turquia têm suas diferenças, mas também compartilham alguns interesses comuns, acrescentando que Moscou pretende desenvolver ainda mais suas relações com Ancara.

 

Fonte: BBC News Brasil/Rfi/g1/Reuters

 

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