quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Fernando Nogueira da Costa: Alavancagem financeira

A alavancagem financeira do capital próprio de acionistas globais é hoje uma decisão estratégica central nas grandes corporações. Mas seu papel sistêmico é ambivalente, porque pode expandir a capacidade produtiva e integrar cadeias globais ou, sob certas condições, intensificar fragilidades financeiras e deslocar renda para o circuito financeiro.

Eleva a economia de escala, isto é, há uma redução do custo médio por unidade produzida enquanto o volume total de produção aumenta. Ela ocorre porque os custos fixos (como aluguel e maquinário) são diluídos entre um número maior de produtos, aumentando a eficiência operacional e reduzindo os custos médios.

O núcleo da decisão diz respeito ao diferencial entre o retorno operacional e o custo da dívida. A lógica é simples: se a rentabilidade operacional da produção supera o custo médio da dívida (despesas financeiras com empréstimos), então o retorno sobre o patrimônio líquido (o capital próprio investido ou o valor remanescente aos sócios/acionistas após quitar todas as dívidas) cresce com o uso de capital de terceiros.

Esse mecanismo, analisado também por Hyman Minsky, é inerente ao capitalismo moderno: a expansão ocorre via crédito. A empresa escolhe um grau de alavancagem capaz de maximizar o retorno ao acionista, dado o risco percebido.

Portanto, não é uma decisão secundária. É parte da estratégia central de crescimento e de valorização acionária em escala global.

Ela se tornou ainda mais relevante no capitalismo contemporâneo, por causa de três transformações estruturais:

1.       mercados de capitais profundos e globalizados;

2.       investidores institucionais dominantes (fundos de pensão, fundos soberanos, ETFs);

3.       integração entre financiamento bancário e mercado de capitais.

Empresas competem globalmente por capital. O grau de alavancagem é uma sinalização de eficiência financeira ao usar a emissão primária de ações (IPO - Initial Public Offering) ou as ofertas subsequentes (follow-on) para acumular capital próprio e, então, somar capital de terceiros tomado por empréstimos.

É variável explicativa central do sistema econômico-financeiro complexo por três razões. A primeira é a articulação intersetorial. A decisão de alavancar conecta trabalhadores, via investimento gerador de emprego; governo, por meio da expansão da base tributária; bancos, pela elevação da demanda por crédito; e acionistas estrangeiros, pela expectativa de dividendos e valorização das ações.

Ela ativa simultaneamente vários fluxos do sistema SFC (Stock-Flow Consistent) ou Consistência Estoque-Fluxo: formação de capital próprio – crédito bancário – geração de renda – arrecadação fiscal – remessas de lucro ao exterior.

Se bem-sucedida, a alavancagem amplia a produção e, via canal distributivo, eleva a massa salarial, aumenta o lucro antes de juros e gera mais tributos. Mas, se o custo financeiro sobe ou a demanda pelos produtos cai, proporcionalmente mais renda se desloca para credores; posteriormente, o investimento é comprimido e o emprego é reduzido. A mesma variável capaz de impulsionar o crescimento pode, depois, amplificar a instabilidade financeira.

Em conexão com o regime macroeconômico, a viabilidade da alavancagem depende de a taxa de juros estar estruturalmente baixa, de estabilidade cambial, de previsibilidade fiscal e de acesso a financiamento externo mais barato. Em economias com juros estruturalmente elevados, o limiar de rentabilidade exigido torna-se mais alto, restringindo o investimento produtivo, caso não se recorra ao endividamento externo.

A financeirização produtiva acontece quando o crédito financia a ampliação da capacidade produtiva, incorpora tecnologia, integra cadeias globais e aumenta a produtividade. Nesse caso, há sinergia entre capital financeiro e capital produtivo.

A financeirização parasitária ocorre quando o endividamento financia recompra de ações para distribuição concentrada de dividendos e eleva a fragilidade financeira sem ampliar a capacidade produtiva. A diferença não está no uso da dívida em si, mas no destino do capital.

Quanto à relação com a desindustrialização, a alavancagem visa fortalecer empresas industriais competitivas internacionalmente, viabilizar economias de escala e financiar inovação. Mas, sob câmbio apreciado cronicamente ou juros elevados, empresas industriais enfrentam custos financeiros maiores, competição externa desvantajosa e consequente migração de capital para o sistema financeiro.

Portanto, a alavancagem não combate automaticamente a desindustrialização. Ela precisa de um ambiente macroeconômico coerente.

Na alocação global de capital, investidores institucionais globais buscam retorno ajustado ao risco, governança e liquidez. Empresas alavancadas de forma eficiente elevam o retorno sobre o patrimônio, atraem capital estrangeiro e ampliam a integração internacional. Isso intensifica a participação acionária transnacional, a interdependência financeira e a sensibilidade a ciclos globais.

