sábado, 29 de agosto de 2026

A moeda simbólica identitária

Estava eu passeando pelos becos algorítmicos da internet, sem muito propósito a não ser um gole de dopamina no fim de um dia cansativo, quando encontrei pelo caminho algo inesperado, uma notícia que me pegou de surpresa. O maior conflito no mundo, hoje, não é Israel e Palestina, como dizem por aí, mas uma guerra no Sudão, um país no norte da África.

Esse conflito se arrasta desde 2023, considerado a maior catástrofe humanitária do planeta. Você sabia disso? Em algum momento os algoritmos compartilharam essa notícia em seu feed? Pouco provável. Em termo de escala, só como efeito de comparação, a guerra entre Israel e Palestina matou cerca de 50.000 pessoas, enquanto em terras sudanesas as mortes chegam a 150.000, além de dezenas de milhões de desalojados.

Mas por que essa e outras notícias não participam de circuitos midiáticos ou até mesmo acadêmicos? Por que ao meu redor, em eventos, palestras, artigos e postagens informais, Israel e Palestina dominam o cenário simbólico? Por que nunca ouvi falar do Sudão, nem mesmo em um tweet aleatório numa sexta-feira à noite? É normal acreditar que um assunto invade a esfera pública, ou os corredores das ciências sociais, pela sua gravidade, seu impacto, seu trauma, mas esses critérios não fazem muito sentido.

Existe algo além, algo que merece nosso mergulho investigativo. Em outras palavras, não são o número de mortes, as consequências econômicas, o nível de sofrimento, as destruições de prédios – nada disso. Esses não são os parâmetros do nosso filtro de relevância, pelo menos não no século XXI. Nossa peneira metafórica é outra, muito diferente do que você imagina.

“Quem é você?” é talvez a pergunta mais difícil dos últimos 50 anos. Não importa se o meu “eu” é uma função (Freud), uma performance (Butler), um jogo de significantes (Derrida), um efeito de dispositivos (Foucault), um produto indexal (Garfinkel), ou até mesmo uma metafísica disfarçada (Nietzsche)… todos concordam que a identidade é um campo contingente, relativo… instável.

Nesse mundo contemporâneo, rasgado por contradições e fluidez, a nossa identidade é uma tarefa, uma jornada, não um fato. Ela é um percurso longo e custoso, não uma essência. Essa dimensão fluida define o nosso mundo atual, ao contrário de outros momentos históricos onde o “eu” era costurado por fios estáveis, com suas cosmologias, ancestralidades, religiões e outras instâncias legítimas e sólidas.

Agora, em pleno século XXI, 2026, o “eu” é uma tarefa constante, um exercício diário de investimento, um gasto infinito de energia, suor e tempo. Isso significa que tudo serve a um proposito claro: reforçar as fronteiras de uma subjetividade qualquer. Produtos, experiências, pessoas e até mesmo notícias são instrumentalizáveis no circuito identitário.

Não existe nada de neutro nesse território, nem mesmo no delírio do cientista mais cientificamente científico, já que uma simples reportagem em seu jornal preferido não é uma simples reportagem em seu jornal preferido. Quando notícias são compartilhadas nas redes sociais, ou em circuitos acadêmicos, a função da linguagem não é apenas descritiva, ela é performativa. O que é compartilhado fala mais sobre mim do que sobre a notícia em jogo, ou seja, o compartilhamento é sempre um convite ao olhar do outro. Olhos que me legitimam, me autorizam, me reconhecem.

A hipótese desse ensaio é simples: notícias apenas entram no nosso radar acadêmico, político ou midiático na medida em que ajudam a fortalecer a nossa identidade de fundo enquanto indivíduos soberanos, filhos das democracias liberais. Em outras palavras, existem lá fora notícias com alto ou baixo capital, como diria Pierre Bourdieu, caso ainda estivesse vivo.

Mas não qualquer capital. Não é o acadêmico, o cultural, o social, o estético. Algo novo surgiu no horizonte, algo que o próprio Pierre Bourdieu nem sequer imaginava na década de 1990: “uma moeda simbólica identitária”. Antes das críticas saltarem da sua cabeça criativa, antes mesmo de adjetivos tristes tomarem conta da seção de comentários, eu preciso esclarecer alguns detalhes importantes.

