José
Álvaro de Lima Cardoso: A preparação para um conflito mundial de grande
envergadura
Os
sinais de que o imperialismo resolveu dobrar a aposta na guerra são vários e
aparecem em todas as regiões. Na América Latina, intensificaram a política de
golpes de Estado. Quando os golpes não dão certo, enviam diretamente seus
porta-aviões para as proximidades do país rebelde, como estamos assistindo na
agressão à Venezuela, incluindo o sequestro do presidente eleito. Ação que, de
resto, significa uma agressão a toda a América do Sul, além de colocar a região
em grave risco. A posição do Brasil, aliás, em relação ao sequestro do
presidente do país vizinho mostra como, em política internacional, o governo
perdeu totalmente o rumo.
Nesse
momento, o que o imperialismo pretende, no terreno internacional, é construir
as condições para um confronto de grandes proporções. Os EUA poderiam fazer um
acordo, por exemplo, com Rússia e China, de cooperação internacional, nas
várias áreas. Ambos os países desejariam muito isso, desde que em condições
soberanas, pois não querem a guerra. Mas os EUA não querem fazer qualquer tipo
de concessão, porque isso iria fortalecer seus inimigos e, dada a gravidade da
crise econômica, seria um perigo mortal para a própria existência do
imperialismo.
Na
Europa, o grupo de fanáticos que clama dia e noite por uma guerra — sem dispor
de condições para travá-la — vem alertando que os russos, após vencerem a
Ucrânia, irão atacar todos os países do continente. Comentaristas de TV,
grandes jornais, generais que nunca entraram em combate ficam repetindo o tempo
todo que é uma questão de tempo para os russos invadirem os principais países
da Europa. Curiosamente, não há nenhuma movimentação da Rússia nesse sentido, e
as autoridades do país nunca falaram qualquer coisa relacionada ao assunto;
muito pelo contrário. O problema é que há censura em relação ao tema, ou seja,
as vozes que falam a verdade foram “canceladas” dos grandes meios de
comunicação. A censura às vozes dissonantes faz parte do processo de preparação
para um confronto maior.
É
notável que são as “democracias” que estão à frente da política de preparação
para a guerra: EUA e Europa Ocidental. A crescente agressividade militar dos
principais países imperialistas no mundo não tem nada a ver com uma suposta
“defesa da democracia”. A base concreta dessa postura é a grave crise econômica
capitalista. A erosão econômica levou a uma crise política e social no mundo
capitalista, que é praticamente uma situação sem saída. A guerra e o aumento da
repressão, em todos os países “democráticos”, acabam sendo a saída para o
problema.
É um
momento bastante singular da história. O imperialismo moderno que está em crise
é o maior poder já existente. Não houve, na história do mundo, outro poderio
dessa magnitude. O imperialismo, como se sabe, é um consórcio mundial,
encabeçado pelos EUA, mas formado por Inglaterra, França, Japão, Alemanha etc.,
além de um imperialismo de segunda linha formado por países que têm economias
menos destacadas. Os impérios anteriores não tiveram o nível de domínio e
hegemonia que tem o atual, muito menos os impérios mais antigos, como o Romano
ou o Otomano, na medida em que não dispunham dos recursos sofisticados que tem
o imperialismo moderno. Todos os impérios fracassaram porque, em algum momento,
caíram em um parasitismo econômico muito grande. Vivemos hoje, inclusive, como
se sabe, uma etapa de financeirização da economia mundial, que é um parasitismo
típico.
Atualmente,
a dívida bruta total dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 38,4
trilhões. Para se ter uma ideia da velocidade de crescimento, o país atingiu a
marca de US$ 38 trilhões em outubro de 2025, o que representa um dos aumentos
mais rápidos fora de períodos de pandemia. No terceiro trimestre de 2025, a
dívida pública total representava aproximadamente 121% do Produto Interno Bruto
(PIB) norte-americano. Isso significa que a dívida do país é significativamente
maior do que tudo o que ele produz em um ano.
