quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Pedro Benedito Maciel Neto: Governança global em crise

Vivemos uma era paradoxal. Nunca estivemos tão interligados — economicamente, tecnologicamente, ambientalmente — e, ao mesmo tempo, tão expostos à fragmentação política. As crises contemporâneas não respeitam fronteiras: o clima se altera sem pedir visto, algoritmos atravessam oceanos em milissegundos, cadeias produtivas conectam continentes e conflitos regionais irradiam instabilidade global. No entanto, os mecanismos encarregados de administrar essa interdependência continuam ancorados em uma arquitetura concebida há oito décadas.

A chamada governança global — estruturada em instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) — nasceu no pós-Segunda Guerra Mundial, em um contexto geopolítico radicalmente distinto do atual. A ordem que emergiu de 1945 foi pensada para evitar novos conflitos globais e estabilizar economias devastadas. Funcionou, em grande medida. Mas o mundo mudou.

Hoje, o centro dinâmico da economia global deslocou-se. Países do Sul Global concentram população, recursos estratégicos e crescente protagonismo econômico. Ainda assim, permanecem sub-representados nas instâncias decisórias centrais. O Conselho de Segurança da ONU, símbolo máximo da governança multilateral, conserva a lógica de poder de um mundo bipolar que já não existe.

É nesse ponto que se inserem as preocupações recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao defender a reforma das instituições multilaterais, Lula não apenas vocaliza uma aspiração brasileira histórica; ele aponta para um problema estrutural de legitimidade. Instituições que não refletem a realidade geopolítica contemporânea tendem a perder autoridade moral e eficácia prática. E, sem legitimidade, o cumprimento das decisões internacionais torna-se precário.

A pertinência dessa preocupação é evidente. A governança global não se sustenta apenas em tratados ou formalidades jurídicas; ela depende de reconhecimento coletivo. Se os atores relevantes não se veem representados, a cooperação se enfraquece e o sistema se fragmenta.

Mas o Brasil não está sozinho nesse debate. A União Europeia defende reformas, embora sob uma perspectiva mais incremental. Seu compromisso é com a preservação do multilateralismo baseado em regras — o chamado rules-based order. A Europa busca atualizar o sistema sem desestabilizar sua espinha dorsal normativa, apostando em ajustes graduais que preservem os valores liberais que moldaram a ordem do pós-guerra.

Já os BRICS — grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, hoje ampliado — adotam uma postura mais estrutural. Defendem a revisão das cotas de poder no FMI e no Banco Mundial, questionam a centralidade do dólar e criam instituições paralelas, como o Novo Banco de Desenvolvimento. Trata-se de um movimento que combina reforma interna com construção de alternativas.

A China, por sua vez, articula discurso e estratégia. Sustenta a necessidade de maior representatividade do Sul Global, mas, simultaneamente, consolida redes próprias de influência econômica e infraestrutura global. Sua proposta de multipolaridade envolve redistribuição de poder, mas também expansão estratégica.

Há convergências claras entre essas posições: todos reconhecem que o modelo atual carece de atualização. Divergem, contudo, quanto à profundidade e à direção dessa reforma. Preservar com ajustes? Reequilibrar estruturalmente? Construir alternativas paralelas? A disputa não é meramente institucional; é política, econômica e civilizatória.

O ponto central é que a governança global não é um conceito abstrato. Ela define quem decide sobre guerras e sanções, quem financia a transição energética, quem regula a inteligência artificial, quem estabelece padrões comerciais e ambientais. Em outras palavras, ela molda o futuro.

Ignorar a crise de representatividade significa correr o risco da irrelevância institucional. Reformar não é demolir; é reconhecer que estabilidade duradoura exige adaptação histórica. Instituições internacionais só permanecem vivas quando conseguem absorver transformações profundas sem perder sua função coordenadora.

O desafio contemporâneo não é escolher entre multilateralismo e soberania, mas encontrar um equilíbrio que torne o multilateralismo mais inclusivo, mais legítimo e mais eficaz. O mundo multipolar não precisa ser sinônimo de mundo fragmentado. Pode ser, ao contrário, uma oportunidade para uma governança mais plural.

