quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026


 

Jeferson Miola: Folha assumiu direção da reação patronal-escravocrata contra o fim da jornada 6×1

Na vanguarda do atraso, a Folha de São Paulo assumiu a direção da campanha patronal-escravocrata contra o fim da jornada 6×1.

Nas edições online de 21/2 e impressa de 22/2, o jornal divulgou reportagem sobre estudo do economista-pesquisador da FGV Ibre Daniel Duque com um título que soa como uma imputação de vadiagem ao povo trabalhador do Brasil: "Brasileiro trabalha menos que a média mundial".

E já no primeiro parágrafo da matéria faz uma ofensa nos moldes do general Mourão: "Em comparação com o resto do mundo, o brasileiro não trabalha muito. Nem pode ser considerado particularmente esforçado"!

Fica evidente o objetivo da matéria — recheada de preconceitos e argumentos falsos — de inventar um simulacro de "base científica" sob o manto de uma instituição acadêmica conhecida, para defender a manutenção da jornada 6×1.

"O brasileiro trabalha menos do que seria esperado. Para Duque, o que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural, uma preferência por maior quantidade de lazer", afirma a Folha.

Ainda que pareça piada, a reportagem cita sem fazer nenhuma ressalva que "Duque descobriu que os trabalhadores brasileiros escolheram trabalhar menos antes de ficarem ricos. No Brasil, segundo o levantamento, trabalha-se 1 hora e 12 minutos a menos por semana do que seria esperado dado o seu nível de produtividade e o seu perfil demográfico".

Assim como o pesquisador da aranha, que chega à conclusão disparatada de que a aranha com todas as patas arrancadas não caminha porque não escuta o comando de voz do pesquisador, Daniel Duque conclui que a culpa pela baixa renda per capita no Brasil é dos próprios trabalhadores.

O pesquisador da FGV compara a produtividade brasileira com a coreana, e conclui que "os brasileiros homens trabalham meia hora a menos. Uma diferença de quase 6 horas por semana. No caso das mulheres, a diferença é de 11 horas semanais".

Samuel Pessôa, colega de Duque e interlocutor dele sobre o estudo, diz que "se a gente trabalha 25% a menos, mesmo que a produtividade por hora seja a mesma, nosso PIB per capita vai ser 25% menor".

E ele insinua, por isso, que o debate sobre a redução da jornada de trabalho seria inapropriado. Afinal, "agora [com este 'estudo científico'], a gente está vendo que, na média, a gente não trabalha tanto."!

Sim, é isso mesmo que ele disse, que o povo que se lasca em jornadas extenuantes e se sujeita a ficar mais de três horas em deslocamento sofrível não trabalha tanto!

Até o momento de conclusão deste artigo, o estudo do pesquisador da FGV Ibre não estava disponível no site da instituição, o que seria proveitoso para diferenciar as opiniões do autor da matéria das conclusões do pesquisador, se é que elas existem.

De todo modo, a comparação da realidade do Brasil com a de outros 160 países, como fez o estudo, até pode servir para um exercício de distração estatística.

No entanto, um recorte deste tipo é inútil para se analisar a realidade do Brasil enquanto uma das dez maiores economias do mundo que, a despeito da enorme riqueza do país e do tamanho do PIB, ostenta indicadores sociais arcaicos, que o situam como uma das nações mais desiguais do planeta, e na qual quase 80% das famílias sobrevivem com até dois salários-mínimos.

A duração média da jornada de trabalho nos países europeus da OCDE é de cerca de 36 horas semanais, com tendência à redução com os avanços científicos e tecnológicos. No G20, "clube" das maiores economias integrado pelo Brasil, os países economicamente mais poderosos têm jornadas que variam entre 34 e 40 horas semanais.

As oligarquias dominantes, colonizadas e aspirantes a eternas satélites culturais da Europa e dos Estados Unidos, deveriam se espelhar nas suas metrópoles e aderir à redução da jornada de trabalho como uma medida modernizadora do Brasil.

        Gleisi Hoffmann: Jornalões torturam números para atacar fim do 6×1

A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), acusou Folha e Estadão de manipular estatísticas para atacar a redução da jornada e carimbar o trabalhador como problema, quando o debate real é dignidade, saúde e organização produtiva.

No vídeo publicado nas redes, Gleisi disse que, após a Folha, o Estadão repetiu o roteiro de “produtividade” para tentar enquadrar o fim do 6×1 como irresponsabilidade econômica. Segundo ela, os jornais “torturam os números” para fabricar manchete e escondem, no corpo do texto, os dados que relativizam o alarmismo.

O movimento é clássico. Primeiro vem a moralização, “brasileiro trabalha pouco”. A Folha usou rankings internacionais para afirmar que o Brasil teria média de 40,1 horas semanais (2022 e 2023), abaixo da média mundial de 42,7 horas, e puxou a corda do julgamento cultural sobre “preferência por lazer”.

