quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O problema com o nacionalismo de esquerda

Nos últimos anos, após uma série de erros estratégicos e recuos ideológicos, um roteiro familiar ressurgiu na esquerda europeia. Para vencer novamente, dizem-nos, a esquerda deve adotar o que alguns apresentam como uma estratégia “populista”: resgatar a linguagem da nação e do patriotismo, abandonar a chamada “política identitária” e mobilizar um povo supostamente unido — particularmente aqueles grupos populares abandonados ou seduzidos pelos cantos de sereia da extrema-direita.

Essa linha de argumentação foi articulada com maior clareza por Raúl Rojas-Andrés, Samuele Mazzolini e Jacopo Custodi. Seus escritos, publicados em periódicos acadêmicos e aqui na Jacobin, defendem o que podemos chamar de populismo patriótico ou soberanista. Eles interpretam a ascensão e queda dramáticas da esquerda radical espanhola que emergiu em meados da década de 2010 como uma advertência sombria. Podemos e Más País, argumentam, não cumpriram sua promessa inicial de mobilizar as massas contra o establishment. Em sua visão, essa decadência decorreu de um elitismo cultural arraigado e do abandono do “nacional-popular” em favor do que eles afirmam ser agendas minoritárias e uma linguagem “woke” ao estilo estadunidense.

Discordamos. A experiência francesa, e a crescente divisão entre Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa (LFI), e antigos aliados como François Ruffin, conta uma história diferente. Abre caminho para outra leitura do populismo e do lugar da nação dentro dele. Em vez de reforçar a soberania, aponta para um horizonte mais promissor. Essa abordagem volta-se para a América Latina e para as experiências populistas ali vivenciadas, que entrelaçam a libertação nacional, o antirracismo e outras lutas subalternas.

<><> O caso espanhol

Em seus trabalhos recentes, nossos autores da esquerda patriótica argumentam que o chamado “momento populista” da década de 2010 surgiu porque os partidos de esquerda tradicionais abandonaram a classe trabalhadora, deixando um vácuo que movimentos “outsiders” como o Podemos e o Más País puderam preencher articulando um discurso de revolta de baixo para cima. No entanto, esses movimentos não corresponderam às expectativas. Os autores buscam explicar o porquê.

Baseando-se em Antonio Gramsci, Ernesto Laclau e numa compreensão do populismo em termos de “performance”, eles diagnosticam o fracasso da esquerda populista espanhola como resultado de um elitismo que a impediu de mobilizar seus “destinatários naturais”. Eles distinguem dois tipos de elitismo.

O elitismo formal refere-se a um estilo de comunicação intelectual e polido demais para cativar o público popular. Argumenta-se que, embora figuras da esquerda como Pablo Iglesias e Íñigo Errejón tivessem ambições populistas, permaneceram presos a uma linguagem excessivamente acadêmica que os fazia soar “inautênticos” e distantes da vida cotidiana. Tratava-se, em suas palavras, de um “populismo de laboratório”, muito distante dos populismos exuberantes da América Latina.

Mas isso representa apenas parte da história. O populismo não se resume a “representar o comum”, no sentido de uma “cultura popular” do dia a dia. Pesquisas recentes mostram que a identificação com o populismo reside na tensão entre o ordinário e o extraordinário: os líderes precisam parecer próximos do povo, ao mesmo tempo que incorporam uma forma de excepcionalidade. O populismo não se trata apenas de bancar o homem comum, mas de uma mistura de identificação com o público e uma figura de autoridade imponente. Nesse equilíbrio, o intelectualismo pode ser um recurso, e não uma falha. Ele pode oferecer uma maneira de conciliar contradições para forjar uma conexão que pareça autêntica e inspiradora.

O elitismo de conteúdo, por sua vez, diz respeito à crescente adesão a causas “minoritárias” ou “identitárias” vistas como incompatíveis com o populismo. Para Rojas-Andrés, Mazzolini e Custodi, essas demandas priorizam o particularismo em detrimento do universalismo, exigem alto capital cultural e criam um discurso fragmentado, incapaz de dialogar com a maioria social. Eles denominam essa mudança de “virada woke” da esquerda.

Partindo dessa crítica, argumentam que o afastamento da esquerda espanhola das referências patrióticas corroeu ainda mais sua capacidade de dialogar com amplos setores da sociedade. Inspirando-se em Gramsci, afirmam que qualquer movimento que aspire à universalidade deve adquirir um caráter nacional-popular. De forma um tanto condescendente, insistem que a classe trabalhadora tem dificuldade em imaginar um interesse popular que não seja em termos “nacionais”. Nessa perspectiva, o renascimento da esquerda entre o “povo comum” depende da reapropriação de símbolos patrióticos há muito monopolizados pela extrema direita. Isso implica enfatizar a soberania e um “povo” unificador em detrimento de lutas divisivas baseadas em cultura ou identidade.