Se o século XX foi marcado pela construção da ordem internacional, o século XXI será definido por sua capacidade de reforma. A alternativa à atualização não é a estabilidade; é a erosão lenta, seguida de ruptura.

A governança global está diante de uma encruzilhada histórica: reformar para fortalecer ou resistir até fraturar. A escolha não será teórica — será política. E o tempo, como sabemos, raramente é neutro.

¨      Forma da dependência. Por João dos Reis Silva Júnior

A episteme da modernidade dependente constitui um esforço teórico destinado a compreender a produção do conhecimento nas sociedades marcadas por inserção subordinada no capitalismo mundial e por instabilidade estrutural de suas instituições. Seu ponto de partida não é a denúncia conjuntural nem a constatação econômica isolada. Ela nasce da percepção de que a dependência atravessa o próprio regime de temporalidade dessas formações sociais.

Produzir conhecimento, nesse contexto, não significa apenas investigar objetos específicos. Significa sustentar as condições históricas que tornam possível a própria investigação.

A tradição marxiana oferece o fundamento ontológico dessa formulação ao afirmar que o conhecimento não se desenvolve fora da prática social. A consciência não antecede a vida material; emerge das relações concretas de produção e reprodução da existência. As categorias teóricas não são universais abstratos, mas expressões históricas de formas sociais determinadas.

A partir desse princípio, a episteme da modernidade dependente reconhece que a ciência produzida na periferia não pode ser compreendida como simples aplicação de teorias elaboradas no centro. Ela é produzida sob condições históricas próprias, e essas condições moldam seu ritmo, sua institucionalidade e suas possibilidades de continuidade.

O princípio da totalidade reforça esse deslocamento metodológico. A universidade não pode ser analisada isoladamente do Estado, nem o Estado isoladamente da economia, nem a economia isoladamente do regime financeiro internacional. Todos esses momentos compõem uma mesma forma histórica. A dependência não é setor da realidade. É modo de organização da totalidade social.

Quando a universidade sofre instabilidade orçamentária, quando a política científica é interrompida, quando programas de formação são reformulados antes de amadurecer, não se trata de acidentes administrativos. Trata-se de manifestações coerentes de uma forma histórica cuja lógica precisa ser reconhecida.

A teoria marxista da dependência realizou deslocamento decisivo ao demonstrar que o subdesenvolvimento não é etapa anterior ao desenvolvimento, mas resultado estrutural da expansão do capitalismo mundial. A periferia não está fora do sistema; está integrada de maneira subordinada. Transferência de valor, superexploração do trabalho, vulnerabilidade externa e limitação tecnológica não constituem falhas transitórias, mas engrenagens de reprodução estrutural.

Esse diagnóstico altera profundamente a compreensão da modernização latino-americana. Crescimento econômico pode ocorrer. Industrialização pode avançar. Universidades podem expandir-se. E ainda assim a dependência permanecer.

A razão dualista explicita a forma interna dessa modernização seletiva. Excelência restrita e precariedade massiva coexistem como partes de um mesmo mecanismo. Centros de pesquisa sofisticados convivem com instituições fragilizadas. Programas de alto desempenho coexistem com precarização docente e instabilidade contratual. Não há incoerência nisso. Há coerência estrutural.

O deslocamento decisivo ocorre quando a financeirização global altera o regime temporal da modernidade. A crise deixa de ser interrupção eventual e torna-se método permanente de gestão. O capital fictício antecipa rendas futuras, transforma expectativas em ativos e reorganiza o presente sob lógica de curto prazo. O planejamento estatal encurta. Políticas públicas passam a ser avaliadas por ciclos cada vez menores. A continuidade institucional torna-se frágil.

Nesse contexto, a dependência manifesta-se como experiência histórica do tempo bloqueado. O futuro não desaparece, mas torna-se escasso. Ele precisa ser disputado, administrado e constantemente reconstruído.

A universidade constitui espaço privilegiado onde essa transformação se torna visível. A produção científica exige duração, transmissão intergeracional, memória institucional e financiamento estável. Quando essas condições se fragilizam, a prática científica é atravessada por reinícios permanentes. Projetos são reformulados antes de consolidar resultados. Linhas de pesquisa adaptam-se a editais sucessivos. Pesquisadores dedicam parte crescente de seu tempo à reconstrução das próprias condições que tornam possível sua investigação.

