A
moeda simbólica identitária
Estava
eu passeando pelos becos algorítmicos da internet, sem muito propósito a não
ser um gole de dopamina no fim de um dia cansativo, quando encontrei pelo
caminho algo inesperado, uma notícia que me pegou de surpresa. O maior conflito
no mundo, hoje, não é Israel e Palestina, como dizem por aí, mas uma guerra no
Sudão, um país no norte da África.
Esse
conflito se arrasta desde 2023, considerado a maior catástrofe humanitária do
planeta. Você sabia disso? Em algum momento os algoritmos compartilharam essa
notícia em seu feed? Pouco provável. Em termo de escala, só como efeito de
comparação, a guerra entre Israel e Palestina matou cerca de 50.000 pessoas,
enquanto em terras sudanesas as mortes chegam a 150.000, além de dezenas de
milhões de desalojados.
Mas por
que essa e outras notícias não participam de circuitos midiáticos ou até mesmo
acadêmicos? Por que ao meu redor, em eventos, palestras, artigos e postagens
informais, Israel e Palestina dominam o cenário simbólico? Por que nunca ouvi
falar do Sudão, nem mesmo em um tweet aleatório numa sexta-feira à noite? É
normal acreditar que um assunto invade a esfera pública, ou os corredores das
ciências sociais, pela sua gravidade, seu impacto, seu trauma, mas esses
critérios não fazem muito sentido.
Existe
algo além, algo que merece nosso mergulho investigativo. Em outras palavras,
não são o número de mortes, as consequências econômicas, o nível de sofrimento,
as destruições de prédios – nada disso. Esses não são os parâmetros do nosso
filtro de relevância, pelo menos não no século XXI. Nossa peneira metafórica é
outra, muito diferente do que você imagina.
“Quem é
você?” é talvez a pergunta mais difícil dos últimos 50 anos. Não importa se o
meu “eu” é uma função (Freud), uma performance (Butler), um jogo de
significantes (Derrida), um efeito de dispositivos (Foucault), um produto
indexal (Garfinkel), ou até mesmo uma metafísica disfarçada (Nietzsche)… todos
concordam que a identidade é um campo contingente, relativo… instável.
Nesse
mundo contemporâneo, rasgado por contradições e fluidez, a nossa identidade é
uma tarefa, uma jornada, não um fato. Ela é um percurso longo e custoso, não
uma essência. Essa dimensão fluida define o nosso mundo atual, ao contrário de
outros momentos históricos onde o “eu” era costurado por fios estáveis, com
suas cosmologias, ancestralidades, religiões e outras instâncias legítimas e
sólidas.
Agora,
em pleno século XXI, 2026, o “eu” é uma tarefa constante, um exercício diário
de investimento, um gasto infinito de energia, suor e tempo. Isso significa que
tudo serve a um proposito claro: reforçar as fronteiras de uma subjetividade
qualquer. Produtos, experiências, pessoas e até mesmo notícias são
instrumentalizáveis no circuito identitário.
Não
existe nada de neutro nesse território, nem mesmo no delírio do cientista mais
cientificamente científico, já que uma simples reportagem em seu jornal
preferido não é uma simples reportagem em seu jornal preferido. Quando notícias
são compartilhadas nas redes sociais, ou em circuitos acadêmicos, a função da
linguagem não é apenas descritiva, ela é performativa. O que é compartilhado
fala mais sobre mim do que sobre a notícia em jogo, ou seja, o compartilhamento
é sempre um convite ao olhar do outro. Olhos que me legitimam, me autorizam, me
reconhecem.
A
hipótese desse ensaio é simples: notícias apenas entram no nosso radar
acadêmico, político ou midiático na medida em que ajudam a fortalecer a nossa
identidade de fundo enquanto indivíduos soberanos, filhos das democracias
liberais. Em outras palavras, existem lá fora notícias com alto ou baixo
capital, como diria Pierre Bourdieu, caso ainda estivesse vivo.
Mas não
qualquer capital. Não é o acadêmico, o cultural, o social, o estético. Algo
novo surgiu no horizonte, algo que o próprio Pierre Bourdieu nem sequer
imaginava na década de 1990: “uma moeda simbólica identitária”. Antes das
críticas saltarem da sua cabeça criativa, antes mesmo de adjetivos tristes
tomarem conta da seção de comentários, eu preciso esclarecer alguns detalhes
importantes.