Esse diagnóstico, porém, repercutiu muito além da Espanha. Ele ecoa nos debates na Itália, Grã-Bretanha, Alemanha e França. Sugere que, para reconstruir um bloco majoritário, a esquerda populista deve falar a linguagem da nacionalidade e abandonar os excessos “identitários” alienantes em relação a raça, gênero e imigração.

<><> O patriotismo de esquerda francês

No entanto, a experiência da França apresenta uma história mais complexa. A divisão entre o candidato presidencial recorrente Jean-Luc Mélenchon e seu crítico François Ruffin revela dois caminhos opostos — e mostra como a estratégia patriótica de esquerda muitas vezes erra o alvo.

Nos seus primeiros anos, a LFI de Mélenchon parecia seguir uma abordagem próxima à defendida por Rojas-Andrés, Mazzolini e Custodi. Adotava temas nacionais e apelos à soberania francesa, mantendo, ao mesmo tempo, uma postura cautelosa em relação às chamadas lutas das “minorias”.

O diagnóstico, no entanto, foi um tanto diferente. Enquanto esses autores argumentam que uma estratégia patriótica de esquerda poderia ajudar a atrair eleitores que se abstêm do pleito, a ambição inicial da LFI era reconquistar os eleitores da extrema-direita. Como Mélenchon costumava dizer, a extrema-direita havia conquistado grande parte da classe trabalhadora marginalizada durante o “momento populista”. A tarefa de seu movimento, portanto, era atrair os fâchés pas fachos — os eleitores “irritados, não fascistas” desiludidos com o establishment. Para alcançar esse objetivo, o estilo de Mélenchon fundia erudição com oratória inflamada e uma performance visceral de indignação que incomodava as elites.

“A divisão na esquerda francesa entre o candidato presidencial recorrente Jean-Luc Mélenchon e seu crítico François Ruffin mostra como a estratégia patriótica de esquerda muitas vezes erra o alvo.”

Foi essa linha de pensamento que inicialmente atraiu Ruffin, jornalista e cineasta do norte da França, região onde a desindustrialização e a desestruturação social alimentaram a ascensão da extrema-direita. Eleito para a Assembleia Nacional em 2017 por um distrito operário onde o Rassemblement National de Marine Le Pen se tornou dominante, Ruffin tem defendido consistentemente uma abordagem patriótica de esquerda.

Ele cultivou a imagem de um homem simples e comum e adotou um estilo retoricamente combativo, argumentando que a esquerda deveria resgatar os símbolos nacionais e falar com os “pequenos brancos” em uma linguagem que eles reconhecessem e entendessem. Embora frequentemente mostrasse o cotidiano de trabalhadores em situação de subalternidade, como mulheres negras no setor de limpeza, tendia a desconsiderar as lutas das “minorias” como algo secundário. Por exemplo, recusou-se a participar da marcha de 2019 contra a islamofobia, alegando que tinha “um jogo de futebol”, e criticou a esquerda populista espanhola por defender os direitos das pessoas trans, o que ele considerava divisivo.

Com o passar dos anos, porém, Ruffin foi se distanciando cada vez mais da LFI, à medida que Mélenchon e sua equipe reconheciam as limitações dessa abordagem. Os resultados decepcionantes das eleições europeias de 2019 revelaram o esgotamento da estratégia “fâché pas facho”. A tentativa de reconstruir um bloco majoritário por meio de apelos patrióticos não conseguiu alcançar aqueles a quem pretendia convencer.

<><> As limitações do patriotismo de esquerda

Para entender o porquê, precisamos analisar o que o populismo realmente mobiliza. O populismo não é apenas um estilo de liderança, mas uma forma de dar voz àqueles que se sentem invisíveis na política. Mas esses “invisíveis” não são um grupo homogêneo e não podem ser reduzidos àqueles que votam na extrema-direita. Rojas-Andrés, Mazzolini e Custodi não defendem a conquista de eleitores da extrema-direita. No entanto, eles partem do pressuposto de que os que se abstêm e os eleitores da extrema-direita compartilham hábitos culturais semelhantes, como os supostos “destinatários naturais” do populismo. Isso ignora o fato de que a invisibilidade tem muitas formas. Ela atravessa grupos marcados pela precariedade econômica, hierarquias raciais e de gênero e outros mecanismos de exclusão que não podem ser reduzidos à imagem do trabalhador descontente — implicitamente presumido como branco.

