Acordo
entre UE e Mercosul escancara o colonialismo nos tratados comerciais
Após 25
anos de negociação, o dia 17 de janeiro de 2026 foi marcado pelo acordo
econômico estabelecido entre a União Europeia e o Mercosul. Apesar da maior
repercussão em 2026, desde 1999 ambos os blocos vêm planejando um acordo de
livre comércio. Os dois deram ênfase em um comunicado que, juntos, estão em um
intenso processo de negociações com objetivo de regular o tratado de acordo com
os desafios contemporâneos em níveis tanto nacionais quanto globais.
A fim
de aumentar a previsibilidade econômica, uma das propostas do tratado é a
eliminação de tarifas de cerca de 91% dos produtos provenientes da União
Europeia em até 15 anos; e 95% dos bens oriundos do Mercosul também serão
isentos de impostos em até 12 anos.
Além
disso, é prezada a sustentabilidade, que se tornou regra de mercado. Desse
modo, o Acordo de Paris foi vinculado nesse tratado, de modo que ambos blocos
devem cumprir suas metas climáticas; a total transparência sobre as origens dos
produtos exportados para que haja garantia de que nenhum produto seja oriundo
de uma área desmatada ilegalmente ou que seja fruto de trabalho escravo ou
infantil. Por fim, a cooperação permitirá que o Cone Sul usufrua de tecnologias
verdes que impactam menos o meio ambiente.
O
acordo beneficia a Europa ao eliminar as tarifas sobre as exportações
estratégicas (automóveis, equipamentos industriais, itens farmacêuticos etc.),
diversificar o fornecimento de matérias-primas críticas (lítio e níquel, por
exemplo) e fortalecer laços geopolíticos estratégicos.
Enquanto
isso, os países do Mercosul e seus respectivos veículos de informação julgaram
o acordo como algo benéfico e positivo à população latina. O que mais está
sendo comentado é a redução nos preços com a isenção de impostos dos vinhos
(que possuem 35% de tarifas), dos chocolates premium (que possuem 20% de taxa)
e dos queijos e dos laticínios (com 28%). E na exportação, o agronegócio é o
setor com todo destaque, uma vez que vai ampliar um mercado consumidor e que,
em certas épocas do ano, carece de alimentos primários (frutas, carne, frango,
soja e café, por exemplo).
No
entanto, o que, em primeira mão, aparentou ser uma vantagem escancarada para os
países latino-americanos, poderá ocasionar futuras desvantagens e relações de
dependência. Para chegar a essa reflexão, este texto irá apresentar: a) os
blocos econômicos da União Europeia e do Mercosul; b) desafios para a Europa; e
c) desafios para o Mercosul e dependência industrial.
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Formação da União Europeia
No
século XX, o cenário de guerra marcou a Europa por décadas; diante disso, os
países do continente visavam a paz duradoura a partir de 1945, com ideia de
tornar a guerra tanto impensável quanto materialmente impossível com a
integração de indústrias essenciais.
Dentro
desse contexto, as declarações do ministro da França, Robert Schuman, em 1950,
possibilitaram que as produções de carvão e de aço tanto do território francês,
quanto da parte alemã fossem administradas por uma autoridade comum, e que
seria aberta aos outros países. Por conseguinte, em 1951, foi estabelecida a
Comunidade do Carvão e do Aço (CECA), formada pelos países pioneiros: França,
Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Esse foi o primeiro passo para
o que futuramente seria denominado União Europeia, estabelecendo a cooperação e
a transferência de soberania.
Devido
ao sucesso do CECA, os países envolvidos decidiram que essa integração deveria
ir além da indústria e incluir todo o mercado. Dessa forma, foi criada a CEE,
Comunidade Econômica Europeia, com enfoque na livre circulação de mercadorias,
trabalhadores e serviços.
Os
resultados positivos da Comunidade levaram a pensar sobre uma moeda única, o
euro. A partir do Tratado de Maastricht (1992), foi estabelecida a estrutura
econômica de Roma e foram adicionados os pilares da política externa, cidadania
europeia dando origem ao que é conhecido como União Europeia (1993).
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Surgimento do Mercosul
Entre
os anos de 1980 e 1990, a América Latina foi marcada por um processo de
transição tanto na política quanto na economia. Após o fim das ditaduras
militares na região chamada Cone Sul, a cooperação econômica foi vista como uma
oportunidade de aumentar a força das instituições baseadas na democracia que
recentemente estava se restabelecendo.
Além
disso, esse período foi marcado pela globalização, momento em que houve a
consolidação dos blocos da União Europeia e do NAFTA (Acordo de Livre Comércio
da América do Norte). Diante desse cenário, o Cone Sul reconheceu que para
impulsionar a economia e competir no cenário global seria necessária uma
integração entre os países e assim, construir um mercado consumidor mais
robusto.
