O concurso de Miss
Mundo que gerou revolta na Índia
O
concurso Miss Mundo 2023 será realizado na Índia.
O
anúncio fez reviver as lembranças da última vez em que a competição aconteceu
no país. Na época, houve violentos protestos, ameaças de autoimolação e
previsões de que o evento levaria a um apocalipse cultural.
O
ano era 1996. A Índia havia retirado suas políticas protecionistas alguns anos
antes, abrindo seus mercados para o mundo.
Marcas
internacionais como Revlon, L’Oréal e KFC estavam abrindo lojas no país — o
que, às vezes, gerava tensões entre os ativistas locais e as empresas
estrangeiras.
Naquela
época, os concursos de beleza já eram populares na Índia. Dois anos antes,
Sushmita Sen e Aishwarya Rai haviam sido escolhidas, respectivamente, Miss
Universo e Miss Mundo. Elas se tornariam estrelas do cinema indiano de Bollywood.
Milhões
de mulheres jovens sonhavam em seguir seus passos e iniciar carreiras de
sucesso, enquanto outras criticavam a ênfase desses concursos na beleza física
das participantes.
Semanas
antes do evento, violentos protestos irromperam pelo país, chegando às
manchetes internacionais. Os manifestantes incluíam desde agricultores
militantes até feministas e políticos de direita. E, para garantir a segurança
das participantes, o desfile em trajes de banho precisou ser transferido para
as ilhas Seychelles.
“Os
defensores do concurso de beleza — que contam com a solidariedade da maioria
dos indianos — têm dificuldades para acreditar que um evento tão trivial tenha
provocado um tumulto tão grande”, escreveu, na época, o jornal americano Los
Angeles Times.
A
diretora de cinema Paromita Vohra afirma que as reações indicavam um conflito
entre as convicções conservadoras e o encanto de um mundo moderno e reluzente.
“O
Miss Mundo chegou à Índia ao mesmo tempo em que o mercado globalizado”, ela
conta. “Ele agitou a cultura e houve resposta a essa agitação.”
É
claro que a Índia mudou desde 1996. O país ganhou pelo menos meia dúzia de
outros concursos de beleza internacionais e abriga hoje uma indústria da moda
milionária, reconhecida em todo o mundo pelo seu trabalho criativo e produção
cheia de detalhes.
Filmes
e programas na internet abordam temas controversos regularmente e as discussões
sobre as roupas e padrões de beleza das mulheres ficaram mais moderadas.
O
concurso de 1996 foi organizado na Índia por uma empresa de propriedade do
superastro de Bollywood Amitabh Bachchan. Relatos indicam que a empresa
contratou mais de dois mil técnicos, 500 dançarinos e trouxe até 16 elefantes
para o evento.
Mas,
semanas antes do concurso, ocorreram violentos protestos na cidade de Bengaluru
(antes chamada de Bangalore, no sul da Índia), que sediou a competição.
Membros
de uma organização de mulheres ameaçaram cometer suicídio em massa, afirmando
que concursos como o Miss Mundo “aumentariam a promiscuidade e a prostituição”.
“Vestir
minissaias não faz parte da nossa cultura tradicional”, segundo afirmou, na
época, uma líder do grupo feminista ao jornal norte-americano The Washington
Post. E um homem suicidou-se “em protesto”, segundo a rede de TV CNN.
O
concurso também recebeu oposição do Partido do Povo Indiano — que detém o poder
atualmente na Índia — além de um grupo de fazendeiros que ameaçou incendiar o
estádio de críquete onde seria realizado o concurso (o que não aconteceu).
Muitas
feministas também protestaram. Um grupo promoveu uma paródia do concurso, que
ofereceu às participantes títulos como Miss Pobreza e Miss Sem-Teto.
Milhares
de policiais, muitos em trajes de combate, foram destacados pela cidade.
Eventos preliminares tiveram lugar nas proximidades de Bengaluru, incluindo em
uma base da força aérea. E, naturalmente, o desfile mais controverso foi
retirado do país.
A
ex-modelo Rani Jeyaraj foi a representante indiana no concurso Miss Mundo de
1996. Ela conta que ficou aliviada com a decisão de levar o desfile em trajes
de banho para as ilhas Seychelles.
“Na
época, eu já estava esgotada de dar entrevistas para os canais”, afirma ela.
“Foi maravilhoso ser resgatada para uma pequena ilha onde eu não seria
importunada todo o tempo.”
As
participantes foram protegidas da controvérsia ao máximo possível. Elas
passaram semanas confinadas em um luxuoso hotel cinco estrelas, com pouco
contato com o mundo exterior.