Ao errar o alvo, a abordagem patriótica de esquerda falha em três frentes. Primeiro, tem dificuldade em reconquistar eleitores da extrema-direita. Na prática, muitos eleitores brancos da classe trabalhadora, descontentes, permanecem reféns do nacionalismo xenófobo e poucos mudam de lado quando lhes é oferecida uma alternativa de esquerda. Segundo, em vez de contestar o senso comum cada vez mais moldado pela extrema-direita, acaba por reproduzi-lo e normalizá-lo. Terceiro, aliena grupos eleitorais essenciais que a esquerda precisa mobilizar.

Foi isso que Mélenchon acabou compreendendo. A reserva inexplorada de votos não residia no ressentimento dos brancos rurais. Estava, antes, entre os que se abstêm e, na França, mais especificamente, entre as populações marginalizadas das periferias urbanas, que habitualmente não votavam, onde a crescente precariedade se entrelaça com outras formas de exclusão. Ou seja, seu movimento precisava mobilizar jovens de minorias étnicas, LGBTQIA+, imigrantes e da classe trabalhadora. No contexto francês, como argumentavam os estrategistas de campanha da LFI, mesmo um ligeiro aumento na participação desses jovens poderia inclinar a balança para uma maioria de esquerda.

Sob a liderança de Mélenchon, e em contraste com a posição soberanista de Ruffin, a LFI começou a se reposicionar. Em setembro de 2020, Mélenchon introduziu um novo conceito em seu vocabulário político: crioulização. Inspirando-se no escritor martinicano Édouard Glissant, a crioulização rejeita a ideia de uma identidade pura e original, considerando, em vez disso, um sujeito popular como algo que emerge dos encontros entre culturas.

O próprio termo tem origem em sociedades coloniais onde línguas e tradições se misturavam sob condições de dominação, dando origem a novas formas híbridas de expressão e resistência. De uma perspectiva crioula, “o povo” não é uma entidade preexistente, mas está em constante construção, moldada por relações frequentemente conflituosas, marcadas pela migração e pelos legados coloniais, mas também animadas por histórias de entrelaçamento e criatividade. Como Mélenchon costuma repetir, a crioulização não é um projeto a ser realizado, mas uma realidade vivida, uma condição que já molda o cotidiano. Não é algo “feito em laboratório” nem “alta cultura”, mas carrega, ao contrário, um lado “sujo”, popular e indomável.

Custodi se referiu à crioulização como uma forma promissora de repensar a identidade nacional. No entanto, sua análise não chegou a reconhecer todas as suas implicações. Pois, se levada a sério, a crioulização implica abraçar precisamente as lutas das “minorias” que o populismo patriótico de esquerda tende a minimizar. Para o França Insubmissa, abraçar a crioulização significava abraçar explicitamente o antirracismo, o feminismo e os direitos LGBTQIA+. Ele reformulou a ideia de “o povo”, não como uma massa nacional estática, mas sim como produto de um processo contínuo de encontro cultural, conflito e reinvenção.

<><> Crioulização versus universalismo republicano

Anova abordagem do França Insubmissa causou impacto porque atinge um dos pilares da cultura política francesa: um universalismo republicano rígido, construído sobre a cidadania sem distinção de raça e o estrito laicismo. A República alega ser neutra, mas seu suposto universalismo sempre teve uma face. Na prática, ele se centra em um cristianismo branco, masculino, heterossexual e laico — uma norma dominante que define quem pertence e quem é invisibilizado.

Em nenhum lugar isso é mais evidente do que nos subúrbios que circundam as cidades francesas, conhecidos como banlieues. Oficialmente, não existem minorias na França, apenas cidadãos iguais. Na realidade, esses subúrbios da classe trabalhadora, lar de moradores racializados, são tratados como fronteiras internas da República: sujeitos a policiamento agressivo, estigmatizados e, em grande parte, sem voz.

A crioulização desafia diretamente essa ilusão. Ela afirma que o terreno supostamente “neutro” da República é, na verdade, codificado por padrões de raça, gênero e cultura. Contudo, não busca rejeitar o universalismo por completo. Afirmar que o racismo, o sexismo e a homofobia existem, e combatê-los, não ameaça a universalidade. Em vez disso, revela suas exclusões ocultas e fornece os meios para reconstruí-la em bases mais inclusivas. Nesse sentido, a abordagem do França Insubmissa busca reunir as demandas por igualdade social, justiça racial e direitos LGBTQIA+ em uma identidade mais ampla e plural do “povo”.