Tais
contextos foram fundamentais para a origem do Mercado Comum do Sul, mais
conhecido como Mercosul, que consiste em uma integração regional que teve
origem a partir da assinatura do Tratado de Assunção (1991), que coincidiu com
a política neoliberal de abertura do comércio e de menores tarifas aos países
integrantes do bloco.
De
maneira inicial, o bloco possuía Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai como
países fundadores. São países associados do Mercosul: Bolívia, Chile, Colômbia,
Peru e Equador.
A
palavra “dinamismo” define esse bloco, que possui como objetivo principal,
desde sua criação, proporcionar um espaço comum entre países sul-americanos
envolvidos e gerar oportunidades dentro do comércio e investimentos diante à
integração competitiva das economias nacionais ao mercado internacional.
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Desvantagens para a Europa no acordo entre Mercosul e União Europeia
Países
de destaque econômico como a industrializada Alemanha e a dinâmica Espanha
posicionam-se favoráveis ao acordo, avaliando que o pacto amplia o acesso de
suas indústrias e empresas de serviços a um mercado de mais de 280 milhões de
consumidores no Mercosul.
Entretanto,
a França, a Grécia, a Hungria, a Irlanda e a Polônia, por meio da pressão de
seus agricultores, estão se posicionando desfavoráveis ao início das trocas
comerciais. O acordo está suspenso e não entrou ainda em vigor. A grande
crítica entre os agricultores europeus é que esse trâmite possibilita a
abertura do mercado para uma concorrência desleal, pois os produtos
sul-americanos tendem a ser mais baratos em razão de menos custos trabalhistas
e ambientais. O mês de janeiro de 2026 teve falas de líderes europeus e muitas
manifestações populares contra a assinatura do acordo.
Na
Comunidade Autônoma da Galícia (Espanha), houve manifestações do Sindicato
Labrego Galego, do Agromuralla e dos Gandeiros Galegos de Suprema alertando
sobre o impacto que o acordo terá no setor primário.
A
balança comercial, hoje, não está equilibrada na Galiza, registrando déficit na
relação comercial com o Mercosul. Os dados recolhidos pelo Instituto Galego de
Estatística mostram que a comunidade importou mais do dobro do que exportou
para Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai nos 10 primeiros meses de 2025. A
tendência é aumentar o déficit com o acordo.
Já na
França, os produtores temem a perda de competitividade dentro do bloco e o
aumento das importações agrícolas. O presidente Emmanuel Macron afirmou que a
França está contra o tratado. Os agricultores bloquearam estradas de acesso a
Paris e a pontos turísticos, como o Arco do Triunfo, em protesto contra o
pacto.
Na
Hungria, o ministro da Agricultura, István Nagy, afirmou que Bruxelas traiu os
agricultores europeus ao assinar com os países da América do Sul e que Ursula
von der Leyen “cavou a sepultura da produção alimentar europeia”. Na Grécia, os
protestos assumiram caráter ainda mais intenso. Agricultores fizeram bloqueios
nas principais rodovias, entroncamentos e pedágios do país.
Produtores
rurais da Polônia realizaram uma manifestação em Varsóvia contra o acordo
comercial entre a União Europeia e o Mercosul. O protesto ocorreu na praça Plac
Defilad, no centro da capital polonesa. O presidente Karol Nawrocki,
encontrou-se com representantes dos agricultores para entender as
reivindicações. Na Bélgica, agricultores estão sendo investigados pelo
Ministério Público Belga após despejar toneladas de batatas na praça principal
de Bruxelas como protesto. Segundo os agricultores, o tratado abre espaço para
importações que não obedecem aos mesmos padrões exigidos da agricultura
europeia, o que criaria uma concorrência desleal.
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As desvantagens para o Mercosul
Não
bastassem as desvantagens comerciais e de desenvolvimento, ainda há cláusulas
de protecionismo europeu. Foram esquematizados “freios” caso haja alguma crise
ou surtos inesperados em relação à importação. O bloco europeu pode suspender
de modo temporário as isenções tarifárias caso as importações de um produto do
setor primário do Mercosul cresçam mais de 5% em relação à média dos três
últimos anos, com o objetivo de proteger a produção local. Ainda que o bloco
sul-americano tenha desenvolvido mecanismos caso sua indústria de veículos seja
afetada pela produção oriunda da Europa, há mais riscos para os integrantes do
Mercosul.