Depois vem a chantagem do medo, “menos horas quebram o país”. Só que, quando o debate desce do palanque e entra na planilha séria, o tom muda. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que reduzir a jornada predominante de 44 para 40 horas elevaria o custo do trabalhador celetista em 7,84%, mas que o impacto no custo operacional total das empresas tende a ser bem menor em muitos setores, com estimativas próximas de 1% na indústria e no comércio, e mais altas em segmentos como vigilância e limpeza, na casa de 6,5%.

É essa parte que costuma virar rodapé, quando deveria ser manchete. Porque o dado central desarma o terror econômico: o fim do 6×1 não é um meteoro, é uma transição possível, com desenho, negociação e adaptação, como o próprio debate técnico admite.

O truque retórico também inverte a responsabilidade. Se a produtividade brasileira patina, isso não se resolve com o trabalhador vivendo menos, dormindo pior e adoecendo mais. Resolve com investimento, gestão, tecnologia, crédito menos predatório e organização do trabalho, justamente o tipo de modernização que o Brasil posterga enquanto naturaliza jornada exaustiva nos serviços, no varejo e na logística.

A fala de Gleisi também mira o subtexto. Trabalhador não é estatística para ser torcida conforme a conveniência do lucro. É cidadão com direito a tempo, estudo, família, cuidado, cultura, participação comunitária, vida além do trabalho. Quando jornalão escolhe a lente do “esforço” para culpar quem está na ponta, ele protege quem decide as regras do jogo.

A opinião pública, aliás, não está comprando o pânico. Uma pesquisa da Nexus aponta que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1 sem redução salarial. Isso ajuda a explicar por que o assunto saiu do nicho e virou disputa nacional, inclusive com leitura eleitoral.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é cobrado por essa pauta porque ela mexe no cotidiano de milhões, não em tese abstrata. E é por isso que o debate precisa ser honesto: discutir produtividade sem discutir jornada desumana é pedir eficiência para quem já opera no limite.

No balanço, a velha mídia tenta empurrar a ideia de que o trabalhador é o gargalo do Brasil, enquanto poupa o modelo econômico que lucra com cansaço, rotatividade e salário pressionado. A resposta democrática é simples: menos 6×1, mais vida, mais organização, mais civilização.

        Trabalhamos muito ou produzimos pouco? O que os dados revelam sobre o Brasil. Por Paulo Gala

O gráfico “Annual working hours vs. GDP per capita (2023)” mostra a relação entre horas médias trabalhadas por trabalhador ao ano (eixo vertical) e renda per capita ajustada por poder de compra (eixo horizontal, em escala logarítmica). Cada ponto representa um país. A regularidade empírica é clara: países mais ricos tendem a trabalhar menos horas por ano. Alemanha e França, com renda per capita acima de US$ 50 mil, trabalham entre 1,3 mil e 1,5 mil horas anuais. Já países de renda média ou baixa concentram-se acima de 1,8 mil ou 2 mil horas.

O Brasil aparece com cerca de 2 mil horas anuais e renda per capita próxima de US$ 20 mil (PPP). À primeira vista, isso sugere que “o brasileiro trabalha muito”. Mas o ponto crucial é relativo: para o nível de renda que temos, o Brasil não está acima da curva esperada. Chile, México e Argentina exibem padrões semelhantes. O Chile, por exemplo, tem renda próxima e trabalha algo como 1,9 mil–2 mil horas; o México trabalha cerca de 1,6 mil–1,7 mil horas, com renda parecida; a Argentina também gira em torno disso. Não estamos fora da tendência estrutural observada internacionalmente.

O que o gráfico realmente evidencia é outra questão: a correlação negativa entre complexidade produtiva e renda e as horas trabalhadas. Economias sofisticadas conseguem gerar muito valor por hora trabalhada. Por isso, podem sustentar salários altos com jornadas menores. A Alemanha produz mais PIB per capita trabalhando cerca de 600 a 700 horas a menos por ano do que o Brasil. A diferença não está no esforço individual, mas na produtividade sistêmica — tecnologia, capital físico, organização empresarial e estrutura produtiva.

Portanto, afirmar que “o brasileiro trabalha muito e, por isso, é pobre” ou, ao contrário, que “trabalha demais para o que produz” simplifica excessivamente o problema. O trabalhador brasileiro trabalha aproximadamente o que se observa em economias de renda média. O problema central não é a quantidade de horas, mas o valor agregado por hora. Somos uma economia com menor densidade tecnológica, menor intensidade de capital e menor complexidade industrial. Isso comprime a produtividade média e, consequentemente, a renda.

Em síntese, o gráfico não é uma crítica ao esforço do trabalhador brasileiro. Ele é um retrato estrutural: países ricos trabalham menos porque são mais produtivos; não são mais produtivos porque trabalham menos. A variável decisiva é a sofisticação produtiva. Se quisermos reduzir jornadas mantendo ou elevando salários, o caminho não passa por exigir mais horas, mas por transformar a estrutura produtiva — aumentar a complexidade, a tecnologia e o aprendizado cumulativo. É aí que a verdadeira diferença se constrói.

 

Fonte: Brasil 247


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