A dependência revela, então, sua dimensão epistemológica. Não se trata apenas de posição na divisão internacional do trabalho, mas de inserção desigual nos circuitos globais de validação do conhecimento. Revistas, indexadores, rankings e métricas organizam hierarquias duráveis entre centros de formulação conceitual e periferias de aplicação empírica. Surge a dupla alienação do pesquisador periférico: distanciado parcialmente de sua realidade social e integrado de forma incompleta ao circuito científico global.

A episteme da modernidade dependente propõe, portanto, deslocamento fundamental: antes de perguntar o que conhecemos, é preciso perguntar sob quais condições históricas se torna possível conhecer.

A universidade, nesse cenário, não é vítima lateral. É síntese da forma histórica que a produz.

Durante décadas afirmou-se que a universidade latino-americana era atrasada ou ineficiente. Diagnóstico confortável. Sempre é mais fácil acusar a superfície do que interrogar a estrutura. Mas a universidade não é desvio do desenvolvimento. É expressão institucional da modernidade dependente.

Ela exige duração. Precisa de gerações que se sobreponham, de memória institucional, de projetos que não sejam interrompidos a cada ciclo fiscal. Isso supõe sociedade capaz de sustentar continuidade. E a modernidade dependente raramente conseguiu garantir duração como regra. Garantiu episódios.

Cada plano nacional surge como refundação. Cada política científica é anunciada como reinício. Cada crise é tratada como exceção. Emergência permanente. Essa é a gramática.

O fundo público, nas sociedades dependentes, é constantemente tensionado sob a sombra da dívida. A dívida não é apenas instrumento financeiro; é dispositivo disciplinador. Ela reorganiza prioridades e subordina políticas sociais à rentabilidade do capital. A universidade entra na conta.

Quando o capital fictício transforma expectativa futura em ativo negociável, reorganiza-se a própria ideia de formação. O estudante deixa de ser apenas sujeito histórico em processo e torna-se portador de fluxo financeiro projetado. O diploma converte-se em promessa de renda antecipada.

Nesse contexto, a expansão do ensino superior não é automaticamente democratização substantiva. Pode ser ampliação da base de endividamento. Pode ser universalização do risco. Pode ser socialização da precariedade sob retórica de inclusão.

Excelência seletiva e precariedade massiva reaparecem como estrutura. Laboratórios de ponta convivem com contratos temporários. Rankings celebram desempenho enquanto bolsas intermitentes sustentam o cotidiano. A vitrine funciona. O entorno sustenta.

E, no entanto, é ali que ainda se produz teoria.

A universidade torna-se último lugar da crítica não por pureza moral, mas porque ainda preserva vestígios de duração em sociedades marcadas pela compressão temporal. A política tornou-se episódica. A economia tornou-se volátil. O debate público tornou-se instantâneo. O tempo fragmentou-se.

Restou à universidade sustentar continuidade relativa.

Mas essa permanência é frágil. A crítica não é protegida por abstração moral. Depende de financiamento, estabilidade institucional e condições materiais. Quando o fundo público é comprimido, a crítica não desaparece por censura direta. Desaparece por asfixia lenta.

A modernidade dependente não elimina a universidade. Ela a reorganiza sob regime de tensão permanente. Precisa dela como vitrine de excelência e como instrumento de legitimação internacional, mas não necessita garantir sua estabilidade plena. Precisa mantê-la funcionalmente instável.

A dependência não opera apenas na balança comercial. Opera na balança temporal. Sociedades centrais podem errar e recalibrar. Podem sustentar continuidade institucional por décadas. Nas periferias, cada ciclo começa como se fosse inaugural. Reinício permanente. Esse é o bloqueio do tempo.

Lucidez, aqui, não é pessimismo. É reconhecimento da coerência estrutural da forma histórica. A dualidade não é falha transitória. É engrenagem. A universidade não é exterior à dependência. É sua forma institucional privilegiada.

A episteme da modernidade dependente não oferece consolo. Oferece inteligibilidade. Ela afirma que a escassez de futuro não é metáfora dramática, mas categoria histórica. Afirma que a financeirização não é desvio conjuntural, mas reorganização estrutural da temporalidade social. Afirma que sem recuperar a dimensão longa do tempo histórico não haverá crítica capaz de ultrapassar a forma.