A
partir do momento em que o bloco sul-americano é incentivado a produzir
produtos agrícolas (carne, soja, leguminosas etc.), ocorre a defasagem em
relação aos investimentos em tecnologia voltados à industrialização desses
países. Enquanto o Cone Sul torna-se cada vez mais “celeiro do mundo”, que
consiste em baixo valor agregado, a União Europeia consolida-se como fabricante
de tecnologias de alto valor agregado. Assim, o Mercosul vira dependente da
oscilação de preço das commodities dentro do mercado internacional, e também da
importação de tecnologia vinda da Europa para que assim, consiga manter sua
produtividade.
Os
países latino-americanos sofrerão com o modelo de exportação de
matérias-primas. Esse acordo aprofunda o modelo “colonial” de venda de soja e
carne e de compra de produtos manufaturados, limitando o seu próprio
desenvolvimento industrial. Desse modo, o agronegócio poderia ampliar seu
mercado, o que não seria uma vantagem tão grande para a população desses
países. No Brasil, por exemplo, o agro está nas mãos de poucas famílias ricas e
que recebem altos incentivos do governo federal, além de gerar poucos empregos,
muitos deles precarizados.
É no
desenvolvimento industrial que está o grande risco. Os setores produtivos
poderão enfrentar o encerramento de indústrias devido à entrada de produtos
importados mais baratos ou de tecnologia superior. A adoção do acordo reduz a
capacidade do Estado de implementar políticas de proteção e de desenvolvimento
industrial local através de concursos públicos ou subsídios, ao ficar sujeito a
regulamentações estritas de livre comércio. Na Argentina, o presidente Javier
Milei reconheceu que serão perdidos empregos em certos setores industriais
devido à realocação econômica devido à abertura das importações.
O Cone
Sul seguirá sendo um celeiro global, preso no setor primário, negligenciando
seu desenvolvimento industrial, distribuindo menos renda e sacramentando sua
função de colônia num acordo que favorece os que precisam escoar seus produtos
industriais para parceiros ainda não dominados pelo avanço chinês.
A
reflexão final explicita a distância abissal entre os dois blocos no jogo
econômico na era da globalização. Enquanto a Europa goza de sua posição no
centro do capitalismo, o Mercosul encontra-se na periferia desse tabuleiro, em
que o processo de desindustrialização ocorre há décadas para alimentar a lógica
do neoliberalismo global. Dito de outro modo, a União Europeia segue
desenvolvendo suas indústrias, gerando produtos com alto valor agregado ao
importar matéria-prima do restante do globo a partir de acordos de explícita
exploração e zero transferência de tecnologia. Esse alto poder de gerar riqueza
tem a possibilidade de deslocar sua mão-de-obra do setor primário para as zonas
urbanas e tecnológicas, o que garantiria melhor distribuição de renda por meio
de trabalhos no segundo e no terceiro setores. Na era das transnacionais, os
trabalhadores europeus poderiam assumir altos postos nas fábricas, nas
indústrias e nos escritórios localizados em países com rica matéria-prima na
periferia capitalista.
Já o
Cone Sul, com as crescentes privatizações de suas poucas empresas com potencial
econômico pelo mercado burguês local e principalmente pelo capital estrangeiro,
vê-se cada vez mais presa ao setor primário e ao terceiro setor em troca de
trabalhos precarizados e com baixos salários. Acordos assim são um acinte à
inteligência do povo, pois só favorece à classe dominante que não depende do
trabalho para sobreviver. A cada década, os trabalhos ficam mais escassos, com
menos renda às famílias e com crescente insegurança nos contratos laborais. O
recente “índice histórico” brasileiro de desemprego mais baixo está
condicionado à maquiagem da desinformação, pois cerca de 50% desses empregos
são informais e não têm o respaldo da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
Sem indústria forte e crescente privatização, o acordo com a União Europeia é
mais um prego no caixão do Mercosul para o profundo sono da colonização no
capitalismo tardio.
O
Brasil como membro fundador do Brics poderia encontrar acordos menos
humilhantes dentro da esperança do sul global. Enquanto existir uma sociedade
que se interessa mais por espantalhos e não pela materialidade histórica das
condições de vida do país, seguiremos tendo como líderes pseudoprofetas,
militares frustrados e famosos da internet legislando a favor de uma classe
dominante que odeia o próprio país e ajuda na escravização do próprio povo pelo
capital estrangeiro. O capitalismo está chegando no ponto crítico de acumulação
brutal e já não oferece soluções para 99% da população mundial. Há que o
superar, mas para isso, temos de ouvir quem realmente sabe ler as entrelinhas
dos mecanismos de poder e tem preparo intelectual para isso.
Fonte:
Por Victor Hugo da Silva Vasconcellos e Giulia Fernandes Binelli, no Le Monde

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