Quanto à implicação sistêmica, a alavancagem é mecanismo de expansão, amplificador de ciclos, ponte entre setores e canal de transmissão internacional. Ela conecta o circuito produtivo ao circuito financeiro.

Quando coordenada com juros moderados, estabilidade cambial e política industrial consistente, sustenta o crescimento no longo prazo. Quando desconectada dessas condições, eleva a fragilidade financeira, concentra renda e amplia a volatilidade.

Em síntese, a alavancagem financeira da rentabilidade do capital próprio com uso de capital de terceiros é, sim, uma variável explicativa central do capitalismo contemporâneo. Mas seu efeito sistêmico depende do regime macroeconômico, da estrutura produtiva, da orientação estratégica das empresas e da regulação financeira. Pode ser motor de expansão produtiva ou vetor de instabilidade.

A questão decisiva não é “usar ou não usar alavancagem”, mas em qual arquitetura macroinstitucional ela opera.

¨      Nova ciência econômica

Uma experiência pessoal lamentável, na minha carreira acadêmica, tive no ano passado, quando escrevi um livro sob o título “Introdução à Nova Ciência Econômica através de Fábulas e Crônicas” e o enviei para a Editora da Unicamp. Recebi um parecer anônimo de um colega ciumento no qual perguntava, em síntese, “quem é você,  mero escritor em português, para a elaboração de uma Nova Ciência Econômica?!”.

Não tive a oportunidade de lhe explicar ela ser resultante de múltiplas leituras, desde a última década, da literatura econômica de vanguarda, publicada em inglês e outras línguas. Não acho o falante em inglês ter o monopólio da inteligência… e a escrevi em português, de maneira bem coloquial, para divulgar para um público mais amplo. Felizmente, um parecerista da Edusp recomendou a publicação do livro em breve.

Uma Nova Ciência Econômica adota a transdisciplinaridade por emergir das interações entre Economia Comportamental ou Psicologia Econômica, Economia Institucionalista ou Sociologia Econômica, Economia Evolucionária ou Biologia Darwinista, Economia da Complexidade ou Econofísica.

Ela supera, mantendo o ainda válido do marxismo do século XIX e do keynesianismo de cerca de um século atrás. Muitas de suas proposições são utilizadas nesse método transdisciplinar com uma visão holística e sistêmica da complexidade da realidade dinâmica contemporânea.

A hipótese de uma “Nova Ciência Econômica” transdisciplinar não é extravagante — ela estava em formação difusa desde a segunda metade do século passado. A questão relevante não é se ela substitui marxismo ou keynesianismo, mas como reorganiza o campo científico ao integrar diferentes níveis explicativos.

A emergência transdisciplinar já está em curso pelo acesso mais fácil a múltiplos livros e métodos científicos, via internet, e por ser capaz de reunir diversas contracorrentes de pensamento. Desloca, então, o núcleo duro da Ciência Econômica tradicional.

Por exemplo, a Economia Comportamental, associada a Daniel Kahneman e Richard Thaler,  entre outros autores, introduz investigações sobre racionalidade limitada e vieses heurísticos nas tomadas de decisões. Ela rompe com o agente maximizador plenamente racional do neoclassicismo.

Uma nova Economia Institucional, com autores como Douglass North e Oliver Williamson, enfatiza regras formais e informais, custos de transação e estruturas de governança. A Economia passa a depender de instituições historicamente formadas.

A Economia Evolucionária, inspirada em Joseph Schumpeter e desenvolvida por Richard Nelson e Sidney Winter, trata de inovação e seleção como processos dinâmicos. Com empreendimentos, destruição criativa e crédito farto, a economia deixa de ser vista como estivesse em equilíbrio e passa a ser processo adaptativo.

Economia da Complexidade foi desenvolvida em centros como o Santa Fe Institute. Modela sistemas econômicos como redes não lineares com emergência e feedback positivo ou negativo. É conhecida também como Econofísica.

Essas correntes desmontaram os pilares do modelo estático de equilíbrio geral. A transdisciplinaridade não é projeto futuro, porque já é uma tendência em consolidação.

Essa Nova Ciência Econômica (NCE) transdisciplinar integra quatro níveis: primeiro, o Micro psicológico, ou seja, decisão sob incerteza e emoção; segundo, o Meso institucional com regras, normas, estruturas organizacionais; terceiro, o Macroestrutural, onde se foca distribuição, poder, conflito; o quarto, Dinâmica Sistêmica, trata de redes, não linearidade e emergência.