Ao
mesmo tempo, seu principal concorrente econômico, a China, lidera há algumas
décadas o crescimento da economia mundial e se tornou, em boa medida, a
“fábrica do mundo”. A China, como se sabe, há décadas tem um ritmo de
crescimento bastante superior ao dos EUA, e o valor de seu PIB tende a superar
o norte-americano em alguns anos. Em Paridade de Poder de Compra, inclusive, já
superou. A China está muito longe, ainda, de ter o PIB per capita dos EUA,
porque abriga uma população de mais de 1,4 bilhão de pessoas, contra 333
milhões nos EUA. Como o PIB per capita é uma divisão do PIB total pela
população, no caso da China o produto tem que ser dividido por um número muito
maior de pessoas.
Os EUA,
que são uma verdadeira máquina de guerra, aumentam sua agressividade a cada
novo fracasso, o que desmonta a ilusão de alguns de que esse país aceitaria a
perda da hegemonia sem brigar. Para assegurar seu domínio sobre o planeta, o
país mantém, segundo o Pentágono, 865 bases militares em cerca de 130 países —
o que representa 95% de todas as bases militares no exterior. Manter o poder
custa muito dinheiro, daí também a dívida colossal dos EUA. Por isso, o país
mantém uma política parasitária sobre os países subdesenvolvidos. É preciso
gerar muitos recursos para sustentar a máquina de dominação, incluindo a
máquina de guerra.
Enquanto
os EUA, sob o pretexto do “combate ao terrorismo e às drogas”, mantêm 95% das
bases militares em todo o planeta, o conjunto das demais potências militares
fica com o restante. Esse é um indicador que fala por si. Claro que o conceito
moderno de imperialismo está relacionado à esfera econômica, mas os gastos com
defesa (no caso dos EUA, gastos com ataques) também são um indicador dessa
condição, incluindo as despesas com bases militares em todo o mundo. Os
verdadeiros objetivos dos EUA com as bases militares são o domínio mundial das
fontes de energia fóssil e outros recursos estratégicos, o controle das rotas
marítimas e terrestres e a ampliação de suas áreas de controle ou influência
geopolítica.
Apesar
de todo esse poderio militar, que custa caríssimo, já há algumas décadas os EUA
têm conhecido derrotas. Se pegarmos um episódio recente, está muito viva na
memória a retirada vergonhosa dos norte-americanos do Afeganistão. Foram
derrotados por um grupo muito mal armado, o Talibã, sem dinheiro, mas
firmemente decidido a derrotar os norte-americanos, que ficaram 20 anos no país
e não fizeram nada de bom para sua população. A partir do acontecimento no
Afeganistão, principalmente, o imperialismo entrou em uma espécie de rota de
crises políticas.
Neste
momento, estamos assistindo também à operação militar russa na Ucrânia, que
levou o império a uma encalacrada, porque a derrota é uma questão de tempo.
Essa investida significou um tiro pela culatra, pois, ao final da guerra, não
só a economia russa não foi destruída como terá sido ampliado o poder
geopolítico desse país. Aliás, com todo o bloqueio econômico que impuseram à
Rússia, sua economia cresceu 3,6% em 2024, contra 2,5% dos EUA. Não há ainda
números definitivos, mas, no ano passado, novamente a economia russa cresceu
acima da norte-americana. Ou seja, apesar da dureza do bloqueio, que visava
desorganizar a economia russa, ocorreu o contrário. A Rússia redirecionou sua
produção de petróleo e gás para a China e outros países e vem conseguindo crescer
acima da média mundial.
São
grandes as possibilidades de que o mundo ingresse em uma etapa mais profunda
desse processo de crise do imperialismo como um todo, não só nos EUA, que são a
cabeça do império, mas também na Europa e no Japão. Por exemplo, há neste
momento um debate sobre a desindustrialização da economia europeia, com maior
força, inclusive, na Alemanha, que é a principal economia do continente. Esse
debate foi intensificado a partir do problema energético trazido pela guerra na
Ucrânia. Historicamente, a industrialização alemã e a de outros países da
Europa se basearam muito na oferta de energia barata vinda da Rússia. Com a
guerra e o boicote econômico à Rússia, a contrapartida foi a perda dessa fonte
barata de petróleo e gás. Há empresas fechando na Alemanha em função do alto
custo da energia, que é 2,7 vezes mais caro que a média internacional. Ademais,
a Alemanha tem custos de produção, além do de energia, acima dos de países
concorrentes. Se a economia mais eficiente e o país mais industrializado da
Europa atravessam essa crise, nos demais países do continente a situação é
ainda mais grave.
