Fernando
Nogueira da Costa: Alavancagem financeira
A
alavancagem financeira do capital próprio de acionistas globais é hoje uma
decisão estratégica central nas grandes corporações. Mas seu papel sistêmico é
ambivalente, porque pode expandir a capacidade produtiva e integrar cadeias
globais ou, sob certas condições, intensificar fragilidades financeiras e
deslocar renda para o circuito financeiro.
Eleva a
economia de escala, isto é, há uma redução do custo médio por unidade produzida
enquanto o volume total de produção aumenta. Ela ocorre porque os custos fixos
(como aluguel e maquinário) são diluídos entre um número maior de produtos,
aumentando a eficiência operacional e reduzindo os custos médios.
O
núcleo da decisão diz respeito ao diferencial entre o retorno operacional e o
custo da dívida. A lógica é simples: se a rentabilidade operacional da produção
supera o custo médio da dívida (despesas financeiras com empréstimos), então o
retorno sobre o patrimônio líquido (o capital próprio investido ou o valor
remanescente aos sócios/acionistas após quitar todas as dívidas) cresce com o
uso de capital de terceiros.
Esse
mecanismo, analisado também por Hyman Minsky, é inerente ao capitalismo
moderno: a expansão ocorre via crédito. A empresa escolhe um grau de
alavancagem capaz de maximizar o retorno ao acionista, dado o risco percebido.
Portanto,
não é uma decisão secundária. É parte da estratégia central de crescimento e de
valorização acionária em escala global.
Ela se
tornou ainda mais relevante no capitalismo contemporâneo, por causa de três
transformações estruturais:
1. mercados de capitais profundos e
globalizados;
2. investidores institucionais dominantes
(fundos de pensão, fundos soberanos, ETFs);
3. integração entre financiamento bancário e
mercado de capitais.
Empresas
competem globalmente por capital. O grau de alavancagem é uma sinalização de
eficiência financeira ao usar a emissão primária de ações (IPO - Initial Public
Offering) ou as ofertas subsequentes (follow-on) para acumular capital próprio
e, então, somar capital de terceiros tomado por empréstimos.
É
variável explicativa central do sistema econômico-financeiro complexo por três
razões. A primeira é a articulação intersetorial. A decisão de alavancar
conecta trabalhadores, via investimento gerador de emprego; governo, por meio
da expansão da base tributária; bancos, pela elevação da demanda por crédito; e
acionistas estrangeiros, pela expectativa de dividendos e valorização das
ações.
Ela
ativa simultaneamente vários fluxos do sistema SFC (Stock-Flow Consistent) ou
Consistência Estoque-Fluxo: formação de capital próprio – crédito bancário –
geração de renda – arrecadação fiscal – remessas de lucro ao exterior.
Se
bem-sucedida, a alavancagem amplia a produção e, via canal distributivo, eleva
a massa salarial, aumenta o lucro antes de juros e gera mais tributos. Mas, se
o custo financeiro sobe ou a demanda pelos produtos cai, proporcionalmente mais
renda se desloca para credores; posteriormente, o investimento é comprimido e o
emprego é reduzido. A mesma variável capaz de impulsionar o crescimento pode,
depois, amplificar a instabilidade financeira.
Em
conexão com o regime macroeconômico, a viabilidade da alavancagem depende de a
taxa de juros estar estruturalmente baixa, de estabilidade cambial, de
previsibilidade fiscal e de acesso a financiamento externo mais barato. Em
economias com juros estruturalmente elevados, o limiar de rentabilidade exigido
torna-se mais alto, restringindo o investimento produtivo, caso não se recorra
ao endividamento externo.
A
financeirização produtiva acontece quando o crédito financia a ampliação da
capacidade produtiva, incorpora tecnologia, integra cadeias globais e aumenta a
produtividade. Nesse caso, há sinergia entre capital financeiro e capital
produtivo.
A
financeirização parasitária ocorre quando o endividamento financia recompra de
ações para distribuição concentrada de dividendos e eleva a fragilidade
financeira sem ampliar a capacidade produtiva. A diferença não está no uso da
dívida em si, mas no destino do capital.
Quanto
à relação com a desindustrialização, a alavancagem visa fortalecer empresas
industriais competitivas internacionalmente, viabilizar economias de escala e
financiar inovação. Mas, sob câmbio apreciado cronicamente ou juros elevados,
empresas industriais enfrentam custos financeiros maiores, competição externa
desvantajosa e consequente migração de capital para o sistema financeiro.
Portanto,
a alavancagem não combate automaticamente a desindustrialização. Ela precisa de
um ambiente macroeconômico coerente.
Na
alocação global de capital, investidores institucionais globais buscam retorno
ajustado ao risco, governança e liquidez. Empresas alavancadas de forma
eficiente elevam o retorno sobre o patrimônio, atraem capital estrangeiro e
ampliam a integração internacional. Isso intensifica a participação acionária
transnacional, a interdependência financeira e a sensibilidade a ciclos
globais.
