Michelle
Bolsonaro e o novo antifeminismo: como a extrema direita convence mulheres
“Sou
contra o voto feminino”. Essa frase – que poderia ter saído de um panfleto
antissufragista do início do século 20 – foi dita em 2026, por uma mulher com
ampla visibilidade nas redes sociais. Um antissufragista era uma pessoa que se
opunha ao sufrágio feminino, ou seja, ao direito das mulheres de votar e
participar da política.
Seu
nome é Pietra Bertolazzi, influenciadora, empresária e produtora de conteúdo
sobre religião, comportamento e política.
Conservadora
e abertamente crítica ao feminismo, Pietra ganhou projeção nacional como
comentarista da Jovem Pan durante as eleições de 2022 e construiu, desde então,
uma audiência de mais de um milhão de seguidores.
Católica,
embora rejeite o rótulo de “influenciadora católica” e prefira se apresentar
como “mãe cristã”, ela é hoje uma das mais conhecidas vozes femininas que
ocupam o ecossistema digital da extrema direita brasileira.
Em
julho deste ano, durante um vídeo de perguntas e respostas publicado pelo canal
Foco, perguntaram se Pietra era favorável ao voto feminino. Ela respondeu que
não. O voto feminino foi reconhecido no Brasil em 1932, mas sua incorporação à
Constituição ocorreu apenas em 1934, tendo, portanto, apenas 92 anos de
vigência.
Quase
um século depois, volta a estar em questão se as mulheres deveriam participar
da política, mas agora como opinião política, conteúdo digital, provocação e
estratégia de engajamento. Talvez seja esse formato, mais do que o conteúdo em
si, o ponto que mereça mais atenção.
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Lugar da mulher na política
O que
estamos vendo não é apenas o retorno de um velho questionamento sobre o direito
das mulheres de votar. Na verdade, é a reabertura, em novos formatos, de uma
disputa muito mais ampla sobre quem deve participar da esfera pública, quem é
considerado politicamente capaz e qual deve ser o lugar das mulheres na
política.
É
significativo que, nesse processo, as mulheres não apareçam apenas como alvo do
discurso que questiona a própria participação política feminina, mas também
como suas produtoras, transmissoras e legitimadoras. Esse fenômeno vem sendo
nomeado de antifeminismo, uma contrarresposta organizada aos avanços e às
narrativas feministas.
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Jodi
Bonet-Martí, sociólogo espanhol, propõe falar em diferentes antifeminismos (de
estado, religioso, ciberativista, dentre outros) que se sobrepõem e se reforçam
mutuamente, demonstrando a heterogeneidade do fenômeno. Neste artigo falaremos sobre como Pietra Bertolazzi, Erika Kirk,
Victoria Villarruel e Michelle Bolsonaro ilustram essa sobreposição.
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Tipos de antifeminismos
Pietra
encarna, sobretudo, o antifeminismo ciberativista, construído e monetizado nas
redes sociais; Erika, o antifeminismo religioso ancorado em uma narrativa
fortemente cristã; Victoria representa o antifeminismo de estado, nacionalista,
revisionista e baseado na ordem e na integridade nacional; Michelle é a figura
que aglutina a religiosidade ao aparato do estado.
Os
quatro casos convergem na produção de um antifeminismo que é validado por
mulheres e, muitas vezes, completamente contraditório em sua prática.
O fato
é que a extrema direita não precisa necessariamente defender que mulheres sejam
formalmente excluídas da política para produzir efeitos de exclusão.
Pode
ser suficiente construir uma ideia de que mulheres “votam mal”, que o feminismo
as corrompeu, que a política as afastou de sua “verdadeira natureza” ou que sua
participação na vida pública deve estar subordinada à família, à maternidade ou
à autoridade masculina – muitas vezes mobilizando a fé cristã como
justificativa inclusive para suas entradas na política institucional.
Há,
porém, uma diferença importante entre Pietra e outras mulheres que hoje ocupam
posições de destaque na extrema direita brasileira, seja nas redes sociais ou
na arena política.
Enquanto
Bertolazzi rejeita explicitamente a participação política feminina ao
questionar o próprio direito das mulheres ao voto, outras lideranças
conservadoras fazem um movimento aparentemente oposto: convocam as mulheres
para participar da política.
O
problema, portanto, não é apenas saber se as mulheres devem ou não participar
da esfera pública, mas sob quais condições essa participação é considerada
legítima.
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O cenário brasileiro
Ex-primeira-dama
brasileira e uma das principais lideranças femininas do bolsonarismo, Michelle
Bolsonaro não construiu sua atuação política a partir da rejeição à presença
das mulheres na política, mas a partir dessa autorização à sua entrada sem
romper com uma concepção tradicional de feminilidade – mas disputando, a partir
dela, outros sentidos possíveis para essa mesma feminilidade.