A
gravidade da crise do imperialismo traz o risco nada desprezível, conforme
mencionado, de os conflitos escalarem, conduzindo a uma conflagração de nível
mundial. Os EUA aumentam sua agressividade a cada novo insucesso. O orçamento
militar do país para este ano é de US$ 901 bilhões, o maior da história. A
Rússia, que está impondo uma inevitável derrota aos EUA na Ucrânia, tem um
orçamento de defesa de US$ 160 bilhões, 17,76% do orçamento do primeiro. O
orçamento de guerra dos EUA é maior do que o acumulado dos dez orçamentos
seguintes no ranking.
A saída
que a burguesia está preparando para o Brasil é muito parecida com a que tem
sido encaminhada nos países imperialistas. O golpe de Estado de 2016 e os
governos de direita que o sucederam, Temer e Bolsonaro, não resolveram os
problemas do Brasil. Pelo contrário, colocaram-nos em estágio muito mais grave.
O problema de fundo é a crise econômica, que atinge o Brasil ainda mais
fortemente do que os países ricos, por ser um país atrasado. Na realidade, a
burguesia brasileira quer um desfecho econômico para o Brasil parecido com o
que está ocorrendo na Argentina, cujo governo luta decididamente para colocar a
nação de volta ao século XIX.
¨
A Corte e o Rei. Por Marcello Neri
O
jornal The New York Times classificou a decisão da Suprema Corte
dos EUA, que anulou grande parte das tarifas impostas sobre bens importados com
base na interpretação do Poder Executivo da Lei de Poderes
Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês) devido à
"falta de jurisdição sobre a matéria", como uma "vigorosa
demonstração de independência" do Presidente da Corte de Justiça J.
Roberts, autor do voto majoritário.
Segundo
o Tribunal, a intenção original dos Fundadores era claramente conferir
ao Congresso, ao Poder Legislativo e somente a ele, o poder de
impor impostos. Reiterando uma decisão anterior, o Tribunal também observou que
"as tarifas atuam diretamente sobre os importadores americanos para
arrecadar receita tributária para o Tesouro e são 'claramente parte do poder
tributário'" — que, de fato, pertence ao Congresso.
Na
verdade, as tarifas impostas
pelo presidente Trump funcionaram
exatamente como receita tributária (garantindo um retorno de aproximadamente 3
trilhões de dólares para os cofres sufocados do governo americano).
Diante
das interpretações do Governo durante a audiência, de que
a IEEPA concedia inerentemente ao Presidente o poder de impor tarifas
de qualquer valor por um período indefinido, o Tribunal enfatizou que tem sido
sua prática de longa data não aceitar uma leitura de textos estatutários
ambíguos como base para "delegações extraordinárias de poder
do Congresso".
Segundo
a decisão do Tribunal, essas interpretações "representam uma expansão
transformadora da autoridade do Presidente sobre a política tarifária".
A
necessidade de navegar pelo lento processo legislativo e, portanto, limitar o
poder jurisdicional presidencial, restringe-se, consequentemente, à questão das
tarifas. E, na decisão da Suprema Corte, após estabelecer o limite
constitucional para essa expansão indevida, ela também indica o caminho para
superá-la: "A Corte duvida que, no texto da IEEPA — e
somente na IEEPA —, o Congresso tenha ocultado uma delegação de seu
poder original de tributar dentro de seu poder cotidiano de regulamentar."
Trump,
aliás, anunciou imediatamente novas tarifas, e o governo está trabalhando para
encontrar o arcabouço legal que as coloque dentro do escopo de ação
do Poder Executivo. Seu desprezo pela Suprema Corte e
pelo Congresso também é evidente. Os juízes da maioria foram chamados
de "idiotas e subservientes" que "se curvariam a influências
estrangeiras".
Após a
decisão judicial trazer a questão das tarifas de volta
ao Congresso, Trump afirmou que não tinha intenção de seguir por
esse caminho. "Não preciso fazer isso, porque tenho o direito de impor
tarifas."