Esse novo capital é mobilizado por qualquer um, da direita à esquerda, já que o identitarismo é uma estrutura de realidade, não apenas uma vertente ideológica. Com a fragmentação das instituições nas democracias liberais, o indivíduo percebe a si mesmo sozinho em uma esteira infinita de alternativas, numa tarefa custosa de definição de si, como o dândi de Charles Baudelaire em seu Pintor da vida moderna.

Não adianta ser contra Bolsonaro (Lula), é preciso performar esse gesto diariamente, através de roupas, postagens, artigos, vídeos, fotos – notícias. Eu sou na medida do meu investimento simbólico, da minha obsessão por mim mesmo – narciso. Sem isso, eu não sou nada. Sem isso, a minha identidade desaparece em instantes, como água deslizando entre os dedos. Se eu não performo o meu apoio a Bolsonaro (Lula), eu realmente defendo essa figura? Sem esse performismo diário, quem sou eu?

O que define essa nova economia simbólica das democracias liberais? Simples. Quanto mais óbvia, superficial e moralmente binária uma notícia, quanto mais o tabuleiro ético é claro e confortável, mais ela ajuda na definição das fronteiras identitárias do interlocutor. Notícias moralmente enquadráveis, em geral em termos de “dominante e dominado”, “opressor e oprimido”, ou seja, o que Michel Foucault chamaria de poder negativo, ganham aqui um destaque absoluto.

No exemplo do Sudão, ao contrário, existe um conflito complexo entre o exército do governo e uma milícia paramilitar, envolvendo várias etnias e níveis diferentes de demandas, tudo isso depois do fim de uma ditadura de 30 anos. Esse tipo de notícia não se encaixa muito bem em nosso modelo moralizante binário, entrando no poder positivo foucaultiano, algo mais descentrado e complexo. Se o tabuleiro de jogo não é simples, não é dual, isso significa que os jogadores do campo discursivo não sabem exatamente o que fazer ou até mesmo quem são.

Como diria o homem do subsolo dostoievskiano, quanto mais complexo a realidade, mais difícil é o espaço de decisões. A condição da agência, assim como do contorno identitário desse mesmo agir, depende da simplicidade das variáveis em jogo. Resumindo: quanto mais complexa uma notícia, menos capital identitário ela carrega.

Muitos acreditam que notícias do território africano não aparecem simplesmente pelo racismo ocidental, ou seja, sua mania violenta de ignorar esse continente. Sem dúvida, essa interpretação é válida, mas é necessário estender o raciocínio um pouco mais. Em geral, os conflitos na África são ambíguos, muito complexos, o que não acontece na Europa e América, quase sempre enquadrados em uma narrativa épica ou religiosa.

Eles facilmente entram em um registro binário, simples e transparente, como é de se esperar em sociedades cristãs. Por que antropólogos, por exemplo, debatem a invasão de terras indígenas por garimpeiros e não a prática do infanticídio Ianomami? O segundo caso é muito ambíguo, pantanoso, o que significa um capital identitário baixo. É esperado que o investimento de energia seja muito menor no segundo exemplo.

O critério de seleção nada tem a ver com o sofrimento envolvido, mortes, crises, traumas. Nada disso. O critério é o potencial que a notícia tem de reforçar os limites da minha própria subjetividade, alimentando a instituição mais importante da democracia liberal: o eu soberano.

“Mas, Thiago, Israel e Palestina acontecem no Oriente Médio”, diria você. “Não é Europa ou América… não é “Ocidente””. É verdade, mas existe um detalhe importante – o envolvimento dos Estados Unidos. Isso torna o campo moral simples e binário novamente. Ou seja, a presença desse país no conflito simplifica o campo de moralidade, seja na cabeça dos defensores do tio Sam, seja em seus críticos.

Seja como herói, ou como vilão, os “americanos” desempenham um papel simbólico importante, quase como um “Eno” suavizando o desconforto estomacal pós-feijoada. Talvez se os Estados Unidos não tivessem nenhum envolvimento, ou seja, se não transportasse sua presença ocidentalizada nesses locais, provavelmente esse conflito desapareceria no fluxo dos algoritmos, da mesma forma que a guerra no Sudão.

 

Fonte: Por Thiago de Araujo Pinho, em A Terra é Redonda

 

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