A universidade pública permanece hoje como um dos últimos espaços onde ainda é possível pensar a totalidade. Não porque esteja protegida, mas porque ainda conserva vestígios de duração. Se perder essa duração, perderá também sua função histórica. E nesse momento a modernidade dependente deixará de produzir teoria sobre si mesma e passará apenas a administrar sua própria compressão.

¨      Quando a ganância derruba impérios tecnológicos. Por Washington Araújo

O mundo empresarial não é território para amadores nem para vaidades infladas. É campo de visão longa, cálculo frio e inteligência estratégica permanente. Quem administra olhando apenas o trimestre seguinte já está atrasado. Quem negocia pensando exclusivamente na própria margem pode estar assinando o próprio obituário corporativo. O mercado não pune ingenuidade ética; pune erros estratégicos. E o caso da GoPro é uma aula crua sobre como se perder o trono ao confundir liderança com invulnerabilidade.

Em junho de 2014, a GoPro estreava na Nasdaq sob aplausos. Captou cerca de US$ 427 milhões em sua oferta pública inicial. Em poucos meses, seu valor de mercado se aproximava de US$ 10 bilhões. Vendia aproximadamente 6,6 milhões de câmeras por ano. Havia criado um mercado do zero. Mais do que uma câmera, era um ecossistema: acessórios, softwares de edição, comunidade global, presença maciça no YouTube e nas redes sociais.

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Enquanto o Vale do Silício celebrava, Shenzhen trabalhava. A DJI, fundada em 2006 por Frank Wang, consolidava sua hegemonia nos drones civis. Em 2015, estimativas da Skylogic Research indicavam que a empresa chinesa já detinha mais de 70% do mercado global de drones. O modelo Phantom popularizou a captura aérea — e carregava câmeras da própria GoPro.

A negociação que poderia ter redesenhado o setor fracassou por uma exigência considerada desproporcional: a empresa americana queria dois terços de todo o lucro do drone chinês acoplado com a GoPro. A resposta foi fulminante. Os executivos da DJI não precisaram sequer de uma hora para dizer não. Recusaram na mesma conversa. Ali morreu a possibilidade de uma fusão tecnológica que poderia ter consolidado uma hegemonia conjunta.

Benchmarking, nesse contexto, não é copiar o concorrente. É analisar sistematicamente suas melhores práticas, identificar vantagens estruturais e, sobretudo, decidir quando integrar competências para ampliar escala e utilidade. Produtos muitas vezes atingem seu auge quando se fundem a outros e criam novas categorias.

A DJI compreendeu isso. Investiu pesado na estabilização de imagem — gimbals de três eixos, integração total entre hardware e software, domínio de vibração. Internalizou a competência crítica. Depois, trouxe essa tecnologia para o solo, criando câmeras próprias com estabilização avançada.

A GoPro lançou o drone Karma em 2016. O resultado foi constrangedor. Poucas semanas após o lançamento, a empresa anunciou recall global por falhas que levavam à perda súbita de energia. Os drones, não raramente, simplesmente caíam do céu. A cobertura da imprensa internacional foi implacável. O impacto financeiro e e o altíssimo prejuízo para reputação da empresa foi severo.

O valor de mercado que orbitara US$ 10 bilhões despencou vertiginosamente. Em poucos meses, a empresa viu sua capitalização encolher para cerca de US$ 200 milhões. O mercado não perdoa decisões estratégicas equivocadas.

Casos semelhantes ecoam hoje. A Microsoft investe bilhões para integrar inteligência artificial da OpenAI ao seu ecossistema de produtos, fundindo software tradicional com modelos generativos. A Apple avança na integração entre hardware, serviços e inteligência embarcada para ampliar retenção e valor agregado. Em ambos os casos, a lógica é clara: unir competências para expandir utilidade e receita.

Empresário precisa enxergar quilômetros além do ponto onde está. Margem exagerada pode ser cegueira estratégica. Ganância não é apenas um desvio comportamental; é risco estrutural. Quando ultrapassa o limite do razoável, compromete rentabilidade, marca e futuro.

O pioneirismo não garante imunidade. Garante apenas a obrigação de continuar aprendendo antes que outro aprenda por você.

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda

 

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