quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Como o front mudou em quatro anos de guerra na Ucrânia

guerra na Ucrânia entra no seu quinto ano com os drones dominando completamente a frente de batalha, que foi transformada numa "zona da morte" de até 20 quilômetros de extensão. Essa área entre os dois lados é conhecida como killzone (algo como "zona de abate"), pois ninguém pode sobreviver nela devido ao constante monitoramento por drones. Militares ucranianos relataram à DW como é passar várias semanas, ou mesmo meses, num abrigo improvisado na killzone. Não há como chegar até lá de carro nem ser retirado de lá em caso de ferimento, e o fornecimento de munição e mantimentos é intermitente.

<><> 2022: Caos inicial e "guerra clássica"

Quando os soldados falam do início da guerra, mencionam os muitos voluntários e as longas filas nos centros de recrutamento. Isso seria inimaginável hoje. "Só me permitiram entrar para o Exército em setembro de 2022", diz Oleksandr Kachaba, a quem todos chamam de "Plasma". O então comandante de 22 anos de um pelotão de artilharia antiaérea foi posteriormente transferido para comandar um pelotão de metralhadoras. O caos reinava na frente de batalha, recorda Stanislav Kocherha, vice-comandante de um batalhão de drones. No início de 2022, ele havia concluído o treinamento como soldado antiaéreo e foi transferido para a infantaria logo em seguida. "Havia muitas unidades, mas nenhuma comunicação", lembra. Mais tarde, a linha de frente se estabilizou. "Então começou uma verdadeira guerra terrestre, na qual infantaria, tanques, artilharia e força aérea eram os principais recursos. Uma guerra clássica, exatamente como as que lemos nos livros", diz o soldado.

Ainda em 2022, os lançadores de foguetes estrangeiros, incluindo o tipo Himars, tornaram-se o fator decisivo, segundo Vladyslav Urubkov, da Fundação Come Back Alive (Retorne vivo), que equipa o Exército ucraniano, desde veículos a lançadores de granadas, e organiza programas de treinamento. "O Himars teve um grande impacto no sucesso da contraofensiva em Kharkiv", enfatiza Urubkov, que não está mais no Exército.

<><> 2023: Os drones entram em cena

No ano seguinte, as forças armadas começaram a usar amplamente o quadricóptero chinês Mavic. Inicialmente para reconhecimento aéreo, mas logo também como um drone de ataque capaz de lançar explosivos. Mais tarde, drones kamikazes foram adicionados. Drones têm sido amplamente utilizados por ambos os lados desde o verão de 2023. "Tive a sorte de servir na infantaria antes que os drones se tornassem dominantes", diz Kachaba. Devido aos drones, hoje quase tudo o que Kachaba fazia naquela época não é mais possível no campo de batalha. Kachaba relata que, durante a contraofensiva, estava a apenas um quilômetro e meio das posições russas, armado com uma metralhadora de grosso calibre de fabricação americana. Ele também percorria longas distâncias em terreno aberto e cuidava da logística a partir de um veículo blindado. Transportava munição e suprimentos, fazia o rodízio de pessoal e evacuava tropas.

Naquela época, os feridos eram transportados por quatro quilômetros num veículo blindado até uma equipe de transporte que os aguardava. Essa equipe os transportava num veículo sem blindagem até um ponto de estabilização mais para o interior. Hoje, com a expansão da killzone, isso não é mais possível. "Naquela época, os feridos chegavam ao nosso hospital poucas horas depois de terem sido atingidos. Hoje leva dias", explica a paramédica conhecida como Kazhan, que faz parte de uma equipe de transporte de feridos.

<><> 2024: drones cada vez mais evoluídos

Em fevereiro de 2024, os russos iniciaram um rápido avanço na região de Donetsk. Foi nesse momento que a escassez de soldados na frente de batalha se tornou extremamente evidente, recorda Kachaba, que foi transferido para o quartel-general na época devido aos seus ferimentos. Simultaneamente eram usados drones cada vez mais evoluídos. As forças armadas ucranianas foram as primeiras a usar hexacópteros. Eles eram utilizados para atingir alvos e lançar minas a longas distâncias, bem como para fins logísticos. Em paralelo eram desenvolvidas capacidades de guerra eletrônica.

O drones kamikazes mudaram fundamentalmente a natureza da guerra, diz Urubkov. "O maior salto no desenvolvimento ocorreu no final de 2023 e início de 2024, quando as entregas de projéteis de artilharia ocidentais atrasaram", analisa. Durante os combates em torno de Avdiivka, naquele período, os ucranianos utilizaram drones FPV contra os russos, que possuíam artilharia superior. Os drones FPV são aeronaves pilotadas através de óculos especiais ou monitores que exibem as imagens capturadas pela câmera do drone. Kocherha, no entanto, diz que a opção pelos drones FPV não está tanto relacionada à escassez de munição, mas à eficiência e ao custo relativamente baixo dos drones FPV kamikazes. Ambos os lados passaram a usar drones de ataque em larga escala simultaneamente, diz. Como consequência, as unidades na linha de frente tiveram que se adaptar, cavando trincheiras, camuflando-as e protegendo-as dos drones. Armas de alta tecnologia tiveram que ser deslocadas para longe da linha de frente. Se, no início da guerra, um tanque era posicionado a três quilômetros da linha, a partir de 2024 essa distância precisa ser de 10 a 15 quilômetros. Já os soldados de infantaria precisam se esconder no subsolo, onde têm menos oportunidades de observação, e o inimigo passou a se infiltrar em pequenos grupos.

<><> 2025: Ofensiva em Kursk e robôs

O verão europeu de 2024 foi marcado pelo início da ofensiva de Kursk. As forças armadas ucranianas avançaram rapidamente em território da Rússia, mas não conseguiram manter suas posições. A operação terminou na primavera de 2025. Um dos motivos para o sucesso da contraofensiva russa foi o uso de drones de fibra óptica, resistentes a interferências eletrônicas. "Em determinado momento, os russos começaram a usar esses drones para atacar todos os veículos que se dirigiam a Kursk", conta Kazhan. "Dirigíamos à noite, e era muito assustador, porque sabíamos que não tínhamos como nos defender desses drones." Ao mesmo tempo, a paramédica observou que o número de feridos estava diminuindo. Ela diz que, em 2024, houve dias em que a região de Avdiivka recebeu até 200 soldados feridos, e esse número diminuiu significativamente depois disso. "O principal problema é a zona da morte, que em alguns lugares tem de 20 a 25 quilômetros de largura. Ela foi ampliada pelo uso da tecnologia. Agora é possível matar com maior precisão. Isso dificulta a retirada dos feridos graves", explica.

Hoje os médicos militares atendem os feridos em suas posições por meio de ligações de vídeo e enviam medicamentos por drones. Isso permite que soldados com amputações e hemorragias sobrevivam mesmo quando a retirada é impossível por semanas. Robôs terrestres também estão sendo usados para retirar os feridos. Eles também são usados para entregas na frente de batalha e estão equipados com metralhadoras. Uma novidade em 2025 foram as tentativas de "furar os olhos uns dos outros", ou seja, de abater drones de reconhecimento, relatam os militares. A Ucrânia está trabalhando ativamente em drones interceptadores para combater isso. Inicialmente essa era uma tarefa de voluntários, mas hoje a Ucrânia possui infraestrutura para isso, afirma Urubkov. "Essa é uma reação à produção em larga escala de drones de reconhecimento pelos russos."

<><> 2026: Expectativas

Do ponto de vista de Urubkov, o evento mais importante no início de 2026 será a desconexão dos militares russos dos terminais Starlink, que eles utilizavam para coordenação de unidades e controle de drones. "Nossa vantagem residia no uso do Starlink", afirma, ressaltando que os russos eventualmente encontraram uma maneira de também utilizar essa rede de satélites. "O que podemos fazer na linha de frente graças ao Starlink, os russos, com sorte, não conseguirão mais fazer", diz Urubkov. Ele avalia que a evolução tecnológica vai continuar. "Diante disso, o pessoal na linha de frente vai ficar cada vez mais vulnerável. A nossa posição estratégica é de defesa. Com poucas exceções, esta é uma guerra na qual a ofensiva estratégica está com o inimigo, que toma a iniciativa. Nosso trabalho consiste principalmente em se defender. Gostaria de mudar isso." Já Kachaba diz não acreditar que o desenvolvimento tecnológico vá determinar o rumo da guerra. "Acho que todas as mudanças tecnológicas significativas já ocorreram e que o rumo da guerra agora depende de quem ficará primeiro sem soldados capazes de lutar sob domínio total dos drones kamikazes", diz.

¨      Soldados russos relatam condições extremas no front da Ucrânia

Quatro soldados russos expuseram o horror e a brutalidade das condições do lado russo da linha de frente na guerra na Ucrânia, que completou quatro anos nesta terça (24/02). Dois deles disseram à BBC ter visto soldados serem executados no local por se recusarem a cumprir ordens. Um dos homens afirmou à equipe do documentário da BBC que presenciou a execução de um soldado por ordem de seu comandante, que foi declarado "Herói da Rússia" em 2024. "Eu vi isso – a apenas dois metros, três metros... clique, estalo, tiro", disse.

Outro soldado, de uma unidade diferente, disse ter visto pessoalmente seu comandante atirar contra quatro homens. "Eu os conhecia", disse ele sobre os militares executados. "Eu me lembro de um deles gritando 'Não atire, eu faço qualquer coisa!'." Um dos entrevistados relatou ainda ter visto 20 corpos de soldados mortos em uma vala após terem sido "zerados" pelos companheiros. O termo "zerar" é uma gíria militar russa para executar soldados da própria tropa.

No documentário The Zero Line: Inside Russia's War (A Linha Zero: Por Dentro da Guerra da Russa, em tradução livre), esses homens relatam detalhadamente como foram torturados por se recusarem a participar de ataques que descrevem como missões suicidas. Tropas russas chamam esses ataques de "meat storms" (tempestades de carne, em tradução livre), expressão usada para classificar ondas sucessivas de homens enviados para a linha da frente de forma incessante, na tentativa de desgastar as forças ucranianas. Essa é a primeira vez, segundo análise da BBC, que soldados russos da linha de frente relatam em frente às câmeras ter presenciado comandantes ordenando a execução de seus próprios homens.

Um dos entrevistados, cuja função era identificar e contabilizar soldados mortos, apresentou listas detalhadas que indicam ser o único sobrevivente de um grupo de 79 homens com os quais foi mobilizado. Ele disse que, por se recusar a ir para a linha de frente, foi torturado e urinaram em cima dele. Segundo seu relato, outros integrantes da unidade que também se recusaram e foram submetidos a choques elétricos, tiveram de passar fome antes de serem enviados desarmados às chamadas "meat storms".

Os quatro homens, que estão foragidos, relataram os horrores que testemunharam de um local não divulgado fora da Rússia. Quase toda a oposição pública à invasão da Ucrânia pelo presidente russo, Vladimir Putin, foi sufocada na Rússia. Moscou não divulga os números oficiais de baixas, mas o Ministério da Defesa do Reino Unido afirma que mais de 1,2 milhão de militares russos foram mortos ou feridos desde o início da invasão em larga escala, em 24 de fevereiro de 2022. O governo russo declarou que suas Forças Armadas "operam com a máxima contenção possível nas condições de um conflito de alta intensidade, tratando seu pessoal com o máximo cuidado. As informações sobre supostas violações e crimes são devidamente investigadas", acrescentou o governo russo. "Não somos capazes de verificar de forma independente a precisão ou a autenticidade das informações fornecidas."

Os relatos detalhados em primeira mão dos quatro homens também corroboram informações sobre a violação da lei e da ordem na linha de frente russa. Ilya, o soldado responsável por identificar e contabilizar os mortos, é um dos homens que afirmam ter visto companheiros serem mortos pelos comandantes.

Antes da guerra, o homem de 35 anos dava aulas para crianças com necessidades especiais e autismo em Kungur, nos Montes Urais. Em maio de 2024, segundo ele, policiais foram à casa de seus pais e informaram que ele havia sido convocado.

Ilya afirma ter sido mobilizado ao lado de outros 78 homens em um centro de recrutamento na cidade de Perm. "Quase todos estavam bêbados", diz. "Avante para a batalha! Vamos pegar o Zelensky e hastear nossa bandeira!", se recorda de ouvi-los gritar. "Eu os observava e pensava: 'Como é que eu vim parar aqui?' Eu estava com muito medo." Ao chegar à Ucrânia, Ilya conta que a maioria dos homens foi enviada diretamente para a linha da frente. Ele diz que não queria atirar nem matar ninguém e acabou num posto de comando.

As condições eram brutais. Segundo ele, presenciou quatro pessoas serem baleadas à queima-roupa por um comandante — uma em Panteleimonivka e três em Novoazovsk, ambas em Donetsk, território ocupado pelas forças russas, no leste da Ucrânia — porque haviam fugido da linha de frente e se recusado a retornar. "A coisa mais triste é que eu os conhecia. Eu me lembro de um deles gritando 'Não atire, eu faço qualquer coisa!', mas ele [o comandante] os zerou assim mesmo", afirmou Ilya.

Segundo os entrevistados, o "zeramento" costuma ser aplicado como punição por desobediência a ordens e funciona como forma de intimidação para outros que cogitam fazer o mesmo. "Seu destino dependia do comandante. O comandante estava no rádio: 'Zere este, zere aquele'", disse Ilya. As execuções de soldados que se recusavam a cumprir ordens não se limitavam à unidade de Ilya. "É claro que eles matam os próprios homens, isso é algo normal", diz Dima, de 34 anos.

Antes da guerra, ele vivia com a mulher e a filha e trabalhava em Moscou como técnico de conserto de lava-louças. Em outubro de 2022, ele relata estar caminhando entre um trabalho e outro quando foi abordado por um grupo de policiais. "Eles apenas olham meu passaporte, fazem algo no laptop deles e me dizem: 'Se você não for para o Exército, você vai para a prisão'", recorda, em inglês. Dima afirma que não queria matar ninguém e, apesar de não ter experiência médica, ingressou em uma unidade de paramédicos. Depois, foi transferido para uma brigada responsável por evacuar soldados feridos da linha de frente.

Foi ali, na 25ª Brigada, que Dima diz ter visto colegas serem executados por ordem de seu próprio comandante. "Eu vi isso – a apenas dois metros, três metros. São assassinatos, apenas clique, estalo, tiro. Não é drama, não é filme, é a vida real", afirmou. Seu comandante, Alexei Ksenofontov, recebeu a Estrela de Ouro, a mais alta condecoração estatal, e foi declarado "Herói da Rússia" em 2024. Mas Ksenofontov foi denunciado por familiares de homens que morreram em sua unidade. Em carta conjunta enviada em janeiro de 2025, eles apelaram diretamente a Putin para que investigasse denúncias de brutalidade na unidade comandada por ele. "Eles defenderam a nossa pátria com honra e orgulho!!! Mas, na realidade, acabaram na gangue desses comandantes, que receberam prêmios por dezenas de milhares de mortos e desaparecidos!", dizia o texto. "E eles continuam a exterminar nossos homens! Sentindo-se impunes!"

Dima chama Ksenofontov de "açougueiro". "Ele dá ordens demais para matar soldados, há sangue demais em suas mãos, demais." Dima também relata ter visto os corpos de 20 homens, que haviam chegado à sua base na noite anterior, jogados em uma vala após terem sido baleados. Ele afirma ter conversado com vários deles — todos ex-condenados — antes de vê-los serem levados na manhã seguinte. Como médico, Dima recebia rotineiramente os registros de mortos. Segundo ele, foi informado de que esses homens haviam sido executados por um comandante e tiveram seus cartões bancários confiscados. "Vinte rapazes foram trazidos para nós. Eles simplesmente pegaram os cartões bancários e os mataram", recordou. "Não é um problema dar baixa em alguém. Você apenas inventa um relatório." Dima afirma que lhe disseram que os cartões haviam sido tomados por comandantes.

O documentário da BBC também ouviu outro ex-soldado — um oficial sênior do Estado-Maior, que afirma ter servido por 17 anos nas Forças Armadas russas. O ex-oficial, cujo nome não divulgaremos, disse ter conversado com um homem que ajudou a matar um grupo de oficiais de alta patente. Segundo ele, o homem afirmou ter integrado um "esquadrão de liquidação enviado para eliminar quaisquer sobreviventes", lembrou o ex-oficial. "Eu nunca vi nada parecido em todos os meus anos de serviço."

Os quatro homens relataram, em detalhes explícitos, as temidas missões chamadas "meat storms" — parte da tática mais ampla de "moedor de carne" adotada pelas forças russas nos campos de batalha da Ucrânia. Essas "meat storm" são descritas como tão letais que se assemelham a missões suicidas. "Eu vi eles [os comandantes] enviarem onda após onda [de "meat storm"], jogando homens como carne contra os ucranianos, para que eles fiquem sem munição e drones e, então, outra onda consiga alcançar o objetivo", afirmou outro ex-soldado, Denis. Uma estimativa do Ministério da Defesa do Reino Unido aponta que, em 2025, entre 900 e 1.500 russos foram mortos ou feridos por dia na Ucrânia.

