Jeferson
Miola: Folha assumiu direção da reação patronal-escravocrata contra o fim da
jornada 6×1
Na
vanguarda do atraso, a Folha de São Paulo assumiu a direção da campanha
patronal-escravocrata contra o fim da jornada 6×1.
Nas
edições online de 21/2 e impressa de 22/2, o jornal divulgou reportagem sobre
estudo do economista-pesquisador da FGV Ibre Daniel Duque com um título que soa
como uma imputação de vadiagem ao povo trabalhador do Brasil: "Brasileiro
trabalha menos que a média mundial".
E já no
primeiro parágrafo da matéria faz uma ofensa nos moldes do general Mourão:
"Em comparação com o resto do mundo, o brasileiro não trabalha muito. Nem
pode ser considerado particularmente esforçado"!
Fica
evidente o objetivo da matéria — recheada de preconceitos e argumentos falsos —
de inventar um simulacro de "base científica" sob o manto de uma
instituição acadêmica conhecida, para defender a manutenção da jornada 6×1.
"O
brasileiro trabalha menos do que seria esperado. Para Duque, o que
provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural, uma
preferência por maior quantidade de lazer", afirma a Folha.
Ainda
que pareça piada, a reportagem cita sem fazer nenhuma ressalva que "Duque
descobriu que os trabalhadores brasileiros escolheram trabalhar menos antes de
ficarem ricos. No Brasil, segundo o levantamento, trabalha-se 1 hora e 12
minutos a menos por semana do que seria esperado dado o seu nível de
produtividade e o seu perfil demográfico".
Assim
como o pesquisador da aranha, que chega à conclusão disparatada de que a aranha
com todas as patas arrancadas não caminha porque não escuta o comando de voz do
pesquisador, Daniel Duque conclui que a culpa pela baixa renda per capita no
Brasil é dos próprios trabalhadores.
O
pesquisador da FGV compara a produtividade brasileira com a coreana, e conclui
que "os brasileiros homens trabalham meia hora a menos. Uma diferença de
quase 6 horas por semana. No caso das mulheres, a diferença é de 11 horas
semanais".
Samuel
Pessôa, colega de Duque e interlocutor dele sobre o estudo, diz que "se a
gente trabalha 25% a menos, mesmo que a produtividade por hora seja a mesma,
nosso PIB per capita vai ser 25% menor".
E ele
insinua, por isso, que o debate sobre a redução da jornada de trabalho seria
inapropriado. Afinal, "agora [com este 'estudo científico'], a gente está
vendo que, na média, a gente não trabalha tanto."!
Sim, é
isso mesmo que ele disse, que o povo que se lasca em jornadas extenuantes e se
sujeita a ficar mais de três horas em deslocamento sofrível não trabalha tanto!
Até o
momento de conclusão deste artigo, o estudo do pesquisador da FGV Ibre não
estava disponível no site da instituição, o que seria proveitoso para
diferenciar as opiniões do autor da matéria das conclusões do pesquisador, se é
que elas existem.
De todo
modo, a comparação da realidade do Brasil com a de outros 160 países, como fez
o estudo, até pode servir para um exercício de distração estatística.
No
entanto, um recorte deste tipo é inútil para se analisar a realidade do Brasil
enquanto uma das dez maiores economias do mundo que, a despeito da enorme
riqueza do país e do tamanho do PIB, ostenta indicadores sociais arcaicos, que
o situam como uma das nações mais desiguais do planeta, e na qual quase 80% das
famílias sobrevivem com até dois salários-mínimos.
A
duração média da jornada de trabalho nos países europeus da OCDE é de cerca de
36 horas semanais, com tendência à redução com os avanços científicos e
tecnológicos. No G20, "clube" das maiores economias integrado pelo
Brasil, os países economicamente mais poderosos têm jornadas que variam entre
34 e 40 horas semanais.
As
oligarquias dominantes, colonizadas e aspirantes a eternas satélites culturais
da Europa e dos Estados Unidos, deveriam se espelhar nas suas metrópoles e
aderir à redução da jornada de trabalho como uma medida modernizadora do
Brasil.
• Gleisi Hoffmann: Jornalões torturam
números para atacar fim do 6×1
A
ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR),
acusou Folha e Estadão de manipular estatísticas para atacar a redução da
jornada e carimbar o trabalhador como problema, quando o debate real é
dignidade, saúde e organização produtiva.
No
vídeo publicado nas redes, Gleisi disse que, após a Folha, o Estadão repetiu o
roteiro de “produtividade” para tentar enquadrar o fim do 6×1 como
irresponsabilidade econômica. Segundo ela, os jornais “torturam os números”
para fabricar manchete e escondem, no corpo do texto, os dados que relativizam
o alarmismo.
O
movimento é clássico. Primeiro vem a moralização, “brasileiro trabalha pouco”.
A Folha usou rankings internacionais para afirmar que o Brasil teria média de
40,1 horas semanais (2022 e 2023), abaixo da média mundial de 42,7 horas, e
puxou a corda do julgamento cultural sobre “preferência por lazer”.