Este
mesmo paralelo foi traçado em uma matéria do mês de julho deste ano, na Folha.
de S. Paulo, em que o paradoxo entre agência e submissão de Erika Kirk é
comparado ao de Michelle Bolsonaro a partir da figura de Phyllis Schlafly.
Mãe de
seis filhos e figura influente no Partido Republicano no decorrer do século XX,
Schlafly acumulou poder público sem que sua submissão deixasse de ser o traço
mais destacado de sua trajetória. A matéria sugere, então, que sua história
estaria sendo repetida por essas mulheres que, hoje, representam o
conservadorismo contemporâneo.
Quando
Michelle deixa a presidência do PL Mulher em meio a uma crise pública com o
enteado Flávio Bolsonaro – candidato à Presidência pelo PL – e lança seu
movimento “Imparáveis”, em 9 de julho de 2026, ela demonstra atingir o ponto da
autonomia e da autorização que a insere definitivamente neste grupo
representado anteriormente por Schlafly.
Segundo
pesquisa Meio/Ideia realizada na mesma semana, 15,4% das pessoas entrevistadas
responderam que Michelle é “a mulher que mais tem poder hoje no Brasil”
(liderando uma lista de dez nomes, incluindo Janja Lula, Cármen Lúcia e Dilma
Rousseff).
Esse
resultado pode ter relação com o crescimento do núcleo feminino do PL sob sua
liderança, que ampliou a presença do partido nos estados, fortaleceu
candidaturas conservadoras e aproximou a sigla do eleitorado feminino –
sobretudo evangélico –, segundo análise da jornalista Dandara Rocha.
Nos
vídeos que publicou em seu Instagram para justificar sua saída do cargo no PL
Mulher, Michelle narra sua trajetória constantemente tensionando o mesmo
binômio autonomia/submissão.
Por um
lado, diz ter sido convidada pelo marido a atuar, ter “aceitado o chamado” e
viajado o Brasil inteiro atendendo a seu pedido, porque “ele [a] enviou como
missão”, e afirma que “em matéria de política, eu faço somente o que eu e ele
combinamos”.
Por
outro lado, ainda no mesmo vídeo, ao narrar a desavença com seu enteado, passa
a reivindicar autoridade própria, “o direito de ser coerente com os valores que
acredita”, sem precisar de porta-voz.
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A agenda internacional
Essa
disputa faz parte de uma agenda política mais ampla, transcendendo as
fronteiras do nosso país. Nos Estados Unidos, de forma ainda mais estruturada,
a organização Turning Point USA (TPUSA) teve sua estratégia de atuação
completamente reconfigurada após o assassinato público de seu fundador, o
ativista de direita Charlie Kirk, em setembro de 2025.
O que
antes era um projeto voltado a homens jovens, pensado para combater a
“hegemonia progressista” nos campi universitários, agora se redireciona para
conquistar o público feminino desde que Erika Kirk, viúva de Charlie, assumiu a
presidência da organização.
Em
junho de 2026, o Women’s Leadership Summit, conferência anual do TPUSA voltada
ao público feminino, reuniu cerca de três mil mulheres – a maioria estudantes –
em San Antonio, no Texas.
Com o
mote “Curated for H.E.R.”, no qual o anagrama refere-se aos adjetivos
“holística”, “empoderada” e “redimida”, o evento se apresentava como um espaço
para “liderança feminina”, mas, segundo o relato da jornalista estadunidense
Amanda Marcotte após acompanhar a conferência, tratava essas mulheres menos
como líderes e mais como auxiliares.
Erika
Kirk, com roupa e maquiagem impecáveis, subiu ao palco da abertura do evento
como uma estrela pop, ao som de sonoros gritos e aplausos.
No
púlpito, relembrou uma fala do marido que atribuía o feminismo a um projeto com
o intuito de fazer as mulheres “se tornarem homens”, ao ponto de não precisarem
mais de homem nenhum.
Sua
resposta foi clara: “Para as mulheres nesta sala que são cristãs, é bem
simples. O mundo dirá que sua vida pertence a você. Não pertence. Sua vida
pertence a Cristo”.
No
mesmo discurso, Erika mobiliza uma retórica interessante – e extremamente
palatável para o público a quem se direciona – de “escolha” e de “agência”, mas
sempre atrelada a uma estrutura de pertencimento a Cristo, de cumprimento de
uma missão, de atendimento a um chamado, de subordinação.