Quanto
à implicação sistêmica, a alavancagem é mecanismo de expansão, amplificador de
ciclos, ponte entre setores e canal de transmissão internacional. Ela conecta o
circuito produtivo ao circuito financeiro.
Quando
coordenada com juros moderados, estabilidade cambial e política industrial
consistente, sustenta o crescimento no longo prazo. Quando desconectada dessas
condições, eleva a fragilidade financeira, concentra renda e amplia a
volatilidade.
Em
síntese, a alavancagem financeira da rentabilidade do capital próprio com uso
de capital de terceiros é, sim, uma variável explicativa central do capitalismo
contemporâneo. Mas seu efeito sistêmico depende do regime macroeconômico, da
estrutura produtiva, da orientação estratégica das empresas e da regulação
financeira. Pode ser motor de expansão produtiva ou vetor de instabilidade.
A
questão decisiva não é “usar ou não usar alavancagem”, mas em qual arquitetura
macroinstitucional ela opera.
¨
Nova ciência econômica
Uma
experiência pessoal lamentável, na minha carreira acadêmica, tive no ano
passado, quando escrevi um livro sob o título “Introdução à Nova Ciência
Econômica através de Fábulas e Crônicas” e o enviei para a Editora da Unicamp.
Recebi um parecer anônimo de um colega ciumento no qual perguntava, em síntese,
“quem é você, mero escritor em
português, para a elaboração de uma Nova Ciência Econômica?!”.
Não
tive a oportunidade de lhe explicar ela ser resultante de múltiplas leituras,
desde a última década, da literatura econômica de vanguarda, publicada em
inglês e outras línguas. Não acho o falante em inglês ter o monopólio da
inteligência… e a escrevi em português, de maneira bem coloquial, para divulgar
para um público mais amplo. Felizmente, um parecerista da Edusp recomendou a
publicação do livro em breve.
Uma
Nova Ciência Econômica adota a transdisciplinaridade por emergir das interações
entre Economia Comportamental ou Psicologia Econômica, Economia
Institucionalista ou Sociologia Econômica, Economia Evolucionária ou Biologia
Darwinista, Economia da Complexidade ou Econofísica.
Ela
supera, mantendo o ainda válido do marxismo do século XIX e do keynesianismo de
cerca de um século atrás. Muitas de suas proposições são utilizadas nesse
método transdisciplinar com uma visão holística e sistêmica da complexidade da
realidade dinâmica contemporânea.
A
hipótese de uma “Nova Ciência Econômica” transdisciplinar não é extravagante —
ela estava em formação difusa desde a segunda metade do século passado. A
questão relevante não é se ela substitui marxismo ou keynesianismo, mas como
reorganiza o campo científico ao integrar diferentes níveis explicativos.
A
emergência transdisciplinar já está em curso pelo acesso mais fácil a múltiplos
livros e métodos científicos, via internet, e por ser capaz de reunir diversas
contracorrentes de pensamento. Desloca, então, o núcleo duro da Ciência
Econômica tradicional.
Por
exemplo, a Economia Comportamental, associada a Daniel Kahneman e Richard
Thaler, entre outros autores, introduz
investigações sobre racionalidade limitada e vieses heurísticos nas tomadas de
decisões. Ela rompe com o agente maximizador plenamente racional do
neoclassicismo.
Uma
nova Economia Institucional, com autores como Douglass North e Oliver
Williamson, enfatiza regras formais e informais, custos de transação e
estruturas de governança. A Economia passa a depender de instituições
historicamente formadas.
A
Economia Evolucionária, inspirada em Joseph Schumpeter e desenvolvida por
Richard Nelson e Sidney Winter, trata de inovação e seleção como processos
dinâmicos. Com empreendimentos, destruição criativa e crédito farto, a economia
deixa de ser vista como estivesse em equilíbrio e passa a ser processo
adaptativo.
Economia
da Complexidade foi desenvolvida em centros como o Santa Fe Institute. Modela
sistemas econômicos como redes não lineares com emergência e feedback positivo
ou negativo. É conhecida também como Econofísica.
Essas
correntes desmontaram os pilares do modelo estático de equilíbrio geral. A
transdisciplinaridade não é projeto futuro, porque já é uma tendência em
consolidação.
Essa
Nova Ciência Econômica (NCE) transdisciplinar integra quatro níveis: primeiro,
o Micro psicológico, ou seja, decisão sob incerteza e emoção; segundo, o Meso
institucional com regras, normas, estruturas organizacionais; terceiro, o
Macroestrutural, onde se foca distribuição, poder, conflito; o quarto, Dinâmica
Sistêmica, trata de redes, não linearidade e emergência.