Esse
novo capital é mobilizado por qualquer um, da direita à esquerda, já que o
identitarismo é uma estrutura de realidade, não apenas uma vertente ideológica.
Com a fragmentação das instituições nas democracias liberais, o indivíduo
percebe a si mesmo sozinho em uma esteira infinita de alternativas, numa tarefa
custosa de definição de si, como o dândi de Charles Baudelaire em seu Pintor da
vida moderna.
Não
adianta ser contra Bolsonaro (Lula), é preciso performar esse gesto
diariamente, através de roupas, postagens, artigos, vídeos, fotos – notícias.
Eu sou na medida do meu investimento simbólico, da minha obsessão por mim mesmo
– narciso. Sem isso, eu não sou nada. Sem isso, a minha identidade desaparece
em instantes, como água deslizando entre os dedos. Se eu não performo o meu
apoio a Bolsonaro (Lula), eu realmente defendo essa figura? Sem esse
performismo diário, quem sou eu?
O que
define essa nova economia simbólica das democracias liberais? Simples. Quanto
mais óbvia, superficial e moralmente binária uma notícia, quanto mais o
tabuleiro ético é claro e confortável, mais ela ajuda na definição das
fronteiras identitárias do interlocutor. Notícias moralmente enquadráveis, em
geral em termos de “dominante e dominado”, “opressor e oprimido”, ou seja, o
que Michel Foucault chamaria de poder negativo, ganham aqui um destaque
absoluto.
No
exemplo do Sudão, ao contrário, existe um conflito complexo entre o exército do
governo e uma milícia paramilitar, envolvendo várias etnias e níveis diferentes
de demandas, tudo isso depois do fim de uma ditadura de 30 anos. Esse tipo de
notícia não se encaixa muito bem em nosso modelo moralizante binário, entrando
no poder positivo foucaultiano, algo mais descentrado e complexo. Se o
tabuleiro de jogo não é simples, não é dual, isso significa que os jogadores do
campo discursivo não sabem exatamente o que fazer ou até mesmo quem são.
Como
diria o homem do subsolo dostoievskiano, quanto mais complexo a realidade, mais
difícil é o espaço de decisões. A condição da agência, assim como do contorno
identitário desse mesmo agir, depende da simplicidade das variáveis em jogo.
Resumindo: quanto mais complexa uma notícia, menos capital identitário ela
carrega.
Muitos
acreditam que notícias do território africano não aparecem simplesmente pelo
racismo ocidental, ou seja, sua mania violenta de ignorar esse continente. Sem
dúvida, essa interpretação é válida, mas é necessário estender o raciocínio um
pouco mais. Em geral, os conflitos na África são ambíguos, muito complexos, o
que não acontece na Europa e América, quase sempre enquadrados em uma narrativa
épica ou religiosa.
Eles
facilmente entram em um registro binário, simples e transparente, como é de se
esperar em sociedades cristãs. Por que antropólogos, por exemplo, debatem a
invasão de terras indígenas por garimpeiros e não a prática do infanticídio
Ianomami? O segundo caso é muito ambíguo, pantanoso, o que significa um capital
identitário baixo. É esperado que o investimento de energia seja muito menor no
segundo exemplo.
O
critério de seleção nada tem a ver com o sofrimento envolvido, mortes, crises,
traumas. Nada disso. O critério é o potencial que a notícia tem de reforçar os
limites da minha própria subjetividade, alimentando a instituição mais
importante da democracia liberal: o eu soberano.
“Mas,
Thiago, Israel e Palestina acontecem no Oriente Médio”, diria você. “Não é
Europa ou América… não é “Ocidente””. É verdade, mas existe um detalhe
importante – o envolvimento dos Estados Unidos. Isso torna o campo moral
simples e binário novamente. Ou seja, a presença desse país no conflito
simplifica o campo de moralidade, seja na cabeça dos defensores do tio Sam,
seja em seus críticos.
Seja
como herói, ou como vilão, os “americanos” desempenham um papel simbólico
importante, quase como um “Eno” suavizando o desconforto estomacal
pós-feijoada. Talvez se os Estados Unidos não tivessem nenhum envolvimento, ou
seja, se não transportasse sua presença ocidentalizada nesses locais,
provavelmente esse conflito desapareceria no fluxo dos algoritmos, da mesma
forma que a guerra no Sudão.
Fonte:
Por Thiago de Araujo Pinho, em A Terra é Redonda

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