Convocadas
a “decidir que tipo de mulher [elas querem] ser”, as mulheres da plateia são
aconselhadas a “terem mais filhos do que podem sustentar”, já que, segundo
Kirk, este é o plano de Deus e a verdadeira demonstração de feminilidade.
Obediência
Essa
combinação de “agência” e “obediência” se apresenta de maneira transversal no
discurso da palestrante, evocando um vocabulário de sacrifício, entrega, missão
no mesmo fôlego em que evoca escolha, decisão, construção.
As
mulheres são convocadas a agir e ocupar espaços, mas essa agência é legitimada
apenas na medida em que permanece inscrita em uma determinada ordem moral e em
uma concepção de feminilidade específica. Não se trata, portanto, de negar
completamente a agência feminina, mas de autorizá-la sob determinadas
condições.
Na
Argentina, Victoria Villarruel ascendeu à vice-presidência do país e à
presidência do Senado em 2023 por meio da coalizão La Libertad Avanza em
conjunto com a figura neoconservadora de Javier Milei.
Solteira,
sem filhos e com uma trajetória de independência e autoridade institucional,
Victoria defende a subordinação reprodutiva e a domesticidade para as mulheres
argentinas enquanto desfruta, ela mesma, da autonomia e do topo do poder
estatal.
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‘Neopatriarcado’
As
sociólogas Verónica Giordano e Gina Paola Rodrigues denominam esse modelo de
atuação de “neopatriarcado autoritário”, em que a presença de mulheres em
cargos de liderança política não serve à emancipação feminina, mas sim à
blindagem e ampliação de medidas punitivas e antigênero.
‘A
agência política feminina, quando cooptada pelo conservadorismo, opera como
dispositivo de restrição de direitos e manutenção das estruturas de dominação’.
Diferente
de Kirk, Villarruel não constrói sua imagem pública a partir da narrativa
missionária ou de um antifeminismo religioso, ela o faz a partir da defesa de
uma ordem nacional. Além disso, em vez de convocar outras mulheres sob uma
retórica de “missão” e “submissão”, o que ela faz é pregar, para outras
mulheres, uma domesticidade que não pratica na própria vida.
Ainda
assim, o efeito político desses discursos aponta para a mesma direção: a
agência política feminina, quando cooptada pelo conservadorismo, opera como
dispositivo de restrição de direitos e manutenção das estruturas de dominação.
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O paradoxo da liderança
Essa
alternância entre um vocabulário de submissão e um de autoafirmação, presente
tanto em Erika Kirk e Victoria Villarruel, quanto em Michelle Bolsonaro nos
leva a questionar: quais mulheres elas buscam representar? E para quais
mulheres elas falam?
Afinal,
quando o movimento “Imparáveis” e o Women´s Leadership Summit convocam mulheres
a ocupar a política, eles estão produzindo uma concepção específica de mulher
que merece ser autorizada a participar sob determinadas condições morais. Não
é, então, qualquer mulher, nem qualquer projeto de “emancipação” – se assim
podemos chamar – que aparece como legítimo nesses discursos.
Aqui, a
linguagem da agência, da escolha e da liderança ganha tração: a extrema direita
aprendeu que dizer às mulheres que elas devem permanecer fora da política é
pouco eficaz e incompatível com um projeto que depende da mobilização eleitoral
delas para a ocupação das instituições.
Por
isso, o caminho encontrado por essas figuras foge do script tradicional.
Michelle, ao se apresentar como uma liderança capaz de mobilizar outras
mulheres, deixa de ocupar apenas a posição de “esposa de um líder político” ou
de “ex-primeira-dama”.
Passa,
então, a reivindicar uma autoridade política própria, sem que essa autonomia
signifique uma ruptura com a ordem que historicamente subordina as mulheres, e
esse movimento é o que a torna uma figura tão politicamente relevante.
‘Nesse
momento, Michelle deixa de ser um mero adereço e se torna uma ponte entre o
establishment conservador e o eleitorado feminino a partir de uma linguagem de
moralidade, dever e submissão’.
No
Brasil, a urgência em disputar a adesão do eleitorado feminino tornou-se
incontornável a partir do pleito de 2022, quando o TSE divulgou que 52,65% do
eleitorado brasileiro eram mulheres. Isso ilustra que a consolidação de um
projeto de poder (seja ele de esquerda ou de extrema direita) não se sustenta
sem o apelo e a participação política feminina.
Naquela
eleição, o candidato e presidente em exercício Jair Bolsonaro registrou ampla
vantagem nas intenções de voto do eleitorado masculino, mas enfrentou índices
expressivos de rejeição entre as mulheres (29%) – segmento que registrou maior
intenção de voto de Lula (45%).