Depois
vem a chantagem do medo, “menos horas quebram o país”. Só que, quando o debate
desce do palanque e entra na planilha séria, o tom muda. Um estudo do Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que reduzir a jornada predominante
de 44 para 40 horas elevaria o custo do trabalhador celetista em 7,84%, mas que
o impacto no custo operacional total das empresas tende a ser bem menor em
muitos setores, com estimativas próximas de 1% na indústria e no comércio, e
mais altas em segmentos como vigilância e limpeza, na casa de 6,5%.
É essa
parte que costuma virar rodapé, quando deveria ser manchete. Porque o dado
central desarma o terror econômico: o fim do 6×1 não é um meteoro, é uma
transição possível, com desenho, negociação e adaptação, como o próprio debate
técnico admite.
O
truque retórico também inverte a responsabilidade. Se a produtividade
brasileira patina, isso não se resolve com o trabalhador vivendo menos,
dormindo pior e adoecendo mais. Resolve com investimento, gestão, tecnologia,
crédito menos predatório e organização do trabalho, justamente o tipo de
modernização que o Brasil posterga enquanto naturaliza jornada exaustiva nos
serviços, no varejo e na logística.
A fala
de Gleisi também mira o subtexto. Trabalhador não é estatística para ser
torcida conforme a conveniência do lucro. É cidadão com direito a tempo,
estudo, família, cuidado, cultura, participação comunitária, vida além do
trabalho. Quando jornalão escolhe a lente do “esforço” para culpar quem está na
ponta, ele protege quem decide as regras do jogo.
A
opinião pública, aliás, não está comprando o pânico. Uma pesquisa da Nexus
aponta que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1 sem redução salarial.
Isso ajuda a explicar por que o assunto saiu do nicho e virou disputa nacional,
inclusive com leitura eleitoral.
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é cobrado por essa pauta porque ela
mexe no cotidiano de milhões, não em tese abstrata. E é por isso que o debate
precisa ser honesto: discutir produtividade sem discutir jornada desumana é
pedir eficiência para quem já opera no limite.
No
balanço, a velha mídia tenta empurrar a ideia de que o trabalhador é o gargalo
do Brasil, enquanto poupa o modelo econômico que lucra com cansaço,
rotatividade e salário pressionado. A resposta democrática é simples: menos
6×1, mais vida, mais organização, mais civilização.
• Trabalhamos muito ou produzimos pouco? O
que os dados revelam sobre o Brasil. Por Paulo Gala
O
gráfico “Annual working hours vs. GDP per capita (2023)” mostra a relação entre
horas médias trabalhadas por trabalhador ao ano (eixo vertical) e renda per
capita ajustada por poder de compra (eixo horizontal, em escala logarítmica).
Cada ponto representa um país. A regularidade empírica é clara: países mais
ricos tendem a trabalhar menos horas por ano. Alemanha e França, com renda per
capita acima de US$ 50 mil, trabalham entre 1,3 mil e 1,5 mil horas anuais. Já
países de renda média ou baixa concentram-se acima de 1,8 mil ou 2 mil horas.
O
Brasil aparece com cerca de 2 mil horas anuais e renda per capita próxima de
US$ 20 mil (PPP). À primeira vista, isso sugere que “o brasileiro trabalha
muito”. Mas o ponto crucial é relativo: para o nível de renda que temos, o
Brasil não está acima da curva esperada. Chile, México e Argentina exibem
padrões semelhantes. O Chile, por exemplo, tem renda próxima e trabalha algo
como 1,9 mil–2 mil horas; o México trabalha cerca de 1,6 mil–1,7 mil horas, com
renda parecida; a Argentina também gira em torno disso. Não estamos fora da
tendência estrutural observada internacionalmente.
O que o
gráfico realmente evidencia é outra questão: a correlação negativa entre
complexidade produtiva e renda e as horas trabalhadas. Economias sofisticadas
conseguem gerar muito valor por hora trabalhada. Por isso, podem sustentar
salários altos com jornadas menores. A Alemanha produz mais PIB per capita
trabalhando cerca de 600 a 700 horas a menos por ano do que o Brasil. A
diferença não está no esforço individual, mas na produtividade sistêmica —
tecnologia, capital físico, organização empresarial e estrutura produtiva.
Portanto,
afirmar que “o brasileiro trabalha muito e, por isso, é pobre” ou, ao
contrário, que “trabalha demais para o que produz” simplifica excessivamente o
problema. O trabalhador brasileiro trabalha aproximadamente o que se observa em
economias de renda média. O problema central não é a quantidade de horas, mas o
valor agregado por hora. Somos uma economia com menor densidade tecnológica,
menor intensidade de capital e menor complexidade industrial. Isso comprime a
produtividade média e, consequentemente, a renda.
Em
síntese, o gráfico não é uma crítica ao esforço do trabalhador brasileiro. Ele
é um retrato estrutural: países ricos trabalham menos porque são mais
produtivos; não são mais produtivos porque trabalham menos. A variável decisiva
é a sofisticação produtiva. Se quisermos reduzir jornadas mantendo ou elevando
salários, o caminho não passa por exigir mais horas, mas por transformar a
estrutura produtiva — aumentar a complexidade, a tecnologia e o aprendizado
cumulativo. É aí que a verdadeira diferença se constrói.
Fonte:
Brasil 247

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