Uso de álcool e drogas pelos pais influencia consumo dos filhos, diz estudo
“Tal
pai, tal filho? Os estilos parentais podem interromper o padrão intergeracional
do uso de álcool e outras drogas?” Foi a partir desse questionamento que um
grupo de pesquisadores brasileiros analisou dados do comportamento de 4.280
adolescentes e seus responsáveis, chegando a dois importantes resultados.
Sim, as
atitudes dos pais continuam sendo um dos fatores mais relevantes na prevenção
ao consumo de álcool e drogas entre jovens. Porém, a forma como os responsáveis
educam seus filhos pode amenizar significativamente o risco, até mesmo em
famílias em que os cuidadores usam essas substâncias, incluindo cigarro, vapes
(cuja comercialização é proibida no Brasil) e maconha.
Essa
redução do risco é mais significativa quando a relação entre as gerações é
marcada por vínculo, presença, diálogo e regras claras de conduta,
características do chamado estilo parental “autoritativo”, que combina
acolhimento e monitoramento. Ao todo, foram analisados quatro estilos parentais
(veja quadro), sendo os outros: autoritário, que também reduziu o risco a
drogas, mas com impacto menor para álcool; permissivo e negligente. Os dois
últimos não apresentaram efeitos protetores.
Já os
perfis de consumo foram separados em abstêmios; os que só bebem e os que usam
duas ou mais substâncias.
O
consumo de álcool pelos pais foi associado a uma probabilidade de uso pelos
filhos de 24% para bebidas alcoólicas e 6% para duas ou mais drogas. Se os
responsáveis consomem várias substâncias, o risco de os jovens usarem vai a 17%
e 28%, respectivamente.
Os
achados, publicados no site da Addictive Behaviors, estão descritos em artigo
da edição de março da revista científica.
“Com
esse estudo, reforçamos o fato de que o padrão de uso de álcool e outras drogas
pelos pais influencia o dos filhos. Porém, se eles colocarem regras e limites
em casa e derem afeto, esses fatores de proteção minimizam muito o risco que
eles mesmos trazem quando consomem essas substâncias. Além disso, o maior
preditor de abstinência dos jovens é o não uso pelos responsáveis. Quando eles
são abstinentes, 89% dos adolescentes também não usam nem álcool nem outras
drogas lícitas ou ilícitas. Foi a associação mais forte que encontramos”,
afirma a professora Zila Sanchez, do Departamento de Medicina Preventiva da
Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
autora principal do artigo.
Coordenadora
do Núcleo de Pesquisa em Prevenção ao Uso de Álcool e outras Drogas (Previna),
da Unifesp, Sanchez publicou dezenas de estudos sobre o tema, entre eles um, em
2017, que demonstrava uma associação gradual entre estilos parentais e consumo
de drogas por adolescentes.
À
época, os resultados apontavam que jovens cujos pais eram negligentes tinham
maior probabilidade de frequentar aulas sob uso de drogas.
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Visão ampliada
A
pesquisa é parte do projeto “Redução do consumo de álcool entre adolescentes
através de uma intervenção multicomponente de base comunitária”, financiado
pela Fapesp, que também apoiou o artigo por meio de uma Bolsa de Pós-Doutorado
para Luis Eduardo Soares dos Santos.
Desenvolvido
em quatro municípios de pequeno porte no Estado de São Paulo – Cordeirópolis,
Iracemápolis, Salesópolis e Biritiba-Mirim –, o projeto busca investigar
estratégias comunitárias eficazes de prevenção ao uso de álcool por
adolescentes, produzindo evidências científicas capazes de orientar políticas
públicas e programas de prevenção. Com populações entre 18 mil e 25 mil
moradores e diversidade geográfica, as cidades abrigam diferentes contextos
para esses jovens.
“O
artigo é decorrente dos dados do que chamamos needs assessment, ou seja, quando
fazemos o diagnóstico da situação relacionada aos adolescentes do município.
Essa é a fase pré-intervenção para entender como são esses jovens e seus pais.