“Mas
foi uma sensação estranha ficar isolada e não poder encontrar meus amigos e a
família”, afirma Jeyaraj. “Houve um momento, horas antes da última competição,
em que quase desisti, pois estava muito cansada de tudo aquilo.”
O
protesto durante o concurso de 1996 não foi o primeiro contra as competições de
beleza e as mulheres em trajes de banho — nem o último.
Em
1968, um grupo feminista organizou um evento paralelo, no lado de fora do
concurso Miss Estados Unidos. As manifestantes encheram uma lata de lixo com
produtos de beleza.
Dois
anos depois, ativistas entraram no Royal Albert Hall, em Londres, e atiraram
farinha e vegetais estragados no palco do concurso Miss Mundo, em apoio à
liberação feminina.
Em
2013, a final do concurso Miss Mundo na Indonésia foi transferida da capital
Jacarta para a ilha turística de Bali, após semanas de protestos de grupos
islâmicos conservadores.
Na
ocasião, o desfile de biquíni foi cancelado e as participantes desfilaram com
“sarongues modestos, tradicionais de Bali”.
Em
1996, os trajes de banho não eram totalmente desconhecidos na Índia. Vohra
destaca que algumas heroínas de Bollywood já estavam questionando os
estereótipos e vestindo esses trajes na época, embora não fosse algo comum.
Diversas
participantes indianas, como Rai e Sen, também haviam participado de desfiles
em trajes de banho em concursos de beleza no exterior.
Mas
Vohra afirma que talvez a ansiedade em torno do concurso de 1996 também se
devesse ao temor de que “mulheres de classe média, de castas superiores” — que
normalmente participavam daqueles eventos — fossem vistas vestindo trajes de
banho em público.
• 'Plataforma global' ou 'exótico retorno
ao passado'?
Quase
três décadas depois dos protestos na Índia, os concursos de beleza ainda têm a
mesma relevância?
Houve
uma época em que os concursos de beleza ofereciam a mulheres uma porta de
entrada para um mundo glamouroso e promissor, economicamente falando. Afinal,
modelos poderiam viajar pelo mundo e tornar-se um ícone.
Até
a apaixonada feminista norte-americana Gloria Steinem participou de um concurso
de beleza quando adolescente. Ela conta que parecia “uma forma de sair de uma
vida sem muita grandeza em um bairro relativamente pobre”.
Na
Índia, os concursos de beleza também são uma forma de entrar em Bollywood
(embora a taxa de sucesso neste quesito tenha sido irregular) e “esta conexão é
o motivo para que o glamour sobre eles não diminua”, afirma Jeyaraj.
Mas
muitas jovens indianas não consideram mais os concursos de beleza como o único
caminho para o sucesso, nem como um veículo empoderador para atingir os seus
sonhos.
Vohra
afirma que os concursos nunca pretenderam oferecer um padrão de beleza
autêntico ou ideal. Na verdade, ela os chama de fenômeno econômico “enraizado
no mercado”.
Quando
o Miss Mundo passou a ser popular na Índia, ele também trouxe uma noção
diferente de beleza — as cinturas minúsculas e esculpidas, vestidos em tons
pastéis e rostos fortemente maquiados.
“As
mulheres dos filmes de Bollywood de 30 anos atrás, por exemplo, eram mais
voluptuosas do que esse padrão de beleza globalizado das supermodelos”, explica
Vohra.
Mas
os concursos de beleza internacionais ajudaram a criar uma nova noção da figura
feminina arrojada. “E somente permitia que as mulheres entrassem naquela vida
pública se fossem daquele jeito”, afirma Vohra.
Ela
acrescenta que as mulheres indianas, hoje em dia, não dependem dessas competições
para terem oportunidades.
“É
por isso que eu acho que o próximo Miss Mundo na Índia será um evento como
outro qualquer”, segundo ela. “No máximo, talvez, um exótico retorno ao
passado.”
Mas,
para os fãs dos concursos de beleza, este ainda é um mundo que eles adoram
profundamente e no qual acreditam, não uma simples relíquia de outros tempos.
“[Para
as participantes] esses concursos não servem para exibir apenas sua beleza, mas
também sua inteligência e suas realizações para uma plataforma global. É o seu
passaporte para o mundo”, afirma o estilista Prasad Bidapa, um dos jurados do
concurso de 1996.
Para
ele, é impossível evitar o fascínio dos concursos de beleza porque, afinal,
“todos querem ter melhor aparência e grandes sonhos”.
Fonte:
BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário