O
problema com o nacionalismo de esquerda
Nos
últimos anos, após uma série de erros estratégicos e recuos ideológicos, um
roteiro familiar ressurgiu na esquerda europeia. Para vencer novamente,
dizem-nos, a esquerda deve adotar o que alguns apresentam como uma estratégia
“populista”: resgatar a linguagem da nação e do patriotismo, abandonar a
chamada “política identitária” e mobilizar um povo supostamente unido —
particularmente aqueles grupos populares abandonados ou seduzidos pelos cantos
de sereia da extrema-direita.
Essa
linha de argumentação foi articulada com maior clareza por Raúl Rojas-Andrés,
Samuele Mazzolini e Jacopo Custodi. Seus escritos, publicados em periódicos
acadêmicos e aqui na Jacobin, defendem o que
podemos chamar de populismo patriótico ou soberanista. Eles interpretam a
ascensão e queda dramáticas da esquerda radical espanhola que emergiu em meados
da década de 2010 como uma advertência sombria. Podemos e Más País, argumentam,
não cumpriram sua promessa inicial de mobilizar as massas contra o
establishment. Em sua visão, essa decadência decorreu de um elitismo cultural
arraigado e do abandono do “nacional-popular” em favor do que eles afirmam ser
agendas minoritárias e uma linguagem “woke” ao estilo estadunidense.
Discordamos.
A experiência francesa, e a crescente divisão entre Jean-Luc Mélenchon, da
França Insubmissa (LFI), e antigos aliados como François Ruffin, conta uma
história diferente. Abre caminho para outra leitura do populismo e do lugar da
nação dentro dele. Em vez de reforçar a soberania, aponta para um horizonte
mais promissor. Essa abordagem volta-se para a América Latina e para as
experiências populistas ali vivenciadas, que entrelaçam a libertação nacional,
o antirracismo e outras lutas subalternas.
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O caso espanhol
Em
seus trabalhos recentes, nossos autores da
esquerda patriótica argumentam que o chamado “momento populista” da década de
2010 surgiu porque os partidos de esquerda tradicionais abandonaram a classe
trabalhadora, deixando um vácuo que movimentos “outsiders” como o Podemos e o Más
País puderam preencher articulando um discurso de revolta de baixo para cima.
No entanto, esses movimentos não corresponderam às expectativas. Os autores
buscam explicar o porquê.
Baseando-se
em Antonio Gramsci, Ernesto Laclau e numa compreensão do populismo em termos de
“performance”, eles diagnosticam o fracasso da esquerda populista espanhola
como resultado de um elitismo que a impediu de mobilizar seus “destinatários
naturais”. Eles distinguem dois tipos de elitismo.
O
elitismo formal refere-se
a um estilo de comunicação intelectual e polido demais para cativar o público
popular. Argumenta-se que, embora figuras da esquerda como Pablo Iglesias e
Íñigo Errejón tivessem ambições populistas, permaneceram presos a uma linguagem
excessivamente acadêmica que os fazia soar “inautênticos” e distantes da vida
cotidiana. Tratava-se, em suas palavras, de um “populismo de laboratório”,
muito distante dos populismos exuberantes da América Latina.
Mas
isso representa apenas parte da história. O populismo não se resume a “representar o comum”, no sentido de uma
“cultura popular” do dia a dia. Pesquisas recentes mostram que a
identificação com o populismo reside na tensão entre o ordinário e o
extraordinário:
os líderes precisam parecer próximos do povo, ao mesmo tempo que incorporam uma
forma de excepcionalidade. O populismo não se trata apenas de bancar o homem
comum, mas de uma mistura de identificação com o público e uma figura de
autoridade imponente. Nesse equilíbrio, o intelectualismo pode ser um recurso,
e não uma falha. Ele pode oferecer uma maneira de conciliar contradições para
forjar uma conexão que pareça autêntica e inspiradora.
O
elitismo de conteúdo,
por sua vez, diz respeito à crescente adesão a causas “minoritárias” ou
“identitárias” vistas como incompatíveis com o populismo. Para Rojas-Andrés,
Mazzolini e Custodi, essas demandas priorizam o particularismo em detrimento do
universalismo, exigem alto capital cultural e criam um discurso fragmentado,
incapaz de dialogar com a maioria social. Eles denominam essa mudança de
“virada woke” da esquerda.
Partindo
dessa crítica, argumentam que o afastamento da esquerda espanhola das
referências patrióticas corroeu ainda mais sua capacidade de dialogar com
amplos setores da sociedade. Inspirando-se em Gramsci, afirmam que qualquer
movimento que aspire à universalidade deve adquirir um caráter
nacional-popular. De forma um tanto condescendente, insistem que a classe
trabalhadora tem dificuldade em imaginar um interesse popular que não seja em
termos “nacionais”. Nessa perspectiva, o renascimento da esquerda entre o “povo
comum” depende da reapropriação de símbolos patrióticos há muito monopolizados
pela extrema direita. Isso implica enfatizar a soberania e um “povo” unificador
em detrimento de lutas divisivas baseadas em cultura ou identidade.
Esse
diagnóstico, porém, repercutiu muito além da Espanha. Ele ecoa nos debates na
Itália, Grã-Bretanha, Alemanha e França. Sugere que, para reconstruir um bloco
majoritário, a esquerda populista deve falar a linguagem da nacionalidade e
abandonar os excessos “identitários” alienantes em relação a raça, gênero e
imigração.
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O patriotismo de esquerda francês
No
entanto, a experiência da França apresenta uma história mais
complexa.
A divisão entre o candidato presidencial recorrente Jean-Luc Mélenchon e seu
crítico François Ruffin revela dois caminhos opostos — e mostra como a
estratégia patriótica de esquerda muitas vezes erra o alvo.
Nos
seus primeiros anos, a LFI de Mélenchon parecia seguir uma abordagem próxima à
defendida por Rojas-Andrés, Mazzolini e Custodi. Adotava temas nacionais e
apelos à soberania francesa, mantendo, ao mesmo tempo, uma postura cautelosa em
relação às chamadas lutas das “minorias”.
O
diagnóstico, no entanto, foi um tanto diferente. Enquanto esses autores
argumentam que uma estratégia patriótica de esquerda poderia ajudar a atrair
eleitores que se abstêm do pleito, a ambição inicial da LFI era reconquistar os
eleitores da extrema-direita. Como Mélenchon costumava dizer, a extrema-direita
havia conquistado grande parte da classe trabalhadora marginalizada durante o
“momento populista”. A tarefa de seu movimento, portanto, era atrair os “fâchés pas fachos” — os eleitores
“irritados, não fascistas” desiludidos com o establishment. Para alcançar esse
objetivo, o estilo de Mélenchon fundia erudição com oratória inflamada e uma
performance visceral de indignação que incomodava as elites.
“A
divisão na esquerda francesa entre o candidato presidencial recorrente Jean-Luc
Mélenchon e seu crítico François Ruffin mostra como a estratégia patriótica de
esquerda muitas vezes erra o alvo.”
Foi
essa linha de pensamento que inicialmente atraiu Ruffin, jornalista e cineasta
do norte da França, região onde a desindustrialização e a desestruturação
social alimentaram a ascensão da extrema-direita. Eleito para a Assembleia
Nacional em 2017 por um distrito operário onde o Rassemblement National de
Marine Le Pen se tornou dominante, Ruffin tem defendido consistentemente uma
abordagem patriótica de esquerda.
Ele
cultivou a imagem de um homem simples e comum e adotou um estilo retoricamente
combativo, argumentando que a esquerda deveria resgatar os símbolos nacionais e
falar com os “pequenos brancos” em uma linguagem que eles
reconhecessem e entendessem. Embora frequentemente mostrasse o cotidiano de
trabalhadores em situação de subalternidade, como mulheres negras no setor de
limpeza, tendia a desconsiderar as lutas das “minorias” como algo secundário.
Por exemplo, recusou-se a participar da marcha de 2019 contra a islamofobia,
alegando que tinha “um jogo de futebol”, e criticou a esquerda populista
espanhola por defender os direitos das pessoas trans, o que ele considerava
divisivo.
Com o
passar dos anos, porém, Ruffin foi se distanciando cada vez mais da LFI, à
medida que Mélenchon e sua equipe reconheciam as limitações dessa abordagem. Os
resultados decepcionantes das eleições europeias de 2019 revelaram o
esgotamento da estratégia “fâché pas facho”. A tentativa de reconstruir
um bloco majoritário por meio de apelos patrióticos não conseguiu alcançar
aqueles a quem pretendia convencer.
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As limitações do patriotismo de esquerda
Para
entender o porquê, precisamos analisar o que o populismo realmente mobiliza. O
populismo não é apenas um estilo de liderança, mas uma forma de dar voz àqueles que
se sentem invisíveis na política. Mas esses “invisíveis” não são um grupo
homogêneo e não podem ser reduzidos àqueles que votam na extrema-direita.
Rojas-Andrés, Mazzolini e Custodi não defendem a conquista de eleitores da
extrema-direita. No entanto, eles partem do pressuposto de que os que se abstêm
e os eleitores da extrema-direita compartilham hábitos culturais semelhantes,
como os supostos “destinatários naturais” do populismo. Isso ignora o fato de
que a invisibilidade tem
muitas formas.
Ela atravessa grupos marcados pela precariedade econômica, hierarquias raciais
e de gênero e outros mecanismos de exclusão que não podem ser reduzidos à
imagem do trabalhador descontente — implicitamente presumido como branco.
Ao
errar o alvo, a abordagem patriótica de esquerda falha em três frentes.
Primeiro, tem dificuldade em reconquistar eleitores da extrema-direita. Na
prática, muitos eleitores brancos da classe trabalhadora, descontentes, permanecem reféns do
nacionalismo xenófobo e
poucos mudam de lado quando lhes é oferecida uma alternativa de esquerda.
Segundo, em vez de contestar o senso comum cada vez mais moldado pela
extrema-direita, acaba por reproduzi-lo e normalizá-lo. Terceiro, aliena
grupos eleitorais essenciais que a esquerda precisa mobilizar.
Foi
isso que Mélenchon acabou compreendendo. A reserva inexplorada de votos não
residia no ressentimento dos brancos rurais. Estava, antes, entre os que se
abstêm e, na França, mais especificamente, entre as populações
marginalizadas das periferias urbanas, que habitualmente não votavam, onde a
crescente precariedade se entrelaça com outras formas de exclusão. Ou seja, seu
movimento precisava mobilizar jovens de minorias étnicas, LGBTQIA+, imigrantes
e da classe trabalhadora. No contexto francês, como argumentavam os
estrategistas de campanha da LFI, mesmo um ligeiro aumento na participação
desses jovens poderia inclinar a balança para uma maioria de esquerda.
Sob a
liderança de Mélenchon, e em contraste com a posição soberanista de Ruffin, a
LFI começou a se reposicionar. Em setembro de 2020, Mélenchon introduziu um
novo conceito em seu vocabulário político: crioulização. Inspirando-se no
escritor martinicano Édouard Glissant, a crioulização rejeita a ideia de uma
identidade pura e original, considerando, em vez disso, um sujeito popular como
algo que emerge dos encontros entre culturas.
O
próprio termo tem origem em sociedades coloniais onde línguas e tradições se
misturavam sob condições de dominação, dando origem a novas formas híbridas de
expressão e resistência. De uma perspectiva crioula, “o povo” não é uma
entidade preexistente, mas está em constante construção, moldada por relações
frequentemente conflituosas, marcadas pela migração e pelos legados coloniais,
mas também animadas por histórias de entrelaçamento e criatividade. Como
Mélenchon costuma repetir, a crioulização não é um projeto a ser realizado, mas
uma realidade vivida, uma condição que já molda o cotidiano. Não é algo “feito
em laboratório” nem “alta cultura”, mas carrega, ao contrário, um lado “sujo”,
popular e indomável.
Custodi
se referiu à
crioulização como
uma forma promissora de repensar a identidade nacional. No entanto, sua análise
não chegou a reconhecer todas as suas implicações. Pois, se levada a sério, a
crioulização implica abraçar precisamente as lutas das “minorias” que o
populismo patriótico de esquerda tende a minimizar. Para o França Insubmissa,
abraçar a crioulização significava abraçar explicitamente o antirracismo, o
feminismo e os direitos LGBTQIA+. Ele reformulou a ideia de “o povo”, não como
uma massa nacional estática, mas sim como produto de um processo contínuo de
encontro cultural, conflito e reinvenção.
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Crioulização versus universalismo republicano
Anova
abordagem do França Insubmissa causou impacto porque atinge um dos pilares da
cultura política francesa: um universalismo republicano rígido, construído
sobre a cidadania sem distinção de raça e o estrito laicismo. A República alega
ser neutra, mas seu suposto universalismo sempre teve uma face. Na prática, ele
se centra em um cristianismo branco, masculino, heterossexual e laico —
uma norma dominante que define quem
pertence e quem é invisibilizado.
Em
nenhum lugar isso é mais evidente do que nos subúrbios que circundam as cidades
francesas, conhecidos como banlieues. Oficialmente, não existem
minorias na França, apenas cidadãos iguais. Na realidade, esses subúrbios da
classe trabalhadora, lar de moradores racializados, são tratados como
fronteiras internas da República: sujeitos a policiamento agressivo, estigmatizados
e, em grande parte, sem voz.
A
crioulização desafia diretamente essa ilusão. Ela afirma que o terreno
supostamente “neutro” da República é, na verdade, codificado por padrões de
raça, gênero e cultura. Contudo, não busca rejeitar o universalismo por
completo. Afirmar que o racismo, o sexismo e a homofobia existem, e
combatê-los, não ameaça a universalidade. Em vez disso, revela suas exclusões
ocultas e fornece os meios para reconstruí-la em bases mais inclusivas. Nesse
sentido, a abordagem do França Insubmissa busca reunir as demandas por igualdade
social, justiça racial e direitos LGBTQIA+ em uma identidade mais ampla e
plural do “povo”.
Assim
como Rojas-Andrés, Mazzolini e Custodi, não negamos que “o povo” e “a nação”
estejam frequentemente
interligados.
Mas um populismo crioulizado implica uma compreensão diferente do
nacional-popular. De fato, a perspectiva crioula também implica o que
poderíamos chamar de patriotismo crioulo, que marcou o populismo histórico na
América Latina, no qual a libertação nacional não podia ser separada das lutas
subalternas.
O uso
do samba por Getúlio Vargas como símbolo nacional brasileiro e a exaltação da
Virgem Negra; a acolhida de Juan Domingo Perón aos pobres racializados
conhecidos como “cabecitas negras”; e os apelos de Evo Morales por
uma soberania plurinacional expressaram o mesmo impulso crioulizante. Cada um
deles buscou entrelaçar soberania popular, encontro cultural e luta subalterna
em um senso plural de pertencimento. Esses projetos foram desiguais,
contraditórios e imperfeitos. Contudo, já praticavam uma forma de universalismo
crioulizado que a Europa ainda luta para conceber.
Essa
também era a perspectiva de Laclau e Gramsci. Para Laclau, o populismo não se
tratava de impor um discurso universal que apagasse as diferenças, mas de
construir o que ele chamava de universalidade
ilusória,
que questiona constantemente seus próprios limites para incluir os
desfavorecidos. Gramsci também pode ser lido sob essa ótica. Ele é o teórico do
nacional-popular, mas também da subalternidade. Quando Gramsci fala sobre o
nacional-popular, não se trata de um apelo à adaptação a um senso comum ou
identidade nacional preexistente. Em vez disso, é uma estratégia para que
grupos subalternos construam uma nova contra-hegemonia inclusiva.
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Implicações para a esquerda europeia
Ocaso
francês oferece diversas lições para a esquerda europeia como um todo.
Primeiro, os eleitores da extrema-direita não devem ser vistos como facilmente
convertíveis. Embora o apoio dos trabalhadores certamente não seja
um fato irreversível, imitar os discursos nacionalistas da extrema-direita não
reconquista esses eleitores nem mobiliza os que se abstêm por se sentirem
excluídos da política.
Em
segundo lugar, a esquerda precisa aprender a abraçar a diferença como uma força
estratégica, não como uma distração. As reivindicações queer,
antirracistas e feministas não são acréscimos opcionais. São frentes cruciais
para mobilizar os abstencionistas e para reconstruir uma identidade popular
ampla, fundamentada na pluralidade.
Em
terceiro lugar, um projeto de esquerda renovado deve fomentar o que se poderia
chamar de universalismo plural de baixo para cima. Isso significa construir
coalizões que unam lutas, traduzam reivindicações para além das divisões e
permitam que um universal aberto emerja da base.
Em
quarto lugar, a esquerda deve conceber uma nação crioula. As referências
patrióticas não são atemporais nem puras. As nações são composições vivas,
moldadas pelo encontro, pelo conflito e pela reinvenção. Abraçar sua dimensão
crioula significa enxergar a nação como um experimento inacabado e contínuo.
Por
fim, a esquerda jamais deve subestimar a inteligência das pessoas. Populismo
não se resume a beber uma cerveja ou “falar mesmo”. Repetir superficialmente os
códigos da classe trabalhadora pode rapidamente soar artificial se não for
acompanhado de um projeto sólido para uma nova sociedade.
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Reconstruindo o povo, reimaginando a nação
Resumindo,
a cisão entre Ruffin e Mélenchon cristalizou-se em torno da mudança de postura
do France Insoumise, que se afastou do “patriotismo de esquerda”. Contudo, essa
mudança não significou que o partido abandonou a ideia do nacional-popular. A
verdadeira diferença reside na forma como cada um concebe a nação: a via
soberanista a vê como fixa, homogênea e impessoal, enquanto a abordagem
crioulizante imagina um povo-nação em movimento, em atrito, em criação.
Passar
do soberanismo para a crioulização pode parecer ambicioso. No entanto, é
necessário em dois sentidos. Um deles é ético: se a esquerda ceder ao senso
comum excludente, o que restará dela? É também uma decisão estrategicamente
sábia. Um populismo crioulizante pode alcançar aqueles que o imaginário
soberanista deixa para trás: os que se abstêm, os precarizados, os racializados
e a comunidade LGBTQIA+. Para a esquerda europeia de hoje, pode muito bem ser o
único caminho a seguir.
Fonte:
Por Théo Aiolfi e Thomas Zicman de Barros - Tradução Pedro Silva,
para Jacobin Brasil

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