Embora
esta seja a primeira decisão da Suprema Corte durante o segundo
mandato de Trump que limita a expansão do poder executivo que o atual
presidente americano busca conceder a si mesmo, as opiniões do
Juiz Gorsuch (concordando) e do Juiz Thomas (discordando)
destacam a verdadeira questão constitucional em jogo. Ou seja, qual é o
verdadeiro alcance da separação de poderes na "democracia" americana?
Segundo
o Juiz Thomas, o Congresso detém poder
legislativo apenas em relação à "privação da vida, da liberdade e da
propriedade"; todas as questões legais que não abordem especificamente
essas áreas não devem ser consideradas questões legislativas, e "o
Congresso pode delegar ao Presidente, completa e irrevogavelmente, os poderes
constitucionalmente conferidos". Em uma passagem, ele equipara o
Presidente dos Estados Unidos ao Rei da Grã-Bretanha no que
diz respeito ao poder de impor tarifas sem qualquer limitação.
O
Juiz Gorsuch dedica a seção final de sua opinião a esse tema. Se as
coisas fossem como propõe o Juiz Thomas, então —
escreve Gorsuch — "o que faríamos com o texto
da Constituição? A Seção 1 do Artigo 1 atribui 'todo o poder legislativo
aqui conferido' ao Congresso e a ninguém mais."
E,
referindo-se ao trabalho dos primeiros Congressos dos Estados Unidos, para
os quais a questão das tarifas foi central, ele enfatiza que tudo o que se
relaciona à receita tributária e aos impostos é matéria legislativa que diz
respeito ao Congresso e somente ao Congresso. E que o Congresso não
tem o poder de ceder esse poder integralmente e sem limites claros ao
Presidente.
O
parecer de Gorsuch conclui com o que o NYT chamou de
"réquiem para o Congresso", demonstrando sua função constitucional e
senso de coesão nacional que agora parece ter sido esquecido e que não é mais
exercido.
Todas
as decisões importantes que afetam os direitos e responsabilidades do povo
americano passam pelo Congresso por um motivo. Sim, legislar pode ser
difícil e demorado. E sim, pode ser tentador ignorar o Congresso quando surge
alguma questão urgente. Mas a natureza deliberativa do processo legislativo foi
fundamental para a sua concepção. Através desse processo, a nação pode contar
com a sabedoria conjunta dos representantes eleitos pelo povo — e não apenas
com a de um partido ou de um indivíduo.
Aqui, a
deliberação modera os impulsos, e o compromisso canaliza as divergências para
soluções viáveis. E como as leis precisam de um amplo apoio para sobreviver ao
processo legislativo, elas tendem a perdurar, permitindo assim que as pessoas
comuns planejem suas vidas de maneiras que não são possíveis quando as regras
mudam a cada dia. Com tudo isso, o processo legislativo ajuda a garantir que
cada um de nós tenha participação nas leis que nos governam e no futuro da
nação. (...) Se a história serve de guia, as coisas mudarão, e chegará o dia em
que aqueles que agora estão descontentes com nossa decisão apreciarão o
processo legislativo como o bastião da liberdade que ele é.
Trump,
para usar o termo de Gorsuch, busca "ampliar" seu poder como
presidente dos Estados Unidos; e sua intolerância, por vezes beirando o
desprezo, pelo Congresso e pelo processo legislativo, reiterada
também nesta ocasião, é uma clara indicação disso — e do alto preço que a nação
e sua arquitetura constitucional estão pagando.
Com a
maioria republicana garantida tanto na Câmara dos
Representantes quanto no Senado, e com uma liderança partidária que
adotou uma estratégia processual que impede qualquer
debate, Trump não teria dificuldade em garantir tudo o que deseja por
meio do processo legislativo. Mas ele não o faz porque, segundo sua visão da
presidência do país, ele tem o direito de não fazê-lo.
Não,
porque o tempo necessário para deliberação e para o processo legislativo não é
adequado ao declínio digital do poder que está a tomar conta da atualidade –
transformando assim a arquitetura constitucional da democracia americana numa
vasta distopia.
E, ao
fazer isso, o bastião da liberdade está sendo desmantelado – e todos, não
apenas os cidadãos americanos, devem estar cientes disso.
Fonte:
Brasil 247/Settimana News

Nenhum comentário:
Postar um comentário