Ela
abandona o agente isolado, o equilíbrio como estado natural e a neutralidade
institucional. Adota sistemas adaptativos complexos, causalidade circular e
múltiplos níveis de análise. Nesse sentido, está mais próxima de uma Ciência de
Sistemas em vez de uma Física socioeconômica.
Um
pós-keynesiano, temeroso de sua superação, apelou: “Enquanto vocês se divertem
com metáforas da Física, nós estamos ocupados, construindo a ponte entre a
teoria de Keynes e os problemas reais da indústria brasileira. A Faria Lima
agradece quando a heterodoxia se perde em ‘econofísicas’ e ignora a dinâmica da
taxa de câmbio real e da produtividade”. É lamentável a vaidade academista…
Quando
digo ela supera (no sentido dialético hegeliano) o marxismo e o keynesianismo,
mantendo seus conceitos válidos, é preciso cuidado conceitual. Sem dúvida, Karl
Marx já tinha visão estrutural e sistêmica ao tratar o capitalismo como relação
social, dinâmica histórica, conflito distributivo e reprodução ampliada.
Faltava, no marxismo contemporâneo, a formalização em termos de sistemas
complexos e integração com psicologia ou biologia evolutiva.
Logo,
uma abordagem transdisciplinar não elimina Marx. Ela reformula sua contribuição
em linguagem sistêmica contemporânea.
No caso
do pós-keynesianismo, é notório os herdeiros de John Maynard Keynes terem
incorporado incerteza radical, expectativas, instabilidade financeira. São,
nesse sentido, precursores da complexidade macroeconômica. Mas uma ciência
transdisciplinar expande sua teoria ao integrar redes financeiras,
comportamento coletivo e dinâmica adaptativa a cada nova realidade.
Portanto,
a NCE não elimina essas tradições fundamentais na formação adequada de um bom
economista. Ela as reinterpreta. Marx analisa estrutura e conflito. Keynes
analisa instabilidade e incerteza. Complexidade analisa variações dinâmicas ao
longo do tempo. Economia Comportamental analisa microfundamentos não racionais.
Institucionalismo analisa mediação histórica por instituições. Economia
Evolucionária analisa o método darwinista, aplicado à economia, ou seja, a
adequação dos agentes econômicos ao ambiente mutável.
Há
risco de “ecletismo superficial”. Transdisciplinaridade não pode significar só
soma acrítica de teorias, justaposição de conceitos e perda de núcleo
explicativo.
Para
constituir “Nova Ciência”, é preciso uma ontologia (estudo das propriedades
mais gerais do ser) com resposta clara à questão: o que é sistema econômico?
Precisa, igualmente, um princípio organizador, por exemplo, reprodução e
transformação sistêmica. Precisa de uma estrutura formal compatível com não
linearidade. Por fim, precisa ter capacidade preditiva condicional. Sem isso,
vira mera retórica holística sem adotar os métodos top-down (de cima para
baixo) e bottom-up (de baixo para cima). A vida é difícil, mas temos de lidar
com ela…
Uma
abordagem sistêmica possível é uma formulação integradora. A atividade
econômica passa a ser vista como um sistema adaptativo complexo, composto por
agentes cognitivamente limitados, inseridos em instituições historicamente
formadas, interagindo por meio de relações monetárias e financeiras, capazes de
gerarem dinâmicas emergentes de crescimento, crise e transformação estrutural.
Nesse
enquadramento, mercado não é mecanismo de equilíbrio, Estado não é exógeno,
moeda não é neutra, expectativas não são racionais no sentido absoluto. Crises
não são choques externos, mas propriedades emergentes. Isso tudo é
profundamente compatível com uma abordagem holística.
A
superação é um dos pilares da dialética de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Ela
não significa simplesmente destruir, anular ou abandonar uma ideia ou situação
anterior, mas sim um processo triplo de negar, conservar e elevar.
Nesse
sentido, “superar” não significa descartar Marx e Keynes. Significa sim
integrá-los em uma arquitetura mais ampla. Trata-se de uma síntese evolutiva da
Economia Política sob o paradigma da complexidade.
O
realmente distinto dessa Nova Ciência Econômica não é apenas o método
transdisciplinar, mas o abandono do equilíbrio como centro, a centralidade da
dinâmica histórica, o reconhecimento da disputa de poder e do conflito
distributivo, a integração entre micro comportamento e macroestrutura e a
modelagem por sistema complexo. Este emerge das interações entre seus múltiplos
componentes.
Se a
Teoria Alternativa da Moeda, organizada por mim na tese de Livre-Docência,
defendida em 1994, a partir da história do pensamento econômico, já destaca a
moeda como relação social dinâmica e condicionada estruturalmente, ela é
candidata natural a integrar esse paradigma. Mas este será um tema para novo
artigo de divulgação da complexidade com simplicidade.
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda

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