Assim como Rojas-Andrés, Mazzolini e Custodi, não negamos que “o povo” e “a nação” estejam frequentemente interligados. Mas um populismo crioulizado implica uma compreensão diferente do nacional-popular. De fato, a perspectiva crioula também implica o que poderíamos chamar de patriotismo crioulo, que marcou o populismo histórico na América Latina, no qual a libertação nacional não podia ser separada das lutas subalternas.

O uso do samba por Getúlio Vargas como símbolo nacional brasileiro e a exaltação da Virgem Negra; a acolhida de Juan Domingo Perón aos pobres racializados conhecidos como “cabecitas negras”; e os apelos de Evo Morales por uma soberania plurinacional expressaram o mesmo impulso crioulizante. Cada um deles buscou entrelaçar soberania popular, encontro cultural e luta subalterna em um senso plural de pertencimento. Esses projetos foram desiguais, contraditórios e imperfeitos. Contudo, já praticavam uma forma de universalismo crioulizado que a Europa ainda luta para conceber.

Essa também era a perspectiva de Laclau e Gramsci. Para Laclau, o populismo não se tratava de impor um discurso universal que apagasse as diferenças, mas de construir o que ele chamava de universalidade ilusória, que questiona constantemente seus próprios limites para incluir os desfavorecidos. Gramsci também pode ser lido sob essa ótica. Ele é o teórico do nacional-popular, mas também da subalternidade. Quando Gramsci fala sobre o nacional-popular, não se trata de um apelo à adaptação a um senso comum ou identidade nacional preexistente. Em vez disso, é uma estratégia para que grupos subalternos construam uma nova contra-hegemonia inclusiva.

<><> Implicações para a esquerda europeia

Ocaso francês oferece diversas lições para a esquerda europeia como um todo. Primeiro, os eleitores da extrema-direita não devem ser vistos como facilmente convertíveis. Embora o apoio dos trabalhadores certamente não seja um fato irreversível, imitar os discursos nacionalistas da extrema-direita não reconquista esses eleitores nem mobiliza os que se abstêm por se sentirem excluídos da política.

Em segundo lugar, a esquerda precisa aprender a abraçar a diferença como uma força estratégica, não como uma distração. As reivindicações queer, antirracistas e feministas não são acréscimos opcionais. São frentes cruciais para mobilizar os abstencionistas e para reconstruir uma identidade popular ampla, fundamentada na pluralidade.

Em terceiro lugar, um projeto de esquerda renovado deve fomentar o que se poderia chamar de universalismo plural de baixo para cima. Isso significa construir coalizões que unam lutas, traduzam reivindicações para além das divisões e permitam que um universal aberto emerja da base.

Em quarto lugar, a esquerda deve conceber uma nação crioula. As referências patrióticas não são atemporais nem puras. As nações são composições vivas, moldadas pelo encontro, pelo conflito e pela reinvenção. Abraçar sua dimensão crioula significa enxergar a nação como um experimento inacabado e contínuo.

Por fim, a esquerda jamais deve subestimar a inteligência das pessoas. Populismo não se resume a beber uma cerveja ou “falar mesmo”. Repetir superficialmente os códigos da classe trabalhadora pode rapidamente soar artificial se não for acompanhado de um projeto sólido para uma nova sociedade.

<><> Reconstruindo o povo, reimaginando a nação

Resumindo, a cisão entre Ruffin e Mélenchon cristalizou-se em torno da mudança de postura do France Insoumise, que se afastou do “patriotismo de esquerda”. Contudo, essa mudança não significou que o partido abandonou a ideia do nacional-popular. A verdadeira diferença reside na forma como cada um concebe a nação: a via soberanista a vê como fixa, homogênea e impessoal, enquanto a abordagem crioulizante imagina um povo-nação em movimento, em atrito, em criação.

Passar do soberanismo para a crioulização pode parecer ambicioso. No entanto, é necessário em dois sentidos. Um deles é ético: se a esquerda ceder ao senso comum excludente, o que restará dela? É também uma decisão estrategicamente sábia. Um populismo crioulizante pode alcançar aqueles que o imaginário soberanista deixa para trás: os que se abstêm, os precarizados, os racializados e a comunidade LGBTQIA+. Para a esquerda europeia de hoje, pode muito bem ser o único caminho a seguir.

 

Fonte: Por Théo Aiolfi e Thomas Zicman de Barros - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

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