Dima explica como essas "meat storm" funcionam na prática. "Você envia três homens, depois mais três. Não deu certo, manda dez. Não deu certo com dez, manda 50", explicou. "Em algum momento você vai romper. Essa é a lógica dos militares. Tivemos 200 mortos em três dias. Na primeira 'meat storm' do nosso regimento, eles nos destruíram, nosso regimento foi aniquilado em apenas três dias", disse. Dima então mostra um vídeo, publicado nas redes sociais em outubro de 2023, no qual mães e esposas de homens mortos em sua unidade denunciam as grandes perdas. Uma mulher pode ser ouvida dizendo: "Nossos homens receberam ordem para avançar armados apenas com metralhadoras e pás." Outra diz: "Há perdas terríveis. Nossos homens estão sendo massacrados."

Segundo Ilya, aqueles que não são mortos por se recusarem a participar de uma ofensiva frequentemente enfrentam consequências graves e desumanizantes Ele mostra um vídeo no Telegram de homens de sua unidade em Panteleimonivka, em Donetsk. "Vamos alimentar os animais", dizia um homem, antes de levantar uma tampa e revelar três homens agachados em uma vala. "Ah, vocês estão com fome? Querem ser alimentados?", pergunta o homem que grava. Um dos homens ergue a cabeça e acena, estendendo as mãos, enquanto grãos secos são despejados na vala.

"Olhem como está comendo", dizia o autor da gravação, enquanto o homem na vala consome os grãos.

Alguns homens eram "deixados sem comida por dias" e submetidos a choques elétricos, contou Ilya, antes de serem enviados desarmados às "meat storms". Ele próprio foi torturado, segundo relata, após se recusar a participar de uma dessas "meat storms".  "Eles me amarraram a uma árvore, me bateram algumas vezes com um cassetete e colocaram uma arma na minha cabeça", contou. "Não sei como dizer, eles fizeram as necessidades em cima de mim. O comandante disse a todos: 'Nós temos um novo banheiro'. Fiquei amarrado por meio dia." Depois de ser desamarrado, Ilya tentou tirar a própria vida.

Denis, que afirma ter levado comida e água às escondidas para soldados mantidos em uma vala, mostra à equipe do documentário um vídeo de um suposto desertor recebendo jatos de urina. A BBC informa que não conseguiu verificar de forma independente a autenticidade das imagens. "É uma humilhação da honra e da dignidade de uma pessoa. No Exército russo, isso se tornou a norma", afirmou. "É ilegal, mas ninguém é punido por isso. Pelo contrário, os caras são até incentivados a fazê-lo." Denis, 27, também mostra uma fotografia que, segundo ele, foi tirada pouco depois de ter perdido os dois dentes da frente, arrancados por um de seus superiores, após ter dito que não queria procurar um drone desaparecido. "É terrível, eu simplesmente tive que continuar."

Dima eventualmente acabou sendo promovido, apesar de ter dito que não queria se tornar oficial. Ele mostra uma fotografia da cerimônia em que foi nomeado. Após a promoção, diz que se recusou a enviar seus homens para uma "meat storm". "Eu me recusei a fazer isso. Eu mesmo não teria de avançar, mas não podia simplesmente dar a ordem." Segundo ele, a decisão levou à sua prisão pela polícia militar e à transferência para Zaitsevo, que descreve como uma prisão improvisada. "[Lá] eles me torturaram com choques elétricos", recordou, acrescentando que a intensidade do primeiro choque o fez defecar. Ele afirma ter sido torturado todos os dias durante 72 dias. "Só tortura, todos os dias, com rosto de pedra. Sem qualquer emoção, é uma loucura", disse, referindo-se a seus torturadores.

Todos os homens ouvidos pela BBC estão agora fora da Rússia, mas carregam marcas psicológicas da linha de frente na Ucrânia. "Eu tenho sonhos. Eu vejo [uma] floresta cheia de cadáveres, pessoas esmagadas com os rostos desfigurados, bocas brancas sujas de sangue. O cheiro… não é um cheiro, é um sabor", contou Dima. "Eu sou um criminoso, e ninguém se importa — meu crime é apenas não querer matar", explicou.

"No Exército russo, há muitos caras que não precisam dessa guerra, que odeiam os comandantes, que odeiam Putin, que odeiam nosso sistema, e eles precisam nos quebrar." Ilya diz que ama o seu país, "mas não o que Putin fez com ele". "Eles podem quebrar qualquer um ali, não importa se você é forte ou não. Eles quase me quebraram, mas não completamente."

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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