Nesse
momento, Michelle deixa de ser um mero adereço e se torna uma ponte entre o
establishment conservador e o eleitorado feminino a partir de uma linguagem de
moralidade, dever e submissão.
‘Os
antifeminismos são frequentemente produzidos, difundidos e legitimados por
mulheres que ocupam espaços públicos, acumulam visibilidade, capital político e
autoridade’.
O que
há de comum entre Pietra Bertolazzi, Erika Kirk, Victoria Villarruel e Michelle
Bolsonaro, portanto, é a ideia de que o poder que autoriza (ou não) a
participação política feminina nunca vem da autonomia da própria mulher, mas de
um “chamado” a ser atendido: seja do público, de Deus, do estado ou do marido.
Esse
cenário reforça a teoria de Bonet-Martí sobre a complexidade, multiplicidade e
contraditoriedade dos antifeminismos na contemporaneidade. Contraditoriedade
porque, ao mesmo tempo em que questionam determinadas conquistas feministas e
defendem uma ordem social marcada pela autoridade masculina, os antifeminismos
são frequentemente produzidos, difundidos e legitimados por mulheres que ocupam
espaços públicos, acumulam visibilidade, capital político e autoridade.
A
contradição de Pietra é, talvez, a mais evidente: uma mulher que tem alcance
nas redes sociais, é frequentemente entrevistada, dá cursos, participa de
podcasts e constrói uma carreira pública a partir da própria voz política
afirma que as mulheres não deveriam ter direito ao voto.
A
questão, no entanto, não é apenas a aparente incompatibilidade entre o conteúdo
de sua fala e as condições materiais que permitem que ela seja ouvida – é que
esse discurso não precisa ser coerente com uma retirada completa das mulheres
da esfera pública para produzir efeitos políticos reais.
As
trajetórias de Erika Kirk, Victoria Villaruel e Michelle Bolsonaro explicitam
ainda mais essa contradição: diferentemente de Pietra, elas não precisam
rejeitar a presença feminina na política – podem convocá-la, estimulá-la e até
apresentá-la como uma forma de liderança e empoderamento.
No
entanto, a partir do momento em que elas passam a protagonizar a cena política,
dispondo de autoridade, legitimidade e poder – ainda que condicionais –, também
passam a lidar com o backlash dos próprios setores nos quais estão inseridas.
Erika
Kirk foi duramente criticada por setores do próprio campo conservador, que
discordaram da forma como performou o luto do marido e de seu atual cargo de
liderança do TPUSA.
Victoria
foi chamada de “burra traidora” por Milei após ter sido responsabilizada por
uma derrota do governo no Congresso.
Michelle,
mais recentemente, vem enfrentando a hostilidade dos próprios enteados, que se
veem como chanceleres da atuação política da madrasta, além de comentários de
rejeição ao seu novo projeto Imparáveis em diversos posts da página do PL
Mulher no Instagram. Ou seja: mesmo quando o setor conservador permite a
atuação política feminina, ele também cobra o seu preço.
‘Uma
mulher ocupar um espaço de poder não significa, necessariamente, que ela esteja
ampliando as possibilidades de existência e atuação política das mulheres de
forma ampla’.
Essa
agência, portanto, aparece acompanhada de condições: a mulher pode ocupar a
esfera pública desde que sua atuação não rompa com uma determinada concepção de
feminilidade, família, maternidade, religião e autoridade; ela é chamada a
agir, desde que dentro de uma ordem previamente estabelecida; é autorizada a
falar, desde que sua fala seja compatível com determinados valores morais e
religiosos; pode liderar, desde que sua liderança não seja interpretada como
ruptura com a autoridade que estrutura aquela ordem.
Portanto,
uma mulher ocupar um espaço de poder não significa, necessariamente, que ela
esteja ampliando as possibilidades de existência e atuação política das
mulheres de forma ampla.
Pode
significar o oposto: a produção de uma autorização seletiva, em que algumas
mulheres podem ocupar esses espaços porque encarnam a feminilidade considerada
adequada, enquanto outras – feministas, dissidentes, mulheres que reivindicam
autonomia reprodutiva, sexual, econômica ou política fora dessa ordem –
permanecem como aquelas que precisam ser combatidas, dentro dos parâmetros de
um “neopatriarcado autoritário”.
A força
dos antifeminismos contemporâneos não reside apenas na capacidade de dizer
“não” às mulheres, mas, sobretudo, na capacidade de determinar quais mulheres
podem dizer “sim”.
Fonte:
Por Camila Galetti e Miranda Benez, em The Intercept

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