O
erro moderno de desprezar princípios antigos
Há quem
deseje o palco, mas não o silêncio que antecede a decisão difícil. Liderar é
avançar quando o chão ainda não foi testado, sabendo que cada passo produz
consequências que não cabem em relatórios trimestrais. É assumir que autoridade
não é ornamento, é ônus. E ônus não se delega.
Recentemente
reli uma lição de liderança atribuída ao Dr. Marcus Valen, em diálogo com seu
jovem interlocutor, Daniel. O texto não nasceu em auditórios corporativos nem
em workshops de fim de semana. É aconselhamento direto, quase clínico. Valen
não oferece frases de efeito; oferece critérios. Ele começa pelo essencial:
desejar liderar é desejar responsabilidade. Quem pleiteia o comando precisa
aceitar o peso das escolhas quando elas deixam de ser teóricas e passam a
afetar empregos, reputações e destinos institucionais.
É aqui
que a primeira ideia se impõe com nitidez quase desconfortável: liderança é
prestação de contas permanente. O líder é o ponto de convergência das pressões
e o primeiro a ser cobrado quando algo falha. Em ambientes empresariais
complexos, onde decisões atravessam fronteiras e impactam cadeias inteiras, não
há espaço para vaidade descompromissada. Poder sem responsabilidade é
fragilidade disfarçada.
Na
sequência da conversa, emerge um segundo princípio menos celebrado, porém
decisivo: liderar é formar gente. Valen insiste que desempenho individual, por
mais brilhante que seja, é insuficiente quando não se converte em multiplicação
de talentos. Organizações sólidas não dependem de protagonistas isolados, mas
de culturas que ensinam e preparam sucessores. O líder que centraliza
conhecimento constrói dependência; o que compartilha constrói legado. Formar
pessoas é a forma mais estratégica de perpetuar resultados.
Há
ainda um ponto que raramente aparece nas biografias empresariais, mas sustenta
todas elas: autocontrole. A terceira dimensão da liderança, segundo Valen, é a
sobriedade como prática diária. Não se trata apenas de evitar excessos
evidentes, mas de governar impulsos, linguagem e postura. Em tempos de
exposição contínua, uma reação intempestiva pode corroer anos de reputação. A
sobriedade não é detalhe comportamental; é ativo estratégico. Quem não
administra as próprias emoções dificilmente administrará crises.
Quando
a conversa avança para o campo pessoal, o argumento ganha profundidade. A
quarta dimensão da liderança começa longe das salas de reunião. Disciplina
doméstica e organização pessoal são ensaios silenciosos para responsabilidades
maiores. Coerência entre vida íntima e atuação pública não é moralismo, é
fundamento de confiança. A autoridade se sustenta quando há alinhamento entre
discurso e prática.
Por fim
— e talvez aqui esteja o alerta mais atual — surge a quinta exigência:
maturidade. Promoções apressadas, sem lastro de experiência e caráter, produzem
decisões erráticas e arrogância precoce. Experiência afia julgamento; caráter
delimita fronteiras éticas. E reputação — esse patrimônio invisível —
acumula-se lentamente, mas pode ser dissolvida por um único ato impensado.
Esse
texto me foi enviado por amigo de longa data, Luís Henrique Beust, CEO da Anima
Mundi, e concordo inteiramente com ele quando afirma que certas lições
atravessam séculos porque falam à arquitetura moral do ser humano, não às
tendências do mercado. E aqui está o ponto que exige franqueza: se eu tivesse
iniciado revelando que esses princípios foram registrados entre 63 e 65 d.C.,
numa orientação do apóstolo Paulo a Timóteo, muitos teriam interrompido a
leitura por preconceito intelectual, confundindo antiguidade com irrelevância.
Teriam julgado a origem antes de enfrentar o conteúdo.
A
liderança autêntica não se curva ao calendário nem às modas corporativas. Ela
se ancora em caráter. E caráter não expira, não recebe atualização de versão,
não depende de algoritmo para manter pertinência. O que envelhece são as
narrativas oportunistas; princípios permanecem. Liderar, afinal, é sustentar
coerência quando o aplauso passa — e continuar responsável quando as luzes se
apagam.
Fonte:
Por Washington Araújo, em Brasil 247

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