Utilizamos instrumentos extremamente consolidados para medir os estilos, mas
inovamos ao trabalhar os dados conjuntos com os perfis de consumo dos pais e
dos filhos, olhando para os padrões”, explica a professora à Agência Fapesp.
Os
dados foram coletados entre 2023 e 2024 nas quatro cidades. A idade média dos
jovens foi de 14,7 anos, com distribuição quase igual entre meninos e meninas.
O consumo de álcool no último mês (19,9%) e o consumo excessivo episódico
(11,4%) foram os comportamentos mais frequentes entre os filhos – entre os pais
os porcentuais foram de 56,4% e 20,3%, respectivamente. Não houve análise
separada para o fato de o responsável ser o pai ou a mãe.
Os
pesquisadores aplicaram a Análise de Classe Latente (LCA, na sigla em inglês)
para identificar perfis de uso de substâncias em ambas as gerações e modelaram
sua associação por meio de Análise de Transição Latente (LTA).
A LCA é
uma técnica estatística que permite identificar subgrupos não observáveis
(classes latentes) dentro de uma população a partir de padrões de respostas em
variáveis observadas, estimando probabilisticamente cada indivíduo que pertence
a essas classes.
Também
uma técnica estatística, a LTA identifica grupos “ocultos” (classes latentes) e
estima probabilidades de passagem entre eles. Em estudos longitudinais, essa
transição representa mudanças ao longo do tempo. Nessa pesquisa, a “transição”
é interpretada como uma associação entre gerações, ou seja, a probabilidade de
adolescentes pertencerem a determinados perfis de uso de substâncias dependendo
do perfil observado em seus pais.
A
professora ressalta que na fase de diagnóstico o grupo trabalhou com todos os
adolescentes matriculados em escolas dos quatro municípios.
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Impactos
Sanchez
destaca que, mesmo em famílias com boas práticas educativas, o consumo de
bebidas alcoólicas pelos responsáveis seguiu associado ao uso de álcool pelos
adolescentes, reforçando a necessidade de cautela com a naturalização desse
comportamento dentro de casa. “Quando o consumo é frequente e tratado como algo
banal se traduz em maior risco, independentemente do vínculo afetivo
existente”, completa.
Em todo
o mundo, o álcool é um dos principais fatores de risco responsáveis pelo
aumento de doenças crônicas não transmissíveis, como cardiovasculares, cânceres
e diabetes. Além de efeitos físicos (possibilidade de lesões hepáticas,
comprometimento do sistema cardiovascular e maior vulnerabilidade a infecções),
o álcool aumenta as chances de quadros de ansiedade, dificuldades de
concentração e transtorno depressivo.
Retardar
o início do uso entre jovens é considerada uma das estratégias mais eficazes
para diminuir o consumo futuro e os danos posteriores. Estudos epidemiológicos
têm demonstrado que intervenções de base comunitária, compostas por ações de
prevenção escolar (voltadas ao adolescente), de programa familiar e de
estratégias ambientais (para a comunidade), promovem efeitos mais consistentes
e de longo prazo.
No
Brasil, apesar da proibição da venda de bebidas alcoólicas para menores de 18
anos, mais da metade da população (56%) experimentou pela primeira vez antes
dessa idade e um quarto (25,5%) passou a beber regularmente nessa fase, de
acordo com o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado
pela Unifesp em parceria com o Ministério da Justiça e a Ipsos Public Affairs e
divulgado em 2025.
O
levantamento mostra que pouco mais de um quarto (27,6%) dos adolescentes de 14
a 17 anos já consumiu álcool em algum momento da vida, o que corresponde a
cerca de 3,2 milhões de pessoas. No último ano, o uso foi relatado por 19% – o
equivalente a 2,2 milhões de jovens.
Em
relação à maconha, o Lenad mostra que cerca de 1 milhão de adolescentes usaram
alguma vez na vida, sendo metade no último ano. Na população em geral, quase um
em cada cinco brasileiros (18,7%) experimentou pelo menos uma substância
psicoativa (nesse caso excluindo álcool e produtos à base de nicotina).
Fonte:
CNN Brasil

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