Ela abandona o agente isolado, o equilíbrio como estado natural e a neutralidade institucional. Adota sistemas adaptativos complexos, causalidade circular e múltiplos níveis de análise. Nesse sentido, está mais próxima de uma Ciência de Sistemas em vez de uma Física socioeconômica.

Um pós-keynesiano, temeroso de sua superação, apelou: “Enquanto vocês se divertem com metáforas da Física, nós estamos ocupados, construindo a ponte entre a teoria de Keynes e os problemas reais da indústria brasileira. A Faria Lima agradece quando a heterodoxia se perde em ‘econofísicas’ e ignora a dinâmica da taxa de câmbio real e da produtividade”. É lamentável a vaidade academista…

Quando digo ela supera (no sentido dialético hegeliano) o marxismo e o keynesianismo, mantendo seus conceitos válidos, é preciso cuidado conceitual. Sem dúvida, Karl Marx já tinha visão estrutural e sistêmica ao tratar o capitalismo como relação social, dinâmica histórica, conflito distributivo e reprodução ampliada. Faltava, no marxismo contemporâneo, a formalização em termos de sistemas complexos e integração com psicologia ou biologia evolutiva.

Logo, uma abordagem transdisciplinar não elimina Marx. Ela reformula sua contribuição em linguagem sistêmica contemporânea.

No caso do pós-keynesianismo, é notório os herdeiros de John Maynard Keynes terem incorporado incerteza radical, expectativas, instabilidade financeira. São, nesse sentido, precursores da complexidade macroeconômica. Mas uma ciência transdisciplinar expande sua teoria ao integrar redes financeiras, comportamento coletivo e dinâmica adaptativa a cada nova realidade.

Portanto, a NCE não elimina essas tradições fundamentais na formação adequada de um bom economista. Ela as reinterpreta. Marx analisa estrutura e conflito. Keynes analisa instabilidade e incerteza. Complexidade analisa variações dinâmicas ao longo do tempo. Economia Comportamental analisa microfundamentos não racionais. Institucionalismo analisa mediação histórica por instituições. Economia Evolucionária analisa o método darwinista, aplicado à economia, ou seja, a adequação dos agentes econômicos ao ambiente mutável.

Há risco de “ecletismo superficial”. Transdisciplinaridade não pode significar só soma acrítica de teorias, justaposição de conceitos e perda de núcleo explicativo.

Para constituir “Nova Ciência”, é preciso uma ontologia (estudo das propriedades mais gerais do ser) com resposta clara à questão: o que é sistema econômico? Precisa, igualmente, um princípio organizador, por exemplo, reprodução e transformação sistêmica. Precisa de uma estrutura formal compatível com não linearidade. Por fim, precisa ter capacidade preditiva condicional. Sem isso, vira mera retórica holística sem adotar os métodos top-down (de cima para baixo) e bottom-up (de baixo para cima). A vida é difícil, mas temos de lidar com ela…

Uma abordagem sistêmica possível é uma formulação integradora. A atividade econômica passa a ser vista como um sistema adaptativo complexo, composto por agentes cognitivamente limitados, inseridos em instituições historicamente formadas, interagindo por meio de relações monetárias e financeiras, capazes de gerarem dinâmicas emergentes de crescimento, crise e transformação estrutural.

Nesse enquadramento, mercado não é mecanismo de equilíbrio, Estado não é exógeno, moeda não é neutra, expectativas não são racionais no sentido absoluto. Crises não são choques externos, mas propriedades emergentes. Isso tudo é profundamente compatível com uma abordagem holística.

A superação é um dos pilares da dialética de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Ela não significa simplesmente destruir, anular ou abandonar uma ideia ou situação anterior, mas sim um processo triplo de negar, conservar e elevar.

Nesse sentido, “superar” não significa descartar Marx e Keynes. Significa sim integrá-los em uma arquitetura mais ampla. Trata-se de uma síntese evolutiva da Economia Política sob o paradigma da complexidade.

O realmente distinto dessa Nova Ciência Econômica não é apenas o método transdisciplinar, mas o abandono do equilíbrio como centro, a centralidade da dinâmica histórica, o reconhecimento da disputa de poder e do conflito distributivo, a integração entre micro comportamento e macroestrutura e a modelagem por sistema complexo. Este emerge das interações entre seus múltiplos componentes.

Se a Teoria Alternativa da Moeda, organizada por mim na tese de Livre-Docência, defendida em 1994, a partir da história do pensamento econômico, já destaca a moeda como relação social dinâmica e condicionada estruturalmente, ela é candidata natural a integrar esse paradigma. Mas este será um tema para novo artigo de divulgação da complexidade com simplicidade.

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda

 

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